
Na clássica obra de George Orwell, “A revolução dos bichos”, encontra-se narrada uma história curiosa acerca de uma revolução planejada em uma granja pelos próprios animais, que, insatisfeitos com o tratamento que recebiam de seu dono, resolveram se rebelar de modo a não mais aceitar tal situação. A história apresenta claramente a oposição de Orwell acerca dos regimes totalitários, que retiram a liberdade, e sucateiam os direitos dos indivíduos. Não à toa a obra foi publicada em 1945, sendo mal interpretada tanto pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, quanto pelos países do bloco capitalista até então aliados da URSS, contra a Alemanha Nazista; para deixar bem claro, que “o chapéu serviu” tanto para socialistas, quanto para capitalistas e liberais, como afere Fagundes em sua análise acerca da obra,
Por razões políticas, a obra pôde ser publicada apenas em 1945, após o término da guerra. Além disso, Orwell colaborou com o jornal “Tribune”, escrevendo sobre literatura e tecendo comentários que analisavam a conturbada situação política de então. Em seus relatos, Orwell atacava o regime fascista e comunista, mostrando o sofrimento, não dos grandes governantes, mas da população civil. (FAGUNDES, 2009).
Na prosopopeia utilizada por Orwell, dentre os animais que formam a trama, encontra-se a égua mimosa, descrita pelo autor como sendo “branca, vaidosa e fútil”, na análise sobre a utilização de animais na literatura, Brennda Valléria do Rosário Freire afirma que, “a preferência por animais deve-se, sem dúvida, ao fato de que seus caracteres, qualidades e temperamento são sobejamente conhecidos”, ou seja, não é à toa que Orwell escolhe uma égua para ser enfaticamente contra a revolução. Em um dos embates que mimosa tem com bola-de-neve (um dos porcos mais inteligentes da granja), acerca da possibilidade de ela continuar utilizando “laços de fita na crina”, com muita perplexidade o porco responde o seguinte:
Camarada, essas fitas que você tanto estima são o distintivo da escravidão. Será que você não compreende que liberdade vale mais do que laços de fita? (ORWELL, 2015, p.13).
Ao mesmo passo, que a resposta do porco é fenomenal, a pergunta da égua é sem dúvida, inusitada, e mostra claramente a síndrome de mimosa. Essa atitude de “se alto acorrentar”, mostra uma submissão perigosa à um sistema que desenvolve meios para aprisionarem seus seguidores, com a ilusão de os estarem libertando. Na conformidade e na comodidade em ser a égua “que puxa a carroça do Sr. Jones”, mimosa não encontrava motivos para questionar, tão pouco para se rebelar. Não há necessidade de revolução, além do mais, se o Sr. Jones (proprietário da granja), continua a dar comida e laços de fita, está ótimo. A síndrome de mimosa possui dois aspectos que impulsionam seu perpetuamento no ambiente social contemporâneo, o primeiro é o conformismo, que pode ser traduzido como não querer sair da zona de conforto, a famosa síndrome de Jaiminho, sempre querendo evitar a fadiga; e o segundo aspecto é a “conveniência”, que pode ser entendida no seguinte ditado, "aquilo que os olhos não veem o coração não sente", portanto, para que acender a luz?
Há na sociedade atual, um apreço pelo ódio, uma deferência pela violência e um entusiasmo com a crueldade. Para justificar a análise de modo que não paire no ar uma análise frívola e generalizada que certamente não é o objetivo deste texto, justificarei; todas essas características negativas avaliadas no contexto social atual, parecem ir contra os princípios morais, filosóficos, ideológicos e até mesmo religiosos adotados pela maioria dos indivíduos, no entanto, ouso dizer que esses caracteres estão presentes em todos os seres humanos, e são mais comuns do que se pensa. Estão na natureza humana, e sempre são colocados em voga quando o indivíduo se encontra contrariado com algo ou alguém. Poder-se-ia dizer que, “sendo cristão, mulçumano, judeu, hindu, ou de qualquer outra religião, essas emoções jamais são levadas à efetivação pois, violam seus códigos e princípios religiosos, morais e ideológicos”, no entanto, basta questionar os dogmas cristãos, fazer uma charge de Maomé, violar a lei da Torá, ou ainda, negar contribuição para com o festival hindu Shivratri, para que todos esses sentimentos, assumam o lugar da espiritualidade e da razão.
O que verdadeiramente é exótico e merece ser analisado, é como os seres humanos se acostumam e lutam por se acostumarem com o “inacostumável”, e isso acontece quando há um interesse pessoal ou coletivo em jogo. Ou seja, há uma preocupação narcisista, que leva seres “maduros” a brigarem como crianças mimadas para continuarem, à usar “laços de fita”, em outras palavras, lutam por um governo totalitário, por um líder ditatorial, por um sistema fascista, que agride o Estado Democrático de Direito, desde que essas violações, sejam contra os “inimigos”, como diz o verbete, “aos amigos do rei à amizade, aos inimigos a lei”, não importa as violações aos direitos humanos, ou a deferência para com sistemas ditatoriais.
