A entomologia forense pode fornecer informações sobre o intervalo pós-morte (IPM) auxiliando a perícia. Esse estudo avalia o desenvolvimento de S. ruficornis na presença de morfina, a fim de verificar se a droga exerce influência na estimativa do IPM.

INTRODUÇÃO

A entomologia forense ou médico-legal se vale da presença de insetos necrófagos em cadáveres para fornecer informações que possam contribuir com a perícia e as investigações a fim de elucidar questões como: (1) identificação da vítima; (2) modo como a morte ocorreu; (3) o possível local do óbito e se houve deslocamento do corpo; (4) indicar se a morte foi violenta ou natural e (5) quando a morte ocorreu, estimando o intervalo pós-morte (IPM)  (Catts & Goff 1992).

A entomotoxicologia, um ramo recente da entomologia forense, tem contribuído no sentido de aumentar a precisão das estimativas do IPM (Introna et al.., 2001). Vários fatores podem afetar essa estimativa, tais como: o ambiente de exposição do corpo, características inerentes ao próprio corpo, e a presença de drogas ou toxinas que podem afetar o desenvolvimento do inseto. A não consideração dessas variantes pode levar a resultados equivocados no processo investigativo (Micozzi et. al, 1986).

Estudos em carcaças de porcos realizados por Barbosa et al.., (2009), mostraram que a família Sarcophagidae apresenta grande importância forense, uma vez que estão entre os primeiros organismos a encontrar um cadáver ou carcaça, sendo também freqüente em todos os estágios de decomposição. Uma das espécies observadas colonizando este tipo de habitat é Sarcophaga (Liopygia) ruficornis. Por este motivo, é relevante analisar o padrão de desenvolvimento desta espécie na presença de morfina, opiáceo largamente utilizado em hospitais e farmácias que atua sobre receptores cerebrais específicos apresentando efeitos analgésicos e podendo levar a morte por depressão do ciclo respiratório, em caso de uso abusivo. (Goodman & Gilman, 1983).

OBJETIVO

Este estudo tem como objetivo avaliar a taxa de desenvolvimento de imaturos de S. ruficornis criados em dieta artificial acrescida de morfina, a fim de verificar se a droga exerce influência sob tal parâmetro utilizado na estimativa do IPM.

MATERIAL E MÉTODOS

Espécimes adultos de S. ruficornis foram coletados em Campinas, SP. A identificação dos exemplares foi feita com a chave taxonômica de Carvalho e Mello-Patiu (2008). A colônia foi mantida em câmara climática com condições controladas de temperatura (26±1°C), umidade (70±10%) e fotoperíodo (12:12h).

Após a larviposição, foram montados 4 grupos experimentais: 3 com acréscimo de morfina à dieta artificial nas concentrações 0,5xdose letal (DL - 15 mg/kg), 1xDL, 2xDL; e controle (sem adição da droga). Cada grupo continha 6 réplicas com 80 larvas e 150g de dieta. Destas, 4 eram manipuláveis (retirando amostras para pesagem) e 2 não-manipuláveis (utilizadas para obter a viabilidade larval, taxa e intervalo de emergência e razão sexual).  Os imaturos foram mantidos em câmara com condições controladas conforme descrito acima.

A cada 12 horas, 10 exemplares de cada grupo eram pesados e o instar registrado até o estágio de pupa. Com o início da emergência, a cada 24h, os adultos de cada frasco não manipulável foram contados. Por fim, machos, fêmeas e pupários foram contabilizados.

Com os dados obtidos, calculou-se as médias dos pesos a cada pesagem, viabilidade larval e pupal, intervalo de emergência e razão sexual para cada grupo. O programa SAS System foi usado para estabelecer relações estatísticas entre a dosagem de morfina, os pesos larvais e o instar, mostrando se havia diferenças significativas entre os tratamentos.

RESULTADOS

A análise dos dados obtidos na pesagem dos imaturos de S. ruficornis mostrou que a taxa de desenvolvimento desta espécie não é alterada na presença da morfina. A média das massas corpóreas não apresentou variação significativa entre os tratamentos no mesmo tempo de desenvolvimento (F=0,11; p=0,9517). Além disso, o fim de segundo estádio (24h), pré-pupa (72h) e pupa (168h para controle e 0,5xDL e 156h para 1xDL e 2XDL) foram aparentemente o mesmo.

A viabilidade larval e a taxa de emergência foram maiores que 85%, podendo-se inferir que a droga não teve influência na sobrevivência dos imaturos, dado que os grupos tratados se assemelharam ao controle. Em relação ao intervalo de emergência, houve uma diferença aproximada de 12h (controle e 0,5xDL: 324h e 1xDL e 2xDL: 336h), considerada normal pois as larvas foram escolhidas randomicamente. Já a razão sexual foi de 1:1 (macho:fêmea), o que já era esperado, uma vez que esta espécie não apresenta monogênia.

Estudos realizados por Bourel et al.. (1999) mostrou que Lucilia sericata apresenta seu desenvolvimento larval retardado na presença de morfina. Já George et al. (2009) mostrou que em Calliphora stygia, a mesma droga não causa nenhuma alteração. Dessa forma, verifica-se que a mesma droga pode atuar de maneira variada, retardando, acelerando ou mesmo, como ocorreu neste estudo, não influenciando a taxa de desenvolvimento de imaturos.

CONCLUSÃO

Os resultados obtidos neste estudo mostraram que a morfina não exerce influência significativa na taxa de desenvolvimento de imaturos de S. ruficornis e, portanto, nesse caso, a sua presença provavelmente não iria afetar a estimativa do IPM.

REFERÊNCIAS

Barbosa, R.R.; Mello-Patiu, C.A.; Mello, R.P.; Queiroz, M.M.C. 2009. New records of calyptrate dipterans (Fanniidae, Muscidae and Sarcophagidae) associated with the decomposition of domestic pigs in Brazil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, RJ, 104(6): 923-926.

Bourel B., Tournel G., Hedouin V., Deveaux M., Goff M.L., Gosset D. 1999. Effects of Morphine in Decomposing Bodies on the Development of Lucilia sericata (Diptera: Calliphoridae) J. Foren. Sci. 44(2):354-358.

Carvalho, C.J.B.; Mello-Patiu, C.A. 2008. Key to the adults of the most common forensic species of Diptera in South America. Rev. Bras. Entomol. 52(3): 390-406

Catts, E.P.; Goff, M.L. 1992. Forensic entomology in criminal investigations. Ann. Rev. Entomol. 37: 253-272.

George, K.A.; Archer, M.S.; Green, L.M.; Conlan, X.A.; Toop, T. 2009. Effect of morphine on the growth rate of Calliphora stygia (Fabricius) (Diptera: Calliphoridae) and possible implications for forensic entomology. Forensic Sci. Int. 193: 21-25.

Goodman, L.S.; Gilman, A. As bases farmacológicas da terapêutica. 6ª edição. Editora Guanabara Koogan, RJ, 1983.

Introna, F., Campobasso, C.P., Goff, M.L. 2001. Entomotoxicology, Forensic Sci. Int. 120: 42-47.

Micozzi, M. S, 1986. Experimental study of postmortem change under field conditions: effect of freezing, thawing, and mechanical injury. J. Foren. Sci. 49(6): 953-961.


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