Implicações práticas da mediação de conflitos na docência

22/07/2020 às 20:16
Leia nesta página:

O trabalho tem como tema Implicações práticas da mediação de conflitos na docência. Quanto à pesquisa realizada, seu objetivo geral consiste em identificar como se aplicam as técnicas da mediação de conflitos na prática docente.

INTRODUÇÃO

 

O presente estudo objetiva identificar como podem ser aplicadas as técnicas da mediação de conflitos à prática docente no desenvolvimento integral dos educandos e no processo de construção de conhecimento. Desde Vygotsky (1896-1934) se fala do processo de aprendizagem humano desenvolvido através da interação com o ambiente e com o outro. O referido autor atribuía papel preponderante às relações sociais nesse processo. A prática docente é um instrumento fundamental na aprendizagem e ainda no desenvolvimento social, histórico, cultural dos educandos, auxiliando os mesmos na construção do conhecimento e em uma formação holística, que contemple todos os aspectos de desenvolvimento enquanto ser social.

Nas últimas décadas um instituto inovador ganhou visibilidade nas relações sociais: a Mediação de Conflitos. Esta tem como uma de suas definições, uma negociação facilitada por um terceiro. Segundo Souza et al (2016) trata-se de um método de resolução de disputas no qual se desenvolve um processo composto por vários atos procedimentais pelos quais os terceiros imparciais facilitam a negociação entre os interessados no conflito e ajudam os últimos a compreender melhor seus interesses e encontrar soluções compatíveis às suas necessidades.

Conforme o entendimento apresentado por Mendes (2018, p. 14) é sabido que “nenhum conflito pode ser visto como um fim em si mesmo, afinal os conflitos só acontecem porque há pessoas em sociedade. Nessa esteira, o conflito é menor do que as pessoas, sendo assim, este não pode sufocá-las e vencê-las”. Para ele, o conflito só ocorre em decorrência das interações humanas e não alcança um fim em si mesmo, o fim do conflito se destina às pessoas, as pessoas são as protagonistas em suas interações.

Algumas proposições conseguem sintetizar a teoria mencionada anteriormente, de Vygotsky (1896-1934 apud OLIVEIRA, 1992, p. 78): “Na ausência do outro, o homem não se constrói homem”. Corroborando a ideia de que a interação possui importante papel no processo de construção, de ensino aprendizagem. Essa ideia remete também à teoria do conflito.

Segundo Souza et al (2016) o conflito pode ser definido como um estado em que duas pessoas divergem em razão de metas, interesses ou objetivos individuais, percebidos como mutuamente incompatíveis. A possibilidade de perceber o conflito de forma positiva é uma das principais alterações da chamada moderna teoria do conflito. “Em treinamentos de técnicas e habilidades de mediação, os participantes frequentemente são estimulados a indicarem a primeira ideia que se recordam ao ouvir a palavra conflito e rememorar as emoções sentidas em seu último conflito” (SOUZA et al, 2016, p. 49).

Ao final do exercício, os participantes constatam em consonância com a doutrina, que do conflito surgem também mudanças e resultados positivos. O referido autor ainda preleciona que:

Diante de tais reações e práticas de resolução de disputas, poder-se-ia sustentar que o conflito sempre consiste em um fenômeno negativo nas relações humanas? A resposta da doutrina e dos próprios participantes dos citados treinamentos é negativa. Constata-se que do conflito podem surgir mudanças e resultados positivos (SOUZA et al, 2016, p. 50).

Por identificar na teoria interacionista e no instituto da mediação uma contribuição para a construção da autonomia, e por entender o papel do docente como mediador do conhecimento, o tema escolhido para o presente trabalho consiste no estudo das Implicações Práticas da Mediação de Conflitos na Docência.

O problema de pesquisa surge do seguinte questionamento: De que forma a mediação de conflitos pode ser aplicada à prática docente contribuindo para o pleno desenvolvimento dos educandos e na construção do conhecimento?

O objetivo geral da pesquisa busca identificar como podem ser aplicadas as técnicas da mediação de conflitos à prática docente no desenvolvimento integral dos educandos e no processo de construção do conhecimento, e de modo específico a pesquisa busca compreender a função social, cultural e política do docente na formação pessoal e profissional e como mediador do processo de ensino e aprendizagem; conhecer o instituto da mediação de conflitos e as estratégias trazidas por este; identificar as formas de atuação da mediação e suas implicações na prática docente.

A escolha do tema se justifica pela relevância da análise dos desdobramentos da mediação enquanto método adequado de solução de conflitos no âmbito educacional, de modo mais específico na utilização de suas técnicas aplicadas à prática docente, a partir da visão do exercício da docência enquanto função social, cultural e política que contribui para a formação humana dos educandos e para a autonomia dos mesmos enquanto sujeitos ativos no processo de ensino aprendizagem.

Com o intuito de entender melhor a problemática apontada, o presente estudo fundamentou-se de preferência nos teóricos que versam a respeito do instituto da mediação de conflitos como Mendes (2018), Vasconcelos (2008), e também naqueles estudiosos da prática docente, como Freire (1996) e Libâneo (2011).

METODOLOGIA

 

Quanto à realização do presente estudo, optou-se por uma pesquisa de campo qualitativa. Os dados da pesquisa foram coletados através de entrevista estruturada, que, segundo Severino (2007), é aquela em que as questões são direcionadas e previamente estabelecidas, aproximando-se mais do questionário e sendo útil ao desenvolvimento de levantamentos sociais.

Quanto à coleta de dados a pesquisa contou com a participação de três profissionais, segundo os critérios de inclusão que se seguem: formação em mediação judicial ou extrajudicial por entidade de ensino qualificada; experiência profissional em resolução de conflitos por métodos consensuais; ter cursado docência do ensino superior ou ter afinidade ou experiência em docência e em educação.

A entrevista foi composta por uma sessão, com seis perguntas estruturadas contemplando os objetivos propostos no estudo, e abertas às respostas dos convidados conforme as vivências de sua atuação profissional.

Conforme a metodologia utilizada, o estudo em comento buscou compreender os objetivos elencados anteriormente, com fulcro na análise das entrevistas, que questionaram a atuação docente e da mediação e o uso das técnicas oriundas da mediação de conflitos no âmbito educacional.

A discussão acerca do tema trabalhado teve por base análise teórica de pesquisas realizadas pelos autores dos temas estudados, e realização de entrevista estruturada aplicada a dois profissionais familiarizados à prática da mediação e afeitos à docência. Além da observação de projetos realizados, postos em prática aliando mediação e ensino-aprendizagem.