Conveniência e conformismo, são as engrenagens da síndrome de mimosa, no entanto, o que os adoentados com a síndrome não percebem, é que hoje pode ser cômodo defender a violação de direitos dos inimigos, porém, amanhã pode ser que os inimigos tomem o poder, e imponham aos “mimosianos” as mesmas penas que outrora lhes foram impostas. Ou seja, ser partidário da opressão possui início, meio e fim, e quando chega a hora derradeira, os papeis de opressor e oprimido se alternam. A tendência atual de não colocar os pés bem firmes no chão do contexto social, transforma concidadãos em inimigos mortais, seres dispostos a matarem e a morrerem por suas crenças, ideologias e paixões grupais, quando a emoção cega a razão abre-se a possibilidade dos indivíduos saírem cegos do problema, ainda que estejam diante da luz que solucionaria o conflito.
No Brasil, a síndrome de mimosa parece ser generalizada e altamente contagiosa. O que pode ser alvo de questionamento, é o porque todo mundo sabe, e mesmo assim ninguém faz nada para combater a síndrome, certamente, a resposta também é conhecida, “conveniência e comodidade”. Sair dessa síndrome exige uma dose de democracia e uma pitada de empatia. Não se pode cogitar, colocar fim ao debate honesto de ideias, que é útil e extremamente necessário para a edificação de uma sociedade, democrática e humana. No mundo há lugar para liberais, capitalistas, comunistas, cristãos, árabes, homossexuais, heterossexuais.
No entanto, ainda que a síndrome de mimosa seja algo da natureza humana, esse caractere natural, exige dos indivíduos uma capacidade de lutar contra a própria natureza, além do mais o que seria da humanidade se não houvesse uma guerra constante contra a natureza (dos impulsos naturais)? No processo da evolução humana, é inegável a veracidade do verbete latino, “Si Vis Pacem Para Bellum”, não é possível, viver em paz se não houver uma constante guerra individual e coletiva em busca do bem comum. Ser a égua, o porco, a galinha ou o carneiro não é o problema, a grande questão é reconhecer que mesmo os ratos como bem afirma Orwell, não merecem ser mortos, uma vez que mesmo diferentes eles não devem ser vistos como inimigos, e sim como aliados dentro de suas particularidades. É necessário tratar os indivíduos como iguais dentro das diferenças inerente à espécie humana, isso quer dizer ir contra o individualismo, a mesquinharia e o egocentrismo. O direito à igualdade não é uma formalidade ou um favor do estado, mas um dever ético e jurídico, é o que em síntese afirma Dirley Da Cunha Júnior,
O direito à igualdade é o direito que todos têm de ser tratados igualmente na medida em que se igualem e desigualmente na medida em que se desigualem, quer perante a ordem jurídica (igualdade formal), quer perante a oportunidade de acesso aos bens da vida (igualdade material), pois todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. (CUNHA JÚNIOR, 2008, p. 636).
Continuar a pegar “o pedaço de fita azul e segura-lo contra a espádua, admirando-o no espelho, com trejeitos ridículos”, é o mesmo que admitir que fitas valem mais que a liberdade. O desfecho de tudo é simplesmente o fim da civilização, porque a síndrome de mimosa é cíclica, hoje é um grupo amanhã é outro, é como escreveu o líder religioso alemão Martin Niemöller,
Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era socialdemocrata... Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse. (MARTIN NIEMÖLLER, 1945)
Defender a democracia não é um capricho, mas sim uma necessidade, um caráter inerente à continuação da espécie humana. Yuval Noah Harari em seu livro Sapiens, afirma que, “O Homo Sapiens conquistou o mundo, acima de tudo, graças à sua linguagem única”, eu ouso completar o raciocínio de Harari dizendo que o Homo Spiens, somente conseguirá reconquistar o mundo, quando todos falarem, defenderem e viverem a língua da democracia. Enfim, ter um pouco mais de empatia com o outro ainda que seja diferente de mim, é garantir que não retroagiremos a momentos históricos que pela crueldade colocaram em dúvida a racionalidade de nossa espécie, ser democrático é uma questão sine qua non. Assim sendo, seremos mimosas? Ou nos permitiremos ser mais “Humanos”?
REFERÊNCIAS
FAGUNDES, E. R. Análise da Obra A Revolução dos Bichos - VI Seminário de Iniciação Científica – SóLetras – 2009.
FREIRE, B. V. do R. O gênero discursivo fábula: um estudo na perspectiva bakhtiniana – Travessias Interativas – Edição IV – 2º semestre de 2012.
HARARI, YUVAL NOAH. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade - 29ª Edição. Editora Harper – 2011.
ORWELL, GEORGE. A Revolução dos Bichos - Edição eletrônica da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP – 2015.
TAVARES, KÁTIA RUBINSTEIN. CNJ não pode impor julgamento virtual contra juízes – Revista Consultor Jurídico – 2012 – Disponível em: https://www.conjur.com.br/2012-jan-11/cnj-nao-atropelar-autogoverno-tribunais-nem-criar-deveres - Acesso em: 16 de abril de 2021.