De inebriados e de inebriantes

Como indicamos, há semelhanças entre o modelo totalitário stalinista de ontem e a sociedade de controle atual, pois o anti-liberalismo ofuscou (tanto lá, quanto cá) a diferença entre totalidade e totalitarismo.

No modelo controlativo atual, todavia, devemos substituir as categorias de dominados e de dominantes (porque todos são, mais ou menos, dominados) pelos novos tipos de inebriados e de inebriantes (e ainda que as diferenças entre ambos também não sejam assim tão gritantes). Desse modo, tentemos pensar a partir de quatro tipos ideais aplicados ao consumismo predominante: os inebriados pobres; os inebriados de tipo novo rico; os inebriantes sistêmicos; os inebriantes ideologicamente críticos. Nossos quatro tipos acabam se ajustando como se vagueassem por entre uma cadeia alimentar.

Os inebriados pobres, como usuários que acreditam nas fantasias do virtual, chegam ao ponto de criar vidas paralelas – nicks [18] que chegam a ter significado mais expressivo do que seus nomes próprios: alguns chegam à morte por exaustão, à frente de videogames.

Os inebriados que fazem o tipo novo rico não são menos característicos, apenas tem posição superior na relação de consumo. Alguns de seus hábitos de consumo são reveladores: trabalhando na iniciativa privada ou com empregos públicos (pouco importa) são adeptos do consumo fetichista da tecnologia (compulsão pela aquisição de todo tipo de novidades tecnológicas: o último modelo de celular, laptop etc); são degustadores de bebidas de boas safras; adoram roupas caras e, com vencimentos mensais que chegam a cinco mil dólares; podem morar em apartamentos de luxo, em bairros nobres. Assim, a aquisição de alguma datcha [19] seria uma conseqüência – e qualquer coincidência atual é mera reedição. Como diz, Rouanet, o fetichismo chegou a seu ápice:

Um Walter Benjamin de hoje talvez dissesse que se no protocapitalismo a mercadoria morava nas passagens e no capitalismo moderno nos shopping centers, seu domicílio, na era do capitalismo pós-moderno, é o ciberespaço. Só agora a mercadoria chegou ao seu estágio fetichista, no sentido de Marx: dissolvida na realidade virtual, ela se transformou, verdadeiramente, numa fantasmagoria (Rouanet, 2002, p. 246).

Os inebriantes sistêmicos (ou sistemáticos), por sua vez, são produtores de informação [20] que levam à resignação do consumismo [21]; controlam os fluxos dessas informações para que alguns possam consumir e outros não, mas para que todos obedeçam (e ainda que alguns se julguem livres do valor de uso deformado pelo consumismo). São ilustres pensadores da sociedade da informação e que não ultrapassam a barreira do conhecimento, isto é, não transformam informação em conhecimento.

Mas ainda há os inebriantes críticos (nunca de si mesmos, é claro). O fetiche desses está em acreditar que são capazes da crítica verbal ao valor de troca e que, com isto, estariam libertos da relação de compra e venda. Porém, são incapazes de ver o próprio umbigo, o consumismo diário e, assim, também são incapazes de manter a consciência: o consumismo lhes impede de ter plena consciência e domínio acerca do valor de uso.

Trata-se de uma crítica meramente verbal porque sua retórica é infértil, estéril e com ela não se gera nenhuma ação eficaz; ou seja, são incapazes de deixar de comprar, o que é mais ou menos óbvio, porque para isso teriam de promover alguma autocrítica. Nos casos extremados de seu positivismo, acreditam que o "conhecimento" aplicado ao mundo social é prova da "evolução humana": "não há porque suspeitar, o conhecimento nos guiará a um mundo melhor!". São ideólogos do conhecimento que servem de justificativa e de mais-valor ao consumo do mundo real/virtual — eles estimulam o consumo ideológico.

A inconsciência dos inebriantes ideologicamente críticos, portanto, não lhes permite ver que este seu suposto valor de uso, não passa de consumismo fetichista — no que são iguais a todos, no nivelamento por baixo. Apenas são mais nocivos porque, com mais ilustração e "retórica crítica" (sic) se colocam em posição de superioridade, repetindo bordões (anti-consumistas) e discursos de autoridade. Para estes, a verdade, é claro, sempre está nesta sua suposta capacidade de revelação; sua superioridade cognitiva (auto-atribuída) é de tipo hierocrática [22]: "eu vos digo a verdade sobre o consumo, salvem-se!" [23]. Além, é claro, de se locupletarem, vez ou outra, com o "culto à personalidade" (a publicação reiterada de fotos na web, é um bom indício de narciso...).

