Resumo: O presente artigo investiga o Fubanguismo Cultural no contexto do capitalismo tardio e neoliberal brasileiro, analisando sua consolidação como uma ética e estética de vida pautada na superficialidade, na ostentação e na busca por atalhos socioeconômicos. A partir da análise do avanço de esquemas predatórios, como o Jogo do Tigrinho, casas de apostas e o mercado de coaches fraudulentos, a reflexão examina a transformação da ilusão do enriquecimento rápido em uma metanarrativa de sobrevivência e ascensão social. O artigo amplia o alcance do conceito para demonstrar como o Fubanguismo transborda o plano comportamental envolvendo figuras do submundo das sub-celebridades, e na degradação do debate público para as eleições de 2026. Nesta última esfera, reflete-se o esvaziamento de propostas em favor do engajamento apelativo e da esteticização do ridículo, exemplificados pela proliferação de candidaturas caricatas e sem compromisso com a gravidade política. Fundamentando-se na Sociedade do Espetáculo de Debord, na alienação do trabalho de Marx, na liquidez de Bauman e na antinomia entre o público e o privado de DaMatta, o texto questiona como a mercantilização do absurdo e a espetacularização da vulgaridade reforçam precariedades sociais e perpetuam mecanismos contemporâneos de alienação.
Palavras-chave: Fubanguismo Cultural, Capitalismo Tardio, Jogo do Tigrinho, Casas de Apostas, Ostentação.
Introdução:
O conceito de Fubanguismo Cultural1 define um ethos coletivo e uma mentalidade hegemônica emergente no brasileiro médio dentro do capitalismo tardio e neoliberal. Caracteriza-se pela adesão à cultura da superficialidade, pela celebração da falta de rigor técnico ou moral e pela crença ilusória na possibilidade de ascensão socioeconômica por meio de atalhos duvidosos. Entre essas práticas, destacam-se a proliferação de apostas digitais predatórias (como o "Jogo do Tigrinho"), os esquemas de pirâmide financeira e o consumo desenfreado de mentorias oferecidas por coaches fraudulentos que vendem a ilusão de sucesso instantâneo numa cadeia infinita de promessas vazias. Essa postura também atualiza o vira-latismo cultural brasileiro ao combinar a admiração cega por modelos norte-americanos de ostentação com a exaltação de figuras públicas de moral questionável, tal qual figuras que incorporam o Movimento Agronejo. Ao explorar a precarização social e as fragilidades psicológicas da população, o Fubanguismo estabelece a superficialidade como norma de conduta e estética de vida.
Para fundamentar o Fubanguismo Cultural teoricamente, partimos da premissa de que ele reflete uma forma de subjetivação e um comportamento coletivo moldados pelo capitalismo neoliberal tardio. A articulação com teorias sociológicas clássicas e contemporâneas permite situá-lo em um quadro amplo de alienação e promessas ilusórias de mobilidade social.
Guy Debord argumenta que a realidade moderna foi suplantada por sua representação espetacular, onde as relações sociais são continuamente mediadas por imagens2. Na era das redes sociais, a promessa de enriquecimento rápido alinha-se perfeitamente a essa lógica, transformando os próprios indivíduos em prosumers3 agentes que consomem e alimentam ativamente a ilusão que os aprisiona, fazendo da aparência a única validação da existência humana.
Essa dinamicidade encontra eco direto na teoria da alienação de Karl Marx, ao perder o controle sobre o processo produtivo e diante da falta de horizontes de trabalho digno, o trabalhador tenta escapar da precariedade recorrendo a esquemas ilusórios de ganho fácil que, em última análise, o aprisionam ainda mais ao sistema que o espolia4.
O fenômeno desdobra-se também na "liquidez" descrita por Zygmunt Bauman Na modernidade líquida a instabilidade das instituições e a ausência de referências duradouras fragmentam os projetos de vida, o indivíduo é levado a adaptar-se continuamente, saltando entre oportunidades provisórias e priorizando resultados imediatos, enquanto a responsabilidade pelos riscos sociais é transferida para ele, neste contexto, compromissos éticos e coletivos podem ser subordinados à necessidade de sobrevivência, mobilidade e vantagem individual5. Por fim, sob a perspectiva de Roberto DaMatta, o Fubanguismo resgata a malandragem e o personalismo das relações no Brasil, sintetizados no "Você sabe com quem está falando?", convertendo a burla e a ostentação da vantagem individual em um estilo de vida celebrado na arena digital6.
Essa estética da superficialidade transborda a esfera estritamente individual e se consolida nos grandes eventos de massa. O circuito dos festivais sertanejos, historicamente ligado ao universo rural e reconfigurado pelo agronegócio como uma indústria milionária do entretenimento, converteu-se em um dos palcos principais dessa manifestação. Casos recentes de repercussão pública na Festa do Peão de Barretos, como as confusões e agressões violentas envolvendo influenciadores e subcelebridades digitais em áreas VIP e camarotes, exemplificam como a incivilidade, a brutalidade e o desrespeito às normas coletivas se tornaram insumos para gerar engajamento nas redes sociais7. A festividade perde seu caráter comunitário e se transforma em uma arena de exibição de poder econômico vulgar, onde a exposição do ego, o excesso e a busca desmedida por visibilidade substituem a convivência social pacífica.
