Resumo: O presente estudo teve como objetivo compreender os fatores que influenciam a violência sexual contra a criança e ao adolescente. A metodologia utilizada no presente trabalho é descritivo-exploratória. Descritiva porque está pautada na descrição de fatores intrínsecos e extrínsecos e na ausência das formas de combate. É exploratória já que está analisando os fatores intrínsecos, extrínsecos e as formas de combate da violência sexual contra a criança e ao adolescente. Essa pesquisa foi realizada mediante pesquisa bibliográfica construída a partir de materiais publicados em artigos acadêmicos, em trabalhos de conclusão de curso, em livros, em revistas, em artigos e em sites especializados sobre o tema: violência sexual contra a criança e ao adolescente. A abordagem da pesquisa foi qualitativa, pois se preocupou com o nível de realidade que não pode ser quantificado. Diante disso, verificou-se a desestruturação familiar, a falta de credibilidade na palavra da criança por parte da família, o tabu da família diante do abuso sexual incestuoso, o sentimento de culpa e também o medo da revelação por parte da vítima, as ameaças, a sedução, a ingerência de substâncias e doenças psicológicas que afetam o discernimento mental do agressor, além do machismo, da indústria pornográfica, da erotização precoce e do tabu social, que aumenta a probabilidade da violência sexual contra criança e ao adolescente. Além disso, a ausência dos mecanismos eficazes para a prevenção contra a violência sexual contra a criança e ao adolescente. Portanto, essa pesquisa trouxe avanços para o combate da violência contra a criança e ao adolescente, pois possibilitou a compreensão dos fatores que influenciam na violência sexual e identificou a lacuna do conteúdo a ser preenchidos no futuro.
Palavras-chave: violência sexual; causas; formas de combate.
Sumário: 1. Introdução. 2. Violência sexual contra a criança e o adolescente. 2.1. Fatores intrínsecos da violência sexual contra a criança e o adolescente. 2.1.1. Família. 2.1.2. Vítima. 2.1.3. Agressor. 2.2. Fatores extrinsecos da violência sexual contra a criança e o adolescente. 2.2.1. Machismo. 2.2.2. Erotização precoce. 2.2.3. Indústria pornográfica. 2.2.4. Tabu social. 3. Mecanismos de defesa eficazes no enfrentamento da violência sexual contra a criança e o adolescente. 3.1. Discussão de gênero. 3.2. Educação sexual. 4. Metodologia. 5. Justificativa. 6. Considerações finais. Referências.
1. INTRODUÇÃO
Dados apontam que a violência sexual contra a criança e o adolescente tem ganhado espaço na sociedade brasileira. O Brasil, em 2020, ocupou o 2° (segundo) lugar no ranking mundial entre os países que lideram a exploração sexual infantil (UM CRIME ENTRE NÓS, 2020). Além disso, o globo divulgou que o “Brasil registrou ao menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes em 2018, o maior índice de notificações já registrado pelo Ministério da Saúde”.
Isso reflete que o Estado brasileiro tem dificuldade de enfrentar a violência sexual contra a criança e o adolescente. A dificuldade em enfrentar a violência sexual na infância e na juventude é compreendida pela apresentação de vários fatores que aumenta a probabilidade da ocorrência dessa violência que podem se originar não somente de uma única de razão, mas razões complexas, bem como do abusador, da família, da vítima, além dos aspectos sócios culturais (LACERDA, 2022; GOMES, 2017; LAFRAIA, 2020; SPAZIANI; MAIA, 2015; LIMA, 2022; COELHO; RIBEIRO, 2019).
A partir do contexto apresentado anteriormente nasceu a questão desse estudo: quais os fatores que influenciam a violência sexual contra crianças e adolescentes?
Desse modo, o objetivo geral é analisar os fatores que influenciam a violência sexual contra criança e ao adolescente. Nessa linha, os objetivos específicos são: caracterizar os aspectos sociais e culturais da família, da vítima e do abusador; identificar os fatores que contribuem com violência sexual infanto-juvenil; e analisar as formas de defesa eficazes para o combate dessa violência.
Parte-se da hipótese da ineficácia dos instrumentos de proteção da educação sexual e discussão de gênero na infância e na adolescência dessas vítimas de violência sexual.
Portanto, esse estudo é de total relevância no contexto atual tanto para a comunidade científica, quanto para a sociedade civil organizada, já que busca identificar os fatores que influenciam os crimes sexuais contra a criança e ao adolescente, além de expor também as formas de prevenção.
A metodologia utilizada no presente trabalho é descritivo-exploratória que, segundo Prestes (2016, p. 30), na pesquisa descritiva se observa, registra, analisa, classifica e interpreta os fatos, sem que o pesquisador lhes faça qualquer interferência.
Assim, a pesquisa apresenta-se como descritiva porque descreve os fatores intrínsecos e extrínsecos, e exploratória porque possui objetivo principal de conceder familiaridade com o problema, tendo intenção de transformá-lo de forma mais explícita possível, produzindo uma variedade de hipóteses. Nesse sentido, analisando as formas de combate da violência sexual contra a criança e ao adolescente.
Logo, a pesquisa é exploratória já que interessa analisar diferentes aspectos relacionados ao fato ou fenômeno que será estudado. Além disso, é também uma pesquisa bibliográfica, pois foi construída a partir de materiais publicados em artigos acadêmicos, trabalhos de conclusão de curso, em livros, revistas, artigos e em site especializados da internet sobre o tema a violência sexual contra a criança e ao adolescente.
Quanto à abordagem, ela é qualitativa, uma vez que se preocupou com o nível de realidade que não pode ser quantificado, ao invés de estatísticas, regras e outras generalizações. Sendo assim, a qualitativa pelo fato desse tema trabalhar com descrições e interpretações representada através da análise de conteúdo dos fatores intrínsecos, extrínsecos e na identificação das formas de combate contra a violência sexual contra a criança e ao adolescente.
Por fim, o trabalho foi dividido em 6 (seis) capítulos, no primeiro são investigados os fatores intrínsecos da família, vítima e agressor.
Em seguida, no próximo capítulo são analisados os motivos extrínsecos da violência sexual contra a criança e ao adolescente, bem como o machismo, a erotização precoce, a indústria pornográfica e o tabu social.
Em ato conseguinte, na seção três são encontradas as formas de combate eficazes que dizem respeito à educação sexual, a discussão de gênero.
