O romance, segundo Lukács, é a forma literária que corresponde à fratura entre o sujeito e o mundo vivida pelo homem moderno, designado pelo teórico de herói problemático. De acordo com o teórico, o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade

A TRAJETÓRIA DO HERÓI PROBLEMÁTICO NO ROMANCE “BOM CRIOULO”

Rondinele Aparecido Ribeiro (UEPG[1])

Resumo: O romance, segundo Lukács, é a forma literária que corresponde à fratura entre o sujeito e o mundo vivida pelo homem moderno, designado pelo teórico de herói problemático. De acordo com o teórico, o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente, para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática. Partindo dessa constatação, o presente artigo visa estudar a trajetória do personagem Amaro, protagonista do romance Bom Crioulo, de Adolfo Caminha. A obra, publicada em 1895, causou muita polêmica na sociedade por ser o primeiro romance brasileiro que traz como protagonistas personagens que vivem uma relação homossexual: o negro Amaro e o jovem Aleixo. Assim, a obra esquecida pelo cânone durante boa parte de tempo é fundamental para as definições socioculturais acerca de um tema tão complexo.

 

Palavras-chave: Romance. Naturalismo. Homossexualismo. Tragédia.

 

Abstract: The novel, according to Lukács, is the literary form that corresponds to the fracture between the subject and the world lived by modern man and called by the critic of problematic heroe. According to the theoric, the novel is the epic of an era for which the extensive totality of life is no longer given in an evident way, for which the immanence of meaning to life has become problematic. Starting from that observation, this paper aims to study the trajectory of the character Amaro, protagonist of the novel Good Crioulo, Adolfo Caminha. The work, published in 1895, caused much polemic in society by being the first Brazilian novel that brings as main characters who live a homosexual relationship: the negro Amaro and the young Aleixo. Thus, forgotten by canon for a long time the work is fundamental to the socio-cultural settings about a so complex subject.

 

KEY – WORDS: Novel. Naturalism. Homosexuality. Tragedy

Introdução

A Europa assiste, em meados do século XIX, à uma forte reação à estética romântica. Dessa forma, artistas e escritores voltaram sua produção a uma linguagem capaz de retratar a realidade, enfocando aspectos cotidianos. Assim, o progresso definitivo das ciências e a industrialização e o florescimento de novas correntes filosóficas acabaram por criar um ambiente de hostilidade ao sentimento romântico. Então, “a arte realista-naturalista correspondeu ao período de consolidação do poder político da burguesia, na segunda metade do século XIX” (ABDALLA; CAMPEDELLI, 2004, p.132).

Percebe-se, dessa forma, que o século XIX será um espaço bastante fértil no tangenciamento de como o homem irá moldar sua percepção diante do mundo. Percebe-se que esse delineamento será atingido por meio de um amplo papel investigativo do diagnóstico sobre a  nossa realidade.

Nas palavras de Silvana Oliveira (2008, p. 157), “o conceito de Realismo sempre teve associado à prática literária”. Para a autora, desde Aristóteles, cultua-se a ideia de que a literatura apresenta ou representa a realidade.  Abdalla e Campedelli (2004, p.133) asseveram que “o conceito de Realismo-Naturalismo é bastante amplo. Ocorreram tendências realistas em muitos períodos literários”. Dessa forma, definir o termo Realismo-Naturalismo não é uma tarefa fácil, ainda mais que se constata que a objetividade de arte não foi uma inovação desse período. Por outro lado, a definição do termo ganha contornos mais palpáveis quando se associa que a estética Realista,  na verdade, volta sua observação para a realidade enfocando situações cotidianas e representativas. Assim, uma definição plausível para o termo pode ser a seguinte: “O Realismo é uma arte engajada, que tem como compromisso o momento presente e com a observação objetiva e exata do mundo” (CAMPEDELLI, 1999, p.155).

