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Artigo

A mulher na Idade Média.

Entre a Virgem Maria e Eva[1].

Denominar a Idade Média como Idade das Trevas é preconceito histórico, apesar de que a dominação religiosa teria impedido o desenvolvimento da razão, criando uma reverência ao atraso e primitivismo. Enfim, para os iluminados do Renascimento, era tida como

Resumo: Denominar a Idade Média como Idade das Trevas é preconceito histórico, apesar de que a dominação religiosa teria impedido o desenvolvimento da razão, criando uma reverência ao atraso e primitivismo. Enfim, para os iluminados do Renascimento, era tida como tempo de escuridão e das sombras pois, os renascentistas se colocavam como herdeiros do pensamento e das ciências desenvolvidas por gregos e romanos, fazendo renascer a cultura[2] da Antiguidade Clássica. Importante é enfocar o papel da mulher no contexto medieval onde foram rainhas, filósofas e freiras.

Palavras-Chave: Idade Média. Idade Medieval. História. Mulher. Rainhas. Poetisas. Direito.

 

Résumé: Appeler le Moyen Âge l'Âge des Ténèbres est un préjugé historique, malgré le fait que la domination religieuse aurait entravé le développement de la raison, créant un respect pour l'arriération et le primitivisme. Enfin, pour les éclairés de la Renaissance, elle était perçue comme une période de ténèbres, d'ombres, car la Renaissance s'est occupée en héritière de la pensée et de las sciences développées par les Grecs et les Romains, faisant renaître la culture de l'Antiquité. Il est important de se concentrer sur le rôle des femmes dans le contexte medieval où elles étaient reines, philosophes et religieuses.

Mots-clés: Moyen Âge. Âge Médiéval. Histoire. Femme. Reines. Poètes. Droit.

 

 

A mulher medieval era representada por figuras[3] como as rainhas, poetisas, filósofas e freiras[4]. Havia muito mais que uma mera donzela a ser salva do alto de uma torre. É verdade que a Idade Média foi onde predominou a cultura patriarcal e, assim persistiu, sem dúvida.

Assim como as classes sociais, os papéis das mulheres[5] eram vistos ortodoxamente e biblicamente determinados e, sempre citados nas ideias do apóstolo Paulo: "Mas quero que saibas que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus, cabeça de Cristo". A mulher não é simplesmente a vítima passiva sofrendo contínua opressão imutável. As noções medievais sobre as mulheres têm especial influência no papel da própria Virgem Maria, tida como a figura terrena mais importante de toda a cristandade e, então, cujo culto foi crescendo ao longo do período.

Tanto que o Papa Inocêncio III[6] em 1210 apesar de reconhecer a quão abençoada era Virgem Maria e ser mais ilustre que todos os apóstolos juntos, não foi a ela, mas a eles, que o Senhor confiou as chaves do Reino dos Céus. Portanto, tinha santidade, mas autoridade nunca[7].

Noutra extremidade residia outra figura bíblica: Eva, a tentadora, a que aceitou a maçã da serpente e a entregou a Adão, causando a queda da humanidade. Ao final da Idade Média, ocorreu o infame Malleus Maleficarum, o guia de caçar bruxas[8], mostrava como a ideia só havia se reforçado. Afinal, apesar de o Diabo ter tentado Eva a pecar, foi Eva quem seduziu Adão[9].

Eva foi, indubitavelmente, a primeira pecadora e os discursos medievais enfatizam seu erro, procurando analisar o que teria motivado sua atitude de desobediência às ordens divinas. E, diversos autores medievais refletem sobre tal questão, atribuindo diferentes razões para o pecado da mulher.

Refletindo-se sobre os diferentes arquétipos presentes na Bíblia, entre os quais salienta os estereótipos femininos, e afirma a importância dos textos religiosos como formadores de concepção de feminino que inclusive ultrapassa ao período medieval.  

A caça às bruxas é um movimento de perseguição religiosa e social cujo período clássico foi iniciado no século XV, atingindo seu apogeu nos séculos XVI a XVIII, principalmente na Alemanha, Escandinávia, Inglaterra, Escócia, Suíça, e, em menor escala na Polônia, Rússia, Finlândia, Islândia, Irlanda, França, Portugal, Itália, Áustria e Império espanhol. Uma obra mais expressiva sobre o tema, mas que não fora reconhecido pela Igreja Católica é intitulado de "Martelo das Feiticeiras", em latim Malleus Maleficarum de 1487[10].