Os capítulos 4 e 5, trarão, respectivamente, a metodologia adotada detalhadamente, e a justificativa para realização do presente estudo.
Ao final, tem-se a conclusão determinando se os objetivos foram atendidos e se a pergunta foi respondida com a confirmação ou não da hipótese.
E por fim, as referências utilizadas no trabalho.
2. VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA A CRIANÇA E O ADOLESCENTE
2.1. Fatores intrínsecos da violência sexual contra a criança e o adolescente
Mouammar afirma que os motivos intrínsecos por parte da vítima são manifestados pelo sentimento de culpa bem como pelo medo de ser julgada socialmente (MARTINS, 2019).
Silva (2012) certifica que o medo também está ligado como um dos fatores internos, uma vez que o agressor dessa vítima após cometer a violência a ameaça de um mal injusto e grave caso releve para alguém.
Outros fatores ligados aos sujeitos dessa violência sexual são manifestados por parte da família. Nesse sentido, Silva (2012) destaca que a falta de confiança por parte da família na palavra da vítima facilita esse tipo de violência.
Assim, Adriana Yañez, cineasta, acredita que a família tem facilitado essa violência sexual contra a criança e o adolescente através do silêncio (OLIVEIRA, 2020). Nessa mesma linha, Gomes (2017) detalha muito bem como o silêncio dos familiares dessa vítima que pode ser justificado.
Além desses fatores, há também as ameaças classificada como umas das principais causas dessa violência sexual, pois esse fator assegura a impunidade do agressor (ARAÚJO, 2020).
2.1.1. FAMÍLIA
Embora a família na legislação brasileira seja vista como uma garantia para o exercício dos direitos da criança e do adolescente, na maioria das vezes, nos casos de violação sexual contra criança e adolescente essa estrutura tem se mostrado como uma forma de favorecimento para esses tipos de violações.
Destaca-se que, de acordo com Braun (2002 apud SILVA, 2012), a família contribui para que a violência sexual seja realizada, pois os números comprovam que a família está cada vez mais permitindo que a violência sexual ocorra e se prolongue.
Nessa linha de raciocínio, Silva (2012) argumenta que os fatores externos que favorecem os abusos sexuais intrafamiliares são a inexistência de evidências médicas que faz com que a família não possa comprovar o abuso sexual e a falta de credibilidade na palavra da criança que induz essa vítima a não revelar o abuso com medo de ser castigada pela mentira pela sua família.
Oliveira e Marcon (2005) ressaltam que a ausência do vínculo familiar e a desvalorização do vínculo afetivo na família tem facilitado exploração sexual infanto-juvenil, por consequência, as famílias estão colocando os seus filhos em risco.
Para Spaziani e Maia (2015), umas das razões para a exploração sexual contra criança seria problemas familiares, como a desestruturação da família. Ou seja, isso faz com que esse perpetrador se aproveite dessa situação familiar e cometa esse crime dentro do seio família. Adriana Yañez explica que a exploração sexual;
É uma epidemia silenciosa e com uma dimensão arrebatadora, porque essa violência está instaurada em todas as famílias, em quase todas as casas e, ao mesmo tempo, é muito silenciada. Há uma naturalização disso (OLIVEIRA, 2020, online).
Entende-se que a família tem naturalizado essa violência sexual através do silêncio. Pois, o silêncio das famílias facilita tanto a prática da violência sexual quanto a sua permanência.
Para corroborar, Gomes (2017) busca explicar os motivos do silêncio da família do abuso incestuoso contra crianças. Assim, por meio de depoimentos reais e, uma posterior, análise desses depoimentos das vítimas que sofreram abusos sexuais incestuosos é possível identificar vários motivos da omissão da família. E que, por consequência, favoreceram o acontecimento e a sucessão dos abusos sexuais.
Assim, no primeiro depoimento da vítima, T.N.F. relata que era escolhida para dormir com o agressor, seu pai. A sua estrutura familiar era de pais separados e tinha cinco (5) irmãos. Ela relata que passava feriados, férias e finais de semana com ele, dessa maneira ela sempre dormia com o agressor.
Mas, quando ela cresceu e obteve maturidade, percebeu que sofreu abusos sexuais durante muitos anos. Em seguida, foi morar em outro Estado, contudo em um determinado dia ele entrou no banheiro que ela estava tomando banho e de repente tirou a toalha dela e começou a se masturbar na sua frente. Nesse momento, ela ficou paralisada relembrando todas às vezes que ele lhe abusava sexualmente e que, nessa hora, fingia estar dormindo. Assim, esses abusos consistiam em toques e carícias em suas partes íntimas.
Quando ela tinha entre 23 (vinte e três) e 24 (vinte e quatro) anos denunciou seu pai para sua mãe, mas quando sua mãe soube apenas ratificou-se que se omitiu implicitamente, por exemplo, falou para sua filha que já imaginava que seu pai abusava sexualmente da sua irmã, mas não dela.
Segundo ela, a sua família já tinha histórico na família de abusos incestuosos. Por exemplo, o avô dela por parte de pai ,quando faleceu, tinha cinco famílias distintas e convivia com todos os seus filhos, além disso, sua avó tinha um irmão que abusava das suas netas e também de seus primos e seu irmão se casou com sua prima, por consequência, da sua familiar se relacionar com seus parentes dessa forma, acabou sendo mais uma vítima da violência sexual.
Assim, ela argumenta que as razões do silêncio da sua família para que esse abuso incestuoso acontecesse foi porque como sua mãe era vítima de violência doméstica de seu pai silenciou para poder ser aceita, ademais sua madrasta desconfiava dos abusos sexuais que sofria, mas apenas resolveu ficar calada porque tinha medo de perdê-lo.
Nas palavras de Gomes (2017, p. 87), o motivo do silêncio, segundo a ótica da família patriarcal burguesa, é a seguinte;
A configuração das famílias apresentadas nos depoimentos, mostra-se alinhadas ao pressuposto monogâmico burguês capitalista do homem chefe de família, provedor dos bens e recursos, enquanto a mãe ocupa um lugar de menor destaque. Este quadro pode ser assim entendido mesmo na condição do primeiro depoimento, onde a mãe trabalha fora e contribui financeiramente com o lar, haja vista a configuração de sua dupla jornada de trabalho no caso de manter sob sua exclusiva responsabilidade os cuidados com a casa e os filhos, enquanto as atribuições do marido se resumem ao aporte financeiro, material e alguma temporária supervisão das atividades dos filhos.