No país, a instauração da estética Realista esteve ligada a Tobias Barreto, que divulgou no Brasil as ideias estéticas e científicas e filosóficas do Realismo Europeu. Influenciou teóricos como Sílvio Romero Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha e Graça Aranha. Em linhas gerais, os fatos que impulsionaram o movimento foram: o declínio do Segundo Reinado após a Guerra do Paraguai, o Movimento Republicano e o Ideal Abolicionista.

Para Silvana Oliveira (2008, p.57), “a literatura da segunda metade do século XIX é marcada pelos preceitos realistas pelo fato de adotar uma nova perspectiva para a abordagem da realidade sem as marcas de subjetividade romântica”. Nas palavras da autora, a corrente estética denominada de Naturalismo “pode ser compreendida como uma radicalização dos preceitos realistas, principalmente no que tange à concepção determinista do comportamento humano’’ (OLIVEIRA, 2008, p.57). Dessa forma, opera-se uma diferença fundamental entre Realismo e Naturalismo. Para o escritor realista, interessa enfocar a realidade de maneira objetiva, valendo-se do romance documental. Já para o escritor naturalista, o interesse é movido pelo caráter experimental de submeter o comportamento humano. Opera-se com o consenso de que o naturalismo é responsável pela deformação da identidade pelo fato de recorrer ao traço determinista na caracterização das personagens. Apesar do ponto comum entre Realismo e Naturalismo, é possível estabelecer grandes diferenças entre as duas. Nas palavras de Abdalla e Campedelli:

 

O Naturalismo surgiu no Brasil como uma “literatura imoral”, em face  dos preconceitos provincianos. Na verdade, sua ação teve caráter reformista: uma adequação do país aos padrões estéticos e ideológicos mecanicistas da Europa industrializada. Ao preconizar uma arte participante, levou a literatura a contribuir de forma ativa para a renovação da vida brasileira. Temas ou assuntos característicos do Naturalismo – como o anticlericalismo, o republicanismo, a luta contra o preconceito racial e contra o puritanismo sexual – permitiram novas definições sócio-culturais sobre a identidade do país (ABDALLA; CAMPEDELLI, 2004, p. 138).

Vê-se, portanto, que na visão da autora, a literatura precisa servir como instrumento de transformação social. Nessa fase, pode-se pontuar que a literatura recorre ao cientificismo e ao grotesco para tecer um retrato fiel da sociedade. Ademais, “o Naturalismo destaca e aprofunda a relação entre ciência e comportamento humano, revelando as razões biológicas, fisiológicas e genéticas para determinas ações do homem” (OLIVEIRA, 2008, p.31).

 

Sobre o autor e a obra

Adolfo Caminha nasceu no dia 29 de maio de 1867 e morreu no Rio de Janeiro no dia 1 de janeiro de 1897. Foi um dos principais autores do Naturalismo no Brasil. Era filho de Raymundo Ferreira dos Santos e Maria Firmina Caminha. Mudou-se para o Rio de Janeiro, ainda na infância. Em 1883, Adolfo entra para a Marinha de Guerra, chegando ao posto de segundo-tenente. Cinco anos mais tarde, transfere-se para Fortaleza (1888). Apaixona-se por Isabel de Paula Barros, a esposa de um alferes, que abandona o marido para viver com Caminha. O casal teve duas filhas: Belkiss e Aglaís. Na sequência do escândalo, vê-se obrigado a deixar a Marinha e passa a trabalhar como funcionário público, na cidade do Rio de Janeiro. A sua primeira obra publicada foi Voos Incertos (1886), um livro de poesia. Em 1893, Adolfo publica A Normalista, romance em que traça um quadro pessimista da vida urbana. Usa as suas experiências e observações de uma viagem que havia feito aos Estados Unidos em 1886, para escrever No País dos Ianques (1894). No ano seguinte, provoca escândalo, mas firma sua reputação literária ao escrever Bom Crioulo, abordando a questão da homossexualidade. Fundou a “Revista Moderna” em 1891 e, em 1892, a “Padaria Espiritual”, movimento que acreditava na educação do povo para mudar o país, e publicava o jornal “O Pão”. Colabora também com a imprensa carioca, em jornais como Gazeta de Notícias e Jornal do Commercio, e funda o semanário, Nova Revista. Já tuberculoso, lança o último romance, Tentação, em 1896. Morre prematuramente no Rio de Janeiro, no dia 1º de janeiro de 1897, aos 30 anos.