A conclusão acerca desse último tipo é que, apesar de uma terminologia crítica, são muito mais perigosos, porque são mais funcionais: estes reviram idéias do avesso. Uma idéia revirada do avesso, por exemplo, mostra que só criticam o valor de troca das mercadorias reais/virtuais, porque, se mirassem o valor de uso, aí teriam de expor a si mesmos e aos seus gostos e gestos alienados, assombrados. Sua crítica é a do megalodonte, uma crítica feroz, totalitária, mas que só faz destruir a totalidade na incontinência de consumir tudo que estiver em seu caminho.

É claro que nenhum desses tipos é puro, mas alguns sujeitos têm mais trejeitos e se vestem melhor do que outros. Também poderíamos pensar em um quinto tipo, aquele tipo puro ou ingênuo que procura com sinceridade a crítica, e mesmo que nem sempre tenha consciência de que é muito mais vítima do que algoz das formas de repressão da verdade. (Até à ingenuidade, como se vê, por exemplo, no artigo e na ação social de muitos internautas bem-intencionados).


Desinformação, má vocação ou ideologia?

Como vimos, os arautos da crítica totalitária do processo tecnológico, apresentam fórmulas ocas que deveriam encaixar a história da humanidade, como se esses modelos teóricos fossem monolitos. O melhor caso é mesmo o da suposta "produção capitalista da tecnologia", como se tudo se resumisse nessa lição colegial. Ao contrário disso, para tanto, bastar-nos-ia um mínimo de conhecimento para repensar a techné da Grécia clássica. Mas, esta negação do conhecimento acumulado (ou que não possa ser instrumentalizado imediatamente) é outra de suas manifestações totalitárias — o controle pela ignorância é parte dessa visão de mundo analógica (como totalitarismo tecnológico).

Vejamos exemplos concretos dessa tal "produção capitalista da tecnologia": Santos Dumont inventou o avião porque as condições objetivas dos meios de produção assim o permitiram. Aqui a lógica binária, fria, maniqueísta, analógica é simples: infra-estrutura x superestrutura; o gênio cria coisas que os "donos do poder mandam". Portanto, nada deveria escapar desta combinação ou manejo e manipulação analógica.

A manipulação do conhecimento está em desconsiderar a arte real (techné: política, arte, técnica) que está no gênio inventor, na criação, na aventura e na ousadia de seu pensamento (não-petrificado [24]). Afinal, qual a tecnologia aplicada ao 14 Bis? Pouco mais do que canos e lona...que levariam o capitalismo decolar? Quando o mesmo Santos Dumont adaptou o relógio de pulso, para melhor dirigir, estava antecipando os horizontes de Taylor? Ou alguém seria tolo o bastante para dizer que inventou o avião para ajudar Getúlio Vargas a bombardear navios brasileiros rebeldes? Em 1932, Santos Dumont suicidou-se movido pela vergonha de se ver assim instrumentalizado: um sujeito altruísta que se viu compelido ao suicídio anômico (Durkheim, 1988).

E o que simbolizou a máquina voadora [25] de Da Vinci (1452-1519), outro solavanco "pré-moderno" dos meios de produção? Para os arautos da simplificação, a arquitetura exploradora de Da Vinci, que o levou ao esboço do submarino e da bicicleta, seria o legado do patrono da indústria moderna.

E a pólvora [26] inventada pelos chineses, foi um prenúncio do capitalismo imperialista? Muito antes dos chineses, no entanto, os gregos já conheciam mecanismos autômatos movidos pela energia hidráulica. Depois, muçulmanos forjaram (por necessidade) novas tecnologias: a "manivela articulada" ou cramk antecipou o "virabrequim" dos carros modernos (Losano, 1992). E isto foi o que, a modernidade primária de Ford?