Ou seja, ela argumenta que esse abuso sexual aconteceu em razão da inclusão da mulher no mercado de trabalho, a qual deu às mães dupla jornada, como trabalhar e contribuir financeiramente com sustento familiar e cuidar dos filhos, sendo que antes supervisionavam tudo o que os filhos faziam e agora eles têm pouca supervisão.
Na sequência, o segundo depoimento da J.C.S.M, o abusador foi seu tio que sempre frequentava a sua casa e se aproveitava da ausência de seus pais, uma vez que seu pai passava dias fora trabalhando, seus irmãos na escola e sua mãe fora de casa, isto é, seu tio tinha fácil acesso para poder abusar sexualmente dela. Assim, nessa ausência, ele tentava tocar no seu corpo, beijar e até mesmo obrigá-la a manter relações sexuais sem a sua vontade. Quando conseguia abusar sexualmente, a vítima afirmou sentir nojo e medo do seu tio.
Além disso, ela relatou que sua irmã necessitou morar na casa desse mesmo tio que a violentava sexualmente, e, quando eles dois ficavam sozinhos, seu tio obrigava a sua irmã ter relações sexuais contra sua vontade.
Ela ainda acrescenta que uma vez foi na casa dele quando viu esse seu tio em cima de sua filha mais velha e mesmo ela chegando a implorar ele continuava os abusos. Outra vez, ela conta que viu seu tio tocar as partes íntimas da sua prima, que é filha mais nova desse agressor.
Um dia, cansada de ser abusada pelo seu tio e de vê-lo abusar de suas primas contou para sua mãe, mas ela apenas falou para ela não falar nada com ninguém, porque seu pai poderia matar seu tio. E como nada havia sido feito seu tio continuava os abusos. Essa vítima afirma também que sua mãe tinha respeito e medo do seu irmão, que é o abusador.
Dessa maneira, os abusos durante toda sua infância e juventude aconteceram. Sua mãe e a esposa desse seu tio sabiam, mas o proibiam de contar para alguém dos abusos que ele praticava contra ela, sua irmã e suas primas.
Certa vez, a filha de seu tio na fase adulta, mais velha, chegou em casa e deparou-se com seu pai abusando sexualmente de um menino deficiente e chamou a polícia, mas ela se arrependeu e permitiu que os policiais não o encontrassem.
Por fim, ele fugiu para outra cidade e um tempo depois foi esquecido esse assunto. Sua mãe corroborou que isso nunca aconteceu.
Segundo Gomes (2017), por meio de análise desse depoimento, sob a ótica legal e dos organismos de proteção é possível perceber que J.C.S.M denunciou seu caso para a mãe, mas ela decidiu guardar o segredo para a segurança de seu irmão em vez da segurança de suas filhas.
Dessa maneira, além do silêncio da sua mãe permitirem que os abusos acontecessem durante toda sua infância e adolescência permitiu também que esses abusos se expandissem por toda a sua família e vizinhança. Assim como sua prima que pegou esse mesmo agressor em situação de flagrância abusando sexualmente de um vizinho resolveu não denunciar, porque era seu sangue que ia pra prisão.
Gomes (2017, p. 94) fez uma análise acerca do depoimento de J.C.S.M do ponto de vista do incesto propriamente dito. Assim, argumenta que;
O relato de J.C.S.M., sobre seu tio que a subjugava e à sua irmã, trouxe o cenário de um abuso mais agressivo. Não havia nenhum tipo de “carinho” ou sedução. O abusador neste caso confia plenamente no escudo de cumplicidade e segredo que construiu junto a sua família nuclear e junto a, pelo menos, uma integrante da família estendida, na fragilidade das crianças e na pouca credibilidade que se dá às suas histórias, conformando o ambiente ideal para a impunidade que percebe até os dias atuais. Uma outra característica interessante na história familiar de J.C.S.M é o fato do tio ter assumido o papel de “chefe de família”, quando sua irmã, no caso mãe de J.C.S.M, ainda era criança. Destacamos também o interesse sexual dele por crianças, no passado, quando "fugiu" com uma menina de 12 anos. Diante do perfil sexual agressivo que este tio apresenta, a própria mãe de J.C.S.M, pode ter sido vítima de abusos em sua infância e com isso naturalizado esse tipo de violência.
Em outras palavras, ela destaca que pelo motivo da cumplicidade; do sigilo das vítimas serem frágeis e sem credibilidade; e por conta do tio ter assumido o papel de chefe da família e também pela hipótese da mãe dessa vítima também ter sido vítima, tudo isso fez com que houvesse a naturalização dessa violência sexual incestuosa, prevalecendo o silêncio da família e a concretização dos abusos sexuais contra essas vítimas.
Já no que diz respeito ao depoimento da mãe, A.P., a vítima são suas filhas, os seus agressores eram o padrasto e seu sogro. Ela afirma que vivia cega de amor, não enxergava nada acerca desses abusos.
Assim, ela argumenta que trabalhava o dia todo e quando chegava à noite estava exausta e caia no sono, outra razão também desse sono era a questão de que esse agressor colocava remédio para ela dormir. Por consequência, enquanto ela dormia, ele abusava sexualmente de suas três filhas.
Segundo essa mãe, em seu depoimento, o agressor era sedutor, bonito e musculoso. Quando ela conheceu esse agressor ela já estava grávida de 3 (três) meses. Ela estava grávida mãe de muitos filhos e ainda separada. Além disso, ele lhe fazia perguntas, por exemplo, quantos filhos ela tinha.
Nesse sentido, em um determinado dia ela resolveu denunciar esse agressor, porém a pior parte desse depoimento das suas filhas na delegacia foi quando a delegada fez gestos que coagissem elas a falarem, por exemplo, colocando a arma em cima da mesa e gritando para que elas pudessem falar os fatos à força, ainda afirmou que o depoimento das suas filhas foi exaustivo, porque passaram o dia todo na delegacia.
Em seu depoimento na delegacia relatou que enquanto trabalhava, ele ficava sozinho com suas filhas. Disse que, não enxergava que ele olhava para as partes íntimas de suas filhas, que percebia, mas não queria acreditar porque amava muito ele. Um dia a filha dela ligou falando que havia se machucado, mas quando ela foi saber o que havido, sua filha apenas mentiu, porque seu padrasto persuadia, por exemplo, com promessas de dar boneca. Assim, ele abusava sexualmente dela.
