A tragédia da Piedade, um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, representou um drama social republicano, no início do século XX e que envolveu a sociedade brasileira de 1909, a protagonista maior é a honra e seu inquestionável valor. ...

Resumo:

A tragédia da Piedade, um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, representou um drama social republicano, no início do século XX e que envolveu a sociedade brasileira de 1909, a protagonista maior é a honra e seu inquestionável valor. O cenário, era então, capital do país, Rio de Janeiro, envolvendo um grande escritor e um iniciante militar e, naturalmente, uma cobiçada mulher.

 

Palavras-Chave: Honra. Tragédia. Casamento. Adultério. Morte.

 

 

 

 

Em 1909, a república brasileira era uma ninfeta, comemorava seus vinte anos de existência e, já havia uma dinâmica atroz nesse correr de duas décadas. Era uma República modelada pelos sonhos dos discípulos de Augusto Comte[1], o positivista.

 

A classe social que foi encontrada por essa nova ideia era descontente com antigo regime, especialmente a classe militar. Então cansados e inconformados com a posição de subalternidade que esse circuito lhes reservava, lutavam em prol da ascensão em bloco de seu grupo social.

 

Desta tragédia fazia parte Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha que era aspirante do Exército e redator do jornal A Província de São Paulo. Era uma estrela de primeira grandeza no cenário literário nacional, graças a sua obra "Os sertões", que traduzia um ensaio sociológico da guerra de Canudos que bem poderia ser considerado como um poema épico em prosa.

 

Tratava-se de um homem de ciência, geógrafo, etnógrafo, filósofo e historiador. Mas, foi protagonista de um escândalo expressivo que abalou todo país, culminando com sua morte após trocar tiros com jovem aspirante do Exército Dilermando de Assis, que era amante de sua esposa Anna Emília.

 

Euclides casara-se com a filha do Marechal Sólon Ribeiro[2] que tinha lutado na Guerra do Paraguai, sendo uma das figuras emblemáticas da Proclamação da República. O episódio trágico que destruiu a vida do casal teve início quando Anna encontrou Dilermando, que era sobrinho de uma de suas amigas. Encantada com a beleza e juventude do jovem aspirante, envolveu-se num romance adulterino.

 

Quando o caso veio a público, colocou-se em questão a honra de sua família inteira, particularmente de seu marido. A crise conjugal agravou-se porque os mecanismos de controle social, tais como intrigas, fofocas e denúncias diversas e ação da família e dos amigos não tiveram qualquer efeito sobre Anna Emília.

 

Como Anna não atendia aos apelos de familiares, Euclides se viu compelido a lavar sua honra em sangue. Com o senso de dever elevado e, movido pela saída da esposa do lar para ir ao encontro do amante, no dia 15 de agosto de 1909, o aspirante seguiu até a casa de Dilermando, já anunciando: "vim para matar ou morrer".

 

No confronto entre os dois, ocorrido na Piedade, um subúrbio do Rio de Janeiro, Euclides terminou morto, passando a ser, a partir daí, ser santificado pela sociedade. Os jornais da época trataram de comunicar o fato à capital e a toda população brasileira. A morte de Euclides da Cunha ficou conhecida como a tragédia da Piedade. O resultado final fora que Euclides fora canonizado enquanto que o casal adúltero fora ferozmente hostilizado.

 

O mal-estar perdurou por muito tempo, tanto que culminara com a morte[3] de Euclides da Cunha Filho que também tentara lavar a honra do pai. E, em 1916, aconteceu, uma reprise de 1909. Como Anna e Dilermando fossem impedidos de contar sua versão da história aos jornais, vieram a se publicar livros para restaurar a reputação daqueles que foram tratados como párias vis.

 

Há seis obras de épocas distintas abordando a mesma tragédia, uma coletânea de excertos de Euclides escrita aos seus amigos e, ainda um dossiê publicado na Revista da Biblioteca Nacional, além dos recortes de jornais da época. Anna de Assis: história de um trágico amor (1987), e Águas de amargura: o drama de Euclides da Cunha e Anna (1990) constituem uma polêmica existente entre os descendentes de Euclides da Cunha e Dilermando de Assis. O primeiro fora um depoimento de Judith de Assis, filha de Anna Emília e Dilermando; o segundo foi um depoimento de Adelino Brandão, marido de uma das netas de Euclides, Eliethe da Cunha Tostes, filha de Manoel Afonso.