Juntamente com outros grupos minoritários que viviam na sociedade católica, tal como os judeus, havia mulheres que foram catalizadoras do imaginário medieval, sendo consideradas criaturas com forte ligação com sobrenatural. E, por esta razão, por conta dessa natureza, eram vistas e tratadas com desconfiança, medo por parte dos homens.

Tal especial olhar sobre o feminino deixou evidente quando os tribunais da Igreja Católica da Idade Média e as bulas papais tenham combatido a heresia praticada por ambos os sexos, a maioria esmagadora dos réus e condenados eram mulheres. Com base em arquivos judiciais no Norte da França entre os meados do século XIV e ao final do século XVII, o historiador Jean-Michel Sallman confirmou que em meio duzentos e oitenta e oito casos de bruxaria, havia uma proporção de oitenta e duas mulheres para cada cem casos. Portanto, a grande maioria destes.

A perseguição às bruxas galgou seu apogeu no século XV, quando se deu maior registro de fogueiras ocorrendo 1455-146- e 1480-1485.

Então, o pecado de Eva não teria trazido morte para nosso corpo e alma se o pecado não tivesse sido transmitido depois a Adão[11]. A visão dos homens medievais sobre as mulheres era determinada por essa dualidade bipolar, de ser imaculada e assexuada tal como a Virgem[12], ou uma tentadora sexualizada tal como Eva.

No começo da Idade Média, as mulheres sequer respondiam juridicamente. Afinal era o marido que poderia ser julgado e condenado por falhas da esposa. E, a partir do ano 1000, começaram a aparecer como rés em processos penais, sem uma decisão formal, mas representava uma mudança de jurisprudência[13].

O estupro, por exemplo, era inicialmente considerado como ofensa contra o marido ou o pai, com as leis na Dinamarca de 1170, sendo as primeiras a reconhecer expressamente um crime contra a mulher. Geralmente, por todo período medieval, pairava enorme desconfiança de que a vítima havia "tentado" o estuprador.

As mulheres sempre conheceram o esquema de dupla jornada pois além de cuidar dos filhos, da casa, fazer roupas, começando pelo tear até a fabricação de cerveja, aliás, tido como ofício feminino, como uma forma de cozinha até o século XV, as camponesas tinham que ajudar na colheita e as mulheres e filhas de artesãos e comerciantes urbanos ajudavam no trabalho ou até na loja, servindo em estalagens e tavernas. E, quando o marido morria, elas herdavam o negócio.

A mulher, na nobreza, para qualquer trabalho ou ofício que não fosse intelectual ou militar era vista como inferior, as mulheres viviam mais ou menos numa espécie de ócio confinado, e isso era encarado como símbolo de status. E, havia uma saída dentro do esquema que era o convento[14]. Após o estabelecimento da vida monástica católica, antes da queda de Roma, no século V, era a opção a quem quisesse se dedicar aos estudos e, principalmente, a oração, escapando assim do fatídico casamento[15].

Afinal, era uma saída considerável pois poderia angariar poder e influência. A Santa Hilda de Whitby (614-680) se tornaria uma das mais relevantes figuras da cristianização da Grã-Bretanha, ao fundar a Abadia de Whitby e a presidir, como abadessa, sobre homens e mulheres. Sob esta, o Sínodo de Whitby decidiu que o reino da Nirtúmbria, o que seira, a futura Inglaterra e adotaria os ritos.

As duas abadias que administrou eram mistas: Hilda era superiora tanto da comunidade masculina quanto da feminina, que moravam em alas separadas, mas se reuniam para as orações na igreja abacial. Reis e princesas buscavam o conselho de Hilda e cinco monges da sua abadia se tornaram bispos.

Já Santa Hildegarda de Bingen[16] (1098-1170) foi polímata que se dedicou a música, as ciências naturais, medicina, filosofia e teologia, ao ponto de ser apelida de Sibila do Reno (oráculo do Reno).

A abadessa alemã teve expressiva produção intelectual tanto que escreveu sobre medicina, linguística, música e ciências naturais e compôs música para ser usada na liturgia de seus mosteiros, bem como o único drama musical medieval cuja letra e música[17] chegaram aos nossos dias. Muitos se dirigiam a ela para se aconselhar: conservam-se centenas de cartas dirigidas a bispos, monges, monjas, abades e ao imperador Frederico Barbarossa, a quem recriminou severamente quando do seu apoio a três antipapas[18].