Nesse sentido, ele rompeu o hímen da A.C., porque ele havia tido relação sexual sem consentimento dela, ele mentiu que ela havia caído na sua cama para a mãe da vítima. Em razão da hemorragia, logo sua mãe correu para o hospital com ela.
Para ela, os médicos também têm uma parcela de culpa, porque ela não tinha conhecimentos específicos que causou aquela interrupção do hímen da sua filha, A.C., mas eles tinham mais probabilidade de conhecer um eventual estrupo. Entretanto, os agentes de saúdes argumentaram que ela rompeu o hímen em razão da queda, assim como a vítima havia contado.
Nessa lógica, voltaram para casa como se nada tivesse acontecido, mas o comportamento da sua filha mudou com ele.
Além disso, conforme a mãe da vítima, a forma que a polícia age faz com que se arrependam de denunciar e voltar atrás, que a estrutura é ruim, bem como o corpo de delito. Pois, sua filha era obrigada a ficar na frente de 4 (quatro) médicos, por consequência, nesse momento, sua filha estava com muita vergonha e também chorava muito.
Mesmo apesar de tudo isso, um tempo depois, a mãe das vítimas ainda voltou com ele por dinheiro e sexo. Ele queria que ela tirasse a queixa e ela foi para delegacia para retirar, porque ainda amava ele, mas a delegada insistiu para que ela não retirasse. Assim, ele foi preso e confessou que amava a filha de 15 (quinze) anos de idade.
Para ela, tanto no tribunal, por parte da família dele, quanto, do lado de fora, por parte da família dela, foi traumatizante. E, infelizmente, não receberam nenhum apoio psicológico por parte do Estado.
Um tempo depois, ela conheceu um homem que era muito bom para ela. Mas, pensando que todo aquele pesadelo havia acabado o sogro um dia ficou sozinho com suas filhas, assim persuadiu a sua filha, A.C., com promessas de dar boneca e outros brinquedos para poder lhe abusar sexualmente. E logo, ele começou assediá-la colocando uma fita na sua boca e começando a passar as suas partes no ânus e vagina.
Demorou, mas ela descobriu que seu sogro havia desrespeitado sexualmente A.C. por meio de uma mãe da amiguinha da sua filha, e logo chamaram o conselho tutelar. Sua família quando soube apenas lhe desprezou amargamente, seu pai lhe bateu e seus irmãos e sua mãe já não mais falavam com ela.
Quanto ao seu sogro, apenas foi processado, mas não condenado, visto que não havia provas suficientes. Por isso, vive hoje como se nada tivesse acontecido.
Por fim, A.C recebeu apoio do psicológico, psiquiátrico e fonoaudiólogo do CREAS.
Nesse sentido, Gomes (2017) fez análise sob a visão da dinâmica do incesto propriamente dito desse depoimento de A.P para identificar outros motivos que levou a ocorrência desses abusos sexuais contra as filhas.
Certamente, ela argumenta que, pela razão do padrasto se valer da autoridade patriarcal e de sua foça fez com que as (3) três vítimas fossem abusadas sexualmente por mais que elas resistissem com a estratégia de dormirem juntas agarradas na mesma cama.
Já os motivos que fez com que o seu sogro abusasse, no início, foi a sedução e, por derradeiro, quando foi denunciado as suas palavras se valeram mais que da vítima. Ela ainda ressalta que os órgãos de proteção e justiça não acreditaram no depoimento de A.C. mesmo apresentando efeitos negativos durante esse depoimento.
Gomes (2017) fez também uma análise do depoimento de A.P. sob a ótica legal e dos organismos de proteção. Assim, ela argumenta que os profissionais da assistência social e da saúde tinham mais probabilidade identificar se o hímen de A.C que foi rompido em razão da queda ou da relação sexual não consentida com seu padrasto do que a mãe. Há um ponto dos médicos terem se omitido diante desse crime de estrupo de vulnerável. Pois, eles poderiam ter percebido que essa lesão resultou do estrupo de vulnerável e mesmo assim não fizeram nada para denunciar esse crime para as autoridades competentes.
Além disso, ela também fez uma análise acerca desse depoimento de A.P. para identificar as razões desses abusos sexuais por meio da perspectiva da Família Patriarcal Burguesa. Assim, ela argumenta que:
Pertinente dar um destaque nesta análise à situação de A.P. Mãe de seis filhos, segundo ela, cada criança de um pai diferente. Sua condição de mulher, “chefe de família”. Suas necessidades e subjetividades em encontrar um amor e construir uma família socialmente aceita. Afinal, como uma sociedade patriarcal burguesa enxerga uma mulher sozinha, mãe de seis filhos? Apesar de trabalhar fora e ter uma renda, o valor recebido por seu trabalho assalariado ainda não é o suficiente para suprir todas as necessidades da família. A contribuição de um companheiro tanto financeiramente quanto com os cuidados com os filhos é muito bem vinda. Como exposto em seu depoimento, quando conheceu “F” ela se sentia “totalmente dependente de um homem”. Um terreno fértil para um predador. De acordo com Azambuja (2006, p. 130), um dos motivadores do silêncio é o financeiro. No caso desta família, não havia violência intrafamiliar, pelo contrário, o abusador de mostrava um bom companheiro para A.P. (GOMES, 2017, p.87).
Ou seja, esse motivo da dependência de cuidado fez com que A.P., mãe das vítimas, colocasse o abusador dentro de sua casa e, por consequência, ele abusou sexualmente dessas três crianças.
Por fim, tem-se o depoimento da vítima C.M. A, que sofreu abusos sexuais por parte do seu tio e primo. A vítima sofreu abusos sexuais cerca de 2 (dois) anos desses agressores, entre os oito (8) e (10) anos de idade.
Os agressores não moravam com ela, seu primo passou um tempo morando na sua casa, já seu tio às vezes lhe visitava. Nesse caso, os abusos aconteciam em razão das ameaças por parte desses agressores, diante disso ela relata que não tinha ninguém que ela confiasse para denunciá-los.
Assim, para corroborar com as ameaças seu primo ainda lhe desencorajava, por exemplo, afirmando que ninguém iria acreditar nela porque sua mãe falava que ela era muito mentirosa para os seus familiares e outras pessoas.
C. M. A. explica que silenciou sobre esses abusos sexuais, porque amava muito seu pai com medo de ele cometer algum crime contra esses agressores a fim de fazer justiça.