 

Também Dilermando de Assis[4] escreveu livros em sua autodefesa para restaurar seu prestígio social. Foram eles: Um conselho de guerra. A morte do aspirante da Marinha: Euclydes da Cunha Filho. Defesa do Tenente Dilermando Cândido de Assis (1916) e A tragédia de Piedade: mentiras e calúnias da "A vida dramática de Euclides da Cunha (1951), uma resposta aos jornais. Também foi editada a biografia A vida dramática de Euclydes da Cunha (1938), escrita por Eloy Pontes e publicada pela Editora José Olympio, dirigida, na época por Gilberto Freyre.

 

A coletânea Euclydes da Cunha e seus amigos (1938), editada por Francisco Venâncio Filho, um dos maiores biógrafos do escritor, traz um conjunto de excertos das cartas escrita por Euclides aos seus amigos, revelando um pouco de sua personalidade e detalhes do mundo social ao qual pertencia.

 

Já em 2009, foi publicado, em comemoração ao centenário da morte de Euclides, o livro Matar ou morrer : o caso de Euclides da Cunha, que se revelou uma rica fonte de análise ; e também o “Dossiê Euclides da Cunha”, editado pela Revista de História da Biblioteca Nacional, que reuniu artigos de autores nacionais e estrangeiros em torno da representação do herói nacional desde o seu nascimento até a sua morte.

 

Nos recortes dos jornais da cidade do Rio de Janeiro, principal meio de comunicação e formação da opinião pública, foram encontradas as notícias da morte de Euclides e de sua grande repercussão. Salientamos que o acontecido apenas ficou conhecido como a “tragédia da Piedade” graças à performance dos jornais.1 Ao chamá-lo de “tragédia”, os periódicos evocaram as tragédias gregas e, com elas, todos os atributos que tem a palavra “tragédia”, como a “fatalidade”, a “violação da regra” e a “noção de destino”, influenciando a interpretação e reflexão dos leitores.

 

No acervo on-line da Biblioteca Nacional, encontramos notícias da época nos jornais que foram preservados. Infelizmente, não foi possível identificar os autores das notícias e, em algumas, o título da matéria. Estima-se que haja muito mais notícias sobre o caso do que foi possível reunir.

 

Coelho Netto ao comparar a Tragédia da Piedade com a de Oréstia, de Ésquilo, talvez previsse o futuro or meio de evocação literária. Assim, como ocorrera com Orestes, os filhos de Euclides foram pressionados a vingar a morte do pai. Sólon, o mais velho, morrera vítima de emboscada, no Amazonas em 1915.Não pode cumprir o dever filiar da vingança de sangue. Como esta é imprescritível, coube então a Euclydes Filho executá-la. E, assim inaugurou-se novo capítulo da mesma tragédia.

 

Euclides Filho perdera seu pai com apenas 16 (dezesseis) anos, e, com ele, a possibilidade de conviver com o restante da família. Chegou a morar com a mãe, Dilermando e os irmãos, mas em certo momento, Dilermando julgou inconveniente a permanência dos rapazes em sua companhia. E, os mais velhos foram confiados ao Marechal Cândido Mariano Rondon e ao Sr. José Carlos Rodrigues. E, o menino caçula fora confiado aos cuidados da tia Alquimena.

 

Em 1916, então com 21 (vinte um) anos, Euclydes Filho era aspirante da Marinha de Guerra do Brasil e até aquele ano, não cultivara com Dilermando, o padrasto, nenhuma relação amistosa. E, chegar a se enfurecer quando o irmão caçula Manoel Afonso fugira do internato para ficam com a mãe. Afirmava que o irmão não poderia se dar com o assassino do pai.  Manoel Afonso, porém, não desejava mais morar com Nestor Cunha, e menos, ainda que fosse seu tutor, pois numa refeição à mesa, ele acusou sua mãe de assassina de seu pai e de seu irmão Sólon.

 

O juiz na ocasião decidira que o menino poderia permanecer ao lado da mãe até a nomeação de um novo tutor. E, o advogado da causa percebeu o quão transtornado o menino estava por tê-la perdido e exclamou em bom som: Euclides Filho está muito nervoso, neurastênico e, é preciso alguma providência.

 

Então, Euclides Filho cedeu às insinuações do seu dever de vingar a morte do pai, e decidira um dia, matar Dilermando de Assis. Escolhera o dia 4 de julho de 1916 para executar finalmente sua vingança e, armou-se de um revólver.

