Acredita-se em mitos, mas não se deve crer em lendas.

~~Acredita-se em mitos, mas não se deve crer em lendas. Por exemplo, reza a lenda que os EUA morrem pela democracia; de fato, mataram muito pela democracia do petróleo no Iraque. A mesma lenda conta que os EUA são ardorosos defensores dos direitos humanos; contudo, não aceitam uma vírgula do direito internacional. Para não ter dúvidas, basta pesquisar a ação dos soldados da Blackwater - no Iraque e na Síria. Um decreto conhecido como Ordem 17, do exército dos EUA de 28 de junho de 2004, isenta os mercenários de eventuais processos penais por transgredirem os direitos humanitários, como no caso de massacrar a Convenção de Genebra. O resultado mais visível está nas centenas de prisões ilegais espalhadas pelo mundo afora, em que se pratica a tortura abertamente. Guantânamo-Cuba é apenas a ponta do iceberg. Com esses meios, os EUA procuram separar a cabeça do tronco, a tropa do comando. Aliás, o método foi replicado no Araguaia, quando – literalmente – cortaram a cabeça dos jovens revolucionários que combatiam a ditadura militar.
 O mito desafiado é o da Medusa petrificante (Górgona), aquele em que se corta a cabeça (Caput) dos resistentes para desanimar os demais. Os gregos chamavam a liderança política de Kybernets: o que dá direção. Por sua vez, os EUA deveriam ter aprendido com a Revolução Americana e em sua guerra civil que, sem comando, a tropa fica ensandecida, com avidez pela morte e à procura de sangue: Henry David Thoreau é sempre uma referência. Na Síria, sem comando ativo, multiplicam-se as milícias descontroladas e a resposta é o gás Sarin. Sem a liderança de Bin Laden na Al-Qaeda e no Afganistão, do Talebã – e com Assad enfraquecido na Síria – os grupos terroristas aliaram-se e formaram um Estado Terrorista – exatamente entre a Síria e o Iraque. O Califado ou Estado Islâmico já tem mais de 15 mil combatentes. Outra perna do prenúncio de que o barbarismo deverá crescer muito, em razão das cabeças e dos tentáculos que se multiplicam, é o grupo Boko Haram no norte da Nigéria.
 Os EUA tentaram sem sucesso, há alguns meses, matar o que ainda era um protótipo de Califa no Iraque. Enviaram as Forças Delta, a ponta de lança militar estadunidense, e igualmente fracassaram em sua caçada. O manual de técnicas e estratégias militares Delta foi copiado pelo exército e depois modificado no curso de “sobrevivência na selva”, na Amazônia brasileira, até que acabou como referencia do BOPE: polícia de incursão urbana, com destaque no Rio de Janeiro, mas presente em todo o território nacional. São forças altamente treinadas para combater a guerrilha urbana; contudo, também praticam a tática da guerrilha. Para além da realidade fática, pode-se ler “Comandos: os soldados fantasmas” (Peter Yong. Editora Renes, 1975) e “Força Delta” (Eric L. Haney. Landscape, 2003).
 As táticas implementadas pelo Estado de Exceção Permanente e Global – pelos EUA – têm resguardado interesses econômicos; porém, com muitas baixas geopolíticas. Esses são apenas alguns exemplos e detalhes geoestratégicos, mas o Império das exceções funciona como verdadeiro modelo não-ideal copiado pelo Ocidente. A barbárie já se apresentou, com múltiplas faces e em todos os lados envolvidos. Onde estará a civilização? Se observarmos que os primeiros artigos do Estado de Exceção datam da Constituição Francesa de 1793, então, concluiremos que se trata do artefato jurídico pós-absolutista que inaugurou a modernidade e a civilização. Como legado, colhemos o que plantamos: da exceção vieste, à barbárie voltarás.
 


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