A ciência rotula cores à vida, às pessoas, aos sabores e dissabores. De onde surgiu essa denominação? Nem muitos detém tal conhecimento, igual acontece com o preconceito o qual delimita o comportamento dos seres humanos. Ambos são construções sociais. Será que somos humanos mesmo ou parafraseando Thomas Hobbes somos lobo do próprio homem?
Dandara nasceu Antônio Cleilson Ferreira Vasconcelos, nasceu azul, nasceu a cor atribuida ao sexo masculino. Sua vida foi direcionada a ser o tipo de pessoa que a sociedade ainda não está preparada para receber e nem aceitar. Dandara sentiu o amargo de sua identidade de gênero e estilo de vida. Viveu à margem da sociedade, experienciou a cor cinza, cheia de dúvidas, falta de compreensão, empatia e oportunidades. Descobriu-se num gênero diverso daquele atribuído a ela. Conheceu o mundo rosa e lutou contra um distinto em que pessoas não semelhantes e se unem num propósito igual: criticar o diferente.
Ser diferente num ambiente contrário às suas crenças é conviver com medo, é viver na penumbra, na escuridão, na cor atribuída de preto. É esconder seus sonhos e desejos. Abster-se do seu eu para ser o que querem. Dandara não se escondeu e assim foi incompreendida e violentada de várias formas. Algumas pessoas, idealistas, simpatizantes levantaram a bandeira da paz, escolheram a arma branca, outra cor atribuída e assumida por Dandara que só queria viver do seu jeito, para lutarem pelos direitos das minorias. Porém, falta muito para a verdadeira compreensão do Ser rotulado diferente, talvez porque a cor violeta não transformou o home nem humano. Muitos projetos de leis que não saíram do papel batem à porta do Poder Legislativo e buscam respeito e segurança aos fragilizados, procuram garantir um mínimo de intervenção estatal e punibilidade num mundo regido por leis onde só há crime se lei anterior o previna.
Infelizmente, muitos morrem vítimas de preconceitos, ou seja, têm suas vidas subtraídas por aqueles que preferem assumir um sentimento hostil, em consequência da generalização apressada e errônea de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; em vez de se vestirem de amarelo e conhecerem mais sobre as necessidades individuais e até ajudar ao contrário de criticar.
Dandara foi mais uma vítima que conheceu o vermelho da dor, da ira, da agressão, do sangue escorrendo em sua pele, em seu corpo. Quem errou? Dandara pela sua identidade de gênero ou seus agressores pela ausência de clareza de cada um até onde pode intervir e deixar ao Estado a parte que lhe cabe? Em que parte do Código Penal está tipificado que não se pode vestir o ouro, reluzir a alegria e assumir sua ideologia? Que mal ou vergonha é aceitar a escolha do outro? Popularmente, o direito de uma pessoa termina quando o da outra começa. Não se pode agir com excessos nem usar desculpas para cometer ação inaceitável e repugnante. Como se vive em agrupamentos, para existir harmonia das cores, precisa ter um equilíbrio entre o individualismo e a coletividade. Afinal, é um direito fundamental e constitucional, positivado pela Carta Magna, a dignidade da pessoa humana. Aqui, o legislador não descreveu grupos seletos.
A sonhadora só queria o colo da mãe, exercer seu direito de ir e vir, realizar o sonho de ser famosa. Lamentavelmente conseguiu a fama de maneira brutal. As imagens dela não foram de sorrisos, mas de lágrimas; não a apresentaram num arco-íris de uma passarela, mas sim sendo carregada num carro de mão. Sem forças para andar, foi de encontro a sua partida definitiva da sociedade. Ganhou asas de borboletas, voou longe, foi para Miami e para o mundo. Agora, todos a conheceram pelas redes sociais quando viram sua morte exposta, como repúdio para alguns e punição para outros. O poder punitivo é concedido ao Estado e não às pessoas. No entanto, parece que o tempo da barbárie continua. Muitos continuam na luta para legalizar o direito de tantas Dandaras que só querem o mesmo de qualquer pessoa, viver.
Contudo, diante do conhecimento dessa luta e cientes das lacunas legislativas e pessoais, muitos preferem permanecer vivendo como se também não fosse seu problema. Até que um dia possa ser e acontecer com alguém próximo o qual se tornará mais um número na estatística, e aqueles que se juntarem na lide receberão a cor verde da esperança em que todos possam ser quem são, sem pavor.