Gomes (2017) busca explicar os motivos do silêncio da C. M. A por meio da análise da ótica da dinâmica do incesto propriamente dito, assim:
Para C.M.A., onde a estratégia usada contra ela para manter o segredo se valeu de argumentos recorrentes no próprio tratamento depreciativo da mãe com sua filha, como ela mesma relatou. A mãe sempre a “taxou de mentirosa”, então o que a fez calar foi o medo de enfrentar o descrédito da família e o receio de decepcionar o pai. Em todos os depoimentos apurados neste trabalho identificamos a adesão do perfil do adulto abusador, detentor de um hipotético e particular direito de posse sobre suas filhas e familiares de menor capacidade de defesa. (GOMES, 2017, p. 94).
Entende-se que os agressores abusaram de C.M.A. em razão das queixas de descrédito que sua mãe tinha contra ela e por isso eles se aproveitavam para cometerem abuso sexual. Nessa lógica, a vítima não queria denunciá-los, porque sabia que sua família não acreditaria em suas palavras e também para não fazer com que seu pai ficasse abalado e com raiva dos abusos que sofria frequentemente, além dos seus parentes agressores.
Em síntese, Crami (2009 apud GOMES, 2017) argumenta que o relacionamento dessas famílias incestuosas com a vítima é pobre. A figura do homem nessa instituição é de hierarquia máxima onde sua decisão e não pode ser desrespeitada pela mulher. Além disso, as regras e a comunicação são fechadas. Por consequência, a vítima em eventual abuso sexual ver-se como única alternativa o silêncio.
Conforme Feola (2016), o tabu é um assunto que às pessoas evitam falar. Nesse sentido, ela argumenta que certos temas atualmente são como se fosse uma verdade absoluta e, por consequência, é considerada, por exemplo, uma regra natural do ser humano, de não poder ser tocada e sequer debatida essa verdade imutável.
Nessa lógica, Kelly Meneses, coordenadora da Rede Aquarela afirma que em razão do tabu estar inserido na família isso reforça a dificuldade em combater a violência sexual contra crianças, bem como:
Quanto à prevenção, a dificuldade é que falar sobre esse tema ainda é cercado de tabu. A sexualidade ainda é cercada de tabu. É preciso falar na família e nos espaços públicos. A própria criança tem resistência de falar ou denunciar porque é um assunto proibido, é um assunto que não é bem-vindo. Isso reforça o silêncio, por isso é tão difícil o abuso ir à tona. (RAMIRES, 2019, online).
Assim, é possível perceber em suas palavras que a família permite que esses abusos sexuais se concretizem, já que os pais sempre evitam falar sobre sexualidade para seus filhos quando crianças. No fim, isso reflete diretamente na criança que sofre violência sexual através do medo de falar sobre o que aconteceu ou de denunciar devido ser um assunto inibido em sua família.
Para Luciana Temer (AUGUSTO, 2020), quando a família silencia a violência sexual contra crianças e adolescente, permite que essa violência sexual se naturalize. Cita inclusive um caso de uma menina com idade entre cinco a seis de anos sofria abusos sexuais pelo tio frequentemente, que ele se aproveitava dela da seguinte forma; para ele poder deixá-la jogar videogame ele a convencia de violentá-la sexualmente, mas ela não sabia que se tratava de violência sexual e, achando que era certo, ela permitia.
Contudo, ao se tornar adulta ela percebeu que isso era errado e por consequência se sentiu culpada. Logo, quando a sua família soube desse fato que havia ocorrido contra ela quando era criança nada fez, apenas abafou esse caso achando que estaria protegendo-a, mas, na realidade, estava apenas contribuindo para que essa violência se naturalizasse. Esse silêncio faz com que o agressor fique impune.
2.1.2. VÍTIMA
Outro ponto que colabora para a incidência de violência sexual é o preconceito social nos dias atuais com relação às vítimas de tal crime tem refletido na manutenção dessa violência. Inclusive, é possível perceber que a criança e o adolescente não acabam revelando que sofreram essa violência por inúmeros motivos ligados a esse preconceito social.
Assim, Martins (2019) afirma que segundo especialistas tanto o medo de revelar para as pessoas quanto o sentimento de culpa pelo abuso sofrido por parte da vítima alimentam o abuso sexual. A título de exemplo cita um caso em que um menino sofreu abusos sexuais por parte de um padre da paróquia por cerca de 2 (dois) anos.
Mouammar explica que quando se trata de pessoas próximas daquela vítima os abusos praticados contra ela geram um sentimento de culpa, consequentemente, a vítima acaba silenciando aquele tipo de violência sexual sofrida (MARTINS, 2019). Além disso, essa especialista destaca o temor do abusado de o risco dos colegas na escola comentarem sobre o caso.
Percebe-se que pela razão do abusador está próximo dessa vítima decide silenciar-se e, ao mesmo tempo, não denunciar para a sua família. Como resultado, ela não está apenas permitindo que essa violência sexual se perpetue contra ela, mas está garantindo que o abusador fique impune e repita tal ato contra ela e com outras crianças e adolescentes.
Para reforçar, Silva (2012) explica que a culpa é um dos fatores psicológicos que favorecem o abuso sexual incestuoso. Percebe-se que o temor pela exposição das ameaças que recebeu do agressor também está inserido nesses fatores.
Nessa linha de pensamento, Silva et al. (2018) explicam motivos do silêncio da criança e do adolescente diante da violência sexual sendo a culpa e a vergonha os dois fatores que contribuem para que a vítima silencie diante da violência sexual sofrida e, por consequência, a manutenção dos abusos sexuais.
Elas argumentam que a sexualidade é algo natural do ser humano, mas ela pode ser estimulada por terceiros, assim a criança a partir de 4 (quatro) anos de idade se estimulada sexualmente já começa a aflorar e sentir prazer sexual na prática do ato com o agressor e, por consequência, sentir-se culpada e envergonhada. O que gera o seu silêncio. Neste sentido;
É frequente diante da existência do abuso sexual firmar-se um pacto de silêncio sobre o assunto, esse é um dos fatores que torna extremamente difícil para a criança romper com o segredo, principalmente quando acontece por alguém que a vítima ama ou confia, assim calando-se seja por medo de ser desacreditada ou por diversas ameaças que possam ser feitas, podendo até mesmo voltar atrás em suas palavras por pressões do violador ou até por pessoas de seu meio de convivência. Pode-se dizer que manter o pacto do silêncio trata se de um dos fatores que mais favorecem a continuidade e reprodução do abuso, esse silêncio é mantido em grande parte pelo sujeito que comete a violência, a vítima e os membros envolvidos na dinâmica, muitas vezes revelar o abuso se torna mais um obstáculo a ser enfrentado, fazendo parte de um ciclo de revitimização que se alternam entre abusos, omissão e ameaças. (SILVA et al., 2018, p. 3).