Bom Crioulo: Um romance “maldito”

Adolfo Caminha é um escritor rejeitado durante muito tempo pelos cânones nacionais. O autor ficou conhecido como escritor maldito. Ao dimensionar o estudo de suas características à lume das ideias cientificistas advindas do experimentalismo e alocá-las em temas até então não retratados pela literatura, a obra de Caminha foi rejeitada apenas sendo fruto de estudos a partir do século XX.  Bom Crioulo, romance datado de 1865, tem-se uma obra esquecida durante muito tempo pelo cânone literário, uma vez que problematizou um tema considerado um tabu na sociedade, o homossexualismo. O romance tem como enredo o desenlace de uma relação homossexual entre Amaro, O Bom Crioulo e Aleixo, ambos engajados na marinha. Amaro atrai com seu porte físico a atenção do adolescente Aleixo. De início surge, uma apenas uma relação de amizade, mas Amaro insiste em uma relação com o grumete até que consegue seu intento. Os dois passam a ser amantes. Alugam um quarto, mas Aleixo tem uma mudança de comportamento e passa a ser amante de dona Carolina. Desse modo, Amaro descobre a infidelidade e acaba assassinando seu companheiro.

A partir da breve apresentação acerca do enredo da obra cotejada, percebe-se o quão vasta é a possibilidade de trabalho com ela no sentido de estudar a representação animalesca a que os personagens são submetidos. Nesse artigo, o foco recairá no estudo da complexidade do herói problemático, o protagonista Amaro. O personagem tem seu comportamento alterado no decorrer da narrativa e o leva a traços passionais, já que assassina seu antigo amor, o marinheiro Aleixo. Dessa forma, o autor, pouco aclamado em suas primeiras obras, retratou temas e sujeitos ainda até então não retratados pela literatura: o negro, o escravo, o pobre, o homossexual, as taras. Todos esses tipos e comportamentos perfazem ao universo retratado por Caminha.

O autor teve sua produção literária esquecida pelos cânones nacionais. O consenso da crítica atribui as produções do autor a uma fundamentação que engloba a vida e sua obra. Assim, as palavras vingança e imoralidade são duas palavras recorrentes na qualificação da obra do autor. O escritor cria uma imagem negativa das instituições e da sociedade de seu tempo, dispensando-lhes uma representação movida pelo forte tom animalesco a que são submetidos os personagens. Tais traços são facilmente identificados no romance cotejado.

Pela simples apresentação do enredo, a obra se reveste em um caráter bastante naturalista. Como assevera Alfredo Bosi (2006, p.168), “o Realismo se tingirá de naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das leis naturais que a ciência da época julgava ter codificado”.

O herói problemático romanesco

Ao longo dos séculos, o conceito de poema épico se transformou para acomodar as mudanças sociais e políticas porque passaram as sociedade humanas. Com o declínio da poesia épica, a partir do século XVIII, emerge uma nova forma de ficção em prosa, que assume o lugar da Epopeia enquanto gênero mais cultivado. Nas palavras de D’Onofrio:

Considerado o filho bastardo da Epopeia, tornou-se, então a forma literária que melhor exprime os anseios da nascente burguesia, produto das revoluções comercial e industrial, que derrubaram o absolutismo político e cultural (D’ONOFRIO, 1995, p. 117).