 

Segundo Dilermando de Assis havia deixado bilhete, no qual afirmava que Nestor da Cunha tinha-lhe conseguido um revólver. Ocorreu, novo embate. Novamente, Dilermando enfrentou um Cunha, desta vez, no Cartório da Vara de Órfãos, mais uma vez, matou e quase foi morto por um homem chamado Euclides. A tragédia simplesmente se repetira.

 

O caso não tardou ir a julgamento e, na defesa de Dilermando, atuou Evaristo de Moraes, o mesmo advogado que o defendera da primeira vez. E, em 27 de setembro de 1916, Dilermando foi, mais uma vez absolvido. Os dois Conselhos de Guerra absolveram-no, em grande parte, graças à brilhante defesa de seu advogado.

 

 

Em defesa de Dilermando, argumentou Evaristo de Moraes in litteris

 

                “o grande tribuno carioca iniciou a defesa formulando um repto ao promotor público, alegando que, na época, se propalava que o réu Dilermando fora um protegido de sua vítima […]. Relembrou Santo Agostinho e Jean-Jacques Rousseau, aos quais chamou de sinceros por terem confessado os seus pecados carnais. Quem não teve desses pecados aos 17 anos? Em seguida, sustentou a doutrina que admite o adultério, desde que o seu responsável tenha pouca idade, classificando de convenções sociais as manifestações hipócritas dos que não têm coragem de confessar suas fraquezas […]. Divagou sobre a ação da imprensa que rebaixou o réu à categoria de homicida comum. Negou o direito, defendido pelo promotor, de Euclides da Cunha entrar na casa de Dilermando. Falou, por fim, do exercício de legítima defesa por parte do réu, não só em relação à sua própria pessoa, como em defesa da adúltera. Justificou a impossibilidade de Dilermando fugir, alegando o ridículo do aspirante a oficial fugir em trajes menores, pés nus, dando as costas ao agressor de sua própria casa. A própria lei — argumentou Evaristo de Moraes — sustenta que não se pode fugir, sempre que essa fuga seja vergonhosa e perigosa […]. Analisou a alegada condescendência de Euclides da Cunha com o adultério, alegada pelo promotor, aludindo que o grupo social repelia essa condescendência, que seria um verdadeiro ménage à trois, só sustentável quando a família estivesse destruída pelo amor livre”.

 

Diante desses argumentos, Dilermando de Assis fora absolvido em 5 de maio de 1911, e uma nova sessão de julgamento pela morte de Euclides, em 3 de maio de 1913 adiada para junho de 1914, confirmou a inocência de Dilermando de Assis.

 

Na segunda tragédia, aquela que envolveu Euclides Filho, o Jornal do Commercio relatou o julgamento, ocorrido em 28 de setembro de 1916. Nele, argumentava Evaristo de Moraes in litteris:

 

pergunta-se: é ou não é de admitir a justificativa de legítima defesa, em face da boa interpretação da lei, da doutrina e da jurisprudência?

 

A defesa privada deriva psicologicamente do instinto de conservação, instinto primitivo, básico da existência, que, sendo o primeiro a aparecer, é o último a abandonar a criatura humana. Por isso Cícero viu na legítima defesa uma prescrição da lei natural, (non scripta, sed nata lex).

 

Tão imprescritível é essa lei suprema que diante dela, cedem os sentimentos mais afetivos, as injunções do respeito filial, as contemplações para com o infortúnio e para com a inconsciência.

 

Certo, sustentava o princípio da legítima defesa — assente no instinto da própria conservação — o trágico grego Sófocles, pondo na boca de Édipo as seguintes palavras em resposta às imprecações de Creonte, quando o acusava pelo homicídio do próprio pai : “Responde-me esta pergunta : — Se alguém agora mesmo aqui se aproximasse de ti e te quisesse matar, que farias, homem justo ?

 

Buscarias saber se o assassino era teu pai, ou pelo contrário, o punirias de pronto? Seguramente, se ligas a importância à tua vida, castigarias o agressor, sem te inquietar com a legalidade do teu ato?” […] O indivíduo que age em estado de legítima defesa representa um instrumento de defesa do qual a sociedade se utiliza em uma situação de perigo iminente (Su la legitima difesa, 2ª. Edição, pág. 7).