Entende-se que a ameaça por parte do violentador e a omissão de não relevar os abusos sofridos pelo do medo de ser desacreditada por parte das pessoas faz com que a vítima silencie e, assim, os abusos sexuais continuem.
Outra importante razão para o silêncio da vítima é a falta de conhecimento sobre a sexualidade, motivo que leva a vítima a não saber diferenciar carinhos de abusos. Dessa maneira, o medo da revelação, a dependência emocional, a ameaça pôr do violentador, além do sentimento de culpa faz com a vítima silencie diante da violência sexual.
2.1.3. AGRESSOR
Entender as formas com que o agressor age para violentar sexualmente as crianças e os adolescentes é primordial. Miyahara afirma que esse agressor pode acabar seduzindo a vítima com discursos mesmo que vítima já possua maturidade suficiente para entender o que ele quer dizer com suas palavras de sedução (MARTINS, 2019). O agressor vai persuadindo aquela vítima com palavras bonitas até ele abusar sexualmente dela.0
Por outro lado, Gadelha (2012 apud GOTTARDI, 2016) argumenta que o agressor pode apresentar algum problema mental e por consequência afeta o seu controle mental ou não gera sentimento de culpa aos atos violentos. Além disso, ele pode ingerir substâncias que pode lhe deixar momentaneamente sem controle sobre os seus impulsos agressivos e ainda pode ter doença crônicas que afetam seu sistema neural.
Seguindo essa linha, Spaziani e Maia (2015) afirmam que uma das causas da violência sexual contra as crianças são distúrbios psicológicos violentador. Nesses termos, elas conceituam esses distúrbios psicológicos do perpetrador como;
Categoria diz respeito à sexualidade doentia do/a perpetrador/a da violência sexual contra as crianças, que, segundo algumas professoras, não conseguiria conter seu desejo e impulso sexual. Assim, para elas, a violência sexual contra a criança ocorreria devido aos distúrbios mentais e psicológicos do/a perpetrador/a. Este/a perpetrador/a foi descrito/a como alguém que não consegue se controlar, doente, com perturbação mental ou desvio de personalidade. Isso porque, para algumas participantes, é possível ter relação sexual por meio da prostituição, não havendo explicação plausível para vitimizar uma criança. De acordo com uma participante, esse distúrbio psicológico é resultado da masturbação infantil, bem como das brincadeiras sensualizadas entre crianças, que não foram contidas. Assim, tais ações invasivas acarretariam uma tendência à violência sexual com outras pessoas, já que situações de violência sexual foram banalizadas por estes indivíduos (SPAZIANI; MAIA, 2015, p. 6-7).
Assim, o autor da violência sexual contra crianças apresenta uma sexualidade doentia que não consegue conter seu desejo e impulso sexual. Esses distúrbios mentais e psicológicos fazem com que essa pessoa comete a violência sexual contra essas crianças. Desse modo, é possível analisar algumas características desse perpetrador, tais como não possuir controle, o fato de ser doente, perturbação mental ou desvio de personalidade.
Essa pessoa que apresenta problemas psicológicos faz com que a sociedade acredite que ele é uma pessoa normal. Cabe ressaltar que a medicina explica que esse abusador é um pedófilo, uma vez que suas imaginações e desejos sexuais estão direcionados para a infância.
Araújo (2020) argumenta que o agressor também pode se aproveitar da confiança da vítima e por ela ser imatura e frágil abusa dessa vítima. Nesse sentido, após ele cometer esse crime, faz ameaças e promessas para que a vítima não o denuncie.
2.2. Fatores extrínsecos da violência sexual contra a criança e o adolescente
Quando se fala que o machismo é um dos principais fatores culturais que facilita a violência sexual infanto-juvenil Luciana Temer afirma que ele é muito forte nessa violência (GERALDO, 2020).
Da mesma forma, Lafraia (2020) quando está diante da erotização precoce como um fator social, vez que deixa a criança mais vulnerável a essa violência cruel.
Além desses, existem também a pornografia e o tabu social. Segundo Luciana Temer (GERALDO, 2020), a indústria pornográfica serve de estímulo para que o agressor aumente o seu desejo de violentar uma criança ou um adolescente através do seu consumo de vídeos eróticos.
Em razão da sociedade optar por se distanciar dessa violência sexual, surge o tabu social como um dos principais fatores culturais dessa violência, conforme o dr. Drauzio Varella e Adriana Yañez, assim a sociedade considera como algo tão cruel, tão horrível que não se importa (OLIVEIRA, 2020).
2.2.1. MACHISMO
Para muitos especialistas que são contra a violência sexual contra a criança e o adolescente, o machismo é uma das principais causas desse tipo de violência sexual, senão o principal causador.
Esse fator está enraizado culturalmente na sociedade brasileira há muitas décadas.
Para poder entender melhor sobre o machismo cultural Moya (2019) define que o machismo é um preconceito que enaltece o sexo masculino e desvaloriza o sexo feminino, sendo assim o machismo faz com que as mulheres não tenham os mesmos papeis e direitos iguais que os homens na mesma sociedade permitindo assim a valorização da desigualdade de gênero.
Logo em seguida, ela afirma que além do machismo ser cultural, ele também está inserido em várias instituições da sociedade, bem como na família que apresenta um grande destaque nos dias atuais uma vez que é visível analisar que o pai tem superioridade que a mãe, porque ele é o responsável pelo sustento da família. Por consequência, cria essa ideia da sociedade patriarcal ou mesmo da estrutura familiar voltada à figura o homem.
Dessa forma, o machismo faz com que a divisão de tarefas entre homens e mulheres seja natural, permitindo, portanto, que a mulher não possua a liberdade de optar pela atividade que deseja fazer.
Seguindo essa linha de pensamento, Abrahão e Parrão (2017) afirmam que a cultura machista é um dos fatores que influenciam a exploração sexual, inclusive a infantil uma vez que essa forma de pensamento cultural coloca o homem em um nível superior fazendo com que a mulher possa ser vista pelo na visão masculina como objeto sexual a ser utilizada ou negociada.
