As inúmeras madrugadas, espargidas no tic-tac das horas e sob o compasso das navegações virtuais, foram retirando o ser humano, de forma sub-reptícia, do convívio social. Esse novo modus vivendi, no mesmo passo, estruturou uma bolha virtual sobre o navegante internauta. Ressinta-se que as imagens geradas por essas posturas no espelho, antes de repercutirem segurança, resultados positivos, refletiram um narcisismo extroverso, que exalta o individualismo, colidente com a marcha existencial, permeada de diferenças sociais, que desafiam a articulação da solidariedade e tolerância na insuperável coexistência humana.
Reconhece-se por meio de lições filosóficas consolidadas que: “Ninguém é o centro do universo” e, nem tampouco, detém todos os conhecimentos, informações, para se sustentar numa perspectiva de autossuficiência. Isso se dá, acredita-se, para que a interação humana seja uma realidade, permutando informações ou produtos, e, enfim, suprindo aquilo que ainda não se possui. Neste âmbito coletivo de ensaios existenciais, não obstante, depara-se com a opção de vidas no insulamento, a exemplo dos monges e ermitões. Ressalte-se, porém, nesta vertente, que o mínimo de gente, esses necessitam para garantirem as suas sobrevivências.
A vox populi continua ofertando lições gratuitas e, por isso, talvez, continue com o rótulo de clichê. Dela, não obstante, se colhe o axioma que ensina: “a união faz a força e “duas cabeças continuam pensando melhor que apenas uma.” Constata-se, nessas máximas, de forma ratificadora, que as grandes conquistas, descobertas, foram frutos de esforços de muitos. Aliás, grassa refletir, que nenhum combatente, sozinho, venceu o conflito bélico.
Exsurge, neste âmbito do coletivo em face do individual, enquanto necessário, a adoção de cautela, amiúde para evitar interpretações equivocadas, julgamentos preconcebidos e, mormente, não equivocar-se o solitário com a solidão. Há pessoas que gostam, e até necessitam de solidão momentânea para seus estudos e reflexões, no mesmo passo em que, de outro lado, há pessoas solitárias que conduzem felizes suas existências, apesar da ausência de humanos.
Cabe ponderar, neste viés da individualidade, que a superestima de conhecimento, com o ego inflado de informações, a partir das relações virtuais, estruturou em muitos a bolha da exceção social. Esse fato, com pesar, se dá semelhantemente a uma fase obsessiva de fascinação, onde o ser se isola, acreditando saber mais que todos, ou o suficiente para não necessitar mais de vida social.
Consigne, que o paradigma atual da nova era entre os povos tem sido o pessoalismo, num monólogo virtual, orquestrado sob a quimera de que tudo que se necessita está logo à frente na rede virtual de comunicação, de fácil acesso, por meio apenas do clicar de algumas teclas. Ledo e torpe engano! Ressinta-se, que muitos ignorem que o humano é um ser eminentemente social, que necessita interagir, permutar informações, coexistir afetivamente com o sexo oposto ou não, inclusive para ampliar o sentido da sua efêmera existência.
O individualismo, filho bastardo da bolha virtual, impossibilita o verbo amar, que poeticamente cinge-se bitransitivo, ou se implementa numa via de mão dupla. Na bolha, não se duvida, defende-se a particularidade, sob o argumento de se garantir o quadrado inviolável de cada pessoa. Na bolha, também, induvidosamente, projeta-se uma redoma onde possa ser edificada uma zona de conforto. Saliente-se, porém, que a refrega existencial não se firma apenas num quadrado, nem tampouco no conforto, antes em desafios concomitantes de pessoas, para se alcançar progresso e evolução no contexto das adversidades mundanas.
A imagem da bolha virtual, sob a âncora da individualidade, que se reflete no espelho, não é o narciso da beleza que se propugna, antes projeta o ilusionista. Insta ponderar, aliás, que os sociólogos e humanistas admoestam que ninguém consegue viver só. Essa lógica encontra álibi entrementes na seara embrionária dos humanos, haja vista que todos nasceram por consequência biológica de, no mínimo, uma mulher e um homem. Espera-se, por isso, que a partir dessas constatações, alguns cidadãos deixem suas cápsulas virtuais, e em nome da dádiva existencial recebida de outros humanos, possam completar os seus ciclos de vida, deixando sementes por cá, para perpetuar a humanidade e, quem sabe, projetarem suas histórias.
No enfoque da bolha virtual, o pessoalismo conjuga com o egoísmo, orgulho, egocentrismo. O ser humano, felizmente, é inerente à partilha, compartilhamento, e somatório. Cabe refletir, enfim, que o campo limitado da bolha retira do ser a possibilidade de contemplação universal do ar puro e novo, do cheiro da terra lavada, do calor e frio das estações, e até dos sinais e aroma do sexo oposto, instigando ao afeto e acasalamento.
A bolha virtual existe no plano abstrato, e de tão abstrata que se revele, apenas uma singela pane de um sistema eletrônico ou de energia, a rompe. Rompido o casco ilusório, a retomada das relações pessoais constitui apenas uma questão de tempo, porque, antes de tudo, elas são indispensáveis, mais que isso, insuperáveis, naquilo que transcende o homem entre o seu contexto espiritual e vida hominal.
* Zilmar Wolney Aires Filho. É advogado e professor pós-graduado em Direito Processual Civil. Mestre em Direito Civil. Titular da Cadeira n. 16 da academia de letras de Dianópolis-TO. É membro da União Literária de Anápolis-ULA. Integra o quadro docente da Faculdade FIBRA em Anápolis-GO.