Precisamos abrir os horizontes para ver e analisar a tecnologia, pois mesmo parte da "tecnologia pós-moderna" não veio a lume com fins tão estritamente instrumentais, para servir ao sistema [27]: ao contrário do que aventa a verborragia totalitária, a Internet nasceu do esforço de jovens acadêmicos americanos para melhorarem sua comunicação pessoal e ludibriar a escassez de computadores para a realização de suas pesquisas. Só tempos depois é que surgiu a versão de sua maquinação militar, para os EUA se safarem de certos efeitos da Guerra-Fria.

Assim, pensando de modo mais direto, é preciso ver que há tecnologias desenvolvidas para o mercado (capitalista), a exemplo de todas as tecnologias que servem à produção (quer sejam inventadas na indústria privada, quer advenham do financiamento público). No exemplo da própria "linha de montagem", de Henri Ford (1863-1947), tratou-se de um recurso inventado por quem já estava na produção e precisava aprimorar seus métodos de trabalho. De outro modo, há outras tecnologias desenvolvidas no mercado, como aquelas que surgem imediatamente do efeito da serendipidade provocada pelas experiências patrocinadas diretamente pelo mercado (o velcro é um caso típico da indústria da pesquisa). A indústria financia pesquisas de ponta com o intuito elementar de criar novos produtos, estimular o desejo e o consumo, aumentando assim a lucratividade. Nesta modalidade, em razão da crescente crise ambiental e do esgotamento dos recursos naturais, estão surgindo tecnologias limpas ou reaproveitáveis, na linha do ecologicamente correto: "Mais uma da série papéis reaproveitáveis. A Xerox desenvolveu uma tecnologia que faz com que as informações impressas em seu papel experimental se apaguem em 24 horas, o que permite sua reutilização [28]".

Por fim, há outras tecnologias que são desenvolvidas foraou além do mercado, como nos casos já citados e em muitos outros — dos autômatos gregos à penicilina ou à descoberta de Albert Sabin: a vacina contra a poliomielite ou paralisia infantil. Entretanto, estes são exemplos de uma serendipidade independente do alcance do mercado — na verdade, essas pesquisas necessitam de outras formas de investigação e de abordagem [29]. Neste caso, o cientista/inventor é movido pela paixão e vocação, ou pela simples necessidade de criar — são beneméritos do conhecimento. Além do mais, dizer que as tecnologias usuais são capitalistas é pura demagogia, porque é claro que a não ser que descubramos o uso maciço de tecnologias pré-capitalistas, do tipo do artesanato puro (o que não existe mais), todas as tecnologias utilizadas são evidentemente capitalistas. Mas não há uma relação direta, um moto-contínuo, uma ditadura do mercado sobre a ciência.

O novo paradigma tecnológico foi uma resposta do sistema capitalista para superar suas contradições internas? Ou, alternativamente, terá sido uma forma de assegurar a superioridade militar sobre os rivais soviéticos, em resposta a seu desafio tecnológico na corrida espacial e nuclear? Nenhuma das explicações parece ser convincente. Embora haja coincidência histórica entre a concentração de novas tecnologias e a crise econômica da década de 70, sua sincronia foi muito próxima, e o "ajuste tecnológico" teria sido demasiadamente rápido e mecânico quando comparado ao que aprendemos com as lições da Revolução Industrial e de outros processos históricos de transformação tecnológica: os caminhos seguidos pela indústria, economia e tecnologia são, apesar de relacionados, lentos e de interação descompassada (Castells, 1999, p. 68).

O que nos leva, então, ao raciocínio obtuso em termos de tecnologia, em pleno século XXI? Será desinformação, má vocação ou ideologia? Veremos que isso é uma espécie de síndrome ou de fatalidade que leva o sujeito para o passado (como quase-Unabomber).


Síndrome do Pequeno Robô

Forma-se esta síndrome do pequeno robô quando algum tipo de "pequeno poder" advém de uma crítica verborrágica (anti-tecnológica, pseudo-científica) e do status de "pequeno-burguês", como um ator consumista e possuidor de bugigangas recém-lançadas. A contradição, nesses termos, não poderia ser mais evidente, ou mais exatamente porque se contradiz ao mundo real/virtual; opõe o pensar criativo à infindável necessidade de ter do ávido possuidor de quinquilharias; opõe-se ao curso civilizatório agregado desde a implementação das técnicas mais primitivas. Esse "robô alegre" (Mills, 1975), portanto, de tão distante do real, põem-se contra si mesmo.

