O texto analisa a necessidade de redimensionar o conceito e a prática da educação em razão da realidade contemporânea.

Estima-se que a quantidade de informações produzida pela humanidade vem dobrando a cada duas décadas. E, mesmo imaginando o impensável a atividade de leitura por dez horas por dia, numa média de quinze páginas por hora e sem finais de semana livres. Ainda assim, não conseguiríamos ler toda essa carga de informação. Mas cabe um questionamento: tal forte carga de informação possui qual utilidade?

O acúmulo de informações principalmente assistemáticas faz com que em vez de termos cientista, teríamos apenas um idiot savant[1].

Se pensarmos que cada vez mais o conhecimento deve tender à globalização e não à especialização, como muito tempo se acreditou, obrigando a obter informações das mais diversas áreas para então criar o conhecimento, veremos é impossível acessar toda a informação ao mesmo tempo. Mais que isso, é simplesmente inútil.

Apesar dessa constatação, a escola (seja a do nível básico, secundário e mesmo superior) continua tentando formar seus discentes como se ainda estivéssemos no século passado e não no limiar de nova era, num novo milênio.

Continuamos ensinando fatos e cobrando memorização, num nítido desvio onde a escola esquece seu principal papel: o de ensinar a aprender.

As datas e os nomes da História são ensinados (como no latim insignare, como ato de depositar, signos, definições) dentro do aluno tão diferente do aprender, mas não se fazem relações críticas entre os diversos fenômenos, entre as épocas.

Há uma conhecida estória de seis cegos{C}[2] de uma parábola hindu que encontraram um elefante. E, cada qual apalpava uma parte do corpo do animal e saía relatando aos demais, como era o animal segundo seu tato.  Infelizmente o nosso sistema educacional não se diferencia muito dessa visão cognitiva do elefante.

Enfim, espera-se que o aluno faça sozinha a parte mais difícil da tarefa, que é justamente montar o elefante, como um sistema completo e inteiro em seu arcabouço de representação mental.

A interdisciplinaridade tão cogitada, mas tão pouco praticada, não apenas leva a formação mais completa do estudante e do cidadão, preparando-o para interagir com as informações esparsas e construir seu conhecimento, como também permite uma compreensão mais profunda das próprias questões.

Já se definiu inteligência{C}[3] como a capacidade de formular analogias, compete à escola ser o ambiente propício à formação de tais competências criando projetos de estudo multidisciplinares.

O conhecimento é comparável a uma esfera e, à medida que amplia seu volume, aumenta o número de pontos em contato com o desconhecido. O que confirma a velha e verdadeira máxima socrática: - “Só sei que nada sei”.

Ao invés de pretender dominar o maior volume possível dessa esfera, devemos aprender a navegar dentro da esfera. Assim como os bons navegantes que não decoram todos os pontos geográficos, ou todos os atóis nem as ondas. Pois os bons navegantes norteiam-se pelas estrelas e pelos mapas.

Por outro lado, a maior parte da informação é mero ruído quando não se encaixa em algum modelo, quando não possui utilidade plausível e imediata.

Daí, o grande valor da pesquisa e dos pesquisadores que ainda merecem ser descobertos, reconhecidos e estimulados no sistema educacional brasileiro.

De qualquer forma o individuo deve ser sabedor da existência de determinadas informações e onde se localizam para que no momento adequado, as acesse.

Nesse diapasão, é papel primordial da escola é criar ambientes de aprendizagem fundamentados na pesquisa, enquanto busca e avaliação de informações.

Com o advento da microeletrônica e da informática principalmente na estocagem de informações (mas não podemos chamá-las de conhecimento) posto que este seja construído no interior de cada pessoa, não se “passa”, não se transmite conhecimento mecanicamente em memórias quase infinitas, o processamento de dados em frações de minuto e a impossibilidade, no decurso de uma vida, de acesso à cultura universal são reveladores da impropriedade dos métodos escolares vigentes.

O papel dos educadores deve ser repensado e novas estratégias formuladas para a formação desses profissionais devem ser previstas. Enquanto isso a escola está imobilizada, quase fossilizada na antiquada formação de erudição que sequer atinge, em vez de se arrojar na formação de sujeitos críticos e dotados de autonomia de aprendizagem.

Com as céleres transformações nos meios e nos modos de produção, o resultado da revolução tecnológica e científica, nos traduza uma nova era da humanidade. Introduzindo-nos na tão afamada modernidade líquida conforme definiu Zygmunt Bauman[4].

