Busca-se analisar a pauta de interesses que não pode suprimir, mesmo em um Estado laico, a liberdade religiosa das pessoas que queiram ter fé e alertar para os riscos de ataques em escala global que cristãos estão sofrendo dentro e fora da ordem jurídica

CRISTOFOBIA - ASPECTOS GEOPOLÍTICOS – INTERESSES GLOBAIS – DISCUSSSÃO DO ABUSO DO PODER RELIGIOSO EM MATÉRIA ELEITORAL E OUTROS PONTOS POLÊMICOS.

 

JÚLIO CÉSAR BALLERINI SILVA ADVOGADO, MAGISTRADO APOSENTADO E PROFESSOR COORDENADOR NACIONAL DO CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM DIREITO CIVIL E PROCESSO CIVIL DA ESCOLA SUPERIOR DE DIREITO – ESD PROORDEM CAMPINAS E DA PÓS GRADUAÇÃO EM DIREITO MÉDICO DA VIDA MARKETING.

 

 

Antes de mais nada, se alerta o leitor para o fato de que o que aqui se irá discutir não será a pauta do Projeto de Lei que pretende transformar a Cristofobia em crime hediondo, o que aqui se irá discutir são outras questões em torno do tema de que os religiosos, de modo em geral, sobretudo os cristãos estão passando a ser um grupo contra majoritário na sociedade atual.

 

O país atravessa um momento delicadíssimo sob a perspectiva das liberdades democráticas – fala-se em tolher a maioria em nome das minorias num ambiente completamente inamistoso entre correntes extremamente antagônicas – tudo pode, ou não, ao sabor das marés, ser tido como contra majoritário. E nesse momento, numa completa falta de timing a jurisprudência dos Tribunais Superiores fazendo ouvidos moucos ou, quiçá, por se preocupar demasiadamente com isso, resolve discutir e criar a figura do abuso do poder religioso em matéria eleitoral.

 

Ora, como tenho tido a oportunidade apontar em outros escritos, um fenômeno interessante tem ocorrido nos últimos anos, que tem sido a percepção do fato de que a guerra fria gera a sensação de não ter acabado com a queda do muro de Berlin. Houve um mero arrefecimento da tensão entre dois blocos (bipolaridade exacerbada entre a extinta URSS e os EUA), mas países continuaram comunistas, como a China, Cuba, Coréia do Norte e outros formando blocos que continuaram a atuar de modo mais ou menos ordenado, no cenário mundial e estendendo sua influência.

 

Não é difícil encontrar definições da expressão “geopolítica” associando-o à geografia como uma disciplina que associa fenômenos históricos e políticos da atualidade, interpretando a realidade global e envolve estudo de situações como guerras (hipotéticas ou reais), disputas ideológicas e territoriais, políticas, acordos diplomáticos, comércio internacional dentre outros temas afins (o país, bem como o próprio globo está passando por este momento de intenso clima de fla x flu – a nossa capacidade de produção de alimentos e nossos recursos hídricos minerais numa terra já por demais explorada são essenciais ao futuro de qualquer sistema político – imagine então para regimes ecocidas – a União Soviética – e isso não parece ser lembrado pelas Gretas Thumbergs da vida, destruiu o Mar de Aral com poluição e construção de barragens, diga-se de passagem, como apontado por Kevin Williamson – Ecocídio existe sim mas provocado, sobretudo, por regimes socialistas).

 

A diplomacia se preocupa com tal fenômeno eis que sempre se estudou a tal geopolítica ou conjunto de modos ou técnicas como um país tentaria influir na ordem mundial para se impor no cenário político ou econômico. Leandro Narloch, cuida do fenômeno no seu “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, ao aduzir que antes guerras eram tratadas por fome, na busca de territórios para plantio, mas que, com o transcorrer do tempo, os impactos do combate se refletia na economia de ambos os países de modo muito danoso (terra arrasada, indústrias destruídas, falta de mão de obra, pela morte do campesinato e, por vezes da mão de obra especializada etc).

 

Chegou-se, então, ao consenso no sentido de que guerras não se travariam mais de modo convencional onde a economia tivesse chegado ao estágio tal de desenvolvimento econômico, em que ela se tornasse antieconômica por si só (essa é a conhecida teoria dos arcos dourados – tais arcos dourados seriam os componentes da logomarca do McDonalds – ou seja, onde houver uma loja dessas, o desenvolvimento econômico que a sustenta, tornaria antieconômica uma guerra convencional).

 

Entra aí em jogo o soft power (jogos de influência, controle de mídia etc),  ou modo de influenciar os humores da população (nada de tão novo assim, eis que Maquiavel já aconselhava o príncipe a se imiscuir nos assuntos internos do povo dominado buscando preservar ao máximo os valores dos mesmos para que fossem assimilados ao novo país – sem maiores traumas).