 

O advogado mostrou ainda que, para Dilermando, não havia outra possibilidade senão a de agir em legítima defesa:

 

1º) tinha sérios motivos para sentir a sua vida em perigo, quando, já gravissimamente ferido, buscava a porta e era ainda alvejado pelo agressor, que ninguém continha;

 

2º) que não se lhe apresentara, ao espírito, naquela ocasião, outro meio de escapar à morte, diverso do que empregou;

 

3º) que ele não estava apenas emocionado, mas, sim, completamente perturbado, em razão das graves lesões recebidas, das quais quatro, porém, eram mortais (Andrade, 1987 :132).

 

A sentença fora proferida. E, mais uma vez, Dilermando fora declarado inocente pelo Conselho de Guerra. O tribunal da opinião pública, entretanto, não parecia querer convencer-se da sua inocência. Aliás, para Assis, este era “o lado mais revoltante da história: enfrentar a opinião pública” (Andrade, 1987 :61).

 

 Em seu livro A tragédia da Piedade: mentiras e calúnias de “A vida dramática de Euclides da Cunha”, tomou, em sua defesa, os argumentos de Lailler & Vonovem:

 

a semente de uma acusação, por mais vazia que pareça, lançada ao espírito da opinião pública sedenta de emoções, ávida de escândalos com que alimente a sua curiosidade, deve fatalmente frutificar… E no dizer do grande Waldeck – Rousseau, a justiça das multidões substituindo-se a justiça da lei (Lailler & Vonovem 1897 apud Assis, 1951 :54-55).

 

Por duas vezes, a família Da Cunha não viu, pois, restaurada a sua honra. Restara uma única esperança que era Manoel Affonso. Este, no entanto, rompeu com o código do mundo da honra. Por duas vezes, a família Da Cunha não viu, pois, restaurada a sua honra. Restara uma única esperança — Manoel Affonso. Este, no entanto, rompeu com o código do mundo da honra.

 

Não é impróprio afirmar, que o casal Anna e Dilermando fora vítima de uma espécie de ritual de sacrifício. “Fora preciso que fosse condenado, arremessado ao abismo” — sacrificado. “Esta é a questão. Assim, ordenaram os grandes do país”, “porque eu um simples peão, matei um rei. Porque eu, um aspirante anônimo, matei um deus”, disse Dilermando.

 

A sociedade não perdoa quando se trata de julgar os caluniadores “de um valor”, porque o escândalo “[…] mina a base dos valores recebidos, revela que não são intangíveis, torna ridículo o respeito que se pode ter por eles. O respeito pelo valor, esta ação corrosiva ganha inevitavelmente o valor em si e joga descrédito sobre ele”.

 

 

Até o fim de sua vida, Dilermando de Assis preocupou-se em limpar sua honra e, em seu livro intitulado A tragédia da Piedade: mentiras e calúnias de A vida dramática de Euclides da Cunha, escrito em sua defesa, declarou a respeito dos jornalistas, in litteris: “e assim, mentindo a si próprios e à sociedade incauta e de boa-fé — os jornais — oferece[ram] suas teorias evangelizadoras animando a crendice alheia, incitando-a a prosseguir na vingança, arrastando-lhe interjeições de cólera, armando-lhe o braço carrasco e sepultando, mercenariamente, no mais cruel dos ódios, o espírito frágil e impotente da desolada vítima”.

 

Dilermando teve a sensação de ser eterno e irremediável condenado, e mesmo quando contava a verdade dos fatos, preocupava-se com sua prole já numerosa e crescente ainda.

 

Seus filhos “cresceram como vítimas dessa perseguição atroz contra Anna e Dilermando”. A propósito, sua filha Judith recordava em um de seus depoimentos in litteris:

     " veja, que eu e meus irmãos crescemos com aquele estigma, são filhos de Anna e Dilermando. Quando voltamos da ilha de Paquetá, já quase todos moços, sofremos muita discriminação. Éramos olhados como filhos de um assassino e de uma mulher infiel, traidora. Filhos de uma mulher vaidosa, e doidivana […]".

     “Quantas vezes lá mesmo na ilha de Paquetá, quando eu me aproximava de um grupo de meninas, pedindo para brincar também, elas se afastavam e diziam: não, mamãe não deixa. Você é filha de assassino. E os meus irmãos recebiam o mesmo tratamento.”