A natureza do trabalho e a relação econômica travada entre as pessoas e países sofreram também enormes transformações, mudando a natureza do que hoje podemos entender por profissão[5].

Assim a educação não apenas deve se adaptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assumir papel de ponta nesse processo.

O atual estágio de transformação produzido pela Terceira Onda[6] (posto que a primeira onde se refira à descoberta da agricultura e a segunda onda é atinente ao advento da revolução industrial). Outros autores propõem outras designações, mas todos apontam na mesma direção, isto é, o papel fundamental do conhecimento nas relações de produção e, ipso facto, na ordem e no poder do mundo.

Reparemos que enquanto que a primeira onde o valor econômico de um produto era dado quase que exclusivamente pela matéria-prima, e seu valor era facilmente deduzido pelo pensamento de Adam Smith, na segunda onda o valor do trabalho agregado passa a sobrepujar aquela (ao invés de escravos, passamos a ter trabalhadores assalariados). Evidentemente que o conhecimento já estava presente nessas etapas, mas não possuía valor próprio e autônomo.

Vamos observar que o mero hábito de escovar os dentes já se pode analisar que a escova de dente já é um produto que reflete a afirmação anterior, questionando; o que vale o plástico nesta contido? Por quanto tempo de trabalho fora investido para fabricá-la? Hoje em dia o trabalho em grande parte está cada vez mais automatizado, e resta a derradeira questão: o quanto estamos pagando?

No preço da escova há embutido o valor do conhecimento, do design, envolvendo equipes de desenhistas, o know-how dos técnicos em ergonomia da arcada dentária, os consultores e especialistas em higiene bucal, os dentistas, os ferramenteiros e engenheiros de produção, os homens do marketing e da propaganda, cuidando da embalagem, rótulo e logotipo até os profissionais de distribuição de vendas.

Enfim, por detrás de cada produto, há uma gama enorme de investimento não só de matéria-prima, mas de serviços e técnicas[7] que são recompensadas pelo preço.

Platão em sua maravilhosa e utópica república previa e efetivamente propunha a instrução contínua até a idade de quarenta anos (considerada avançada para a época) em todos os campos artísticos e científicos. O que representava proposta para uma elite, o que deveria ser na construção de uma sociedade humanista e democrática, a premissa para a maioria dos cidadãos.

Com os progressos da automação, centenas e milhões de desempregados se tornaram delinquentes, com a redução do trabalho humano na produção de bens e serviços, se não criarmos um novo sentido da vida na nova sociedade.

Bem, afinal o que tudo isso tem a ver com a educação? Afinal, tudo. Pois a educação é que arquiteta o profissional do futuro[8] (e o futuro já começou) terá como principal tarefa aprender.

Sim, pois para executar as tarefas repetitivas (e mecânicas) existirão os computadores e robôs. Ao homem compete ser criativo, imaginativo, crítico e inovador.

A carga labora do trabalho desse profissional do futuro podemos estimá-la em cinco horas diárias (sendo modesta e razoável, pois do contrário disso seria imaginar horas de desempregados, delinquência e barbárie).

E, nessas cinco horas diárias laborais, uma hora seria pelo menos dedicadas ao que podemos chamar de produção propriamente dita e, as demais horas laborais restantes seriam destinadas ao estudo, pesquisa e a aprendizagem. A preocupação da capacitação constante e atualizada reciclagem com o capital humano atende a sofisticação e dinâmica do capitalismo contemporâneo.

Hoje, as profissões baseadas no conhecimento e, não na venda da força de trabalho já funcionam desta maneira. E é fácil constatar que uma única boa e inovadora ideia justificará o salário de vários anos de um empregado.

Evidentemente têm que preparar seus alunos para esta realidade, para esta dinâmica, eles terão que aprender a aprender, e aprender a fazê-lo com autonomia e mesmo perante adversidades.

O conceito de educação permanente{C}[9] será (e, ainda o é) válido mais do que nunca. O homo studiosus como a realização dos mais velhos sonhos humanistas e platônicos, libertando o homem das tarefas desumanizantes (aquelas que qualquer máquina pode fazer) e tornando a cultura, o saber e a arte sua principal tarefa.

Nesse cenário, onde está afinal a diferença entre a escola e o trabalho (ou profissão)?

Existe a cruel piada que menciona: “quem sabe faz e, quem não sabe ensina” reflete bem a desqualificação do profissional da educação”. O amadorismo[10] é hoje a pior praga da profissão do professor. Daí, a ideia de sacerdócio, de sacrifício justificando a incompetência e o castigo com os maus salários, a pedagogia do afeto (onde tudo gira em torno de amor e ódio) que tanto asfixia a pedagogia do intelecto.