RESUMO

 

O trabalho tem como tema Implicações práticas da mediação de conflitos na docência. Quanto à pesquisa realizada, seu objetivo geral consiste em identificar como se aplicam as técnicas da mediação de conflitos na prática docente, no desenvolvimento pessoal dos educandos e construção do conhecimento. De maneira específica, a pesquisa objetiva: compreender a função social, cultural e política do docente na formação pessoal e profissional, bem como na construção do conhecimento do educando; conhecer o instituto da mediação de conflitos e as estratégias trazidas por este; identificar as formas de atuação da mediação e suas implicações na prática docente. O método para desenvolvimento do trabalho consiste em pesquisa qualitativa, através da percepção das bibliografias consultadas e de campo, por meio de entrevista estruturada. A discussão e análise de dados teve como base os auxílios teóricos de Freire (1996), Libâneo (2011), Mendes (2018) e Vasconcelos (2008).  O problema que fundamenta a pesquisa consiste no seguinte questionamento: De que forma a mediação de conflitos pode ser aplicada à prática docente contribuindo para o desenvolvimento dos educandos e para a construção do conhecimento? Os resultados da pesquisa foram satisfatórios alcançando os objetivos propostos inicialmente pelo presente estudo. A conclusão obtida pelo presente estudo, segundo pesquisa qualitativa realizada, por meio da análise bibliográfica foi favorável ao entendimento que há contribuição das técnicas da mediação aplicadas à prática docente, auxiliando a referida prática no desenvolvimento pessoal e profissional do educando e na construção do conhecimento.

Palavras-chave: Mediação. Prática docente. Técnicas.

INTRODUÇÃO

 

O presente estudo objetiva identificar como podem ser aplicadas as técnicas da mediação de conflitos à prática docente no desenvolvimento integral dos educandos e no processo de construção de conhecimento. Desde Vygotsky (1896-1934) se fala do processo de aprendizagem humano desenvolvido através da interação com o ambiente e com o outro. O referido autor atribuía papel preponderante às relações sociais nesse processo. A prática docente é um instrumento fundamental na aprendizagem e ainda no desenvolvimento social, histórico, cultural dos educandos, auxiliando os mesmos na construção do conhecimento e em uma formação holística, que contemple todos os aspectos de desenvolvimento enquanto ser social.

Nas últimas décadas um instituto inovador ganhou visibilidade nas relações sociais: a Mediação de conflitos. Esta tem como uma de suas definições, uma negociação facilitada por um terceiro. Segundo Souza et al (2016) trata-se de um método de resolução de disputas no qual se desenvolve um processo composto por vários atos procedimentais pelos quais os terceiros imparciais facilitam a negociação entre os interessados no conflito e ajudam os últimos a compreender melhor seus interesses e encontrar soluções compatíveis às suas necessidades.

Conforme o entendimento apresentado por Mendes (2018, p. 14) é sabido que “nenhum conflito pode ser visto como um fim em si mesmo, afinal os conflitos só acontecem porque há pessoas em sociedade. Nessa esteira, o conflito é menor do que as pessoas, sendo assim, este não pode sufocá-las e vencê-las”. Para ele, o conflito só ocorre em decorrência das interações humanas, e não alcança um fim em si mesmo, o fim do conflito se destina às pessoas, as pessoas são as protagonistas em suas interações.

Algumas proposições conseguem sintetizar a teoria mencionada anteriormente, de Vygotsky (1896-1934 apud OLIVEIRA, 1992, p. 78): “Na ausência do outro, o homem não se constrói homem”. Corroborando a ideia de que a interação possui importante papel no processo de construção, de ensino aprendizagem. Essa ideia remete também à teoria do conflito.

Segundo Souza et al (2016) o conflito pode ser definido como um estado em que duas pessoas divergem em razão de metas, interesses ou objetivos individuais, percebidos como mutuamente incompatíveis. A possibilidade de perceber o conflito de forma positiva é uma das principais alterações da chamada moderna teoria do conflito. “Em treinamentos de técnicas e habilidades de mediação, os participantes frequentemente são estimulados a indicarem a primeira ideia que se recordam ao ouvir a palavra conflito e a rememorar as emoções sentidas em seu último conflito” (SOUZA et al, 2016, p. 49).

Ao final do exercício, os participantes constatam em consonância com a doutrina, que do conflito surgem também mudanças e resultados positivos. O referido autor ainda preleciona que:

Diante de tais reações e práticas de resolução de disputas, poder-se-ia sustentar que o conflito sempre consiste em um fenômeno negativo nas relações humanas? A resposta da doutrina e dos próprios participantes dos citados treinamentos é negativa. Constata se que do conflito podem surgir mudanças e resultados positivos (SOUZA et al, 2016, p. 50).

Por identificar na teoria interacionista e no instituto da mediação uma contribuição para a construção da autonomia, e por entender o papel do docente como mediador do conhecimento, o tema escolhido para o presente trabalho consiste no estudo das Implicações Práticas da Mediação de Conflitos na Docência.

O problema de pesquisa surge do seguinte questionamento: De que forma a mediação de conflitos pode ser aplicada à prática docente contribuindo para o pleno desenvolvimento dos educandos e na construção do conhecimento?

O objetivo geral da pesquisa busca identificar como podem ser aplicadas as técnicas da mediação de conflitos à prática docente no desenvolvimento integral dos educandos e no processo de construção do conhecimento, e de modo específico a pesquisa objetiva compreender a função social, cultural e política do docente na formação pessoal e profissional e como mediador do processo de ensino e aprendizagem; conhecer o instituto da mediação de conflitos e as estratégias trazidas por este; identificar as formas de atuação da mediação e suas implicações na prática docente.

A escolha do tema se justifica pela relevância da análise dos desdobramentos da mediação enquanto método adequado de solução de conflitos no âmbito educacional, de modo mais específico na utilização de suas técnicas aplicadas à prática docente, a partir da visão do exercício da docência enquanto função social, cultural e política que contribui para a formação humana dos educandos e para a autonomia dos mesmos enquanto sujeitos ativos no processo de ensino aprendizagem.

Com o intuito de entender melhor a problemática apontada, o presente estudo fundamentou-se de preferência nos teóricos que versam a respeito do instituto da mediação de conflitos como Mendes (2018), Vasconcelos (2008), e também naqueles estudiosos da prática docente, como Freire (1996) e Libâneo (2011).