O drama está em que o discurso tecno-fascista que está nos sábios, também está nos leigos, mas constam de eixos opostos: o primeiro, já vimos, está centrado na crítica aloprada (do capitalismo); o segundo está na adesão do consumo irrefreado, no senso comum que pensa que para ser moderno é preciso ter um blog. A diferença entre ambos, então, está no fato de que ao invés da adoração do pequeno-burguês, o sábio se julga acima de tudo e de todos, com sua crítica de estilo tecno-fascista (sic).

Vejamos como exemplo do farisaísmo desse adorador de badulaques eletrônicos, uma experiência de um jornalista americano, ao chegar em Paris. No saguão de desembarque já o esperava o motorista de um jornal francês que, conversando por um telefone sem fio preso à orelha, cumprimentou-o apenas com um gesto. Após uma hora de viagem, o jornalista, que também se mantivera atento ao "trabalho imaterial", percebeu que não se dirigiram nenhuma palavra — sequer o nome haviam dito: "Ele dirigiu, falou ao telefone e assistiu a um vídeo. Eu peguei carona, trabalhei em meu laptop e ouvi meu iPod. Só não fizemos uma coisa: falar um com o outro" (Friedman, 12/11/2006).

E qual não foi a conclusão do jornalista, que bem se aplica ao nosso ávido consumidor (crítico do valor de troca, mas cego ao valor de uso pessoal): "Queremos usar um iPod não apenas para ouvir nossas músicas, mas também para bloquear o resto do mundo e nos proteger de todo aquele ruído. Estamos em todo lugar – menos no lugar onde realmente estamos fisicamente" (Friedman, 12/11/2006). O que nosso ávido consumidor desconhece é que se sofre cada vez mais de uma crise aguda, chamada por de Friedman de: "atenção parcial contínua".

É certo que a crise ataca a todos (o que gera desconcentração, perda de memória), mas o drama é que nosso sábio consumidor se julga acima de todos e, portanto, diz-se imune à praga do consumo virtual. O nosso retrógrado consumidor (crítico apenas do valor de troca) se esquece que "é preciso desligar-se para pensar" — "é possível falarmos mais, e mais acertadamente, se também ouvirmos e prestarmos atenção nos outros sujeitos".

...sem a experiência de um parceiro de interação que lhe reagisse, um indivíduo não estaria em condições de influir sobre si mesmo com base em manifestações autoperceptíveis, de modo que aprendesse a entender aí suas reações como produções da própria pessoa. Como o jovem Hegel, mas com os meios das ciências empíricas, Mead inverte a relação de Eu e mundo social e afirma uma precedência da percepção do outro sobre o desenvolvimento da autoconsciência (Honneth, 2003, p. 131).

Todavia, como hoje pouco se vê o Outro, pela ação forte do niilismo,sempre se procura atacar aos demais. Em nome de uma salvação milagrosa, o tecno-fascista sempre prorroga a alteridade e a lateralidade para o amanhã, após a revolução do cotidiano, pois assim se desvencilha do seu-próprio-fazer. Mas, como diz Rolnik, não há devir sem alteridade e sem este "saber-fazer-próprio" (ou a antiga práxis):

Assim a alteridade e seus efeitos, embora invisível, é real: nossa natureza é essencialmente produção de diferença e a diferença é gênese de devir-outro. Se considerarmos que a processualidade é este devir-outro — ou seja, a corporificação, no visível, das diferenças que vão se engendrando no invisível [30] —, ganha maior consistência a idéia de que a processualidade é intrínseca à(s) ordem(ns) que nos constitui(em) (Rolnik, 1994, p. 161).

Em casos mais acentuados de ausência de alteridade, há uma cantilena de retorno a um passado idílico, mesmo que seja sob a capa de um ávido comprador (compulsivo, esquizofrênico), e aí teremos a sina do "pequeno-robô derrotado". Um pequeno robô com sonhos derrotados porque não se volta ao passado, nem se consome tudo o que se quer ou como se quer. Aqui, são casos típicos da "contradição viva do pensamento", do non sense.

O "pequeno robô" não entende que o mundo real/virtual é muito mais dinâmico, instável e contraditório do que prevê a sua vã-filosofia baseada nos modelos termodinâmicos. Aliás, desse modelo clássico, o que mais herdamos e menos compreendemos é exatamente a força criadora da entropia (Prigogine, 2002).