A expressão mais nociva do Fubanguismo Cultural desdobra-se na esfera política, momento em que o atalho, o deboche e a ausência de rigor suplantam a construção de projetos coletivos de país. O cenário das eleições de 2026 expõe a consolidação desse fenômeno na arena eleitoral, caracterizado pela ascensão de candidaturas calcadas na esteticização do absurdo e na busca alucinada por atenção midiática.
Fenômenos como a proliferação de candidatos ocos e bizarros como exemplo "Bolsonaro da Shopee" revelam o barateamento do debate público por meio da imitação caricata e do marketing da cópia; a projeção de nomes associados ao sensacionalismo e ao pânico moral, substitui o conhecimento de políticas públicas pelo engajamento de cortes virais; enquanto o surgimento de nomes como "Zé Ninguém" ilustra o aproveitamento do "efeito protesto" por legendas partidárias interessadas em capturar recursos eleitorais através da bizarria, assim como o apostador do Jogo do Tigrinho deposita suas esperanças na ilusão do ganho fácil sem trabalho, o eleitor capturado pelo Fubanguismo Político aceita a antipolítica como espetáculo, perpetuando a degradação das instituições públicas e a espoliação do sentido de cidadania8.
Marx, em seus escritos, explora a emancipação humana e a liberdade em relação ao produto do trabalho, ele destaca que, no processo de trabalho capitalista, o homem se vê aprisionado por suas próprias criações.
Aqui temos um pensamento que podemos denominar de fronteira, sua preocupação não é ainda puramente a economia política, pois ainda não abandonou de todo sua preocupação dos primeiros escritos, que é a emancipação do homem, enquanto nos Anais sua preocupação se concentrava na antropologia, como afirmação do homem diante do que o pode aprisionar, enquanto ser genérico, que se constitui no fato de que “o homem é livre perante seu produto (Marx, 1993, p.165)
Desta forma, o Fubanguismo Cultural pode ser entendido como uma reação à alienação do trabalho, onde o indivíduo busca alternativas rápidas para alcançar a liberdade e o sucesso prometidos, embora muitas vezes essas alternativas sejam ilusórias e precarizem ainda mais sua condição social.
Outro autor relevante para essa análise é Zygmunt Bauman, especialmente em Vida Líquida (2005), onde descreve a fluidez e a incerteza do capitalismo contemporâneo, em que as promessas de segurança e sucesso são constantemente renovadas, mas nunca cumpridas. “Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se emposses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades" (Bauman, 2005, p.7)
O Fubanguismo Cultural emerge como uma manifestação dessa fluidez: o brasileiro médio salta de uma "oportunidade" para outra, apostando em esquemas rápidos que prometem riqueza imediata, mas que, no final, não trazem o retorno esperado, mantendo-o preso em um ciclo de precariedade.
Do ponto de vista cultural e uma interpretação contemporânea, o conceito de vira-latismo descrito por Roberto DaMatta em Carnavais, Malandros e Heróis (1979) pode ser relacionado ao Fubanguismo Cultural. DaMatta (1979) analisa como o brasileiro frequentemente adota valores que refletem uma busca por diferenciação e status, evidenciada pela expressão: “Você sabe com quem está falando?”, esta expressão ilustra a dificuldade em tratar todos igualmente na esfera pública, revelando uma sociedade marcada pela personalização das relações sociais e políticas. A diferença de tratamento entre amigos e inimigos, onde “para os amigos do rei, tudo; para os inimigos, a lei”, reflete a dificuldade em separar a vida pública da privada e a impessoalidade do "jeitinho" brasileiro.
O Fubanguismo Cultural se insere nesse contexto, onde a busca por sucesso rápido e fácil se entrelaça com a necessidade de se destacar e obter reconhecimento social, essa admiração por modelos de sucesso rápido e ostentação, muitas vezes associados a figuras públicas de caráter duvidoso, reflete o desejo de imitar padrões importados, mesmo que distorcidos, como uma forma de ascensão social.
Em termos práticos, o Fubanguismo Cultural se manifesta na proliferação de casas de apostas, esquemas de pirâmides e no consumo desenfreado de cursos de coaches, que ensinam as pessoas a vender mais cursos em uma cadeia de promessas vazias. Tal comportamento é fruto de uma sociedade saturada por desigualdades e promessas de mobilidade social que, na prática, raramente se concretizam, deixando o brasileiro médio preso a ilusões de sucesso que são, na verdade, formas de perpetuar sua precariedade.
O Fubanguismo Cultural pode ser entendido como uma síntese da alienação, precariedade e busca ilusória por ascensão social, fortemente enraizado em uma cultura do espetáculo e no vira-latismo. o conceito oferece uma crítica ao modo como o capitalismo tardio transforma promessas de sucesso rápido em instrumentos de dominação e alienação.