METODOLOGIA

 

Quanto à realização do presente estudo, optou-se por uma pesquisa de campo qualitativa. Nas palavras de GIL, (2008) tal abordagem busca o aprofundamento de uma realidade específica, realizada por meio de observação direta das atividades do grupo de estudo e entrevistas. Deu-se também por meio de pesquisa bibliográfica, que conforme Severino (2007), é realizada a partir de registros disponíveis, decorrentes de pesquisas anteriores, em documentos impressos, utilizando dados e categorias teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores.

Os dados da pesquisa serão coletados através de entrevista estruturada, que, segundo Severino (2007), é aquela em que as questões são direcionadas e previamente estabelecidas, aproximando-se mais do questionário sendo útil ao desenvolvimento de levantamentos sociais.

Ainda quanto à coleta de dados a pesquisa contou com a participação de três profissionais, segundo os critérios de inclusão que se seguem: formação em mediação judicial ou extrajudicial por entidade de ensino qualificada; experiência profissional em resolução de conflitos por métodos consensuais; ter cursado docência do ensino superior ou ter afinidade ou experiência em docência e em educação.

A entrevista foi composta por uma sessão, com seis perguntas estruturadas contemplando os objetivos propostos no estudo, e abertas às respostas dos convidados conforme as vivências de sua atuação profissional.

Conforme a metodologia utilizada o estudo em comento buscou compreender os objetivos elencados anteriormente, com fulcro na análise das entrevistas, que questionaram a respeito da atuação docente e da mediação e sobre o uso das técnicas oriundas da mediação de conflitos no âmbito educacional.

A discussão acerca do tema trabalhado teve por base análise teórica de pesquisas realizadas pelos autores dos temas estudados, e por meio da realização de entrevista estruturada aplicada a dois profissionais familiarizados à prática da mediação e afeitos à docência. Além da observação de projetos realizados, postos em prática.

BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO NO BRASIL

 

O conflito é atemporal, para além disso, é natural e favorece o aprendizado e crescimento nas relações humanas.  Através dos tempos buscaram-se formas de solucionar os conflitos que se apresentavam, uma dessas formas é a mediação. Nas palavras de Mendes (2018, p.24):

A mediação rompe paradigmas da formalidade e permite que os conflitos, que em outros momentos não foram solucionados pelas partes, possam tentar ser resolvidos, a partir de uma orientação de pessoas preparadas para lidar com a problemática, ao tempo em que sejam valorizadas pelas técnicas aplicadas por este terceiro interventor na relação não como detentor da verdade real, mas como ponte que possa ligar os interesses daqueles que litigam.

O referido autor descreve o conceito do supracitado instituto destacando que a mediação e suas técnicas valorizam as partes na resolução de suas questões de modo a unir seus interesses. No Brasil, a utilização da mediação de conflitos aparece no início dos anos noventa. No ano de 1994 foi criado o Instituto de Mediação e Arbitragem do Brasil (IMAB), logo em seguida, em 1995 foram criados os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. Estes foram criados visando à ampliação do acesso à justiça aos mais humildes.

Assine a nossa newsletter! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos

Mendes (2018) discorre que a criação dos juizados e suas formas informais abriram as portas para a mediação, posto que a estrutura burocrática tornava oneroso o acesso à justiça e desagradava quem necessitava utilizar a prestação jurisdicional.

Em 2010 a mediação conquistou mais espaço com a edição da resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), dispondo sobre a política judiciária nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesse no âmbito do poder judiciário. É possível perceber que na mencionada resolução, a política pública guarda relação ainda com o acesso à justiça, expresso no art.5º, inciso XXXV, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Em março de 2015, foi aprovado o novo Código de Processo Civil. Um dos aspectos trazidos por ele foi a valorização da mediação. Normatizou em seu artigo 1º, parágrafo 3º que “a conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados defensores públicos e membros do ministério público”.

O referido parágrafo traz em seu texto uma possibilidade, sem caráter obrigatório, ao Estado de promover o instituto da mediação e outras formas de solução de conflito. Sob esse aspecto, afirma Mendes (2018, p. 37) que “a receptividade da comunidade judiciária, acadêmica foi além dos muros do poder judiciário. Práticas da mediação são levadas não só ao poder judiciário, mas às comunidades, como forma de empoderar projetos e pessoas”.

Assim, é possível visualizar que a mediação, embora comumente apareça ligada às querelas jurídicas, é um instituto abrangente, busca não só solucionar os conflitos, mas como assevera o supracitado autor, é instrumento de empoderamento às partes. Por perceber o viés de autonomia e empoderamento de projetos e pessoas, a presente pesquisa é realizada de forma a aliar as técnicas desse instituto à outra prática empoderadora em sua essência: a docente.

TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO E PRÁTICA DOCENTE

 

O problema de pesquisa que norteia o presente estudo busca responder de que forma a mediação de conflitos pode ser aplicada à prática docente, contribuindo para o desenvolvimento dos educandos, construção do conhecimento e formação integral. Quanto às técnicas utilizadas pela mediação de conflitos, afirma Mendes (2018, p. 99) que “existe a necessidade de afastar-se do senso comum e embriagar-se no manancial cognitivo já produzido ao longo de anos pelo instituto, sendo as técnicas, importantíssimas para melhor desenvolver o procedimento”.

Conforme já mencionado outrora, nas palavras do referido autor, por não ter surgido para resolver um problema do judiciário, a mediação também exige um estudo pretérito. Segundo o dicionário Michaelis (2016), técnica é um conjunto de métodos e pormenores práticos essenciais à execução de uma arte ou profissão. Um estudo metodológico voltado à obtenção de resultados.

Nesse sentido Vasconcelos (2008) discorre a recomendação da Escola de Harvard, de que no trato de questões relacionais o mediador dedique atenção à percepção, a emoção e a comunicação própria e das partes. Várias técnicas podem ser utilizadas no procedimento da mediação, a primeira a ser abordada é a técnica do Rapport. A palavra rapport tem origem no termo francês rapporter que significa trazer de volta. Quanto à sua utilização na mediação, discorre Mendes (2018, p. 101) que o “Rapport liga-se à construção de uma relação de confiança, que deve ser bem utilizada nos primeiros momentos em que as partes entram em contato com o mediador”.