Essa modalidade narrativa simboliza a totalidade da vida e focaliza as aventuras de um herói. Ao contrário da epopeia, o herói romanesco representa muito mais o indivíduo do que o povo a que pertence. Na verdade, o triunfo do romance mostra o trinfo do indivíduo, mostrando a luta do ser humano comum para transformar sua identidade e sobreviver em uma sociedade opressora dos indivíduos. Assim, ao empregar pessoas semelhantes ao seu púbico, o romance promove uma identificação com o leitor, que se vê representado na obra.

Para Schüler (1989), o romance nasce como testemunha do declínio de um período denominado de Idade Média, e acaba tomando consciência de transformação. Segundo Lukács (2000), o referido gênero é a forma literária que corresponde à fratura entre o sujeito e o mundo vivido pelo homem moderno, chamado pelo teórico de herói problemático. De acordo com o teórico, o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente, para a qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática.

Publicado em 1895, o romance de Adolfo Caminha escandalizou a sociedade da época. A trajetória do protagonista Amaro em nada se assemelha ao molde do que o público estava acostumado a ler. Além de apresentar um protagonista negro, Caminha trata de uma relação homossexual entre marinheiros, o que rendeu ao escritor a alcunha de “escritor maldito”. O protagonista, então, é problemático, posto que não é membro de uma classe dominante. Ao mesmo tempo em que é um escravo fugido, é um símbolo do ideário de libertação dos escravos. Basta lembrar que esse desejo não restrito apenas ao protagonista Amaro, mas é a aspiração de todo negro que enfrenta tal situação. Escrito em uma época em que se alastravam ideias abolicionistas, o romance lança-se ao viés da problematização.

Esquecido dos cânones literários durante um bom tempo, o romance trata de uma relação homoerótica. Apesar de não ser a primeira experiência na literatura brasileira, é a que conseguiu a maior polêmica quanto à recepção do público e da crítica especializada. A obra O barão de Lavos, datada de 1891, do escritor português Abel Botelho é considerada um marco quando se refere ao tema. No país, podem ser citadas ainda as obras Um homem gasto, datada de 1885, do escritor Ferreira Leal, praticamente desconhecido do público e, até mesmo, da crítica. Pode ser citado ainda a obra O Ateneu, de Raul Pompeia publicada em 1888.

Como já afirmado, a obra de Caminha ficou esquecida dos cânones literários durante um bom tempo. Apenas no século XX a obra passou a ser objeto de estudos na esfera literária.

A obra de Caminha foi recebida como imoral supostamente por tratar de um tema abjeto. A estudiosa Lúcia Miguel-Pereira a esse respeito assevera:

O tema já de si abjeto, é tratado de modo que o torna extremamente chocante, com pormenores de todo em todo desnecessários, por vezes com um mau gosto declamatório espantoso num escritor da categoria de Adolfo Caminha (MIGUEL-PEREIRA, 1960, p. 9).

Para a estudiosa em questão, o romance tem status de ousado na concepção, na execução e ao lado do Cortiço é o ponto alto do Naturalismo.

 

Caracterização do Herói

Amaro é o primeiro protagonista homossexual negro da Literatura Brasileira, portando sendo retratado por um romance naturalista, é de esperar os grandes traços deterministas típicos da estética em questão. A complexidade desse personagem é ainda maior quanto ao critério do tipo social. Amaro é um militar, sendo homossexual, era de se esperar que a obra não tivesse uma recepção amistosa. não faltaram adjetivos para qualificar a obra como “obscena”, “imoral”, “romance-vômito”, “escabrosa”, “imunda”. Em se tratando do herói problemático, Amaro, em sua primeira descrição, é caracterizado como “ figura exótica de um marinheiro negro, de olhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência” (CAMINHA, 2009, p.27)