Espetáculo, Alienação e Liquidez: Para compreender a sustentação teórica do Fubanguismo Cultural.
Para compreender a sustentação teórica do Fubanguismo Cultural, é imprescindível situá-lo no quadro conceitual da alienação e da mercantilização da vida no capitalismo tardio. Essa fundamentação articula-se precipuamente a partir da perspectiva de Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo (1967), pode-se compreender o espetáculo como uma forma de organização social na qual a experiência vivida é progressivamente subordinada à representação. Neste processo, as relações humanas passam a ser cada vez mais mediadas por imagens, mercadorias e aparências, que se apresentam como referências legítimas de realidade, sucesso e reconhecimento.No contexto do Fubanguismo Cultural, a promessa de enriquecimento imediato e a performance ostensiva de um estilo de vida afluente nas redes sociais operam como a manifestação acabada desse espetáculo, que alimenta e perpetua o próprio mecanismo de ilusão que o aliena, fazendo da aparência e da exibição digital a única medida de validação da existência humana.
Diante da degradação das formas tradicionais de trabalho digno e da precarização promovida pela economia de plataformas, o trabalhador contemporâneo enxerga na ilusão do ganho fácil uma tentativa de compensar sua exploração e alcançar uma emancipação ilusória. Todavia, como mostra Marx em sua análise do trabalho alienado, o indivíduo separado do controle sobre sua própria atividade produtiva pode buscar compensação em formas ilusórias de autonomia. Nesse sentido, o apostador de plataformas predatórias tenta escapar da espoliação cotidiana por meio da promessa de ganho rápido, mas acaba submetendo-se a um sistema algorítmico concebido para prolongar sua participação, capturar seus recursos e aprofundar sua dependência9.
A fragilidade dessa condição pode ser interpretada à luz da modernidade líquida analisada por Zygmunt Bauman em Vida líquida. Em uma estrutura social na qual as conquistas socioeconômicas dificilmente se convertem em garantias permanentes, os indivíduos são pressionados a migrar continuamente entre oportunidades provisórias, trabalhos precários e promessas de ganhos rápidos. A ausência de horizontes de longo prazo favorece o imediatismo e pode alimentar uma cultura de ostentação, improviso e valorização da vantagem individual, na qual o lucro presente tende a se sobrepor a compromissos éticos e coletivos, o Fubanguismo Cultural resgata historicamente a figura do malandro e a busca por privilégios individuais e as transpoe para o ambiente digital. Nestes espaços, a burla às normas de convivência civil, a fraude estilizada e a ostentação de vantagem indevida sobre o outro deixam de ser condutas reprimidas e passam a ser renegociadas e glorificadas como virtudes da "esperteza" contemporânea.
O Fubanguismo Cultural transborda as telas dos celulares e consolida-se em grandes eventos de consumo de massa, o ambiente dos grandes festivais e rodeios sertanejos. historicamente associado à celebração e “culto” rural, transformado pelo agronegócio em indústria milionária do entretenimento, tornou-se um dos palcos centrais dessa estética.
A busca alucinada pela visibilidade transforma a incivilidade, o confronto físico e o desrespeito às normas convivenciais em insumos para engajamento e passa a ser uma arena de exibição de poder econômico vulgar, onde a ostentação do excesso alcoólico, da brutalidade e da exposição do ego se tornam os ativos principais da busca pelo destaque social.
Conclusão
Em suma, o Fubanguismo Cultural não se configura como uma mera distorção pontual de costumes ou como um traçoe uma estética cuidadosamente inserida no contexto social, como uma forma acabada da dominação ideológica no capitalismo tardio e neoliberal brasileiro. O fenômeno atua diretamente na alienação da população ao substituir a solidariedade de classe, a organização coletiva e o investimento na formação intelectual crítica pela ilusão da riqueza imediata, pelo consumo desenfreado de vulgaridades e pela esteticização do ridículo e da violência urbana.
Seja no vício induzido por aplicativos e plataformas de apostas fraudulentas, nas exaltações incivis e confrontos performados em camarotes e eventos de elite sertaneja, ou na urna eletrônica convertida em palco para caricaturas desprovidas de qualquer projeto de país, o Fubanguismo opera a depreciação sistemática da esfera pública e o esvaziamento da cidadania.
Diante disso, sua superação exige intervenções que vão muito além da simples regulação econômica de jogos e plataformas digitais; demanda, fundamentalmente, a reconstrução de um compromisso coletivo com a educação crítica, com a seriedade institucional e com a restauração do sentido de dignidade e proficiência na vida cotidiana.
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“Prosumers” (ou prosumidores) são consumidores que também atuam como produtores, participando ativamente da criação, customização ou até geração de bens e serviços, em vez de apenas consumi-los passivamente. O termo vem da junção de producer + consumer e foi popularizado por Alvin Toffler em A Terceira Onda (1980︎
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