Nesse primeiro momento são utilizadas algumas estratégias, como chamar as partes pelo nome, valorizando-as e empoderando-as, dando a elas aos poucos o protagonismo diante da construção de um acordo, por exemplo. Diante das observações de técnicas como essa, na entrevista realizada indagou-se ao profissional incluso na pesquisa por ser docente e mediador de conflitos, se conforme a sua vivência, a mediação de conflitos poderia contribuir para a prática docente e de que forma. Segue sua resposta ao questionamento:

ENTREVISTADO 1 (2019): A mediação tem se tornado um dos maiores instrumentos nas práticas docentes. Liga-se ao estudo da empatia, entender o outro do jeito que é e não como gostaríamos que fosse. As técnicas de mediação aplicadas à sala de aula têm feito a diferença. Aplicabilidade da técnica do Rapport, saber acolher aquele que chega, cria relacionamentos amistosos entre educador e educando. O professor que conhece as técnicas, encara os micro conflitos advindos da relação educacional como algo natural e normal desmistificando a complexidade de suas soluções. Diariamente parafraseio situações entre alunos, alunos e professores. Isso produz leveza nas relações cotidianas.

Esse trecho da entrevista é esclarecedor, pois demonstra que na prática são utilizadas técnicas aprendidas com a mediação no ambiente educacional e que essas técnicas apresentam implicações positivas, o professor destacou inclusive a técnica descrita acima do rapport, indicando sua contribuição na sala de aula e no ambiente educacional.

 À profissional que coordenou por três anos um núcleo de solução consensual de conflitos em Teresina-PI foi questionado se a resolução de conflitos por meio das técnicas utilizadas na mediação, contribuem de alguma maneira para a construção do conhecimento pelo educando, ao que a mesma respondeu:

ENTREVISTADA 2 (2019): Conhecimento não é só o que está na grade curricular das escolas e faculdades. Conhecimento é tudo aquilo que, de alguma maneira, expande o nosso olhar em relação à vida e às pessoas. Assim, aprender a se comunicar deveria mesmo ser algo aprendido em casa e nas escolas.

O ambiente educacional seja ele das séries iniciais ao ensino médio ou acadêmico (Ensino Superior), é um ambiente onde docentes e educandos devem estabelecer uma relação de confiança, um ambiente em que profissionais e alunos se sintam acolhidos, seguros e aptos para formar conhecimento. Assim, técnicas como rapport podem ser aprendidas e utilizadas para a facilitação da comunicação desde o contato inicial.

A próxima técnica utilizada no instituto da mediação de conflitos é a Técnica da Escuta Ativa. Quanto a esse aspecto, disserta Vasconcelos (2008, p. 65):

A melhor comunicação é aquela que reconhece a necessidade do outro de se expressar. Aconselhar, salvo situações muito especiais, é colocar-se acima. O conselho bloqueia as necessidades de expressão, reconhecimento e emancipação do aconselhado.

Nesse trecho é possível extrair a percepção do autor sobre a postura do mediador, de como em sua visão acontece de melhor modo a comunicação, que para este se dá quando a necessidade de expressão do outro é reconhecida. Quanto ao conceito de escuta ativa, afirma Mendes (2018, p. 104):

A escuta vai além do ouvir, relaciona-se a todo entendimento que se faz necessário para compreender o que o outro diz interagir o que se diz com toda a complexidade do caso, sentir as palavras, angústias que norteiam o interlocutor. Saber ouvir desprendido de quaisquer sentimentos preteritamente formados pelo mediador talvez seja o maior desafio.

A conceituação trazida para explicar a técnica, enriquece o estudo, pois não se trata apenas de um conceito estático, mas de um conceito oriundo da prática da mediação de conflitos. Nesse momento, torna-se visível a relação entre técnicas de mediação e docência. No mesmo sentido preleciona Freire, (1996, p. 44):

A importância do silêncio no espaço da comunicação é fundamental. De um lado, me proporciona que, ao escutar como sujeito e não como objeto, a fala comunicante de alguém, procure entrar no movimento interno ao seu pensamento, virando linguagem. De outro, torna possível a quem fala realmente comprometido com comunicar e não com fazer puros comunicados, escutar a indagação, a dúvida, a criação de quem escutou. Fora disso fenece a comunicação.

O educador evidencia que o silêncio para a comunicação é fundamental e que fora da escuta a comunicação perece. Ainda quanto à escuta Freire (1996), afirma que, consiste de modo óbvio em algo além da possibilidade auditiva de cada um. Escutar no sentido destacado pelo referido autor, significa a disponibilidade daquele que escuta para a abertura da fala do outro. Ainda para Freire (1996, p. 44) “a desconsideração total pela formação integral do ser humano e a sua redução fortalecem a maneira autoritária de falar de cima para baixo”.

O autor citado fala de uma maneira autoritária de se comunicar, falando de cima para baixo. Extrai-se, diante disso que a ausência de uma boa comunicação (aquela que tem como elemento a escuta) dificulta a formação integral do indivíduo, dificultando também uma relação nivelada no ambiente educacional.

Outra técnica utilizada na mediação é a Técnica do Resumo. Nada mais é do que aquela que produz uma visão global das questões envolvidas na mediação, que nortearão o facilitador durante a sessão. A habilidade de sintetizar é importante também na prática docente, contribuindo para a construção do conhecimento advindo do ensino aprendizagem. No que se refere a essa técnica, disserta Mendes (2018, p. 108):

O resumo se faz logo após a exposição das partes, acerca de suas questões. O resumo das questões apresentadas deverá ser escrito pelo mediador de forma pontuada e sobre a visibilidade de todos os envolvidos. Após a apresentação do resumo as partes tornam-se cientes do que será tratado na sessão de mediação, ao tempo em que podem reformular falas e retificar colocações mal-entendidas.

O resumo é uma técnica com viés pedagógico, conduzindo os interessados na resolução das suas questões, de modo parecido ao que é utilizado na transmissão de conhecimento aos educandos na prática docente.

É relevante também ao estudo, a observação da Técnica da Paráfrase (reformulação).  Utilizada na literatura, a paráfrase consiste na interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto de forma que o torne mais inteligível ou dê novo enfoque ao seu sentido. Na visão de Mendes (2018), essa técnica visa barrar a espiral do conflito, isso, por levar em conta que por vezes as afirmações feitas pelos mediandos são decorrentes de sentimentos diversos, a exemplo de raiva, ódio, devendo ser filtradas e transformadas em falas mais amenas.