Dividido em 12 capítulos, o livro inicia-se mostrando a calmaria de uma tripulação em alto-mar sob a luz intensa do sol e um calor forte e asfixiante. Um acontecimento rompe essa calmaria toda: três marinheiros são castigados, recebendo chibatadas. Um deles é o adolescente Herculano, que fora flagrado masturbando-se; O ouro é Sant’Ana, que flagrou Herculano e também por ter agredido o colega. Por fim, Amaro, apelidado de Bom Crioulo, por ter agredido um colega que importunara o jovem Aleixo, marinheiro jovem de olhos azuis por quem Amaro mantinha um carinho especial. Assim, vê-se que a obra se inicia com a aplicação de um castigo corporal. Vale lembrar que as chibatadas eram um costume antigo da marinha. Na sequência, tem-se a apresentação de Amaro:

[...] um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa – o Bom Crioulo na gíria de bordo (CAMINHA, 2002, p. 35).

No segundo capítulo, o leitor conhece a origem de Amaro e como se deu seu ingresso na marinha. Aos 18 anos, foge das plantações de café e é recebido na marinha aprendendo o ofício. Em uma das viagens, conhece Aleixo e passa a nutrir pelo rapaz um forte afeto.

Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom-Crioulo,  então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em roupas  d’algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e alpercatas de  couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades por que passa todo  homem de cor em um meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte — ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas consequências da fuga  (CAMINHA, 2002, p.24).

Na embarcação, o negro ganha a admiração e o respeito de todos. De início, Amaro é caracterizado como calmo, bondoso, prestativo. Nesse sentido, sua caracterização é típica do herói romântico.  A maneira como é retratado permite fazer tal afirmação: “Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena de um castigo disciplinar: seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá-lo por Bom-Crioulo” (CAMINHA, 202, p.26).

Ao lado de Amaro, Aleixo também protagoniza a obra. É um “belo marinheiro de olhos azuis, de quem se dizia coisas”. Amaro nutre pelo rapaz um grande amor. Quando se conhecem, Aleixo tem cerca de 15 anos. Era filho de família de pescadores de Santa Catarina. O personagem é caracterizado com fortes traços de feminilidade, sendo loiro, de olhos azuis. Chega até a uma representação da mulher idealizada dos românticos. Aleixo é, ainda, a representação da passionalidade, por isso é denominado pelos demais marinheiros como “o boy”. Nos primeiros capítulos, ele é retratado como ingênuo, mas no decorrer da narrativa sofre alterações comportamentais, passando a ser amante de Dona Carolina.

Um dado característico na obra e presente em todo romance naturalista é animalização empregada para representar os personagens. Essa técnica, que consiste em rebaixar os seres humanos a animais é recorrentemente empregada como forma de mostrar a degradação comportamental pela qual as personagens passam. Assim, em vários momentos da narrativa, Caminha utiliza-se desse artíficio para representar o negro. Para exemplificar, “o negro parecia uma fera desencarcerada” (CAMINHA, 2009, p. 36). O aspecto comportamental de Amaro é retratado pelo forte viés determinista: “manso quando se achava em estado normal, longe de qualquer influência alcoólica” (CAMINHA, 2009, p. 37). Em outro trecho, tem-se mais exemplos da animalização: “ entrou para a marinha rude como um selvagem (...), mas no fim de alguns meses todos eram de parecer que o negro dava para gente (...)” (CAMINHA, 2009, p.41). Para retratar o comportamento de Bom Crioulo, tem-se o seguinte trecho: “Hoje manso como um cordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousas do caráter africano” (CAMINHA, 2009, p.77). O trecho exemplifica a alteração comportamental experimentada por Amaro. Essa inconstância típica do personagem naturalista é descrita por meio de comparações elaboradas por um forte traço de animalização.

A relação entre os dois amantes também é marcada pela forte descrição animalista.

Uma coisa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo [...] (CAMINHA, 2009, p.78).

Assim, o relacionamento que se inicia por meio de uma gratidão, ganha contornos extremamente naturalistas, sendo o desejo de Amaro por Aleixo e retratado da seguinte forma: “faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher (...), dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea...” (CAMINHA, 2009, p.79).