 

Grupos de estrategistas, vide Foro de São Paulo e outros congêneres foram surgindo no mundo para desenvolver estratégias de refinamento deste soft power, como inserção de controle de postos chaves da mídia, das universidades, das artes (teorias de Gramsci) para influenciar o maior número de pessoas possível, o que agora vem sendo feito pelo polo antagônico também nas mídias sociais que se pretende controlar via censura prévia de fake news.

 

Importante é a dominação cultural pela mídia e pelas artes, para que não haja destruição dos meios de produção para que possam ser explorados pelos políticos que vierem a controla-los (ou mesmo saqueá-los como visto em operações da Polícia Federal que agora estão sendo desmanteladas pelo establishiment). Importante ainda, desarmar a população para que não haja resistência ao poder, bem como controlar polícia, exército e mídia.

 

Esse pano de fundo é importantíssimo por conta do fato de que, para impactar ainda mais esse controle, há que se controlar a mente das famílias e, de preferência, como a religião é uma grande influenciadora das famílias, começa-se a buscar, a todo custo, derruir a ideia de religião, mas não de qualquer religião, sobretudo as religiões que sirvam para manter unidas grupos conservadores que são os menos alinhados com o ideário do novo bloco de esquerda que se levanta (e não há que se confundir o povo chinês, por vezes vítima do próprio regime, com críticas que sejam tecidas ao partido governante).

 

Desde há muito, cristãos tem sido perseguidos no mundo todo (inspirei-me em Santo Expedito, trucidado por conta de sua conversão ao Cristianismo juntamente com sua a Legião, a Fulminata, mas que se converteu sem demora “hodie”- hoje e não “cras” – amanhã em latim, como comumente destacado em seus quadros e imagens) – no entanto, a despeito de toda a informação e propaganda de ódio no mundo atual, os atos de violência contra cristãos tem aumentado em elevada escala, no Oriente Médio, na África Subsaariana e no Extremo Oriente.

 

Como aponta Daniel Chagas Torres, em A Cristofobia no Século XXI, toda essa violência transformou a opção religiosa pela fé cristã na escolha de consciência mais mortal no mundo da atualidade - 75% de toda a perseguição religiosa no planeta atinge cristãos.

 

Aponta o autor, citando estatística do sociólogo Massimo Introvigne de que há, por ano, em média, 100.000 assassinatos de cristãos exclusivamente por não abandonarem sua fé em Jesus (em média, um cristão é assassinado a cada cinco minutos por sua fé – tudo sem contar outros atos de violência como torturas, preconceito, desrespeito à liberdade religiosa e de culto etc).

 

Napoleão, apontado no passado como Anticristo, pela matança de milhões de pessoas em suas Guerras na virada dos séculos XVIII e XIX, foi um dos primeiros globalistas a querer um único governo europeu (no caso, queria a França e seus então satélites no comando de tudo em nome de um racionalismo afastado da ideia de Deus) afastando-se a religião de qualquer possibilidade de influência política – o historiador e ensaísta Bernard Cornwell (em seu livro Waterloo) aponta o grande número de templos e objetos religiosos destruídos pelo Exército francês (não só pelos saques de objetos valiosos o que seria comum numa guerra, mas o fato impressionante foi o puro vandalismo com coisas sacras sem valor econômico algum).

 

Lênin pregava a destruição da ideia de família (sua Ministra de Educação queria que as crianças fossem separadas dos pais e criadas pelo Estado a quem de fato pertenceriam – como aponta o mesmo Leandro Narloch apontado acima) e de religião. Observe-se que hoje se pretende impor uma agenda que proíbe aos pais qualquer crítica ao que as escolas estejam ensinando a seus filhos – tudo é fóbico tudo é contra majoritário, antiquado, retrógrado, contrário aos altos escopos da globalização e do Gramscismo.

 

Agora o globalismo quer, em nome do Estado laico e, a despeito da ideia de liberdade de crença assegurada na Constituição (ateus não são menos importantes mas igualmente não mais importantes que pessoas com crenças religiosas – todos são iguais perante a lei e, minoria por minoria, os religiosos também tem sofrido muitos ataques a ponto de também poderem se arvorar em contra majoritários num mundo que se lhes desponta como hostil) querem retirar símbolos religiosos de prédios públicos (às vezes são objetos históricos, de valor cultural – não há ofensa a quem quer que seja), Tribunais lançam decisões não respeitando direitos de adventistas de obterem prestações alternativas para preservarem o sábado, e querer, a todo custo, taxar templos, pautas libertárias querem impor o aborto a todo custo a despeito da sensibilidade e complexidade da matéria a luz da religião e do que pensa uma maioria de grupos religiosos em torno do tema e por aí vai.

 

E que fique bem clara a ideia de que se há abusos em igrejas e estas cometerem abusos, que sejam sim, investigadas, mas se forem associações legítimas não há porque as mesmas paguem impostos enquanto os jornais continuam a não pagar (o artigo 150 CF concede isenção a ambos – a mídia ataca a isenção aos templos mas curiosamente nada fala sobre a isenção a jornais tão interessantes ao Gramscismo).

