RESUMO
Temas como intolerância religiosa, racismo e escravidão são assuntos discutidos em nossa sociedade e em todo o mundo. Algumas tendências de pensamentos e ações surgem como uma forma de combate a atitudes agressivas impulsionadas pela crença que prega a existência de raças superiores, sendo esse um argumento utilizado para justificar o domínio enquanto forma de poder e que conduz à escravidão não só do corpo, mas da alma, da cultura, de um povo. Dessa forma, a finalidade deste trabalho é expor a figura do professor enquanto colaborador na construção da autoestima de crianças negras e disseminador de conhecimento e investigar os reflexos do preconceito racial no processo de ensino e aprendizagem dos alunos. Além disso, busca-se identificar procedimentos utilizados pelos professores para trabalhar o preconceito racial em sala de aula, e dessa forma, amenizar os danos sofridos.
Palavras-chaves: Racismo. Preconceito. Discriminação. Criança.
RACISM, DISCRIMINATION AND THE ROLE OF TEACHERS IN BUILDING THE SELF-ESTEEM OF BLACK CHILDREN
ABSTRACT
Themes such as religious intolerance, racism and slavery are issues discussed in our society and around the world. Some tendencies of thoughts and actions appear as a way to combat aggressive attitudes driven by the belief that the existence of superior races, which is an argument used to justify domination as a form of power and that leads to slavery not only of the body, but of the soul, of the culture, of a people. Thus, the purpose of this work is to expose the figure of the teacher as a collaborator in the construction of self-esteem of black children and a disseminator of knowledge and to investigate the consequences of racial prejudice in the teaching and learning process of students. In addition, it seeks to identify procedures used by teachers to work on racial prejudice in the classroom, and in this way, alleviate the damage suffered.
Keywords: Racism. Prejudice. Discrimination. Kid.
1 INTRODUÇÃO
A pluralidade étnica no Brasil é produto de um processo histórico. Nesse cenário foram introduzidas diversas culturas, como a indígena, a africana, a portuguesa e posteriormente outras culturas trazidas pelos imigrantes, como a italiana e a japonesa, entre outras, tão presentes na miscigenação cultural de diversas regiões do Brasil.
Com a não adaptação dos índios ao trabalho forçado e a pressão da igreja para a sua não escravização, sob argumento de serem apropriados para a catequização, passou-se a escravização dos negros. Por volta de metade do século XVI, o tráfico negreiro já era oficializado no país e ocorria de maneira intensa.
Após a abolição da escravidão, cujo processo foi lento e gradual, a implementação de um novo modelo social encontrou muita resistência no Brasil, pela carência de mão de obra. Eliminar essa instituição aceita por mais de três séculos é uma batalha que se perpetua até os dias atuais.
Sendo assim, todo preconceito racial que existe no país e nas salas de aulas é reflexo do processo histórico da sociedade brasileira. Apesar de muitas lutas travadas ao longo dos séculos, os negros permanecem em situação de desigualdade até hoje, muitas vezes sendo marginalizados e excluídos da sociedade.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 Projeção histórica da presença do negro no Brasil
Para se ter uma melhor reflexão do que vai ser destacado nesta pesquisa, é fundamental conhecer os conceitos de racismo e preconceito, e a projeção histórica do negro no Brasil.
A formação histórica do Brasil se constituiu entre a miscigenação e exploração de diversas etnias, com destaque para os negros, explorados pelos europeus e trazidos para o país em navios como forma de mercadoria.
É evidente que essa formação não foi uma justaposição em que as condições particulares de cada raça foram respeitadas. Afinal, houve imposição dos padrões portugueses brancos aos índios e aos negros.
Conforme Jaccoud e Beghin apud Santana (2011, p. 5), o racismo é considerado uma ideologia que apregoa a existência de hierarquia entre grupos raciais. Ou seja, criou-se o conceito de que os negros são inferiores aos brancos e, apesar de toda luta dos negros para acabar com essa ideia, percebe-se que ele ainda se propaga na sociedade brasileira.