Assim, Azevedo explica que o machismo faz com que o homem se comporte como um caçador e a mulher como sua caça;
Esta postura de caçador induz o homem a ver toda mulher como uma presa. Não importam o estado civil desta mulher, sua idade, sua vontade. O homem, em princípio, deve ser capaz de tornar qualquer mulher uma presa sua. Mesmo que ele não tenha interesse em uma determinada mulher, pode tornala sua presa para ganhar uma aposta feita com amigos. A mulher é sempre uma caça aos olhos do homem (AZEVEDO, 2007, p. 60 apud ABRAHÃO, PARRÃO, 2017, p.7).
Observa-se que através dessa comparação exemplificada mesmo a mulher esteja casada ou divorciada, se é criança, adolescente, adulta ou se consente ou não isso não é relevante, porque para homem todo o gênero feminino é como uma presa, podendo lhe servir até mesmo como moeda de aposta com seus amigos. Logo, o machismo demonstra que o gênero feminino é como se fosse um objeto a ser utilizado pelo homem para satisfazer seus desejos.
Nessa mesma perspectiva, segundo Oliveira e Marcon (2005), a questão de dominação do gênero masculino sobre o gênero feminino está ligado entre as principais causas da exploração sexual contra as crianças e os adolescentes, bem como a prostituição de meninas.
Entende-se que por ser algo cultural a desigualdade do sexo feminino em relação ao sexo masculino acaba favorecendo a prostituição de meninas, em razão das mulheres serem vistas pelo gênero como algo a ser controlado pelos homens.
Gonçalves (2011) destaca o machismo como um dos principais fatores responsáveis pelo aumento do número da violência sexual contra crianças e adolescentes. Pois, depois de fazer essa afirmação, ele cita um caso de uma mulher que foi abusada sexualmente durante toda sua infância e juventude pelo seu próprio pai adotivo, além disso, ela sofria frequentemente violências físicas dele e seus irmãos adotivos.
Ele argumenta que muitos pais acham que devem ser os primeiros a possuir relações sexuais com suas filhas, além de terem em mente que suas filhas são como se fossem sua posse.
Luciana Temer descreve o machismo como uma das causas da exploração sexual infantil e que por ser algo cultural faz com que os agressores veem as vítimas, que são as meninas que utilizam roupas curtas, como culpadas da violência sexual e não o contrário;
O Brasil é o segundo país no mundo com mais casos de exploração sexual infantil e existem diversos fatores sociais que contribuem para a prática deste crime. Em nossa sociedade, quando vemos uma menina de roupa curta, por exemplo, as pessoas deixam de ver aquela menina como vítima e passam a julgar a violência como algo merecido. A figura da vítima some. Isso acontece porque vivemos em uma cultura machista, que culpabiliza a mulher pela violência. A sociedade não olha com seriedade para este problema e não age porque não se importa. Em pesquisa que realizamos com o DataFolha, em 2018, um dado mostrou que 72% das pessoas que testemunharam exploração de adolescentes de 16 anos não denunciaram o crime. Existe, portanto, um fator cultural (ENTREVISTA..., 2020, online).
Seguindo essa linha de pensamento, o machismo não está delimitado somente nas vítimas de sexo feminino, mas também do gênero masculino, bem como os meninos que sofrem dessa discriminação. Consoante, Mendonça (2015) afirma que o machismo dificulta que essas vítimas denunciem os agressores que os violentam sexualmente já que como ele é macho poderá ser discriminado com palavras, como, por exemplo, de “gay”. Tanto se ele for abusador por homens quanto por mulher sofrerá descriminação machista. Esses casos de meninos serem abusados sexualmente acontecem em muitas vezes no futebol.
Para Debique, gerente técnico de proteção infantil da ONG Plan International Brasil, o machismo é a principal razão que faz com que os meninos sejam abusados ou assediados já que essa forma de discriminação faz com que os meninos tenham o pensamento que são “durões”, que por consequência não poderão ter o direito de assumir a posição de vítimas dessa violência sexual (MENDONÇA, 2015). Assim, essa cultura não permite que eles sejam vítimas porque ela enaltece o sexo masculino e desvaloriza o sexo feminino.
Conforme Araújo (2020) a violência sexual contra crianças é fruto da desigualdade de gênero que faz com que a mulher possa ser vista e tratada como coisas. Assim, essas mulheres na visão masculina são como objetos controláveis onde são submetidas a sua vontade.
Além disso, ela ainda ressalta que as mulheres pobres e negras são ainda mais controláveis pelos homens, além dos homens brancos e ricos que acham que têm mais controle ainda sobre elas.
A promotora Maria Gabriela também argumenta que “o machismo é um dos fatores que causam esse crime, que colocam a mulher como um ser humano de segunda categoria” (BATISTA, 2018, online). Isto é, suas palavras são brilhantes quando ela faz essa afirmação que o machismo é um causador da violência sexual infantil, já que esse preconceito cultural faz com que o gênero masculino veja o corpo feminino como objeto sexual de venda, troca ou até mesmo para seu próprio deleite.
Dessa maneira, segundo Martins e Veras (2020) há uma naturalização da exploração sexual infantil, porque o machismo faz com que as pessoas vejam as vítimas como responsáveis por esse crime, e não agressores, que é quem desrespeita a sua dignidade sexual.
2.2.2. EROTIZAÇÃO PRECOCE
Sem dúvidas, o comportamento sexual precoce na vida da criança e do adolescente tem feito com que essa violência sexual contra esse público permaneça continuamente pelo fato que o perpetrador aguça o seu desejo sexual de querer violenta-las.
Antes de mais nada, é necessário compreendermos o conceito de erotização precoce. Assim, a erotização precoce é, nada mais que, um estímulo sexual adulto na infância da criança já que ela faz com que a criança desenvolva comportamentos de adultos antecipados. Que por consequência acaba interrompendo o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, atrapalhando a fase de aprendizado afetiva durante a infância da criança.
Acontece uma anulação no desenvolvimento natural sexual dessas crianças em razão desse processo externo sexual da criança, que é erotização precoce causada por terceiros (EROTIZAÇÂO PRECOCE, 2009).