A própria gestalt{C}[11] das escolas reflete sua contradição com a exigência dos novos tempos: seu visual estético e funcional mais se parece com um cartório de notas do que propriamente um ambiente estimulador do prazer intelectual.

Mas, para promovermos a mudança, não basta a lamúria, a mera boa-vontade ou mesmo determinação política. Há de se mirar principalmente nos avanços da humanidade e sinceramente integrá-los na escola, inserindo-os no projeto pedagógico.

Afinal, por que a escola tem que ser atrasada e mais enfadonha do que a TV ou um videogame? Ninguém possui sadomasoquismo cognitivo daí ser curial o uso da tecnologia educacional.

Ao conceituar tecnologia temos que perceber que este envolve o conhecimento, a segunda reflete a capacidade de aquisição apenas é, pois uma questão técnica e ideológica.

Como contraponto ao conceito de tecnologia, podemos exemplificar pelo Kuwait um país que pode comprar os computadores mais potentes e caros, os carros mais velozes, os blu-rays mais modernos, porém não sabe construir ou sequer consertar qualquer uma destas mercadorias.

O oposto disto é Robinson Crusoé{C}[12], o personagem de Daniel Defoe que com suas mãos nuas, tendo escapada de um naufrágio, reproduzia em sua ilha deserta, toda a tecnologia que ele conhecia (da época), usando apenas seu conhecimento e a vontade de transformar a realidade.

Na educação e igualmente em outros setores essa distinção é fundamental, pois não há máquina que substitua o professor. Assim como a televisão não substituiu o rádio, nem o videocassete substituiu o cinema e, nem o e-mail exterminou os correios e telégrafos.

A tecnologia educacional pode se dar, por exemplo, ao usar uma lata de água com um pedaço de madeira para explicar a flutuação dos corpos; como apertar a tecla de um vídeo sobre o assunto e deixar os alunos assistirem passivamente, em contrapartida, nada tem de tecnologia.

Há de se fazer uso consciente e consistente da tecnologia educacional para que possa motivar, instigar e propiciar o ambiente de aprendizagem.

Isso nos remete para a formação de um novo educador. Por mais que cogitemos em usar o videocassete, o computador, o Datashow ou ainda o velho quadro negro (que na maioria das vezes é verde) é na formação do educador que desenvolvemos a tecnologia educacional, preparando líderes, mediadores, empreendedores e estimuladores, mais do que até que meros detentores de conhecimentos específicos.

O professor do século XXI{C}[13] deve orientar os educandos sobre onde colher a informação, como tratar a informação e, pensá-la criticamente e, analisar como utilizar a informação obtida.

O educador será então o tutor, o mentor, o encaminhador, da autoformação e o conselheiro da aprendizagem dos alunos, ora estimulando o trabalho individual, ora em grupos, reunidos por interesses comuns ou interesses complementares.

A verdade é que quanto menos informações inúteis colocarmos na cabeça de nossos alunos, mais espaço sobrará para as grandes ideias, disse o físico russo Lev Landau[14] quando propôs a mudança dos conteúdos de ensino de física em seu país – de cerca de cento e cinquenta itens curriculares para apenas cinco.

Precisamos repensar a educação para não cair nas armadilhas da “ditadura dos conteúdos” que por vezes é a grande justificativa para a falta de inovação.

Afinal mais coerente e válido o aluno entender vem e profundamente cinco princípios da Física básica do que nada entender sobre cento e cinquenta princípios.

Mais vale aprender menor quantidade de conteúdos, mas aprender com prazer intelectual, sendo capaz e apreciar a pesquisa, ler por conta própria e descobrir as demais informações, utilizando o professor como consultor para as dúvidas.

Precisamos transformar a sala de aula num ambiente interativo e facilitador da aprendizagem. Precisamos calcular e argumentar com as ferramentas de interação lúdica entre os alunos e seus objetos para servirem de reflexão e pesquisa.

E para obter tal efeito várias técnicas se podem aplicar, desde uso do vídeo e de jogos até mesmo da arte dramática ou a construção de maquetes. Mas, já existe um instrumento que reúne todas essas possibilidades: o computador.

Infelizmente há poucas e honrosas exceções que usam as possibilidades multimídias do computador[15] para a educação[16].

A classe seria estimulada a alimentar um banco de dados sobre determinado tema, construindo a relação entre o saber na escola e “linkando” com a realidade prática.