 

Mesmo após a morte de Anna, Dilermando e Euclides seus descendentes continuaram a lutar entre si com intuito de limpar a honra de suas respectivas famílias. As famílias Da Cunha e Assis se tornaram rivais, da mesma forma que os Montecchio e os Capuleto. Onde a vingança se tornara o centro gravitacional da situação dramática.

 

Os livros Anna de Assis: história de um trágico amor e Águas de amargura: o drama de Euclides da Cunha e Anna são armas dessa contenda. O primeiro, escrito por Judith, filha de Anna e Dilermando, visava apagar na opinião pública a imagem demoníaca com que os jornais tinham carimbado sua mãe e seu pai. Apresentava as razões que tinham sido a força motriz das ações de Anna. Em contrapartida, retratava um Euclides totalmente diferente daquele imaginado pelo público, o homem visto por sua mãe.

 

Joel Bicalho Tostes escreveu, com Adelino Brandão, outra obra. Era um euclidiano do grêmio fundado em memória do grande escritor. Veio a integrar a família Da Cunha pelo seu matrimônio com Eliethe, neta de Euclides. Seu livro é dedicado às irmãs Eliethe da Cunha Tostes e Norma da Cunha Póvoa, que, “falecidas em 1989, sempre souberam defender a memória de quem realmente merece defesa”.

 

Os autores pretendiam o “desmascaramento de um livro medíocre”. Afirmavam, nesse sentido, que as informações contidas na obra de Judith eram “absolutamente falsas”, taxando de mentirosa a declaração de que Euclides tinha arrancado o menino Mauro dos braços da mãe, privando-o do seio materno. Por causa disso, a criança teria vindo a falecer com apenas sete dias de nascida, vítima de inanição. No mesmo diapasão, pintaram um retrato de Anna bem pouco lisonjeiro, como se pode ler no seguinte trecho:

 

[…] o linguajar de Anna tem o sabor da linguagem de uma freira, de repetente cantando canções de bordel, no coro da capela; ou de uma “madame” que surgisse, por bruxaria, numa clausura de carmelitas, contando anedotas de suas meninas.

 

Tanto Euclides da Cunha como Anna Emília Ribeiro nasceram e viveram numa sociedade imersa em conturbado processo de mudança. Ambos pertencentes a um grupo descontente com o regime monárquico, visto como indício de atraso, pois ansiavam pela República, na qual enxergavam a encarnação da vida civilizado e do sagrado progresso.

 

Euclides da Cunha tinha presenciado ativamente o maior dos dramas sociais daquele tempo, a Guerra dos Canudos, e ilustro cabalmente o conflito entre a civilização, representada pelas tropas republicanas e a barbárie religiosa encarnada por jagunços de Antônio Conselheiro. Segundo Euclides da Cunha, Antonio Conselheiro representava o grande homem pelo avesso.

 

Dilermando após seu relacionamento com Ana de Assis, Dilermando se relacionou com Maria Antonieta de Araújo Jorge, com quem teve uma filha, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti, prima de J. G. de Araújo Jorge. Dirce até hoje tenta mudar a percepção do público a respeito do pai. Ela escreveu o livro “O Pai”, publicada pelo selo Ateliê Editorial.

 

Nas palavras de Monteiro Lobato, ao comentar o drama aduziu que foram “vítimas da deusa fatalidade”. O próprio Euclides da Cunha, em carta ao poeta Vicente de Carvalho, parecia pensar a mesma coisa ao escrever-lhe: “quem definirá um dia essa maldade obscura e inconsciente das causas, que inspirou os gregos à concepção indecisa de Fatalidade?”

 

Quanto a Euclides e Anna, ambos estavam plenamente convencidos de suas “razões”, o que contribuía para tornar o trágico fato um acontecimento inelutável.

 

Referências

VOGEL, Arno; FERREIRA, Regiane. A tragédia da Piedade: o grande drama da República. Disponível em: https://journals.openedition.org/aa/1503 Acesso em 12.01.2021.

 

Referência eletrônica

Arno Vogel e Regiane Ferreira, «A tragédia da Piedade: o grande drama da República», Anuário Antropológico [Online], I | 2015, posto online no dia 01 junho 2018, consultado o 12 janeiro 2021. URL: http://journals.openedition.org/aa/1503 ; DOI: https://doi.org/10.4000/aa.1503

ANDRADE, Jeferson. 1987. Anna de Assis: história de um trágico amor. Rio de Janeiro: Codecri.

APPIAH, Kwame Anthony. 2012. O código de honra: como ocorrem as revoluções morais. São Paulo: Companhia das Letras.

