Análise crítica oferecida ao Curso de Especialização no Ensino de Filosofia EaD da Universidade Federal de Pelotas na disciplina de Filosofia e Outras Áreas de Conhecimento. Prof. Dra. Adriane Möbbs.

Inicialmente, cabe referir que com o avanço tecnológico, recebemos diariamente uma gama de informações, mudamos o equilíbrio entre o individual e o coletivo para o meio individual e com isso ganhamos mais destreza ao nos adequarmos as inovações.

Logo, a realidade também é desafiadora, os docentes tem a oportunidade de lecionar com novas práticas e são desafiados, como profissionais, a contribuir para a implantação de tais mudanças, uma vez que a busca por novos saberes será incessante em qualquer situação.

Para os discentes, a criação do conhecimento será uma questão de integração mais do que de memorização, já que as tecnologias da informação e da comunicação mudarão de maneira profunda o modo como aprendemos, bem como a sociedade como um todo, porém, algumas demandas do processo produtivo não podem ser ignoradas, tais como o desenvolvimento de capacidades cognitivas e operativas encaminhadas para um pensamento autônomo, crítico, criativo, formação geral e qualificação tecnológica.

Outra questão importante é que há alguns contratempos inevitáveis como a inexistências de políticas globais para a educação, a falta de cursos profissionalizantes para os docentes, bem como a falta de recursos públicos.

Nesse sentido, para alcançar a era da tecnologia precisamos fortalecer os movimentos sociais que lutam por um maciço investimento na educação escolar e na capacitação dos professores, como por exemplo, fortalecendo as lutas sindicais por melhores condições salariais e de trabalho.

Além disso, é necessária uma ligação maior da formação que se realiza na faculdade com a prática das escolas, trazendo os professores em exercício para a universidade, para discussão de problemas comuns, utilizando-se da Filosofia no âmbito escolar como propedêutica. Nessa linha de raciocínio, seria essencial que em cada escola os docentes formassem uma equipe unida, centrando a organização dos professores no local de trabalho, em torno de projetos pedagógicos.

Registre-se que o professor preparado é o que busca conhecimento e compreende que cada sujeito é único. As tecnologias irão avançar cada vez mais e os profissionais da educação devem estar preparados, no dia a dia surgirão dúvidas, receio de que o modo de lecionar não seja o mais adequado, bem como a escassez de alguns recursos, mas não há nenhuma técnica, mas sim conteúdos que podemos desenvolver, pois a Filosofia requer duas habilidades: Clarificar e justificar alegações. Ela nos auxilia no sentido de provocar reflexões trabalhando com acertos e erros e mostrando que o erro é também uma oportunidade de aprendizado para educadores e aprendizes.

Cabe aos professores deixar para trás o modo convencional e inaugurar uma nova forma de pensar educação, pois a Filosofia tem muito a fornecer para a pedagogia e nem mesmo os educadores estão cientes do quanto ela pode contribuir para a educação do século XXI.

A partir da Filosofia aprendemos como desenvolver as habilidades cognitivas e competências. As habilidades são um conjunto de operações mentais que realizamos e a competência é o meio que utilizaremos para desenvolver tais operações, pois o fato de um sujeito ter habilidades não significa que ele saiba desenvolvê-las.

Relevante ainda destacar, que as habilidades decorrem das competências adquiridas e referem-se ao plano imediado do “saber fazer”, já as competências são ações e operações que o sujeito desenvolve para estabelecer relações com os objetos e fenômenos, ou seja, a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.

Assim, para desenvolvermos competências devemos partir da análise de situações, da ação, e disso derivar conhecimentos. Portanto, para que o educador possa alterar seu modo de ensino e desenvolver competências é preciso, antes de tudo, trabalhar por problemas e por projetos, indicar tarefas complexas e desafios que incitem os aprendizes a mobilizar seus conhecimentos e, em certa medida, completá-los.

Nesse enfoque, com uma pedagogia ativa e aberta, os educadores ensinarão concebendo, encaixando e regularizando situações de aprendizagem, seguindo os princípios pedagógicos ativos construtivistas necessários no ensino atual.

Para tanto, para que os professores mudem essa visão, precisam entender que eles não desenvolverão competências se não se perceberem como organizadores de situações didáticas e de atividades que têm sentido para os alunos, envolvendo-os, e, ao mesmo tempo, gerando aprendizagens fundamentais.

Além disso, para que os aprendizes desenvolvam competências, os profissionais da educação precisam antes de ter competências técnicas, serem capaz de identificar e de valorizar suas próprias competências, dentro de sua profissão e dentro de outras práticas sociais, trabalhando sobre sua própria relação com o saber, se colocando no lugar dos aprendizes, pois agindo dessa forma, o professor começará a procurar meios que chamem atenção de sua turma por saberes não como algo em si mesmo, mas como ferramentas para compreender o mundo e agir sobre ele, afinal o principal recurso do professor é a apresentar sua postura reflexiva, sua capacidade de observar, de regular, de inovar, de aprender com os outros, com os aprendizes, com a experiência.

Outra questão que merece ser destacada, é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de caráter normativo define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagem essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE).

Ao estudarmos as competências gerais da Educação Básica verificamos inúmeras ações que devem ser desenvolvidas, tais como: Valorizar e utilizar, exercitar, fluir, utilizar, argumentar, conhecer-se, exercitar, agir, bem como compreender, criar, produzir, resolver e etc.

Assim, não há dúvidas quanto à importância do professor de Filosofia na Educação Infantil que deve dispor-se de técnicas, estratégicas e recursos para conversar com as crianças e para intervir no sentido de manter e aprofundar a conversação, permitindo que ela obtenha as características de um diálogo filosófico.

