Na Amazônia brasileira, os índios preservam 11 (onze) vezes mais do que o restante da sociedade.

~~ Como se verifica empiricamente, os povos tradicionais da floresta são melhores preservacionistas do que os grupos ou sociedades que se aplicam ao uso econômico regular dos recursos naturais. Na Amazônia brasileira, os índios preservam 11 (onze) vezes mais do que o restante da sociedade .
 Os poucos índios isolados do Acre, e sem resistência às doenças comuns, como gripes, por exemplo, enfrentam o dilema de verem grupos inteiros dizimados. Além disso, têm de passar ou permanecer em terras de outras tribos – o que alerta aos técnicos da FUNAI sobre o perigo de choques por território . Os próprios índios solicitaram auxílio governamental a fim de se evitar os conflitos territoriais:
Os líderes da tribo Ashaninka, que divide o território com esta tribo e outras que também são isoladas, pediram ajuda ao governo e a ONGs para controlar o que eles consideram ser uma invasão por essas tribos de suas terras. O movimento das tribos seria pressionado pela exploração madeireira ilegal na fronteira com o Peru .

Os técnicos ainda solicitaram auxílio do Itamaraty na preservação da integridade física e cultural da etnia. Há grande alerta acerca do perigo de o Brasil perder todos os seus índios isolados. O problema da aculturação é gravíssimo, uma vez que não há troca cultural, apenas imposição de recebimento de quinquilharias – aliás, como se deu na colonização inicial e depois com os presentes de espelhinhos e bugigangas sem nenhum valor de uso:
Um grupo de índios que vive no interior da Amazônia isolado da civilização carregava uma carteira estampada com o escudo do Corinthians (e adornada com fios coloridos) em seu primeiro contato com funcionários da Fundação Nacional do Índio, no Acre. Um grupo de índios que vive no interior da Amazônia isolado da civilização carregava uma carteira estampada com o escudo do Corinthians (e adornada com fios coloridos) em seu primeiro contato com funcionários da Fundação Nacional do Índio, no Acre [...] A Funai acredita que eles vêm sofrendo pressão de grupos de madeireiros e narcotraficantes que atuam na fronteira entre Brasil e Peru. Relatos de indigenistas que atuam na região amazônica dão conta de assassinatos cometidos por brancos ou por outros índios contra comunidades isoladas [...] Depois do contato inicial, os índios que usavam a carteira do Corinthians apresentaram sintomas de gripe, o que gerou uma preocupação na Funai de que possa haver um surto da doença que leve a uma tragédia na aldeia dos isolados. Depois do contato inicial, os índios que usavam a carteira do Corinthians apresentaram sintomas de gripe, o que gerou uma preocupação na Funai de que possa haver um surto da doença que leve a uma tragédia na aldeia dos isolados .

 A luta pela preservação, entretanto, é uma intensa luta política contra o capital. Além dos problemas tradicionais devidos ao choque cultural, como no caso clássico da luta pela preservação contra o desmatamento e do enfrentamento diante de madeireiros e de garimpeiros. Líderes indígenas têm sofrido constantes ameaças de morte, requisitando-se proteção especial do Estado .

Índio alemão

 As ações de colonização interna e de ocupação internacional provocam até mesmo situações inusitadas de comicidade, como o fato de um alemão viver na Amazônia com documento (RG) indicando ser índio.
No final dos anos 60, um homem apareceu no Estado do Acre, no meio da região amazônica. Ele usava um pano amarrado sobre os genitais e uma pena, carregava um arco e dizia que era Tatunca Nara, chefe de Ugha Monulala. Ninguém nunca tinha ouvido falar de uma tribo indígena com aquele nome. Além disso, o homem não se parecia em nada com um índio. Ele era branco e falava com um forte sotaque francês .

A aparição é antiga, e chega a dar vida ao romance de Vargas Llosa (1998), em que o homem branco desempenha o “papel civilizador” entre grupos indígenas, socializando comunicações, tradições e culturas – o Falador seria uma versão nativa de o Narrador de Walter Benjamin (1987).
Para Benjamin, o narrador é o elemento essencial e superior da constituição da cultura popular: “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (1987, p. 198). De onde se concluiu que a narrativa é uma forma artesanal de comunicação (Benjamin, 1987, p. 205).
No caso da Amazônia, contudo, nada é ocasional, pueril, inocente ou desinteressado; quando se envolve uma acirrada luta por soberania territorial, não há romantismo ou nostalgia. No exemplo dado, o caso não é burlesco, mas sintomático da forma política empregada ao longo de décadas acerca da definição de sua posse/propriedade.

Bibliografia
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 3ª ed. São Paulo : Brasiliense, 1987.
LLOSA, Mario Vargas. O falador. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1988.

Vinício Carrilho Martinez
Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia – UFRO, junto ao Departamento de Ciências Jurídicas/DCJ.

Antenor Alves Silva
Doutorando em Geografia (UFPR)
Mestre em Geografia (UNIR)
Agente Administrativo – Delegacia Federal de Desenvolvimento Agrário-RO (MDA)



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