De acordo com Cavalleiro (2007), o Brasil é um país que possui a maior população negra do mundo fora do continente africano. Mas, não obstante mais da metade da sua população ser negra, o indicador de racismo existente ainda é muito alto. Para Costa (2008, p. 24):
[] o racismo, executado pela discriminação racial confere aos negros uma condição histórica de exclusão. A negação do racismo orientou o discurso oficial brasileiro durante décadas e serviu para acentuar ainda mais as desigualdades sociais e as mazelas que recaem sobre a população negra.
Embora a sociedade brasileira tenha tentado transmitir para o mundo que existe uma relação de harmonia entre os diferentes povos, o racismo nunca deixou de existir, visto que a população negra sofre até hoje com a discriminação racial e as desigualdades. Neste sentido, o preconceito racial persiste de modo camuflado e na maioria das vezes é manifestado por meios indiretos, como brincadeiras, piadas e apelidos maldosos. Para Verçosa (2012, p. 16):
Apesar das formas camufladas em que se manifesta, é evidente que o racismo impere no Brasil, são muitas as barreiras sociais e consequências que o mesmo promove, pois a grande maioria da população afro-brasileira sofre e, por conta disso, surgem as ações de inclusão social muitas vezes discutidas pelos movimentos sociais e governo na tentativa de combater as permanentes formas de preconceito racial que permeiam as relações raciais e humanas no Brasil.
Essas tentativas de combater o preconceito racial e quebrar as barreiras sociais não foram eficazes, pois até hoje a população negra sofre com as desigualdades e o preconceito está presente no cotidiano dos indivíduos, acarretando inúmeras desvantagens, além do prejuízo psicológico, devido às vivências traumáticas.
Logo, o racismo gera desconforto e aquele que o sofre acaba tendo que, na maioria das vezes, conviver com experiências desagradáveis por toda a vida, causando assim, uma sensação de inferioridade e não valorização pessoal.
2.2 Função social da postura do educador em relação a discriminação racial
O educador deve contribuir para a formação de uma identidade cultural e nacional, ressaltando a diversidade e a riqueza que temos em nosso país. O despreparo dos professores é visível quando a eles é pedido que trabalhem em temas geradores, como é o caso do racismo. Além disso, os livros didáticos estão repletos de lacunas que devem ser preenchidas [] (PEREIRA, 2011).
Neste sentido, podemos perceber que os professores devem buscar o aperfeiçoamento nessa área, para que assim possam desenvolver um melhor trabalho em sala de aula. A temática requer muito estudo e preparação para lidar com as diferentes situações que ocorrem no cotidiano da escola, relacionadas ao preconceito racial. Segundo Moreira (2010, p. 2):
Tendo uma preparação apropriada, o professor poderá mostrar de forma clara, que a diferença e a diversidade, não são fatores de superioridade ou inferioridade, mas sim, um complemento para enriquecer o processo de construção individual e coletiva, dando principalmente, ao aluno negro a oportunidade de absorver com dignidade sua essência cultural, que foi usurpada na tentativa de introjetar aspectos europeus e promovendo um verdadeiro estupro cultural transformando o afro-brasileiro em filhotes da Europa. (sic)
É essencial que os professores sejam capacitados para trabalharem com questões relacionadas às diferenças existentes em sala de aula, uma vez que a mesma é composta por uma grande diversidade. Cada educando é possuidor de uma cultura e deve ser respeitado por isso (SILVA, 1995).
Nesta perspectiva, cabe ao educador a tarefa de fazer a mediação entre a criança e o conhecimento acumulado em uma cultura, possibilitando que a criança construa conhecimentos acerca do mundo físico e social e de si mesma (REGO, 1998).
2.3 Importância da autonomia de crianças negras nas escolas
Para o empreendimento da autoestima nas crianças negras, é preciso desconstruir a imagem inferiorizada que o negro tem na sociedade, eliminando diversos estereótipos ocidentais que foram cravados na sociedade ao longo dos séculos.