Logo, Lafraia (2020) ressalta que essa inserção desses comportamentos na infância das crianças que é, por exemplo, um conteúdo midiático adulto que lhe estimule a se comportar daquela forma em seu cotidiano poderá criar uma imagem que lhe deixará vulnerável. De maneira que desperte a atenção de uma pessoa que tem segundas intenções. Portanto, Daiane argumenta que a erotização precoce faz com que;
Ela não compreende que aquilo não faz parte do seu universo, que aquela ação não é adequada para a sua idade e, por isso, fica suscetível a sofrer violência ou abuso sexual por parte de pessoas que podem se aproximar com uma intenção desvirtuada (LAFRAIA, 2020, p.7).
Nessa linha de pensamento, essa inserção desses comportamentos sexuais de adultos na infância dessas crianças podem lhe trazer várias consequências como o risco de sofrer violência sexual.
Assim, Guizzo e Felipe (2003) afirmam que os corpos das crianças nos últimos tempos receberam investimentos midiáticos, como na televisão e propagandas, no entanto seus corpos durante a sua infância passaram a ser vistas também como objetos de sedução e desejo. Ou seja, a erotização precoce, ao mesmo tempo que beneficia a criança, por exemplo, em pagamentos monetários publicitários também prejudica, tal como colocar os seus os corpos como oferta de desejo, ou na visão masculina essa exposição de crianças é como uma evocação.
Certamente, há exemplos de cenas de propaganda de uma determinada marca de sandálias que comprovam que essas crianças não estão somente apresentando essas sandálias, todavia demostrando seus corpos infantis de forma sedutora, podendo até mesmo está estimulando a pedofilia. No entanto, mencionarei apenas a cena quarta que, assim como as outras, traz a ideia não somente de propaganda de sandálias, mas de sedução de seu corpo infantil, assim;
[...] “Os homens que inventaram o plástico acabaram vítimas da própria invenção”. Trata-se, desta vez, de uma menina-boneca branca, de cabelos e olhos castanhos escuros. Seus olhos, levemente puxados, lhe dão um tom oriental. Ela está de pernas cruzadas, de modo a aparecer a calcinha branca. Ela veste uma saída de praia rendada e um top que deixa ver parte do minúsculo seio. A sandália de plástico é branca de salto anabela. (GUIZZO, FELIPE, 2003).
Tal cena demonstra não somente a propaganda de sandálias ou mesmo a sua calcinha branca, que demonstra inocência, mas, por outro lado, evocação para gênero masculino, pois essa exposição está expressando a ideia de que essa criança está a sua disposição.
Nesse sentido, essas características dessa propaganda, estimuladas por terceiros faz com que seu corpo desperte atenção de homens com más intenções e, assim, lhe deixa vulnerável a violência sexual.
Oliveira e Marcon (2005) argumentam que a erotização precoce das crianças é estimulada pelos meios de comunicações que está ligada como umas das principais causas da exploração sexual. Dessa forma, observa-se que a erotização precoce tem influenciado a violência sexual de crianças através da inserção desses comportamentos adultos na infância.
2.2.3. INDÚSTRIA PORNOGRÁFICA
De forma reiterada, os especialistas afirmam que a indústria pornográfica tem se mostrado um estímulo a violência sexual contra a criança e o adolescente, já que essa indústria faz com que aquela pessoa que já possui pensamentos de violência a esse público estimule ainda mais esse desejo sexual.
Nessa linha, Luciana Temer (GERALDO, 2020) diz que a indústria pornográfica é um dos fatores que incitam a violência sexual contra crianças e adolescentes, vez que os sites pornográficos têm a opção de “teen porn”, isso quer dizer que é um conteúdo voltado para o pornô adolescente.
Assim, essa opção do pornô adolescente de determinado site pornográfico contém diversos vídeos, por exemplo, de tio comendo a sobrinha, pai se divertindo com a filha, tornando-se assim esse site um produtor de uma ou novas ideias na cabeça dessa pessoa que já tem uma vocação para praticar crimes contra crianças e adolescentes. Além disso, esse conteúdo pornô adolescente é um dos mais buscado nos últimos tempos em sites pornográficos no mundo todo, segundo ela.
Para Dines (2010), a indústria pornográfica notoriamente incita o gênero masculino a realizar violência sexual contra crianças. Sendo assim, ela ratifica à proporção que eles assistem à divulgação de material pornográfico explorando crianças, da mesma forma aumenta a violência sexual contra crianças.
Esse material pornográfico impacta de forma negativa. Pois, Pesquisas comprovam que de 40% (quarenta por cento) e 80% (oitenta por cento) dos homens que consome esse material pornográfico com crianças, consequentemente, acabarão cometendo crimes sexuais contra crianças.
Nesse sentido, nem todo homem que consome esse material pornográfico irá cometer crimes sexuais contra crianças, mas somente uma pequena parcela que já é propensa ou que tenha vocação.
2.2.4. TABU SOCIAL
A sociedade acaba corroborando com a violência sexual contra a criança e o adolescente já que em vez de agir de forma repressiva, acaba se distanciando dos gritos de socorro dessas vítimas.
Quando isso acontece as vítimas se tornam mais vulneráveis a esse tipo de violência. Pois, o agressor sabe que não vai ser denunciado caso violente uma criança ou um adolescente por conta disso.
Nesse sentido, o dr. Drauzio Varella argumenta que a violência sexual infantil “é uma coisa tão horrível que causa um distanciamento, as pessoas preferem não olhar, não saber que aquilo acontece. É uma forma de não participar daquela brutalidade” (OLIVEIRA, 2020, online). Nesses termos, a sociedade não tem interesse em falar sobre esse assunto da violência sexual infantil, de encarar esse assunto como um problema social. Mas, apenas resolve se afastar dessa realidade perversa.
Adriana Yañez afirma que a violência sexual infantil “acontece porque é uma realidade muito cruel, é muito difícil, ninguém quer olhar para isso” (OLIVEIRA, 2020, online). Percebe-se que as pessoas não querem enfrentar esse tema como um problema, porque, além de não haver interesse, é um assunto que causa repugnância. Dessa maneira, essa violência não é vista como um problema social.
Flávio Debique entende que a violência sexual por parte das mulheres contra crianças ou adolescentes é considerado um dos assuntos que a sociedade também evita falar (MENDONÇA, 2015). Exemplo disso é a mãe ou algum conhecido que dá banho na criança e durante esse banho realiza atos sexuais contra essa criança.
Pois, essa espécie de tabu sexual faz com que esse problema não seja enfrentado de forma real uma vez que ele é sempre evitado de falar, assim a mulher também é autora da violência sexual e mesmo assim a sociedade ignora debater sobre esse assunto.