Como já mencionado, o educador deve ter uma postura adequada que em suas metodologias estejam presentes às habilidades, que a Filosofia desenvolve. O profissional exerce um papel fundamental, devendo despertar a curiosidade, indagar a realidade, problematizar, ou seja, transformar os obstáculos, em dados para reflexão. Ou seja, o professor deve investigar a necessidade do aluno e a partir da realidade, problematizar, criar situações de diálogo.

Ainda, cabe referir que as situações-problema são um desafio no desenvolvimento de habilidades e competências, pois exigem uma demanda maior de trabalho. Para o educador é necessário pensar cada projeto, prever a duração, observar, avaliar de forma diferente do habitual e mais do que isso, é preciso conhecer tanto os conteúdos e a conexão entre eles, quer seja na mesma disciplina ou não, como os alunos. O aprendiz precisa ir além do exercício e da repetição, tomar decisões, analisar o contexto, separar e articular as partes do problema em busca de soluções, e para que isso ocorra o professor deve conhecê-lo, ou seja, verificar se ele já sabe, se aprendeu, o que aprendeu, qual competência já atingiu, qual ainda está sendo construída e qual necessita ser trabalhada.

Cabe acrescentar, que Lipman ao tratar de Filosofia para Crianças criou o que chama de Pedagogia da Comunidade de Investigação onde descreve que a sala de aula tradicional deve se transformar numa Comunidade de Investigação com a participação ativa de crianças e professores no diálogo sobre os problemas em questão, ou seja, conceitos de fundo de nossa existência, aqueles que são centrais, comuns e controversos.  Ainda, preceitua que o diálogo filosófico é a pedagogia do pensar bem, o que significa um pensar crítico, criativo, ético e político. Com essa prática de Filosofia os alunos formam as atitudes democráticas, tornando-se cidadãos críticos, reflexivos e participantes do processo deliberativo.

Por isso, a BNCC é algo desafiador para os professores, pois não é fácil se adequar e criar novos métodos de ensino e poderia ser algo mais efetivo de igual forma se todos os ambientes escolares possuíssem os mesmos recursos para que os educadores pudessem trabalhar de igual forma suas disciplinas e assim desenvolverem esse desafio de forma positiva para si e para os educandos para que então, a proposta de ensino por competências seja prezada e compreendida de forma concreta.

Muitos professores já constataram em suas rotinas que aquela forma de aprendizagem-padrão tão amplamente explorada em sala de aula já está atrasada, pois a nova geração de estudantes nasceu em um meio em que a quantidade de informações difundidas e não a qualidade delas, dita o saber.

Assim, para que possamos promover uma educação voltada para a compreensão devemos obter um aprendizado com foco no desenvolvimento de competências e habilidades, com o uso de metodologias e materiais estimulantes, pois só então seremos capazes de promover a curiosidade, a reflexão, o sucesso acadêmico e a formação de cidadãos críticos e criativos, aptos para trabalharem de forma colaborativa e comunicativa conforme as demandas atuais, pois somente com as metodologias ativas, ou seja, com práticas teóricas consolidadas e estruturadas é que podemos transformar a sala de aula de forma mais ativa.

E para os professores desenvolverem e aperfeiçoarem suas práticas pedagógicas e aplicarem essas práticas em sala de uma maneira ainda mais efetiva, devem desenvolver essas habilidades cognitivas através da Filosofia.

Por todo o exposto, a partir do estudo da Filosofia é possível enriquecer a prática educativa para o pensar reflexivo, possibilitando aos educadores desprender-se de certas ações conteudistas e repensar novas e melhores formas de realizar o processo de lecionar. Com essa proposta de incentivar o aluno a interagir ele deixa de apenas um receptor de conteúdos e torna-se um ser atuante e participante na sociedade, com senso crítico, pois fica atento ao que está na sua volta e tem prazer pelo que está aprendendo.

Ademais, o principal recurso do professor é a postura reflexiva, sua capacidade de observar, regular, inovar, aprender com os outros, com os educandos, com a experiência e nesse caso é visível a importância da disciplina da Filosofia para um pensar crítico da realidade em que vive, onde o aprendiz relaciona fatos de seu cotidiano, sua rotina, sua realidade aos conteúdos que estuda.


Autor

  • Elisama Maryan Cardoso da Silva Alves

    Advogada. Bacharel em Direito pela Universidade da Região da Campanha - URCAMP/Bagé, integrante até o ano de 2016 do Projeto de Pesquisas em Direitos Humanos: desafios no efetivo cumprimento dos direitos de 2ª geração no Brasil (URCAMP) e membro do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes nos países do MERCOSUL (GEDIHCA/URCAMP). Na seara acadêmica foi integrante na gestão do Diretório Acadêmico Tarcísio Taborda (DATT) no ano de 2013 e na gestão de 2014 como Secretária de Eventos, onde ajudou na organização de palestras, semanas jurídicas da Instituição, bem como na realização das jornadas acadêmicas de Direito do referido Diretório. Como membro da Comissão Organizadora da XXXVI Semana Jurídica e I Mostra de Trabalhos Científicos Direitos Humanos, Cidadania e Inclusão Social, iniciou a caminhada científica dissertando sobre “Cooperação Jurídica Internacional”, bem como sobre o meu artigo intitulado “A interceptação de sinais e sua eventual ilicitude da prova”. Atualmente membro da gestão da Comissão Especial do Jovem Advogado (CEJA) da Subseção de Bagé/RS. Pós-graduanda em Ensino de Filosofia (UFPel/RS). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8037475917205709

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