Sobre a referida técnica, Mendes (2018, p. 110), afirma:

O parafraseamento liga-se à reformulação, recontextualização, dizer o dito de outra forma sem modificar sua essência. Um cuidado a ser tomado pelo mediador é parafrasear e revalidar os sentimentos. Respeitar os sentimentos de quem fala, ao tempo que desconstrói a conduta agressiva.

 O uso da paráfrase aprendida outrora no âmbito da sala de aula sai dos textos e abrange a resolução dos conflitos. Importante também é a validação de sentimentos, esta, por sua vez é utilizada como estímulo aos mediandos na percepção de si mesmos e do outro como indivíduos merecedores de atenção e respeito. Nesse sentido, se assemelha à visão de Freire, (1996, p. 44):

Quem tem o que dizer tem igualmente o dever e o direito de dizê-lo. É preciso, porém que quem tem o que dizer, saiba, sem sombra de dúvida, não ser o único a ter o que dizer. Mais ainda, que o que tem a dizer não é necessariamente por mais importante que seja a verdade alvissareira por todos esperada. É preciso que quem tem o que dizer, saiba sem dúvida nenhuma, que sem escutar, termina por esgotar a sua capacidade de dizer por muito ter dito sem nada ou quase nada ter escutado.

Freire (1996) destacou a importância de outros elementos nessa comunicação (docente – educando) como a escuta ativa, e como a consideração do outro enquanto alguém em formação integral, ao defender o direito de que numa relação ambos têm de se comunicar, percebendo o outro e respeitando o que ele chama de direito de dizer, se aproximando assim, da técnica da validação acima apresentada.

Por fim, e não menos importante, é necessário falar da Empatia. Vasconcelos (2008), ao falar sobre empatia se refere a esta como respeito às diferenças. Nesse sentido Mendes (2018, p. 113) conceitua:

A empatia transcende a uma simples relação de gostar ou não gostar, vai além do aceitar a pessoa como ela se apresenta. É perceber porque determinados gestos e ações são realizados por alguém graças à percepção dos sentimentos vividos por ela. A empatia faz brotar uma vontade de compreender e conhecer esse outro.

No estudo da mediação se aprende que empatia é a habilidade de se colocar no lugar do outro, sem usar juízo de valor ao tentar descrever o sentimento daquele, é o que gera conexão entre os que conversam. Assim, a empatia facilita não só as relações entre aqueles que têm conflitos a solucionar, mas pode ser utilizada em comunidade, e por que não no âmbito educacional. Para Freire (1996), a prática docente (no ensino dos conteúdos) não ocorre desunida de uma formação ética dos educandos.

Dedicou-se esse capítulo a conceituar e contextualizar as técnicas utilizadas pela mediação de conflitos, para visualização e demonstração da possibilidade e implicações na prática docente. Em consonância à essas constatações é válido mencionar a fala do entrevistado ao afirmar que:

ENTREVISTADO 1 (2019): Parece que as técnicas de mediação foram feitas com destino certo, o professor. Seja o rapport, parafraseamento, empatia, valorização dos sentimentos. Acredito que a mediação não criou nada de novo e nem tampouco surreal, mas buscou reflexões nessa relação de ensino aprendizagem. Essa inquietude moveu professores e alunos na construção de novos paradigmas para essa relação.

Essa foi a resposta apresentada pelo entrevistado ao ser consultado se a resolução de conflitos por meio das técnicas utilizadas na mediação, contribuem de alguma maneira para a construção do conhecimento pelo educando. Ao responder que as técnicas parecem ter como destinatário o docente e que moveu os alunos na construção de novos paradigmas nessa relação depreende-se que a resposta foi positiva, confirmando o detalhamento sobre as técnicas de mediação mencionado em todo o capítulo.

IMPLICAÇÕES PRÁTICAS DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA DOCÊNCIA

 

A problemática norteadora do presente estudo, questiona de que forma a mediação de conflitos pode ser aplicada à prática docente contribuindo para o desenvolvimento dos educandos e para sua formação. No que tange à prática docente assevera Freire (1996, p. 37) que outro “saber indispensável à prática docente é o saber da impossibilidade de desunir o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos”.

O educador acreditando em uma formação integral dos educandos abordou diversos aspectos que contribuíam para o processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, a entrevistada, ao ser questionada conforme a sua vivência, se a mediação de conflitos poderia contribuir para a prática docente e de que forma, respondeu:

ENTREVISTADA 2 (2019): A mediação é uma habilidade que facilita o diálogo entre as partes, ela contribui para o desenvolvimento pessoal e relacional em qualquer esfera. Com relação à docência, a mediação convida o professor a se expressar assertivamente, de forma clara e respeitosa. (...) Assim, a mediação de conflitos ensina a arte de se comunicar, de falar com empatia e conexão. De fazer pedidos claros e objetivos, o que ajuda muito para que a mensagem do professor seja recebida pelos alunos com atenção e entusiasmo.

Ao mesmo questionamento, realizado à terceira entrevistada que é pedagoga e mediadora judicial a resposta obtida foi a seguinte:

ENTREVISTADA 3 (2019): Acredita-se que poderia sim contribuir na prática docente, considerando que os professores todos os dias se deparam com situações conflituosas e para as possíveis resoluções poderão utilizar-se da comunicação positiva, habilidades e técnicas utilizadas na mediação, orientando seus alunos a uma cultura de paz, sendo um transformador social, inspirador de sonhos e motivador de mudanças. Não se afastando do planejamento educacional, agregando valores, reflexões sobre comunicação não violenta, selecionando estratégias e recursos que se adequem às necessidades apresentadas pelos discentes.

Outro questionamento levantado no estudo, indagou se considerando a sua atuação profissional, a prática docente e a mediação possuem pontos comuns e quais seriam, para este, a resposta obtida foi:

ENTREVISTADA 3 (2019): Diz-se que a mediação possui viés pedagógico, por ser capaz de despertar nas pessoas a vontade de replicar em outras situações o modo de se comunicar. Daí possuem esse ponto em comum, pois ao lidar com pessoas e com os conflitos, a intervenção madura e equilibrada traz a melhoria dos relacionamentos e a aproximação do diálogo, convidando as pessoas a experimentarem essa forma positiva de se comunicar em outras oportunidades.

