Anunciada com pompa e circunstância por Donald Trump, o Board of Peace para resolver o conflito em Gaza representa uma ruptura total em relação à ordem internacional. A iniciativa do presidente dos EUA não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, tampouco aprovada pela Assembleia Geral daquela mesma.
Trump se apresenta como fiador em última instância tanto da paz como da guerra. Afinal, é cediço que o governo dos EUA tem fornecido dinheiro e armamentos para Israel reduzir Gaza a escombros. O assassinato em massa de mulheres e crianças palestinas, inclusive mediante a criação de dificuldade para acesso a água, comida e assistência médica, não entra no cálculo da Casa Branca.
O único precedente histórico em Donald Trump pode se apegar para impor sua vontade após ajudar os sionistas a arrasar Gaza é o famoso discurso meliano: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” (A História da Guerra do Peloponeso, Tucídides). Todavia, esse tipo de cálculo baseado exclusivo na força é repudiado enfaticamente pela Carta da ONU:
“ARTIGO 1 - Os propósitos das Nações unidas são:
1. Manter a paz e a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz;
2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal;
3. Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião; e
4. Ser um centro destinado a harmonizar a ação das nações para a consecução desses objetivos comuns.”
Como parte que fomentou a agressão militar desproporcional contra Gaza fornecendo dinheiro e armamentos ao agressor, os EUA não tem isenção para discutir as condições de pacificação em Gaza. Menos legitimidade tem o próprio agressor para fazer isso. Netanyahu aceitou fazer parte do Board of Peace de Trump não porque deseja a paz e sim porque pretende soterrar qualquer discussão acerca das obrigações internacionais que foram acintosa e criminosamente descumpridas por Israel.
É nesse sentido que o Board of Peace é na verdade um Board of Shame. Além de propor uma total ruptura da ordem internacional, com o reconhecimento implícito de que, em razão da superioridade militar e da disposição de utilizar a força bruta desconsiderando qualquer limitação imposta pela Carta da ONU, os EUA e seus aliados podem fazer o que quiserem em qualquer lugar.
Além de auxiliar os israelenses a cometer crimes de guerra em Gaza, o governo Trump quer legitimar tudo que foi feito como se os direitos humanos dos palestinos não fossem oponíveis à limpeza étnica e o genocídio cometidos por Israel. Não só isso, o principal objetivo da Casa Branca parece ser desautorizar qualquer decisão acerca de Gaza proferida tanto pelo Tribunal Penal Internacional como pela Corte Internacional de Justiça.
A exaltação orgulhosa do próprio poder e a falta de vergonha em provocar uma ruptura total com a ordem internacional é o que caracteriza a proposta enunciada no website da Casa Branca1. Como os atenienses em Melos, os norte-americanos parecem se sentir totalmente seguros: eles podem ajudar a devastar Gaza, podem impor uma paz que consolida a expropriação do território palestino e a legitimação tanto da limpeza étnica quanto do genocídio cometidos por Israel com ajuda dos EUA.
A Guerra do Peloponeso não terminou bem para Atenas. Ela foi derrotada e ocupada por Esparta. A guerra mundial que os EUA e Israel declaram contra a ordem internacional só terminará bem para os agressores se os outros países aceitarem participar do Board of Shame proposto por Donald Trump.
A França rejeitou enfaticamente a proposta. O primeiro ministro do Canadá disse que os EUA provocaram uma ruptura da ordem internacional. Convidado para participar do Board of Shame Lula está protelando a resposta.
Se a maioria dos países aceitar a proposta dos EUA de uma Board of Peace para Gaza, em breve o governo Donald Trump criará a Board of Peace para a Groenlândia. E assim, a conquista territorial (proibida expressamente pela Carta da ONU) provocará novos e intensos conflitos territoriais regionais na Europa, África, Ásia e América do Sul.
Como sempre valorizou a ordem internacional e prestigiou os Tribunais internacionais agredidos e desprezados pela Casa Branca, o Brasil deve rejeitar o convite feito por Donald Trump. Isso pode ser feito imediatamente, mas Lula pode eventualmente coordenar uma resposta com os líderes dos BRICS. Uma posição conjunta dos países do bloco ajudaria a revitalizar a ordem internacional que Donald Trump, Netanyahu e seus esbirros pretendem destruir ou acreditam já ter destruído.
Nota
1 https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/2026/01/statement-on-president-trumps-comprehensive-plan-to-end-the-gaza-conflict/