Caso Itumbiara, Goiás
Um dos episódios que mais repercutiu recentemente e reacendeu o debate público sobre violência vicária ocorreu em Itumbiara, no interior de Goiás, em fevereiro de 2026. O secretário municipal de Governo, Thales Machado, de 40 anos, atirou contra seus dois filhos, de 12 e 8 anos, dentro da residência onde moravam, e em seguida tirou a própria vida. O filho mais velho morreu antes de ser socorrido e o caçula, após ser levado ao hospital em estado gravíssimo, também não resistiu aos ferimentos.
Em entrevistas concedidas à imprensa por especialistas em violência contra a mulher, o caso foi interpretado como exemplo extremo da lógica da violência vicária, na qual o agressor utiliza os filhos como meio para infligir sofrimento à mulher.
A secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, explicitou que esse padrão se caracteriza pela utilização de crianças ou pessoas com vínculo afetivo para penalizar a mãe, porque são os laços mais sensíveis que ela possui. Segundo ela, no caso de Itumbiara, o agressor construiu uma narrativa anterior ao ato, citando nas redes sociais suposta traição e crise conjugal como fatores desencadeantes, o que ilustra a tentativa de deslocar a responsabilidade do próprio crime para a mulher. Esse movimento narrativo reforça a culpabilização da vítima, além da dor pela perda física, e reflete um padrão de manipulação emocional observado em muitas situações de violência vicária.
A Defensoria Pública do Estado de Goiás também se manifestou sobre o caso, sublinhando que a mulher não tem culpa alguma pela tragédia e destacando a importância de combater a cultura social que tende a responsabilizar a vítima em crimes dessa natureza. Essa perspectiva reforça que, além da gravidade dos atos, o processo de interpretação social em torno da violência vicária é um elemento fundamental no enfrentamento de desigualdades de gênero e na proteção das vítimas.
A experiência da delegada Amanda Souza
Outro caso emblemático é o da delegada Amanda Souza, da Polícia Civil do Pará, que perdeu os dois filhos, de 12 e 9 anos, assassinados pelo ex-marido após o término de um relacionamento marcado por controle e ciúme excessivos.
Após encerrar a relação, ela recebeu mensagens afirmando que seu futuro seria de tristeza e solidão. Horas depois, o agressor comunicou por telefone que havia matado os filhos. Também nesse caso houve tentativa de atribuir a ela a responsabilidade pelo crime, sob a justificativa de rejeição e término da relação.
Amanda identifica um padrão na conduta de agressores: impor sofrimento máximo à mulher e, simultaneamente, destruí-la moralmente. A violência não se limita ao ato físico. Ela se prolonga na tentativa de transferência de culpa e na exposição pública da vítima.
A delegada relata que viveu um relacionamento abusivo por cerca de vinte anos, inicialmente mascarado como cuidado, mas marcado por controle progressivo. Hoje, além de compartilhar sua história para conscientizar outras mulheres, pretende estudar a violência vicária em nível acadêmico, com o objetivo de identificar padrões e fortalecer estratégias de prevenção.
Dados e invisibilidade
No Brasil, ainda há significativa carência de dados consolidados e específicos sobre violência vicária, o que compromete a compreensão da real dimensão do fenômeno e dificulta a elaboração de políticas públicas eficazes e direcionadas. A inexistência de tipificação autônoma e de campos próprios nos sistemas oficiais de registro faz com que os casos sejam absorvidos por categorias mais amplas, como homicídio, violência psicológica, ameaça ou disputa de guarda, sem que se identifique a motivação de gênero subjacente.
O Mapa Nacional da Violência de Gênero passou a incluir, a partir de 2024, dados sobre casos envolvendo brasileiras no exterior, registrando 904 ocorrências em 2023 e 794 em 2024, com maior incidência na Europa, especialmente em contextos de disputa de guarda. Ainda que tais números não representem exclusivamente situações de violência vicária, revelam a dimensão transnacional das dinâmicas de controle e instrumentalização de filhos como forma de atingir mulheres, evidenciando a necessidade de análise mais refinada e categorização específica.
A ausência de estatísticas sistematizadas contribui diretamente para a subnotificação e para a minimização institucional do problema. Sem dados claros, o fenômeno tende a ser interpretado como episódio isolado ou tragédia familiar, e não como manifestação estrutural da violência de gênero. A invisibilidade numérica produz invisibilidade política: o que não é mensurado não se torna prioridade orçamentária, nem objeto de protocolos específicos de prevenção e enfrentamento.
Conclusão
A violência vicária revela uma lógica perversa de poder. O agressor não atinge apenas a mulher de forma direta. Ele atinge aquilo que ela mais ama, transformando o vínculo em instrumento de punição. Ao mesmo tempo, constrói narrativas que deslocam a responsabilidade e perpetuam a culpabilização da vítima.
Por isso, para além da necessária repressão penal, o enfrentamento da violência vicária exige políticas estruturais e integradas. A capacitação de magistrados, membros do Ministério Público, defensores, advogados, conselheiros tutelares e profissionais da rede de proteção é medida urgente, a fim de que compreendam a dinâmica específica dessa modalidade de violência e evitem decisões que, inadvertidamente, ampliem o risco às vítimas.
Nomear essa violência é reconhecer que não se trata de conflito familiar, mas de violência de gênero. É reconhecer que o sofrimento da criança não é um desdobramento acidental, mas parte de uma estratégia. E é afirmar, de forma inequívoca, que a responsabilidade pelo crime pertence exclusivamente a quem o pratica.
Em um cenário em que filhos são mortos e mães são moralmente punidas, a sociedade precisa decidir se continuará reproduzindo a lógica do agressor ou se assumirá a responsabilidade de romper definitivamente esse ciclo de violência.
Referências:
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Caso de Itumbiara acende alerta para violência vicária; entenda. Estado de Minas, 14 fev. 2026. Disponível em: https://www.em.com.br/nacional/2026/02/7355427-caso-de-itumbiara-acende-alerta-para-violencia-vicaria-entenda.html. Acesso em: 19 fev. 2026.
G1. Meu ex disse que meu futuro seria de tristeza e solidão e então matou nossos filhos. G1, 19 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/02/19/meu-ex-disse-que-meu-futuro-seria-de-tristeza-e-solidao-e-entao-matou-nossos-filhos.ghtml. Acesso em: 19 fev. 2026.
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