O RACISMO NÃO TERÁ FIM
Lei e prisão não acabarão com o racismo.
Educação escolar não acabará com o racismo.
Propagandas na televisão não acabarão com o racismo.
A solução está dentro de casa. Enquanto nossas crianças forem educadas da forma que são, teremos , ainda, uma centena de gerações racistas.
A campanha deve ser intra-família, desde que os pequenos possam entender que somos todos iguais, e isso hoje começa muito mais cedo do que imaginamos.
As passeatas de nada adiantam. A contra-violência de nada adianta. Um policial não desmerece o negro por que é policial, mas porque em casa não foi educado para descaracterizar a famigerada supremacia branca.
Precisamos focar no ambiente familiar hoje, para que tenhamos resultados daqui a décadas , ainda.
Trabalhemos no inconsciente coletivo das famílias, da não repetição dentro de casa de ditados que foram popularizados com o intuito de reduzir á insignificância daqueles que não fazem parte de determinado universo.
Quantas vezes você já disse dentro de casa na presença de seus filhos:
- a coisa ta preta.
- você está denegrindo a minha imagem – a palavra denegrir tem no seu radical a palavra negro, em sentido pejorativo, depreciativo.
Muitas colocações de conteúdo racista, despertam nas nossas crianças algo que ainda não está plantado em seu íntimo inocente.
O pior acontece quando transferimos para a escola o dever de dar esta educação social. Tiramos a nossa responsabilidade familiar e entregamos nas mãos daqueles que não tem essa função de forma principal, mas de forma suplementar.
A criança, mesmo na idade mais tenra, já deve chegar a escola com alguns valores, parece absurdo pensar que uma criança de 2 anos já tenha valores, mas tem. E esses incipientes valores os pais devem conduzir.
Não adianta pensar que os filhos vão seguir o seu exemplo de não ser racista. É necessário lembrar que o mundo hoje gira em torno da informação, da tecnologia, desta máquina perversa chamada internet, e daí, muitas vezes, a mídia virtual torna-se retroalimentadora do racismo, atingindo aqueles que serão os pensadores do futuro.
As famílias estão despreparadas e muitas não estão interessadas em combater o racismo no seio de sua existência. Dá trabalho.
Jean-Jacques Rosseau estabelece que o homem é uma tábula rasa, ou seja, todo homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe.
Ainda assevera o filósofo francês que o homem não atinge o bem comum, ou seja, o bem de todos os seres humanos, em função da desigualdade, e esta surge por questões sociais, inclusive.
A atemporalidade desta premissa está escrita na sociedade. E no tocante ao racismo, surge, exatamente, na falha social, originada na estrutura sistêmica da família.
Séculos depois, o ativista americano Martin Luther King, símbolo da resistência negra em terras do tio Sam, declarou em seu discurso célebre “Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, com os seus racistas malignos, cujos lábios do governador atualmente pronunciam palavras de recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e moças negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e moças brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.”
Esse sonho ainda não se concretizou. O distanciamento entre negros e brancos é claro.
Tramita um vídeo pela internet em que duas crianças, uma branca e outra negra, correndo em direção uma a outra e finaliza com um grande abraço entre as duas.
Essa cena corrobora para a tese de Rousseau. Todo homem nasce bom. E aí se pergunta:
Onde nasce o racismo?
E a resposta é clara : dentro de casa
Nenhuma criança nasce com um gen chamado de racismo. O racismo nasce dentro de casa, no comportamento ou na omissão. A omissão da família é visível. Fazemos uma mea-culpa quando defendemos o discurso politicamente correto. Apenas oferece-se o que parece menos trabalhoso, quando respondem aos pequenos o que é racismo:
- É uma coisa horrível. Somos todos iguais.
E só.
É preciso fazer mais.
Precisamos parar de culpar o termômetro pela febre.
Vamos ilustrar essa analogia.
Quando uma criança está com febre a mãe imediatamente lhe ministra um antitérmico. Em pouco tempo a febre desaparece, e aí todos ficam tranqüilos. E a causa que originou a febre, também desapareceu?
A resposta é única. Não.
Trazendo o exemplo para os casos de racismo, podemos afirmar que as manifestações contra o racismo realizadas nos Estados unidos nos casos de morte de negros por policiais brancos, as manifestações em redes sociais por ativistas negros, as propagandas institucionais em redes de televisão contra o racismo, tudo isso, apesar de importante, não irá representar a redução dos casos de racismo no mundo. Tudo isso vai continuar, até que se entenda que o problema está na base de tudo : a família.
Todos os exemplos trazidos acima representam a febre, que é a mensagem do corpo de que algo está errado, mas é preciso combater a causa , não o sintoma.
Muitas vezes ouço falar que a polícia é racista, que a empresa que não aceita aquele candidato por que é negro é racista. Não. A polícia não é racista, nunca foi. Os policiais são racistas. São eles que aceitam a tese que “preto correndo é bandido e branco correndo é atleta”.
Essa concepção vem de policiais que cresceram ouvindo, até dentro de casa o discurso discriminador e facetário do racismo, sem , algumas vezes, nunca ter ouvido o contra-discusrso.
Ou será que a Academia de Polícia trabalha no inconsciente do policial, na forma de lavagem cerebral, que preto não presta?
Não acredito nesta possibilidade. O comportamento racista é criado gradativamente em cada pessoa, pois, ninguém é coagido a ser racista. O racismo é uma criação social e nasce e pode morrer dentro do ambiente social, na sua mais microestrutura: a família.
A imposição de pena, preceituada no Código Penal, e em leis esparsas, pouco resolve o problema do racismo no Brasil.
As manifestações contra o racismo pouco resolvem o problema do racismo no Brasil.
As propagandas em redes de comunicação pouco resolvem o problema do racismo no Brasil.
Não preconizo o silêncio, pois conferem a Luther King a frase “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.
Diante de uma sociedade estruturada em cima de discursos politicamente corretos, precisamos trazer à sociedade a necessidade de mostrar às nossas crianças como o racismo estabelece uma relação de desigualdade que não pode ser considerada como comum e normal.
É preciso atitudes mais direcionadas à solução do problema, e isso só vai ocorrer quando na base estrutural da sociedade, não deixarmos que nossas tábulas rasas sejam infectadas pelos discursos racistas sem capacidade de contra-argumentar, de defender a igualdade, de poder abraçar a todos, sem barreiras sociais ou raciais.
Quem sabe, com atitudes dentro de casa, por pessoas comprometidas com a igualdade, façamos a diferença e daqui a algumas décadas possamos colher os frutos de uma plantação efetivada nas rodas de conversa intra-familiares.
O caminho só restará aberto quando cada integrante de um grupo familiar se conscientizar que o seu papel é muito mais importante que o da mídia, da manifestação, da lei, pois só assim passaremos a não mais tentar curar a febre, mas curaremos a doença, ou, estaremos à mercê da célebre frase de Albert Einstein:
“ É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”.
Prof. Rômulo Campos.