O preconceito racial afeta diretamente o desenvolvimento da criança negra, que se torna uma criança passiva.
Falar em autoestima de crianças pequenas significa compreender a singularidade de cada uma delas em seus aspectos corporais, culturais e étnico-raciais (SOUZA; CROSO, 2007). A autoestima está diretamente ligada à autoimagem; em uma sociedade degradada pelo preconceito e pelo racismo, a valorização do negro e sua cultura são maneiras fundamentais de demonstrar a importância do negro na sociedade.
As práticas dos professores em sala devem ser norteadas na perspectiva de incluir os diferentes sujeitos, e formulando atividades inovadoras que estabeleçam o convívio pacífico e democrático no ambiente escolar [] (PEREIRA, 2011).
Deste modo, crianças negras começam a se sentir parte integrante do processo educacional.
3 METODOLOGIA
Este trabalho foi realizado com base em pesquisas bibliográficas que possibilitaram o pesquisador de ter um contato direto com documentos que abordaram o tema estudado, proporcionando assim um aprofundamento teórico da temática.
Foi realizada também, uma pesquisa descritiva para obter uma investigação mais detalhada, permitindo uma análise do problema de pesquisa em relação aos aspectos sociais, econômicos, políticos, percepções de diferentes grupos, comunidades, entre outros aspectos.
4 DISCUSSÃO
Nesta seção, serão feitas as comparações entre os resultados encontrados na pesquisa, e os autores que tratam do assunto estudado e exposto por este trabalho.
4.1 Projeção histórica do negro no Brasil
Considerando o assunto tratado neste trabalho, e as hipóteses por ele desenvolvidas, é marcante o fato de que o racismo é uma das formas de discriminações mais antigas e presentes na sociedade atual.
Conforme os autores citados, o preconceito racial, por sua vez, limita-se à construção de uma ideia negativa sobre alguém, produzida a partir de uma comparação realizada com o padrão que é próprio àquele que julga. Assim, acredita-se que a cor da pele é algo que faz um ser melhor do que o outro.
As abordagens sugerem que a diminuição das expressões do racismo seria mais aparente que real, pois as atitudes preconceituosas que não desafiam abertamente as normas atuais antidiscriminatórias persistiriam no interior das consciências dos indivíduos. O que há em comum neste conjunto de teorias é a ideia de que a discriminação manifesta que supõe crenças na inferioridade do grupo discriminado e rejeição do contato íntimo com os membros deste grupo está sendo substituída por formas mais sutis de discriminação.
Neste processo de globalização cultural, intensificam-se as relações entre as diferentes culturas e etnias, fato que produz uma certa ambiguidade. Se, por um lado, cresce o respeito à diversidade de valores culturais, por outro lado, emergem fortes pressões para a manutenção das identidades e valores culturais regionais.
Acerca da projeção histórica no negro no Brasil fica claro que o racismo gera mais discriminação, e aquele que o sofre acaba sendo obrigado, na maioria das vezes, a conviver com ele.
4.2 Função social da postura do educador em relação a discriminação racial
A formação dos profissionais da educação é de suma importância, visto que estes são responsáveis pela formação dos educandos; por isso, se faz necessário que sejam preparados para exercer a função de professor, com formação específica na área em que atua. Os professores também devem estar em contínuo processo de aperfeiçoamento, buscando novos conhecimentos e revendo a sua prática.
Podemos perceber que os professores não alcançaram, ainda, total êxito nessa tarefa. A discriminação racial é uma temática que requer muito estudo e preparação para lidar com as diferentes situações que ocorrem no cotidiano da escola, relacionada ao preconceito racial.
Trazer para as aulas conteúdos de história da África e do Brasil africano é fazer cumprir o grande objetivo dos educadores. Levar a reflexão sobre a discriminação racial, valorizar a diversidade étnica, gerar debates, estimular valores e comportamentos de respeito e solidariedade é dar um passo no caminho da reconstrução de uma história do nosso passado que ainda precisa ser compreendida. Ao ouvir as vozes que estão presentes no cotidiano escolar, mais perto é a proximidade com problemas sociais de nosso país.