Conforme as respostas obtidas pela entrevistada, foi possível perceber que a mediação de conflitos e a prática docente são áreas que possuem pontos comuns em seu exercício, que uma pode contribuir na execução da outra. As respostas obtidas pela entrevista, ainda não se esgotam nesse momento do estudo, mas é importante trazer à pesquisa casos em que sejam visualizadas as implicações práticas da mediação de conflitos na docência.

Um caso encontrado na revista eletrônica Ensino Superior, intitulado como “O mediador de conflitos”, publicado em 06 de março de 2015, traz a história de um professor e pesquisador, José María Avilés Martínez que se notabilizou por seu projeto de mediação de conflitos, adotado em diversas escolas públicas espanholas. Ao entrevista-lo a revista afirma que o segredo seria a ajuda mútua entre os próprios alunos. Após demonstrar as técnicas utilizadas pela mediação de conflitos, é possível perceber que seus preceitos buscam o empoderamento dos mediandos para que os mesmos conquistem autonomia na resolução das suas questões. Nessa entrevista, foi indagado sobre qual seria a importância de envolver os alunos nos projetos de melhoria da convivência escolar, Martinez (2015, sp.) então dispôs:

Porque é preciso que o aluno compreenda a responsabilidade de cuidar de sua própria convivência, como protagonista de sua própria educação. Se ele vem à escola para educar-se, tem de assumir uma cota de responsabilidade. Como queremos que os jovens sejam autônomos, se estiverem sempre apenas olhando a cara do professor? Como rompemos a dependência do adulto? Como caminhamos para a moral autônoma, concedendo espaços para que ocupem, experimentem, equivoquem-se, acertem? O educador tem de intermediar para que avancem. O encantador da educação é que o aluno seja o sujeito do processo. O docente estará lá para que ele alcance o que busca. Colocamos a ponte para que ele cruze o rio.

O caso intitulado “O mediador de conflitos”, é abordado na presente pesquisa por mostrar na prática as implicações da mediação em ambiente escolar, reforçando a ideia de autonomia trazida pela educação e pela mediação ao afirmar que o segredo da eficácia do projeto seria a cooperação dos educandos. Aproxima-se dessa ideia o entendimento de Freire (1996, p. 37) que preleciona:

No fundo o essencial nas relações entre educador e educando, entre autoridades e liberdades, entre pais, mães e filhos é a reinvenção do ser humano no aprendizado de sua autonomia. Me movo como educador porque, primeiro me movo como gente.

Nessa linha de pensamento, mediação e docência acreditam numa transformação dos indivíduos ao passo que esses aprendam sua autonomia. A característica central do projeto aplicado, mencionado acima pelo pesquisador em cidades espanholas é o envolvimento de crianças e jovens em acolher, ajudar na mediação e na mentoria de situações de conflito escolar, incluindo o bullying, um dos seus temas de estudo.

Na entrevista concedida pelo mesmo à Educação na cidade de Valladolid, Espanha, onde mora, Martínez (2015) explica como envolve os alunos na construção de um clima escolar positivo e discorre sobre os desdobramentos do bullying na atualidade. Ao ser questionado sobre a importância de envolver os alunos nos projetos de melhoria da convivência escolar, o pesquisador explica que é necessário que o educando compreenda a responsabilidade de cuidar da sua própria convivência como protagonista da própria educação, posto que ao buscar na escola a educação deve assumir sua cota de responsabilidade. Para o pesquisador se desejam que os jovens sejam autônomos, estes não conquistariam autonomia apenas vendo o exercício da docência por seus mestres.

Para o pesquisador, o educador tem de intermediar para que avancem. O encantador da educação é que o aluno seja o sujeito do processo, o docente estará lá para que ele alcance sua busca. O pesquisador foi questionado também se em sua atuação direta nas escolas de sua cidade, conciliando teoria e prática foi possível ver impacto no desempenho acadêmico dos alunos, a resposta do mesmo foi surpreendente ao confirmar que os colégios que desenvolviam essa proposta perceberam que todos foram beneficiados no âmbito escolar, e que a boa convivência melhorava a gestão. Afirmou ainda que a gestão de conflitos influenciou o rendimento dos alunos.

A hipótese levantada pelo pesquisador é que, se os alunos se sentem melhor, estão em condições de gerir também seu próprio rendimento acadêmico. Nos lugares em que há bullying, o aluno se preocupa em não ser maltratado, não em aprender matemática. Essa pesquisa mostra que quando se reduz a vitimização, tudo melhora. O clima da aula incide diretamente na aprendizagem.

Como nas respostas obtidas sobre a atuação dos entrevistados mencionados anteriormente, no caso trazido pela reportagem são perceptíveis as implicações práticas da mediação de conflitos no ambiente educacional. Influenciando pela utilização de suas técnicas o rendimento do educando e engajamento do mesmo nos projetos instituídos. Sobre a prática docente disserta Freire (1996, p. 37):

Não posso ensinar o que não sei. Mas, este, repito, não é saber que devo apenas falar com palavras que o vento leva. É saber, pelo contrário, que devo viver concretamente com os educandos. O melhor discurso sobre ele é o exercício de sua prática. A minha fala sobre o direito dos educandos a que não corresponda a sua concretização não tem sentido.

A mediação, bem como a prática docente traz resultados concretos aos educandos quando seu exercício é coerente à formação proposta. O exemplo da prática contagia mediandos e educandos a uma transformação e a uma visão prospectiva, tanto na autonomia para resolver os conflitos, quanto na autonomia para uma nova relação de ensino aprendizagem e construção do conhecimento.

Ainda no que se refere às implicações práticas da mediação de conflitos na docência, ao questionar o entrevistado se considerando a sua atuação profissional, a prática docente e a mediação possuem pontos comuns e quais seriam, sua resposta foi a seguinte:

ENTREVISTADO 1 (2019): Atualmente não consigo dissociar essa relação. Tenho 23 anos de sala de aula, mas acredito que a maturidade educacional adveio com o estudo da mediação em sala de aula. Busquei informações além da parte cognitiva, mas emocional, social, afetiva. “Não somos máquinas, homens é que sois”. Tenho construído com os alunos autorresponsabilidade.

O professor e mediador entrevistado destacou ainda que passou a respeitar a heterogeneidade dos alunos, que compreendeu que as pessoas devem ser tratadas em respeito às habilidades e competências. Que passou a dar uma visão holística aos alunos que apresentam dificuldades. E que mesmo sendo da ciência do direito passou a valorizar as formas adequadas para o conflito diferente da jurisdição. Destaca-se que atualmente o entrevistado não consegue dissociar a relação entre mediação e docência em sua atuação profissional. Evidencia-se também, o uso da autorresponsabilidade, novamente apontando para a construção de uma relação mais autônoma na educação.