ASSIS, Dilermando de. 1916. Um conselho de guerra. A morte do aspirante de Marinha Euclides da Cunha Filho — defesa do tenente Dilermando Cândido de Assis. Rio de Janeiro: Tipografia dos Anaes.

______. 1951. A tragédia da Piedade: mentiras e calúnias de “A vida dramática de Euclides da Cunha”. Rio de Janeiro: O Cruzeiro.

BRANDÃO, Junito de Souza. 1991. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Petrópolis: Vozes.

CAVALCANTI, Dirce de Assis. O Pai (5ª ed.). São Paulo: Ateliê Editorial.

ELUF, Luiza Nagib. 2009. Matar ou Morrer: o caso de Euclides da Cunha. São Paulo: Saraiva Jurídico.

FAORO, Raimundo. 1974. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

LIMA, Luiz da Costa. 2000. Euclides da Cunha: contrastes e confrontos do Brasil. Contraponto: Rio de Janeiro.

MARTINS, Wilson. 1996. História da inteligência brasileira (1897-1914). São Paulo: T. A. Queiroz.

MAUSS & HUBERT, 1999. Ensaio sobre a Natureza e a Função Social do Sacrifício. In: MAUSS, Marcel. Ensaios de Sociologia. São Paulo: Perspectiva.

ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. 1994. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rio de Janeiro: Rocco.

TOSTES, Joel Bicalho & BRANDÃO, Adelino Marques da Silva. 1990. Águas de amargura: o drama de Euclides da Cunha e Anna. 3. ed. Rio de Janeiro: Rio Fundo.

 

 

 

 


[1] Comte foi o pai do Positivismo, corrente filosófica que busca explicar as leis do mundo social com critérios das ciências exatas e biológicas. Foi também o grande sistematizador da sociologia, dividindo a sociologia em duas áreas: a estática social e a dinâmica social. “No entender de Comte, a sociedade apresenta duas leis fundamentais: a estática social e a dinâmica social. De acordo com a lei da estática social, o desenvolvimento só pode ocorrer se a sociedade se organizar de modo a evitar o caos, a confusão. Uma vez organizada, porém, ela pode dar saltos qualitativos, e nisso consiste a dinâmica social. Essas duas leis são resumidas no lema ‘ordem e progresso’” (VASCONCELOS apud LAGAR et al., 2013, p. 18).

In: LAGAR, Fabiana; SANTANA, Bárbara Beatriz de; DUTRA, Rosimeire. Conhecimentos Pedagógicos para Concursos Públicos. 3. ed. – Brasília: Gran Cursos, 2013.

[2] Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro (1839-1900) foi político e militar brasileiro. Era pai de Anna Emília Ribeiro que foi casada com Euclides da Cunha. Teve atuação destacada na Proclamação da República. Responsável por espalhar a falsa notícia de que o Marechal Deodoro da Fonseca, convalescendo em sua casa, e Benjamin Constant, tinham sido presos pelo governo imperial, e que os batalhões da Capital seriam removidos para o interior. As notícias, tratadas como ação de contra inteligência, provocaram a sedição e o golpe de Estado. Isso porque para os militares, do Exército e Marinha, estava claro que não deveria haver um terceiro reinado no Brasil, e cerca de 160 estavam tão determinados na implantação da república que fizeram um pacto de sangue, em que, acompanhariam o ideólogo do movimento Benjamim Constant até a resistência armada, ou guerra civil. Além dessa firme participação, Sólon foi o encarregado de entregar a D. Pedro II a ordem para o exílio da família imperial.

[3] O laudo da necropsia de Euclides da Cunha apontou lesões cerebrais, com sinais de um processo de demência progressiva. O corpo foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio. Em 1982, seus restos mortais e os do filho Euclides da Cunha Filho, também morto por Dilermando de Assis, em julho de 1916, foram trasladados para São José do Rio Pardo.

[4] Dilermando Cândido de Assis (1888-1951) foi um general do Exército brasileiro e ficou famoso por sua participação na Tragédia da Piedade, que resultou na relação amorosa vivida com Anna Emília Ribeiro, esposa do escritor Euclides da Cunha e, que levou à morte do escritor e, posteriormente, de seu filho. Foi responsável pelo plano rodoviário do Estado de São Paulo na década de 1930 e diretor do Departamento de Estradas e Rodagem e diretor do Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo.


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