Em verdade, a sociedade da época não lhes negava espaço a partir de determinações político-religiosas, como bem nota a historiadora Regine Pernoud[19], no livro “O Mito da Idade Média”:

      “[…] certas mulheres desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era espeitado de um modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias”.

Joana D'Arc[20] foi uma adolescente que comandou soldados e, ainda hoje, é um dos assuntos mais debatidos do medievalismo. A camponesa que aos dezessete anos vestida de homem foi levada à Corte do Delfim (herdeiro do trono) Carlos VII da França, em 1429, pedindo para ir para o campo de batalha, após afirmar ter tido visões de São Miguel, Santa Margarida e Santa Catarina dizendo para expulsar os ingleses do país.

Um minucioso exame de sua vida foi ordenado e concluiu que era uma cristã ilibada, provavelmente sincera. Diante disso, o rei corria risco de perder a graça divina se não a testasse. Assim, Carlos deu a ela uma armadura e a enviou para a frente do combate com uma bandeira. Essa seria sua arma. Por seu próprio testemunho, Joana não matou ninguém, apenas motivou e deu conselhos.

É verdade que rainhas com poder real e não consortes, esposas do poder eram raras, mas as que existiam podiam ser decisivas. A lei que permitia mulheres a governarem variava conforme o país. Nenhum, exceto o reino basco de Navarra, adotou a primogenitura absoluta, de que a filha ou filho mais velho assume, independentemente do gênero[21].

A maioria dos reinos tentava coroar o primeiro dos filhos homens, e apenas na ausência destes, as filhas. Outros reinos, preferiam passar o poder a um irmão do rei, ou sobrinho ou parente até mais distante ainda. Em casos nebulosos e que geravam confronto, coo foi o de Beatriz de Portugal[22] que chegou a ser reconhecida por poucos meses em 1383, mas perdeu o trono para o tio.

Em casos mais extremados, em países onde se seguiam as normas derivadas da Lei Sálica[23] da época do rei franco Clóvis (466-511), não só uma mulher nunca poderia ser feita rainha, como alguém sequer podia clamar um trono por parte de mãe (isto é, por ser filho de uma filha do rei). Mas, mesmo nesses casos, as rainhas podiam acabar governando como regentes, quando se tornavam viúvas, em nome de seus filhos menores de idade.

Portugal conheceu uma rainha mesmo antes de ser reino, foi Teresa de Leão (1080-1130) era ilegítima filha do Rei Afonso VI de Leão e Castela e herdou dele o título de Condessa de Portucale, poder passado ao marido, Henrique de Borgonha, em seu casamento[24] em 1093. Porém, com a morte desse veio a assumir o poder do condado em 1112 e, em 1116 foi reconhecida como rainha pelo Papa Pascal II.[25] Porém, seu período imperial foi de guerra, batalhou com a também rainha Urraca, de Leão, Castela e Galícia, que, por sua vez, se declarava Imperatriz de toda a Espanha (a Península Ibérica).

Em 1121, a rainha portuguesa acabou derrotada e forçada a admitir o status de vassalados dos reinos espanhóis. E, não foi o fim da violência, pois em 1128, Teresa fora deposta pelo próprio filho Afonso. E, a causa foi um romance desta com o Conde Fernando Pérez de Traba, da Galícia, que a havia apoiado contra Urraca e, temiam os nobres portugueses, dominaria o país. Afonso seria considerado oficialmente o primeiro rei de Portugal, mas vários historiadores preferem reconhecer o título a Teresa.

Apesar de não terem o poder formal, as rainhas podiam deter enorme e poderosa influência, foi o caso de Leonor de Aquitânia (1122-1204) que foi rainha consorte tanto da França como da Inglaterra (1154-1189). E, como Rainha da França participou da Segunda Cruzada[26]. Veio perder o trono ao ter seu casamento anulado em razão de consanguinidade.

Em verdade, era mero pretexto aceito pelas duas partes, porque o casal se odiava. Era casada com Henrique III da Inglaterra e teve oito filhos, entre estes, o famoso Ricardo Coração de Leão[27]. A rainha acabaria encarcerada por dezesseis anos, entre os anos de 1173 a 1189, após incentivar seus filhos a tentar tomar o trono do pai, numa guerra civil que durou por dezoito meses, e na qual milhares de vidas padeceram. Os filhos foram perdoados, mas não a Rainha.