O presente estudo busca também tratar da atuação do docente em sua função social cultural e política na formação pessoal e profissional, bem como na construção do conhecimento do educando, nesse sentido o entrevistado afirma que:

ENTREVISTADO 1 (2019): Nos últimos três anos percorri mais de 13 estados levando a cultura de paz como forma de qualidade de vida. Desconstruir conflitos e propiciar o retorno das relações a pessoas e familiares não tem preço. De uma coisa tenho aprendido, não é o valor do conflito, mas a dor dos sentimentos que dirá a dimensão da situação conflituosa. Ver irmãos se falarem após nove anos não tem preço.

O entrevistado relatou ainda que foram realizadas mais de duzentas palestras e duzentas e treze mediações. Que têm mediado conflitos de terra, divórcios, bens, negócios jurídicos, todos com resultados de quase cem por cento de mediações frutíferas (em que os interessados chegam a um acordo). O entrevistado afirmou que passou a entender que ninguém consegue caminhar se antes não resolver os conflitos. Quando realizado o mesmo questionamento à entrevistada, sua resposta foi:

ENTREVISTADA 1 (2019): Todas as vezes que um mediando consegue a satisfação jurídica a um direito que foi violado ele se sente empoderado, considerado e pertencente à sociedade. Nasce o mais importante dos sentimentos, que é a esperança. Essa é uma função social que não pode ser desconsiderada, pois gerar esperança é o mesmo que dizer que não podem deixar de acreditar que os direitos pertencem a todos, indistintamente.

Os relatos demonstram que a função social desenvolvida na atuação profissional de um mediador é ampla, não se resumindo apenas aos resultados obtidos, não tratando-se apenas de resultar uma mediação em um termo de acordo, mas de ensinar os envolvidos naquelas situações conflituosas habilidades de resolutividade e relacionais. De modo semelhante a do docente, que não está restrita às paredes que limitam a sala de aula.

Outro projeto que alia elementos da docência e da mediação de modo prático é a Oficina de Pais e Filhos, elaborada pelo Conselho Nacional de Justiça e realizada pela Defensoria Pública do Estado do Piauí e seu Núcleo de Solução Consensual de Conflitos e Cidadania (NUSCC). A Oficina de Pais e Filhos foi criada pensando em auxiliar os pais a entender melhor os efeitos oriundos da separação, em suas vidas e na vida dos seus filhos, e ainda para ajudá-los dando orientação e algumas ideias de como superar as dificuldades advindas desta fase e das mudanças trazidas por ela.

Embora tenha sido pensada para auxiliar casais que passam pela experiência da separação, ao pesquisar seu público alvo, a resposta encontrada foi que o projeto é destinado a toda a população (estendendo-se no caso da oficina realizada no Piauí, até a alunos do curso de direito e voluntários do curso de psicologia que já chegaram a acompanhar algumas das oficinas realizadas). Sua estrutura assemelha-se à de um workshop, curso prático ou seminário intensivo, de curta duração onde são transmitidos conhecimentos aos participantes. Possui conteúdo programático, exposto no seu tempo de duração que é de quatro horas.

A Oficina de Pais e Filhos é um caso prático relevante de ser pontuado, pois durante sua apresentação são transmitidos conhecimentos acerca das relações parentais, conflitos familiares, alienação parental e alguns esclarecimentos jurídicos e a resolução dessas questões por meio do ensino da Comunicação Não Violenta, que é utilizada na mediação. 

Quanto à Comunicação Não Violenta (CNV), é um conceito desenvolvido pelo psicólogo Rosenberg (2006), que segundo ele seria capaz de estimular compaixão e empatia, (chamada também por essa razão de Comunicação Empática), para o psicólogo a CNV começa quando se assume que todos somos compassivos por natureza e as estratégias violentas (sejam verbais ou físicas), se aprendem, ensinam e são apoiadas pela cultura dominante.

Tais conteúdos são transmitidos aos pais e aos alunos de faculdades de Direito, ao final da oficina realizada, há um momento para que os mesmos apresentem um feedback de tudo que ali foi vivenciado segundo a visão deles. Entre as palavras mais utilizadas nesse momento, nos dois anos da realização do projeto estão: aprendizado, ensinamento, transformação, empatia. Na Oficina de Pais e Filhos realizada no mês de abril de 2019, ao ser questionada sobre a vivência daquele momento uma das estudantes de direito relatou:

ESTUDANTE (2019): Costumo dizer que quem é professor e quem é defensor, não tem só aquela profissão única e exclusiva. É um pouco de psicólogo, amigo, tem um colo mais acolhedor. Às vezes, a gente pensa, acha que é um problema gigante, mas conversa com uma terceira pessoa, um profissional que vive aquilo no dia a dia, pode resolver de uma maneira mais simples, que é o caso da mediação. Às vezes, a gente transforma algo tão pequeno em um boom gigante e depois não consegue mais controlar. Já a mediação consegue conter tudo isso.

Constata-se que o projeto tem seu momento pedagógico ao passo que também promove a resolução de conflitos nas relações continuadas, e oferece aos educandos ali presentes novas perspectivas sobre educação e mediação, aplicando na prática técnicas de mediação e elementos da docência.

Ao final da coleta dos dados das entrevistas e dos exemplos concretos de um projeto de mediação escolar que além de conceder autonomia aos educandos, influenciar positivamente o rendimento dos alunos e aplicar na prática a mediação resolvendo conflitos como o bullying, nas relações continuadas familiares e na exposição de conteúdos programáticos estendidos a todos os integrantes de uma comunidade, alcançando até mesmo estudantes do ensino superior, a problemática desenvolvida na presente pesquisa foi respondida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante de todo o exposto no decorrer do estudo realizado acerca das implicações práticas da mediação de conflitos na docência, ficou demonstrado que já existem profissionais e pesquisadores atuantes nessa área, mas que a união da mediação de conflitos à prática docente ainda pode ser ampliada, de forma mais satisfatória em seus resultados.

Com fulcro em todo o suporte teórico utilizado para a pesquisa e nas pesquisas realizadas anteriormente por outros pesquisadores, foram alcançados os objetivos previamente estabelecidos no estudo que dizem respeito a compreender a função social cultural e política do docente na formação pessoal e profissional, bem como na construção do conhecimento do educando, conhecer o instituto da mediação de conflitos e as estratégias trazidas por este, identificar as formas de atuação da mediação e sua aplicação na prática docente.