Os professores devem trabalhar a temática em sala de aula para tentar desmistificar a impressão negativa que se criou sobre a população negra, e isto só será possível quando estes assumirem o compromisso de fazer com que os seus alunos possam refletir sobre essa questão.
Identificar e corrigir a ideologia, ensinar que a diferença pode ser bela, que a diversidade é enriquecedora e não é sinônimo de desigualdade, são passos para a reconstrução da autoestima, do autoconceito, da cidadania e da abertura para o acolhimento dos valores das diversas culturas presentes na sociedade.
Sendo assim, a sociedade em si tem uma grande contribuição para efetivação do preconceito, visto que, alimenta constantemente imagem negativa criada sobre o negro. Se os professores não assumirem o compromisso de desmistificar esta imagem, o preconceito não só vai continuar, como vai se expandir cada vez mais, fazendo com que os negros continuem sendo humilhados pela sua cor.
4.3 Importância da autonomia de crianças negras nas escolas
Quando uma criança é vítima do preconceito racial, a ela são acarretados alguns problemas de interação social que influenciam no processo de desenvolvimento da sua aprendizagem. Diante disso, nota-se
a importância dessa mesma criança galgar autonomia nas escolas.
A identidade da criança é construída a partir da trajetória escolar, onde ela passa a conviver cotidianamente com as demais; quando essa convivência é marcada por conflitos, ela tende a criar uma imagem negativa de si mesma, e acaba tendo vergonha de sua origem.
Neste intuito, é preciso que a escola pare de se omitir diante desse fato, uma vez que ao silenciar, está contribuindo para que o desrespeito contra o negro continue. Faz-se necessário trabalhar este assunto de forma esclarecedora, mostrando aos alunos a importância do negro para a nossa sociedade, favorecendo assim, a construção da sua identidade, visto que, o aluno negro precisa se reconhecer como negra e se sentir bem na sua identidade.
Um dos principais fatores que a criança negra a apresentar um baixo rendimento escolar é o fato dela sofrer com a discriminação, que acaba desestimulando-a e gerando falta de interesse para com os estudos.
Diante disso, a legislação buscou reafirmar, pelo
menos parcialmente, a necessidade do conhecimento da real história da África e dos africanos. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional dispõe (BRASIL, 1996, p. 11):
Art. 26. § 4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e européia.
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
§ 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.
Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objeto geral deste trabalho foi analisar as implicações no processo de ensino e aprendizagem da criança negra para o qual buscamos esclarecimentos de como o preconceito racial pode interferir no desempenho da criança negra, bem como procurou saber se o professor está preparado para trabalhar a diversidade étnica e racial em sala de aula.
E também, propor uma abordagem crítica a respeito desta temática, para que se possa estabelecer uma compreensão do porque a cor da pele ainda é alvo de preconceitos e discriminações.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 9.394/1996. Institui as diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394compilado.htm>. Acesso em: 19 nov. 2021.
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto, 2007.
COSTA, Angelo Roger de França. A problemática racial na política de assistência social no Brasil: o Desafio da Especificidade Negra. Brasília, 2008.
MOREIRA, Eryson de Sousa. A construção social do indivíduo negro no âmbito escolar. Cachoeira-BA, 2010.
OLIVEIRA, Idalina Maria Amaral de. A questão racial na escola. Paraná. 2014. PEREIRA, Simone. Racismo, preconceito e discriminação. Guarabira PB: 2011.
REGO, Teresa Cristina. Diferenças e Preconceitos na Escola. São Paulo: Summus, 1998.
SANTANA, Malsete Arestides. Discriminação racial no cotidiano escolar: o que dizem as diretoras. Salvador, 2011.
VERÇOSA, Alzenite de Araújo. Racimo na escola: o silêncio fala mais alto. Ouro Preto, 2012.