Quando finalmente Henrique III morreu, Leonor saiu da prisão para assumir o trono inglês, regendo em nome de seu filho Ricardo Coração de Leão, enquanto este lutava na Terceira Cruzada[28] (1189-1192). Registra-se que seu legado mais duradouro foi na cultural, pois dizem que foi responsável pela invenção do amor[29], ou seja, o conceito atual de amor sexualizado. E, por toda sua vida, atuou como preciosa patrona das artes, principalmente, da música, poesia e literatura.

Nos anos anteriores à sua prisão, entre 1168 a 1173 sua corte instalada em Poitiers, na França, ganharia a alcunha de Corte do Amor, onde, provavelmente, conta a lenda que o amor era livre e Leonor e seus filhas encabeçavam disputas entre amantes.

Os artistas patrocinados pela Rainha Leonor[30] disseminaram a noção que vinha de antes, mas que teve impulso decisivo, criando o chamado amor cortês[31], idealizado, sexual, e geralmente, impossível, bem típico de romances de cavalaria. E, que resultou no que atualmente chamamos de amor romântico[32], visto como o ideal. Ressalte-se que antes, a atração sexual era mais ou menos malvisto sendo algo iníquo e separado do amor no casamento.

 Em paralelo, nos burgos ou cidades, a nascente classe da burguesia[33] vinda de artesãos cada vez mais ricos, passava por idas e vindas. E, alguns ofícios, tal como a tecelagem e cervejaria, eram encarados como tipicamente femininos e tinham as guildas femininas.

A título ilustrativo, a Guilda de São Lucas foi a mais famosa de pintores e outros artistas no início da Europa moderna, especialmente nos Países Baixos. O nome é uma homenagem a um dos Evangelistas, São Lucas, o santo padroeiro dos artistas, que supostamente pintou a Virgem, de acordo com João Damasceno. O termo “guilda” vem do germânico arcaico “gelth” e significa “pagamento”, posto que os trabalhadores associados pagavam uma quantia regularmente a fim de manter o funcionamento destas associações de mutualidade.

As “masculinas senhoras” aceitavam as viúvas como seus membros e até podia ascender a posição de mestres no ofício. E, assim, elas passaram a ocupar e exercer algumas profissões que ainda hoje são popularmente vistas como sendo masculinas.

Registra-se que nessa época surgiram os escritos[34] precursores do feminismo, o de Cristina de Pisano ou Christine Pisan (1363-1430) que era filha de um alquimista veneziano e teve uma educação incomum. Ao perder seu esposo, já com três filhas pequenas, em 1390, acabou forçada a encontrar outro meio de vida: a literatura.

Em seu tesouro da Cidade das Mulheres, Cristina comentou comentando como se sentia deprimida, uma aberração da natureza, e ao ler texto de um famoso da época falando de mulheres. Recebeu então uma visita das três virtudes cristãs, a saber: fé, esperança e amor. Tais virtudes a convidaram a construir a Cidade de Mulheres, um reduto para abrigar as almas das mulheres virtuosas da história e, recebeu ainda nova virtude que irá acompanhá-la sempre, a razão.

Nos seus três volumes, a escritora comentou sobre a vida de mais de cento e cinquenta mulheres da história, da mitologia e algumas contemporâneas. Entre as figuras estão: a Virgem Maria, a heroína bíblica Judite[35], diversas santas e, também a poetisa de Safo de Lesbos, cujos versos originaram à expressão lésbica.

Também comentou diversas vilãs tal como a Medusa, as amazonas, e a esposa de Júpiter (Zeus), Juno (Hera)[36]. A deusa Khali, na Índia, reflete a ligação da vida e morte que cerca a mulher. A lua promoveu a relação da mulher com a noite e ao desconhecido da morte. A contradição desta é o paradoxo vinculado à vida e morte, e tal visão alcançou seu auge na Idade Média. Bushee, no irlandês antigo ban síde (mulher fada) não deixa dúvida sobre suas origens na mitologia celta.