Conforme foi observado, pesquisado e descrito, o que se espera é que o referido estudo provoque novas discussões nos ambientes de ensino (escolar e acadêmico), ampliando a visão destes quanto às novas formas de exercício da docência, agregando conceitos que promovam a transformação, autonomia e capacidade de resolver conflitos.

Conclui-se, por fim, após toda a análise realizada que é possível gerar o senso de cooperação entre docentes e educandos no processo de ensino aprendizagem, reafirmando os ensinamentos deixados pela pedagogia da autonomia de que a formação no ambiente educacional pode reverberar além dos muros da escola, e que essa é uma formação integral, contribuindo não só para rendimentos acadêmicos quantitativos, mas desenvolvendo cidadania e o indivíduo em todos os seus aspectos: sociais, políticos, profissionais.

REFERÊNCIAS

 

BOLFER, M.M.M. de O. Reflexões sobre prática docente: Estudo de caso sobre formação continuada de professores universitários. 2008. 238. f. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Metodista de Piracicaba. São Paulo, 2008. Disponível em: https://www.unimep.br/phpg/bibdig/pdfs/2006/lwfmjkhnxbbs.pdf. Acesso em 02 abr. 2019.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Saraiva 2008.

BRASIL. Resolução n° 125 de 29 de novembro de 2010. Conselho Nacional de Justiça - CNJ. Brasília/DF: CNJ, 2010.  Disponível em: http://www.crpsp.org.br/interjustica/pdfs/outros/Resolucao-CNJ-125_2010.pdf. Acesso em: 25 abr. 2019.

BRASIL. Lei n° 13.105 de 16 de março de 2015. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 27 abr. 2019.

CAMARGO, Paulo. O mediador de conflitos. Revista Ensino Superior. 2015. Disponível em: http://revistaensinosuperior.com.br/o-mediador-de-conflitos/. Acesso em: 02 abr. 2019.

CARDOSO. A.M.M; NETO. A. da C. C. Educação como possibilidade de transformação social. XV Safety, Health and Environment World Congress. Porto, Portugual, 2015. Disponível em: copec.eu/congresses/shewc2015/proc/works/59.pdf. Acesso em: 02 abr. 2019.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo, 2008.

GOULART, Juliana Ribeiro. 8 Razões para apostar aa Mediação Escolar. Empório do Direito. 2016. Disponível em: https://emporiododireito.com.br/leitura/8-razoes-para-apostar-na-mediacao-escolar. Acesso em: 02 abr. 2019.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática e trabalho docente: a mediação didática do professor nas aulas. In: LIBÂNEO, J. C.; SUANNO, M. V.R.; LIMONTA, S. V. (Org.). Concepções e práticas de ensino num mundo em mudança: diferentes olhares para a didática. 1. ed. Goîânia (GO): CEPED/Editora da PUC Goias, 2011, v. 1, p. 85-100.

LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia Crítico Social: Currículo e didática. Rio de Janeiro, 1985.

MENDES, Alessander. Mediação: Uma ressignificação de paradigmas na formação de mediadores. Teresina: Dinâmica Jurídica, 2018.

MICHAELIS. Dicionário de Português e Inglês. Uol. 2016. Disponível em: www.Michaelis.uol.br/moderno/português. Acesso em: 10 abr. 2019.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a forma, reformar o pensamento. 17. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky e o processo de formação de conceitos, In Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

RAMPAZZO, Lino. Metodologia científica: para alunos dos cursos de graduação e pós-graduação. São Paulo: Slitiano Unisal, 1998.

ROSENBERG, Marshal B. Comunicação não violenta: técnicas para aperfeiçoar relacionamentos pessoais e profissionais. Tradução de Mário Vilela. São Paulo: Agora, 2006.

SANTOS, Antônio R. dos.  Metodologia Científica: a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. 23. ed. rev e atual. São Paulo. 2007.

SILVA, Antonio Zaquiel Barbosa da. As relações de mediação, aprendizagem e desenvolvimento humano: um diálogo entre Vigotski e Paulo Freire / Antonio Zaquiel Barbosa da Silva. São Luís, 2014.

SOUSA, Graciane. Mediação é o caminho: filho encontra pai aos 19 anos após buscar Defensoria Pública. Cidade Verde. 2019. Disponível em: https://cidadeverde.com/noticias/298657/mediacao-e-o-caminho-filho-encontra-pai-aos-19-anos-apos-buscar-defensoria-publica. Acesso em: 03 mai. 2019.

SOUZA, Aiston Henrique de; et al. Manual de Mediação Judicial. 6. ed. Conselho Nacional de Justiça – CNJ. Brasília/DF: CNJ, 2016.

TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civis. 2. ed. rev, atual e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2015.

VASCONCELOS, Carlos Eduardo de. Mediação de Conflitos e práticas restaurativas. São Paulo: Método, 2008.

VEZZULA, Juan Carlos. Mediação: teoria e prática. Guia para utilizadores e profissionais. Lisboa: Agora, 2001.

VYGOTSKI, L, S. Pensamento e Linguagem. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Sobre a autora
Letícia Castro Magalhães

Bacharela em Direito pela Uninassau desde 2017. Aprendiz de métodos alternativos de resolução de conflitos por conviver de perto com a mediação e a conciliação e acreditar na autonomia das partes. Pós Graduada em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Maurício de Nassau (UNINASSAU), Campus Teresina-PIdesde 2019, pois a educação é para mim o maior sistema multiportas.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

Mais informações

O presente trabalho de conclusão de curso foi realizado em maio de 2019 para conclusão da pós graduação em Docência do Ensino Superior.

Leia seus artigos favoritos sem distrações, em qualquer lugar e como quiser

Assine o JusPlus e tenha recursos exclusivos

  • Baixe arquivos PDF: imprima ou leia depois
  • Navegue sem anúncios: concentre-se mais
  • Esteja na frente: descubra novas ferramentas
Economize 17%
Logo JusPlus
JusPlus
de R$
29,50
por

R$ 2,95

No primeiro mês

Cobrança mensal, cancele quando quiser
Assinar
Já é assinante? Faça login
Publique seus artigos Compartilhe conhecimento e ganhe reconhecimento. É fácil e rápido!
Colabore
Publique seus artigos
Fique sempre informado! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos