O Conto Alexandrino[1], escrito por Machado de Assis, inicia com um diálogo entre Stroibus e Pítias, onde se discute que todas as essências humanas encontram-se nos bichos, como, por exemplo, o rato faria o ladrão. No decorrer do conto, Pítias e Stroibus fazem estudos de anatomia com diversos ratos e experimentam da crueldade e da falta de sensibilidade para tomar anotações científicas.
Os dois anatomistas acreditam fielmente estarem beneficiando a sociedade de duas maneiras. A primeira, obviamente seria o enriquecimento científico que as experiências trariam, enquanto a segunda seria livrar a cidade dos ratos, que eram abundantes. O número de ratos sacrificados em prol do avanço da ciência era muito maior do que o necessário, mas os anatomistas não se importavam, visto que o sangue desses animais era estocado para outra experiência: provar que ao tomar seu sangue, consequentemente o homem se tornaria ladrão.
Diversas experiências foram realizadas ao logo do processo de beber o sangue e esperar a transformação em ladrão, até que finalmente Stroibus e Pítias começam a furtar incessantemente e a teoria das essências humanas serem encontradas nos bichos está provada. Porém, após diversos furtos são descobertos e presos.
Desejoso também por estudar a anatomia humana, Herófilo pede a Ptolomeu que entregue criminosos para fazerem parte da experiência, que se assemelhava com as já feitas por Stroibus e Pítias. Com isso, Herófilo convence Ptolomeu ao dizer que certamente esses criminosos pagariam com a vida, mas seria justo que prestassem antes algum serviço à verdade e à ciência.
Os experimentos com humanos começam e Stroibus e Pítias são cotados como cobaia. Os dois irão padecer do mesmo modo que faziam com os ratos, mas nenhum dos criminosos sabia o destino que os esperava. O ponto da experiência seria descobrir se o nervo do latrocínio residia na palma da mão ou na extremidade dos dedos e, dessa forma, rasgaram minuciosamente a palma da mão de Pítias, que gritava e gemia de dor assim como os ratos que usara em seu trabalho científico.
Para Herófilo, esses criminosos valiam muito mais do que ratos, visto que era melhor concluir do homem para o homem. O processo de tortura durou dias em prol do avanço da ciência e arrancaram-lhe os olhos, o estômago e tudo mais que pudesse ser estudado.
O conto acaba dizendo que os ratos celebravam com esses eventos aflitivos e convidavam cães, pavões e outros animais ameaçados de igual destino, porém, nenhum dos outros convidados aceitava. Melancolicamente disse o cachorro: “Século virá em que a mesma coisa nos aconteça”, simbolizando que os estudos científicos não iriam se encerrar nos homens, mas iriam avançar e fazer padecer todo tipo de animal. Ironicamente o conto se encerra com a resposta de um rato ao cachorro: “Mas até lá, riamos!”.
De maneira análoga, esse conto de Machado de Assis encontra apoio em nossa sociedade atual, assolada pela pandemia do Covid-19 e desejosa por qualquer avanço científico que permita a reabertura de comércios, indústrias e que faça a engrenagem da economia voltar a girar. Contudo, diante de um estado da saúde mundial tão crítico, as esperanças de uma rápida solução para esse vírus se perdem, ao passo que as consequências econômicas já são sentidas e a falta de investimentos estatais para a manutenção de empregos e para o enfrentamento da emergência de saúde pública agrava a presente situação.
Em paralelo a todo esse embate entre saúde e economia, os idosos ficam ainda mais vulneráveis, devido à taxa de mortalidade para esse grupo etário chegar a 14,8% e o Governo carecer de medidas protetivas a essas pessoas.
Além do recorrente preconceito contra esse grupo desprotegido pelo Estado em tempos de pandemia, a falta de amparo não é associada ao estado de calamidade atual, visto que as políticas públicas voltadas a esse percentual da população brasileira são ineficazes e não conseguem descontruir a barreira cultural de descaso e desatenção aos idosos.
O expressivo envelhecimento da população mundial e da população brasileira se deve ao avanço científico nas áreas de saúde, nas melhorias da condição de vida e na tecnologia empregada em auxílio a tratamentos medicinais que proporcionou um significativo aumento da expectativa de vida. Segundo o IBGE, em 2017 o número de idosos alcançou a marca de 30,2 milhões, nos quais 56% são mulheres.
Essa tendência mundial de envelhecimento não acompanhou a mudança de mentalidade do brasileiro, que é preconceituoso com a velhice, corroborando para as taxas de cirurgias estéticas brasileiras serem uma das mais altas do mundo. O especialista em envelhecimento Alexandre Kalache afirma que para o país “a pessoa [idosa] tem que ser frágil, curvada, se arrastando com a bengala na mão”. O pensamento coletivo do Brasil resiste em pensar na velhice saudável e cultiva a bondade com os idosos por piedade, não por respeito à pessoa.
Em linhas gerais, a garantia do direito de preferência em filas e nos atendimentos de saúde, do desconto em eventos culturais e da reserva de vagas de estacionamento em estabelecimentos não é efetiva no que diz respeito à perpetuação do estereótipo da velhice frágil e doente. A conquista do Estatuto do Idoso[2], que demorou quase uma década de tramitação no Congresso, reafirma a dignidade da pessoa humana idosa, porém, não alcança os patamares necessários a derrubada desse preconceito.
A situação de pandemia ocasionada pelo covid-19 mostra nitidamente a irrelevância da vida do idoso para os brasileiros, que se conformam com a necessidade dos médicos escolherem quem usará o leito médico, visto que a calamidade causada no SUS e nas redes de hospitais particulares não suporta o número de doentes. A sociedade atual julga necessária a reabertura dos comércios e indústrias em nome da economia e aceita a disseminação do coronavírus usando de apoio a baixa taxa de mortalidade entre crianças e adultos e, mais uma vez, negligenciando a vida do idoso.
O Brasil defende que medidas econômicas sejam tomadas em detrimento da vida de cerca de 30 milhões de pessoas idosas, por essas já terem vivido o suficiente. O reflexo do preconceito se escancara quando o jogo da vida pede para selecionar quem vale mais e todos os direitos instituídos pelo Estatuto do Idoso são desconsiderados frente a vidas adultas na disputa não só por leitos em hospitais, mas pelo risco necessário na imposição do isolamento vertical[3].
Com isso, o Conto Alexandrino, escrito em 1883 e reunido na coletânea Histórias sem datas, assume uma nova forma na sociedade brasileira atual, onde a experiência científica que beneficiará muitos não utilizará ratos, mas sim idosos. E, assim como o final do conto, a aceitação dessa situação de verdadeira mitigação do direito à vida da pessoa idosa acarretará na sucessiva restriçao de diversos outros direitos.
Então, assim como Pítias e Stroibus padeceram pelo mesmo motivo dos ratos usados em seus experimentos, nós retrocederemos e aniquilaremos todo o rol de direitos conquistados com lutas e revoluções. É sábio pensar como o cachorro do conto de Machado que disse: “Século virá em que a mesma coisa nos aconteça” e repudiar qualquer pensamento que se assemelhe ao rato: “Mas até lá, riamos!”. Portanto, proteger os direitos de grupos sociais que não nos incluem significa proteger futuramente direitos nossos.
[1] GLEDSON, John. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[2] Lei 10.741/2003 que regula os direitos das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.
[3] Isolamento que busca conter os grupos de risco e liberar os mais novos para fazer rodar a economia. Mencionado pelo presidente dos EUA Donald Trump e pelo então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.