O ETARISMO COMO FORMA DE DISCRIMINAÇÃO DA PESSOA IDOSA.
José Eulálio Figueiredo de Almeida
Professor da UFMA. Desembargador do TJMA.
No mês de outubro celebramos o dia do idoso. O mês inteiro serve para lembrar momento de festa, de respeito, de honradez e de profunda gratidão àqueles que construíram os pilares da nossa sociedade.
Mas celebrar de verdade exige de nós a coragem de olhar a realidade de frente. A pergunta que precisamos nos fazer hoje é: como a nossa sociedade está tratando quem integra a população idosa?
Hoje, proponho uma reflexão a partir de uma palavra nova, mas que traduz uma dor antiga e profundamente atual: o mundo está se tornando desinclusivo?
Olhamos ao redor e vemos o avanço de estruturas que, em vez de acolher, silenciosamente afastam e marginalizam a pessoa idosa. Acessamos as redes sociais e descobrimos plataformas, aplicativos, links, cidades, tecnologias e serviços que avançam em passos largos, mas que, ao fazerem isso, deixam a pessoa idosa para trás.
Celebrar este mês não é apenas olhar para o passado com nostalgia; é assumir o compromisso de frear essa engrenagem desinclusiva e garantir que a modernidade acolha todas as idades.
O mês de outubro é, por resolução da ONU, destinado à celebração do dia internacional da pessoa idosa. No Brasil, a Lei 11.433/2006 estabeleceu também a data de 1.º de outubro para celebrar o dia nacional da pessoa idosa.
Portanto, esse dia é especial não apenas para a pessoa idosa, mas também para toda a sociedade, porque estamos unidos para dialogar sobre questões relativas ao envelhecimento humano com qualidade e a proteção da pessoa idosa.
Envelhecer não pode ser sinônimo de um fardo ou de algo inconciliável com a natureza humana; é, acima de tudo, uma conquista. E envelhecer com dignidade é um direito inalienável, inegociável, impostergável e indisponível.
Uma das maiores urgências da nossa época é desfazer os preconceitos que alimentam a exclusão da pessoa idosa. Afinal, para manter acesa a chama da verdadeira inclusão, precisamos primeiro identificar e extinguir os mecanismos que geram a exclusão, venham eles de uma rejeição consciente ou de uma omissão invisível.
A noção de inclusão deve afastar as diferenças entre o que se entende por pessoa jovem ou idosa. A diferença não pode ser confundida com o diverso, nem se contrapor ao que se entende por desigual. As pessoas não podem ser comparadas a objetos descartáveis. Haverá sempre algo de útil que a pessoa idosa possa fazer com perfeição.
Como leciona a professora Maria Teresa Eglér[1] “somos seres singulares e, ao mesmo tempo, mutantes”. Eu complemento o lecionamento, afirmando que somos seres únicos e indivisíveis; por essa razão, incapazes de sermos encaixados em modelos rígidos, em rótulos ou em perfis que possam nos definir como indivíduos limitados.
A capacidade de inclusão da pessoa idosa em vários setores da sociedade é vasta. Portanto, não podemos excluí-la sob a definição ou a classificação de pessoa sem atributos, porque essa categorização usurpa sua identidade e a coloca numa bolha de desvalorização e de inferiorização.
Lança-se contra a pessoa idosa uma etiqueta, taxando-a com o estigma da velhice, da senilidade, da caduquice, da inutilidade, do preconceito e do descarte. Em suma, se lhe põe um rótulo de pessoa sem valor algum, ou seja, despersonificada e sem dignidade humana.
Na verdade, não podemos fazer comparações ou equiparações entre seres humanos para excluir ou incluir a pessoa idosa. Os desiguais devem ser tratados desigualmente. Por isso, é importante notar as diferenças entre as pessoas porque são elas que revelam a capacidade de cada uma no desenvolvimento das tarefas do dia a dia.
O olhar sobre o outro pressupõe o autorrespeito de quem confia na capacidade sensitiva e deve ser sempre plural para que sejam notados os diversos talentos e habilidades que o status dignitatis do sujeito moral exige.
A tendência em excluir a pessoa idosa do convívio familiar e social é algo abominável e deve ser evitado. A exclusão causa decadência moral, vergonha, isolamento, desprestígio e humilhação na medida em que a pessoa idosa se reconhece como um perdedor e, como reflexo dessa autoidentidade, perde o sentimento de pertencimento.
O etarismo, por isso mesmo, é uma forma covarde de desqualificar a personalidade e a dignidade humana da pessoa idosa. É a falta de respeito pelo outro. Daí porque a busca pela manutenção do status quo ante e o medo de perdê-lo disputam o espaço mental da pessoa idosa, afetando quase sempre o seu bem-estar e a sua estabilidade emocional.
Também denominado de idadismo ou ageísmo, o etarismo constitui uma forma de preconceito e discriminação contra alguém em face da sua idade, notadamente quando nos referimos a pessoa idosa.
O usurpador torna-se cego e indiferente à velhice, pois sua intenção é humilhar, punir, desonrar e excluir a pessoa idosa que incomoda e, por essa razão, é indesejada e cancelada do convívio de outrora.
Diante disso, a desonra, a exclusão e o medo tornam-se fatores de fracasso para a pessoa idosa, que passa a ser rejeitada e desvalorizada em tudo, considerando a sua condição de vítima da violência e da discriminação estrutural.