            A relação homossexual é tratada com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido. O desejo sexual do negro é encarado como uma espécie de componente de sua condição enquanto negro.

Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria! O fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe para mal de seus pecados... Não havia jeito senão ter paciência, uma vez que a natureza impunha-lhe esse castigo. (CAMINHA, 2009, p.46 )

 

     

 

O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, consequentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Assim:

Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem até os trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de que se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana (CAMINHA, 2002.)

Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário. Reside nesse aspecto a explicação pela modificação de comportamento de Amaro, que age por instinto, tendo seu comportamento modificado, o que leva ao final trágico do relacionamento entre este e Aleixo.

Considerações finais

            Longe de esgotar o estudo acerca do personagem Amaro, este artigo propôs-se a dimensionar o estudo de suas características à lume das ideias cientificistas advindas do experimentalismo. Fica evidente a preferência de Adolfo Caminha pela técnica empregada por Emile Zola para dimensionar e situar seus personagens.  Sua obra ganha traços de obra problematizadora, porque tratou de um tema extremamente intocável até então, o homossexualismo. Dória (1197) pontua que autores malditos não são um privilégio deste século. Adolfo Caminha trata na obra de um tema extremamente rejeitado pelo cânone literário. Para o teórico:

Adolfo Caminha cria uma tensão moderna entre as instituições carcomidas e a vida privada: seja a sua vida sexual – pela qual optou, abandonando a  Marinha - , seja a de seu personagem Amaro, ambas evidenciando que a sociedade saída da escravidão estava longe de perder a feição totalitária (DÓRIA 1997).

Para dimensionar a trajetória de Amaro, sua trajetória e descrita como tentativa de autoafirmação, uma vez que se trata de um ex-escravo que engaja na marinha. O negro é retratado socialmente à lume de ideais deterministas, mas por outro lado, e retratado com requintes de superioridade pelo retrato forte e extremamente masculino. Contudo, tem alterado seu comportamento em decorrência de relacionar-se amorosamente com Aleixo. Nesse sentido, mais do que condenar e tratar como perversão, Caminha retrata a relação entre os dois marinheiros de forma ambígua, haja a vista a passionalidade levar à destruição dos personagens. Justamente a fusão entre o negro e a homossexualidade faz com que a obra ganhe o reconhecimento de romance maldito por ser a síntese do “politicamente incorreto” manifestada em uma estética considerada menor.

 

Referências

ABDALLA, B. CAMPEDELLI, S.Y. Tempos de Literatura Brasileira. São Paulo. Ática, 2004.

AMARAL, E e MARTINS, G. Literatura para Unicamp 2002. São Paulo: Ateliê, 2001.

CAMPEDELLI, S.Y e SOUZA, J.R. Literatura, Produção de Texto e Gramática. São Paulo: Saraiva, 1999.

D’ONOFRIO, S. Teoria do texto 1: Prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995.

DÓRIA, C.A. Crioulo, Marinho e gay. Folha de S. Paulo, 10 ago. 1997.

JUNIOR, B.A; CAMPEDELLI, S.Y. Tempos de Literatura Brasileira. 6. Ed. São Paulo: Ática, 2004.

LUKÁCS, G. A teoria do romance. São Paulo: Editora 34, 2000.

MIGUEL-PEREIRA, L. Adolfo Caminha–Trechos escolhidos. Rio de Janeiro: Agir, 1960.

MOISÉS, M. A Literatura Brasileira Através  dos Textos. 25 ed. São Paulo: Cultrix.

__________ História da Literatura Brasileira, vol II, p.368.

OLIVEIRA. S. Realismo na Literatura Brasileira. Curitiba: IESDE: 2008.

SCÜLER, D. Teoria do Romance. Série Fundamentos. São Paulo: Ática, 1989.


{C}[1]{C} Licenciado em Letras-Literatura pela UENP. Mestrando em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela UEPG.   E-mail do autor: rondinele-ribeiro@bol.com.br


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