A defensora e o defensor público e sua humanessência

04/06/2022 às 00:15
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“Neste mundo que nos açoita de incertezas, necessitamos regressar às nossas humanessências. Já tive medo de não reencontrá-las em mim." Mia Couto


A Constituição da República de 1988 ergueu a cidadania e a dignidade da pessoa humana como fundamentos do Estado Democrático de Direito, consagrando em seu art. 1º  o princípio da cidadania (inciso II) e a dignidade da pessoa humana (inciso III). Já em seu art. 3º o princípio da solidariedade (inciso I) e a  promoção do bem de todos, sem qualquer discriminação  (inciso IV). No art. 4º a prevalência dos direitos humanos (inciso II) e no caput do art. 5º a premissa de que todos são iguais perante a lei, contudo o seu inciso I  traz a reafirmação do princípio da igualdade como o primeiro dentre todos, para que os cidadãos possam efetivar a sua cidadania.

O art. 134 da Constituição Federal, dispõe que  a Defensoria Pública  é uma  instituição permanente e independente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da mencionada Carta.

Todavia seria reducionista pensar que a função da Defensoria Pública é meramente judicial ou que isso seria um fim de si mesma. Entre as funções da Defensoria está inserida a orientação a promoção dos direitos humanos e da cidadania, aliás, uma das principais áreas de sua atuação.

Na verdade é a Defensoria Pública a instituição que equilibra o sistema de Justiça, diminuindo as desigualdades sociais, proporcionando a todo cidadão hipossuficiente e vulnerável o direito a jurisdição, o que equivale a dizer que é a instituição que garante o acesso efetivo à Justiça.

E imbuída nesse espírito da promoção dos direitos humanos e da cidadania que desenvolvi todas as atividades da arte defensorial.  Amei defensorar e, antes de me aposentar, um atendimento em particular me marcou nos idos de 2016, quando expedi uma correspondência a uma assistida, solicitando o seu comparecimento, no prazo de 10 dias, para apresentar rol de testemunhas. Passado três meses, se apresenta a assistida com a referida carta na mão, no meu primeiro atendimento do dia.

Sentada a minha frente, dou-lhe uma lição sobre processo judicial, suas fases e prazos e, justamente, por isso determinei a ela os dez dias para atender a Justiça.

Após o meu discurso ela respondeu: “- Doutora, não tinha dinheiro pra vir aqui. Estou desempregada e a procura de trabalho e somente, hoje, consegui emprestado o valor de uma passagem - a de vinda. Vou retornar a pé e não tomei café até agora".

Imediatamente, muito constrangida, disse-lhe: vamos tomar café juntas. E ela respondeu que não precisava. Pedi, então, que me acompanhasse, pois também estava sem nada no estômago (claro que eu havia tomado meu fausto café da manhã, mas a vergonha do meu privilégio me chocou). Cortei um pedaço de bolo e servi com uma xícara de café. Pedi que me contasse sua história. Relatou da filha, do companheiro que não deu certo, da ausência do pai de sua filha e as suas obrigações alimentares, da sua responsabilidade materna, de morar em um barraco no fundo da casa da mãe, da falta de oportunidade de trabalho e que o último emprego foi como caixa de supermercado.

Retirou da bolsa um currículo amassado, composto de uma folha.

Lembrei-me de ter visto no supermercado do Shopping Diamonds, aqui em Belo Horizonte, na época, a um quarteirão do prédio da Defensoria, um aviso de "Contrata-se Caixa".

Imediatamente liguei, me identifiquei, abonei a minha candidata/assistida e perguntei sobre a vaga e pediram para deixar um currículo.

Tirei 20 cópias do currículo e anotei todos os supermercados, nas imediações, bem assim loterias e o Mercado Central com suas várias lojas.

Tirei da bolsa uma nota e disse a ela que gostaria de ajudá-la, o que, de cara, rejeitou e eu reafirmei que a minha intenção não era dar dinheiro, mas uma ajuda para conseguir um emprego. Portanto, o dinheiro era para almoçar na redondeza e indiquei um restaurante, onde Defensores e servidores almoçavam e que o PF era no valor X, onde ela poderia escolher o que quisesse.

Passei os endereços dos possíveis empregos; construí um roteiro e pedi para entregar os currículos e depois do almoço se dirigisse para o Mercado, onde deixaria o restante dos currículos nas lojas e, após, pegasse a lotação de volta a sua casa.

Ela entrou na minha sala cabisbaixa, com vários tipos de fome - a física, a financeira, a de oportunidade, a de dignidade, a de direitos... 

Sem contar que entrou desesperada, desiludida, fracassada e saiu da minha sala com esperança, com confiança em si própria e no ser humano.

Passado três, quatro meses, no meu primeiro atendimento do dia, bem cedinho, adentra aquela moça segura de si, arrumada, de batom, cabeça erguida, olhos lindos, alegre e me pergunta se eu me lembrava dela. E ato contínuo, disse. "Venho, hoje, aqui, agradecer à senhora. Estou empregada e devo a minha vida a senhora, porque naquele dia que estive aqui não tinha mais esperança, pensei até em “besteira”, pois, nada dava certo pra mim. A senhora devolveu a minha vida. Recebi meu primeiro salário e a primeira pessoa que lembrei foi da senhora. Comprei um brinco e espero que goste. Reparei que usa brincos, anéis, pulseiras, então comprei esse, me estendendo o embrulho do presente. É barato, mas é bonito e me lembrou da senhora."

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Abri o presente e me deparei com brincos lindos e atrás dos brincos a dignidade restaurada de uma jovem mulher. Abraçamo-nos por um momento e reconheci o valor da promoção social.

Que no exercício da arte defensorial seja mantido o compromisso do atendimento humanizado e acolhedor porque, atrás de cada problema jurídico, existe um ser humano com dores, angústia, desespero em busca de uma solução legal, material e moral.

Desejo a cada colega, Defensora e Defensor Público, que continuem firme no propósito de promover a assistência jurídica à população hipossuficiente e vulnerável, mas, sobretudo, contribuir na afirmação da cidadania de nossos assistidos, fazendo a diferença na vida de cada uma e cada um.

Parabéns, pelo dia 19 de maio, Dia Nacional das Defensoras e Defensores Públicos de Minas Gerais e do Brasil.

Sobre a autora
Eliane Medeiros

Defensora Pública Aposentada Vice-Presidente da Associação das Defensoras e dos Defensores Públicos de Minas Gerais – ADEP/MG

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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