É preciso que os alunos consigam ir mais longe e sabendo utilizar os dados, relacioná-los, sintetizá-los, analisá-los e, enfim, avaliá-los.

Todos esses elementos juntos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. O que fazem com que os alunos transcendam as respostas simples, desafiando ideias e conclusões, conseguindo um entendimento coerente do mundo. Enfim, conhecendo o elefante por inteiro, desprovido da cegueira da alienação.

A habilidade de pensar criticamente tem pouco valor se não for exercitada diariamente nas situações reais. Eis aí, a relevância das simulações feitas em computador ou não, têm seu papel fornecendo cenário interessante e propício para o desenvolvimento do intelecto.

A tomada de decisões que é motor básico de quase toda a simulação, podendo levar o aluno a uma série de questionamentos, visando algumas abordagens em que a resolução do problema. E, por fim, realizar a transferência de conhecimento.

Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que são motivadoras, como encorajar a dramatização de papéis que tenham diferentes perspectivas, elaborando vocabulários, visitando novos pontos de vista.

Também devemos evitar as armadilhas da rotina de ensinar igual tantas vezes que se impõe. Dar todo o tempo para as respostas (o silêncio por vezes é um precioso aliado), pois as respostas pensadas, não apressadas são as metas do pensamento crítico.

Encorajar os alunos a explicarem como chegaram as suas conclusões, pedindo para eles verbalizarem como estão pensando sobre um problema enquanto raciocinam. O principal é usar a imaginação, a engenhosidade, a criatividade para que se promova o prazer intelectual, o prazer de pensar.

O uso do computador exige um professor preparado, dinâmico[17] e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle pré-estabelecido do currículo.

Outro fator relevante é distinguir apropriadamente treinamento de educação. A educação significa transferência de conhecimentos de uma pessoa à outra; treinamento consiste no ensino da técnica.

O treinamento tem por finalidade desenvolver uma habilidade específica, como por exemplo, operar uma máquina, realizar um procedimento rotineiro ou atender a uma pessoa dentro de uma faixa estreita de responsabilidade.

Já a educação tem como objetivo disseminar o pensamento crítico bem como a capacitar a aprender novos conteúdos por conta própria. Estimulando o autodidata[18].

O treinamento capacita o profissional enquanto que a educação desenvolve a pessoa. Tal diferença é sutil, porém imensa, e o processo ou fracasso de um investimento em educação corporativa reside na percepção da aplicação adequada dos procedimentos educacionais, como materiais capacitadores, motivações, conteúdos e, principalmente bases conceituais.

Até hoje se considera que o lugar da educação é na escola e que no ambiente profissional as tarefas de aprendizagem devem ficar a cargo do chamado treinamento (o que em sua terminologia nos remete ao adestramento animal).

É questionável se o papel da escola é formar seus alunos para o mundo profissional, vez que o conhecimento traz a capacidade de ser sujeito crítico e autônomo deixando de ser apenas mero apanágio de cidadania e, passem ter o fundamento da atividade profissional.

Também a empresa deixa de precisar de sujeitos prontos e acabados, plenamente formados para usar na produção, pois o aprender passa a ser a nova linha de montagem.

Enfim, o tradicional “treinamento” deve ser cada vez mais substituído pela educação permanente no ambiente profissional. Nesse sentido, as potencialidades dos ambientes interativos de aprendizagem gerados por simulações com computadores, está cabendo cada vez mais, no ambiente empresarial.

O uso de jogos que representa a forma mais antiga de simulação da humanidade (homo ludens[19]) expande-se nas empresas e seus resultados se revelam muito positivos.

Por fim, a educação como processo{C}[20] possui papel fundamental, e há de ser contínua, sendo um dos métodos, senão o principal a garantir ocupações criativas às pessoas (capaz de garantir não só o emprego, mas a luta pela dignidade e pela cidadania).

Entende-se que a educação do século XXI não tem a finalidade única de preparar os alunos para o mercado de trabalho, mas facilitar a adaptação aos diferentes trabalhos que aparecem com a evolução da produção diante da globalização, onde talento e criatividade são importantes, assim como formar cidadãos democráticos e conscientes dos seus direitos e deveres e que resgate a humanidade existente dentro de cada um de nós.

Só assim, finalmente, a educação será o diferencial para toda a civilização humana.


Autor

  • Gisele Leite

    Professora universitária por mais de duas décadas. Mestre em Direito, mestre em Filosofia. Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas. Articulista das revistas e sites jurídicos renomados. Consultora do IPAE.<br>

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