Por outro lado, o que aqui chamamos de crítica tecnológica, no melhor sentido filosófico, seria a interrogação ou interpelação da "tecnologia em si e no seu tempo". Portanto, trata-se de questionar, polemizar o conhecimento (até afrontá-lo em certos cânones), mas nunca aderir à crítica dos fracos: impugnar o interlocutor. Diferentemente disso, na incapacidade de se abordar honestamente e de superar o "argumento contrário", o discurso competente do tecnocrata (Chauí, 1990) e do tecno-fascista voltam-se à desqualificação pessoal do sujeito, do adversário. A diferença entre o tecnocrata e o tecno-fascista é que o primeiro constrói sua argumentação ideológica (retórica) à base da racionalidade e da funcionalidade: precisão nos métodos, eficiência e utilidade. O tecnocrata controla a distração e a dispersão com maior vigor e obtém mais êxito.

Do mesmo modo, o "empiriocriticismo" só enxerga o mau uso do consumo das tecnologias nas outras pessoas. Uma vez que dificilmente para ele há o parceiro, o Outro, este consumidor/aderente nunca vê a própria alienação, e esta seria a contribuição decisiva da autocrítica: aprender com os próprios erros.

Como são pseudo-cientistas, agem por meio de discursos falsos, enganadores, do pior tipo "hierocrático": "faça o que eu falo, mas não faças o que eu faço". Vivem dentro de casulos e por isso não abrem a caixa preta — a rigor, não abrem a caixa preta porque estariam abrindo a Caixa de Pandora (a maior surpresa seria a decepção consigo mesmo) e assim revelariam os esqueletos que guardam em seus armários.

Como nunca se reinventam, a consciência fica atrofiada como em Frankenstein [31]; predizem que as verdades estão postadas, pois alguns literalmente gritam com os outros: do método não abro mão! Certamente, para este tipo de positivismo mesquinho, a dúvida nunca poderá ser metódica; contrariando Descartes, pois o próprio método estará acima de qualquer dúvida.

Se um dia pudessem ler artigos como este, logo diriam que são vítimas da "crítica moral"; como se a moral fosse uma desgraça, um nada em si mesmo e assim se colocariam a salvo, acima da "crítica ética do dever-ser": como não há consciência "real", não há dever-ser, julgando-se irresponsáveis. Não parece que é preciso abolir a noção de certo/errado, principalmente quando em situações práticas, concretas, diárias:

O gari José Sebastião Breta, 43, varria uma rua de Cariacica (ES) quando achou, numa sacola de lixo, um malote com R$ 12.366. Devolveu o dinheiro uma semana depois e ganhou R$ 1.000 de recompensa [...]"Levei para casa. No início, achei que eram "800 contos". Quando vi que eram mais de R$ 12 mil, a gente apavorou", disse Breta, que contou à mulher, à irmã e à enteada que havia achado o dinheiro. "Até pensei em ficar com o dinheiro, mas a consciência doeu e resolvi encontrar o dono", afirmou [32].

O que diriam da honestidade do pobre, que é uma tolice no mundo capitalista? Esse pobre que recolheu a sacola, é um tolo que ainda houve a consciência e que, por isso, merece a vida miserável que leva? Mandariam todo mundo embolsar o que pudessem, neste mundo dos espertos?

O viés do totalitarismo stalinista ou da "doença infantil do esquerdismo" também os impedem de promover qualquer autocrítica.

Em suma, nunca um discurso foi tão velho quanto este: há uma crítica ao valor de troca, para justificar o modus operandi dos modernos fisiocratas: "consuma e deixe consumir". Via de regra, utilizam as melhores tecnologias para reproduzir os discursos mais envelhecidos e retrógrados. Este seu farisaísmo crítico forma-se, como vimos, de uma trinca: pequeno poder; robotização da consciência; consumo e crítica isolada do valor de troca. Por isso, para evitar o totalitarismo, é preciso buscar o desencantamento. Mas, agora, é preciso voltar ao passado (desencantamento do mundo)para pensar o "desencantamento do consumo".


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Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

MARTINEZ, Vinício Carrilho. Weber no mundo real/virtual: o direito à liberdade sem censura. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 11, n. 1277, 30 dez. 2006. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/9337. Acesso em: 3 dez. 2020.

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