Jogadores de futebol são ícones pós-modernos. Ícone, do Grego "eikon", significa imagem.

~~Jogadores de futebol são ícones pós-modernos. Ícone, do Grego "eikon", significa imagem. No Brasil, o futebol sempre foi a imagem e a semelhança do povo. Para nós, parece até que o futebol inventou a cultura de massas. Mas, no mundo, por exemplo nas décadas de 1960/70, ícones eram os astronautas – a imagem da perfeição. Aliás, uma boa imagem do pós-moderno é o traço dominante do niilismo e, para se ter em conta, basta-nos lembrar de Andy Warhol (1928 -1987), um dos iniciadores e principais expoentes da Pop Art: “No futuro, toda a gente será célebre durante quinze minutos”. 
Outra característica pós-moderna é a indefinição de termos e de projetos – como se nada fosse permanente ou duradouro. Exemplo notável é “La Sagrada Família”, do arquiteto catalão Antoni Gaudí. Obra faraônica, digna da melhor representação do engenho matemático e do delírio humano, expressa-se entre o passado, o presente e o futuro. Na base do “Tudo que é sólido desmancha no ar” (do pensamento de Karl Marx), trata-se de ilusão ou miríade, um cálculo cartesiano ou um hino ao infinito, bem como uma saudação ao catolicismo.
No século XXI, na terceira década do milênio pós-moderno, se tudo correr dentro dos planos, estará concluído o projeto informe. É importante ter claro que esse projeto da (pós)modernidade deverá ter seu feito anunciado apenas 150 anos depois de desenhado. Todavia, o visual do Templo Expiatório da Sagrada Família é tão surreal quanto sua construção. Todas as tradições deveriam pagar sua cota neste verdadeiro templo da expiação. Como se vê, não é um projeto gótico, nem é barroco (não há rococó), muito menos ligado ao romantismo: é simplesmente alucinógeno. Para a cultura pagã, o futebol é alucinógeno – afinal, fanáticos se encontram em duelos de vida e morte.
No Brasil, além disso, desde a origem, vê-se a luta política separando torcedores – quando um time inglês veio participar de um torneio em 1910. Atualmente, o duelo entre São Paulo e Corinthians traz uma bela demonstração das origens sociais. Os tricolores são acusados de pertencerem às elites, ao topo da pirâmide e os corintianos queixam-se do abandono social. Acusam-se de serem metidos (o São Paulo tem “cardeais” em seu comando gestor), contra o fato de outros lidarem com o chão de fábrica: trabalhadores, alguns realmente têm poucos estudos. O primeiro, prima pelo planejamento e pelas contas em dia, o outro clama pela garra do povo. É a luta política em que a atmosfera dos valores sociais, da identidade cultural e do poder econômico é evidenciada quando se olha para cima ou para baixo na cadeia alimentar do capitalismo.
A COPA/2014 não foi uma Babel, mas sobram elefantes brancos ou Torres de Marfim – algumas não exatamente honestas. Talvez, a gente se pareça mais com a Sagrada Família de Gaudí: de muita grandiloqüência, mas inacabada, feia ou inóspita à primeira vista. Também a Teoria do Caos do físico Ilya Prigogine ilustra nossa “pré” e/ou pós-modernidade. Vivemos sob o Princípio da Incerteza: “É do caos que surgem ao mesmo tempo ordem e desordem” (O Fim das Certezas: Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo: Editora da UNESP, 1996, p. 80). Com indeterminação moral, instabilidade política, dúvida metódica acerca das instituições públicas, via de regra, aplicamos o cinismo e a indiferença. A termodinâmica parece se aplicar apenas no barril de pólvora social, pois não transformamos “entropia social” em maturidade política e cultural. Realmente, nem a lei física dá conta da miscigenação entre o certo e o errado. Não tem cadinho na cultura, porque sobra jeitinho no caldeirão de maldades e de mazelas.
  Vinício Carrilho Martinez
Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia
Marcos Del Roio
Professor Titular de Ciências Políticas da UNESP – FFC


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