 

Para garantir simultaneamente a liberdade de todos e a liberdade de cada um, a previsão de um Estado laico em nossa ordem constitucional distingue e separa o domínio público, onde se exerce a cidadania, e o domínio privado, onde se exercem as liberdades individuais (de pensamento, de consciência, de convicção) e onde coexistem as diferenças (biológicas, sociais, culturais).

 

Pertencendo a todos, o espaço público é indivisível: nenhum cidadão ou grupo de cidadãos deve impor as suas convicções aos outros. Simetricamente, o Estado laico proíbe-se de intervir nas formas de organização coletivas (partidos, igrejas, associações etc.) às quais qualquer cidadão pode aderir e que relevam do direito privado. Portanto, não parece adequado taxar templos e não taxar jornais, bem como não parece adequado a primazia de valores ateus que tem liberdade de consciência num estado laico preponderando sobre os valores das pessoas que tenham senso de religiosidade (e que queiram se “religarem” com o divino).

 

Não se esqueça de que a Constituição Federal, no artigo 5º, VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.

 

Mas na guerra cultural e no soft power a mídia tradicional parece congregar maior número de intelectuais do fla do que flu. Por isso todos silenciam sobre a isenção de impostos a jornais e alardeiam incessantemente no sentido de taxação de Igrejas (veja-se, aliás, para ficar em um único exemplo, o alarde que a mídia tradicional faz quando um religioso, dentre milhões, reste envolvido em algum escândalo, silenciando por completo quando isso se dá com um jornalista).

 

Não bastasse tudo isso, não obstante se estimule a participação política de todo e qualquer grupo minoritário e não obstante os cristãos sejam perseguidos de modo atroz surge agora a pretensão de se tentar dissuadir lideranças religiosas de concorrerem em eleições sob a figura de um suposto abuso de poder religioso – não há previsão legal direta sobre isso, mas uma licença poética exacerbada de grupos de juristas que querem, agora, enfraquecer a acesso de grupos religiosos ao poder, ou tentar tornar ilícitas candidaturas ou eleições de quem seja apoiada por um líder religioso. A discussão é muito mais profunda do que possa parecer num primeiro momento.

 

Lúcidas e ainda pertinentes as ponderações a respeito das Catilenárias – Quosque tandem abutere patientia nostra – em tradução literal – isso representa mais ou menos a ideia no sentido de que, até quando aguentará a nossa paciência.

 

Não menos importante, Daniel Chagas Torres ainda aponta no sentido de que veículos como Newsweek, The Economist, Comentary, The Pew Research Center, a Open Doors e o Vaticano confirmam a afirmação de que o cristianismo é a religião mais perseguida do mundo, apontando movimentos dentro do Ocidente que desenvolvem uma persistente tentativa de eliminação do patrimônio cristão por intermédio de uma equivocada concepção da laicidade do Estado, do relativismo moral e religioso, implementado pela Nova Ordem Mundial e da proliferação do marxismo cultural.

 

Obviamente que, o que aqui se expõe, não é uma defesa de projetos de criminalização da Cristofobia como tramita na Câmara dos Deputados, não se pretende estigmatizar qualquer grupo mas apenas chamar a atenção para um fenômeno que, como cristão, tem tirado minha tranquilidade e que leva à necessidade de união e não de dispersão de todos os religiosos do país (cristãos ou não), pois não se sabe quem será o próximo a ser atacado nessa sanha pela desmistificação das coisas sagradas e dos valores tradicionais em nome de projetos de poder totalitários.

 

Não se quer impedir piadas de mau gosto ou programas humorísticos (não obstante se um religioso fizesse um programa ironizando o modo de vida de alguns deles seria tudo fóbico porque o Gramcismo cultural passa pela tolerância zero em matéria de se processar a tudo e a todos – técnica de guerrilha ideológica – transformar o outro em réu para obter uma certa primazia purista – o que não parece representar muito num ambiente de ideologização do Poder Judiciário e do Ministério Público – há anos venho alertando para o fato de que se deva deixar de permitir exames orais para tais cargos – por esse viés se estabelece a ideologia de um candidato) – a preocupação não parece ser com o “mimimi” geral, se me permitem uma linguagem coloquial, mas com uma discussão muito mais ampla que seria a da própria supressão da religião para a tomada de poder por grupos que vem nela um obstáculo aos seus propósitos, seja impedindo-se membros de comunidades religiosas de se candidatarem, seja pela tributação de templos, seja por outros mecanismos que irão paulatinamente desacreditando a fé religiosa em nome de um projeto de poder.

 

Parafraseando os inimigos do Cristianismo – Cristãos do Mundo uní-vos. A luta não será fácil.


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