Nessa perspectiva, o desrespeito ressoa nos minúsculos “não”, nos excludentes murmúrios e nos gracejos que a pessoa idosa passa a ouvir de todos, causando-lhe perturbação constante do ego pela fixa ideia de que sua idade a tornou uma vítima do tempo e do espaço social, passando sua autoestima a vestir a máscara do perdedor ou a esfarrapada capa de um herói que já não existe mais.
O abandono e a falta de respeito com os idosos revelam uma sociedade narcisista, incapaz de enxergar o próximo com empatia e com virtudes. Esse comportamento bloqueia a alteridade, levando seu censor empedernido a se recusar a se colocar no lugar do outro.
Com efeito, não podemos permitir que a pessoa idosa seja engolida pelo esquecimento daqueles que convivem com ela no ambiente do lar ou que conviveram no ambiente do trabalho. A experiência da pessoa idosa tem suas virtudes e não ultrapassa a censura moral ou as transgressões dos espíritos mais jovens.
Há na pessoa idosa uma infinitude de saberes. Ela é uma espécie de escola viva, de universidade livre, de livro aberto, de professor(a) de plantão, de biblioteca acessível ou de enciclopédia ambulante, cheias de conhecimentos e prontas para enriquecer a vida das pessoas mais jovens, que devem respeitar a utilidade dos anos vividos e de sua dignidade humana.
Noutro viés, compartilhar esse saber da pessoa idosa tem efeito sinérgico sobre ela, que também é enriquecida com as vivências, as emoções e as novidades trazidas pelos mais jovens.
A maturidade, o conhecimento e a experiência são, indubitavelmente, pilares que edificam a vida da pessoa idosa, também identificada pelo símbolo 60+.
Por essa razão, devem ser evitadas expressões depreciativas, tais como: velho, provecto, ancião, antigo, terceira idade, melhor idade, velha guarda, idade senil, para saudar ou dirigir-se à pessoa idosa, muito menos frases do jargão popular, a saber: “quando você aposenta?”, “pra sua idade, você está muito bem!”, “isso é coisa de velho!”, “respeite meu pai. Ele é teu avô!”, “você já repetiu essa história várias vezes”, “vai dormir. Não é mais hora de pessoa da sua idade estar acordada”, etc.
A infantilização também deve ser evitada. Por exemplo chamar a pessoa idosa de vovô/vovó (se não for seu parente), bem como dirigir-se a ela com voz de bebê ou diminutivos, chamando-a de “meu velhinho”, “meu anjinho”, “meu queridinho”, “meu bebezinho” ou por outras expressões que o associe a uma criança.
Na mesma linha da perspectiva em análise está o capacitismo, que também se encontra associado ao etarismo. Ele consiste no fato da discriminação, do preconceito ou da subestimação das capacidades de alguém, baseadas exclusivamente na sua idade avançada ou condição de pessoa idosa.
Por essa razão, precisamos evitar qualquer tipo de atitude desinclusiva. Quando pensamos em tecnologia e modernidade, a palavra de ordem costuma ser evolução. Mas para a pessoa idosa, o que o mundo chama de avanço, muitas vezes se torna desinclusivo. Ser desinclusivo significa que o mundo não está apenas deixando de incluir; ele está ativamente empurrando para fora quem já estava aqui.
Ao celebrarmos o mês do idoso, o nosso maior desafio é levar essa reflexão para os outros onze meses do ano. Não podemos aceitar passivamente um futuro que, para ser moderno, escolhe ser desinclusivo.
Que as nossas homenagens não fiquem apenas nas palavras, mas que se transformem em calçadas acessíveis, em elevadores funcionais, em tecnologias fáceis, em cardápios com linguagem simples, em atendimento humanizado e em paciência.
Vamos combater a desinclusão com o afeto, o acolhimento, o respeito e o espaço que cada idoso merece por direito. Viva a longevidade, viva a história de cada um de nós idosos, e que possamos construir, juntos, uma sociedade verdadeiramente para todos, porque nosso tempo não passou.
Por essa razão, penso ser totalmente equivocada a infeliz concepção de que a velhice é uma forma ridícula de voltar a ser criança.
Para encerrar estas breves ilações, sirvo-me de um curto poema de minha autoria que afasta a ideia equivocada de que a pessoa idosa é velha. O nome do poema é Provecto. Ei-lo abaixo:
Ser idoso é coisa muito boa;
aprendi isso com o tempo,
de tanto padecer à toa.
Na vida, sou como o vento.
Quem me chama de velho
nada sabe de mim e desconhece
que a idade tem seu telho:
um dia brilha, outro escurece.
Velho é o tempo que nos envelhece
e não permite vivermos eternamente.
Quando o chão, sob nossos pés, estremece
a velhice decreta o prelúdio finalmente.
Não sou velho como pensas;
velho é o grande mundo lábil
que contra todos usa prensas
e não me deixa ser mais sábio.
Se quiseres ser meu sincero amigo
não me chame de velho, mas de idoso.
Não gosto de saliência comigo,
pois velho é um termo indecoroso.
José Eulálio Figueiredo de Almeida.
[1] O Re-inventar da Inclusão. Petrópolis: Rio de Janeiro. Editora Vozes, 2017, p. 10.