A representação da Bashee varia de acordo com a narrativa em que ela surge. Na maior parte dos casos relatados na literatura medieval é apresentada como uma mulher velha vestida de cinza ou branco e que é vista lavando roupas sujas de sangue de alguém que morreu. E, seus olhos são vermelhos em virtude desta sempre estar chorando. Independentemente de sua aparência, o traço comum as bashees é grito ou lamento que estas emitiam na morte de membros das famílias tradicionais da Irlanda, como aquelas cujos nomes são precedidos de O' ou Mac.

As mulheres na Idade Média, além de exercerem o papel tradicional previsto pela sociedade[37] de esposas, mães e filhas, também se ocupavam de diversos outros papéis sociais.

Muitas mulheres tinham uma profissão ou ofício e até conduziam alguma forma de negócio sem a tutela de seus respectivos maridos, de forma autônoma.

Segundo os registros documentais de Paris do século XIII, apresentaram mulheres como professoras, médicas, boticárias, tintureiras, copistas, miniaturistas, encadernadoras, arquitetas, mas também em alguns papéis de liderança relevantes tais como abadessas e rainhas.

As mulheres possuíam o direito de voto nas comunas burguesas[38]. Entre os aspectos influenciadores na vida feminina era a baixa expectativa de vida, particularmente na Alta Idade Média[39] e a ascensão social das guildas e corporações de ofício na Idade Média Central e a Baixa Idade Média.

A maior forma de marginalização feminina na Idade Média era a prostituição[40] que, em todos os casos iniciava por volta dos dezessete anos, mas um terço destas se vendia antes dos quinze anos. A metade era submetida mediante violência e, certa de uma quarta parte tinha sido prostituída pelas suas famílias e, apenas cerca doze por cento das mulheres vendiam o corpo por iniciativa próprio e sem qualquer tipo de coerção.

A mulher foi muito afetada por conta do Corpus Juris Civilis[41] que mitigou a liberdade feminina, o que a conduziu a forte declínio no status social no período. O direito romano e seu ressurgimento em relação ao direito consuetudinário medieval[42], configurou uma particular perda, especialmente, para as mulheres, pois permitia à mulher conservar o que lhe pertencia antes do matrimônio e, a educação dos filhos era exercida em parceria pelo pai e a mãe. O estatuto da mulher dentro da Igreja Católica era bem similar ao da sociedade civil, mas, aos poucos foi sendo modificado, especialmente, no final da Idade Média e o início da Idade Moderna.

Naquela época, a liberdade da mulher era restrita na medida em que a figura do pater familias[43] tinha o poder sobre vida e morte sobre a mulher e dos filhos. E, consignava o direito romano adotado que a mulher passava estar sob a proteção dos pais e, depois de casadas, dos maridos. E, a maioridade era de vinte e cinco anos[44], o que resultava num maior tempo de influência dos pais sobre os filhos.

Foi somente no final do século XVI, através de Decreto do Parlamento Francês de 1593, que a mulher foi expressamente afastada de sua participação em funções públicas naquele país. Assim, a presença e atuação da mulher se limitava ao lar e a educação da prole.

Ao fim do período medieval a Rainha Isabela I de Castela[45] e seu marido Fernando II de Aragão, conhecidos como os Reis Católicos que concluíram a Reconquista da Espanha e que financiaram a viagem de Cristóvão Colombo, iniciaram a inquisição espanhola que expulsou, converteu e, ainda, reprimiu os judeus e islâmicos que viviam no Reino de Aragão.

Apesar da condição da mulher ser encarada com peja negativa, e com a Igreja Católica apregoando a necessidade de enclausurar as mulheres, as monjas[46] não se deixaram intimidar por estas teorias que justificavam a inferioridade[47] da mulher naquele momento histórico.

Para os alentados teóricos e teólogos, a clausura tinha como objetivo defender dois importantes pilares da virtude feminina, a saber: a virgindade e a castidade e, a partir do século XIII começou a se delinear um progressivo avanço da tutela masculina sobre as monjas.

Apesar que o referido processo está eivado de episódios conflituosos que tanto refletem a resistência destas mulheres. E, a resistência que constrói todos os dias, um mundo mais livre e capaz de oferecer o respeito a dignidade da pessoa humana[48].

 

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Sobre a autora
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Gisele Leite

Professora universitária por mais de duas décadas. Mestre em Direito, mestre em Filosofia. Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas. Articulista das revistas e sites jurídicos renomados. Consultora do IPAE.<br>

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