Aqui não vivemos “sob”, mas “sobre” a democracia.

Na época da cédula impressa, o voto de protesto no rinoceronte Cacareco (em São Paulo) e no macaco Tião (no Rio de Janeiro), não davam em nada. Hoje, com a urna eletrônica – em que não se escreve mais jacaré no papel que vai para o lixo – esse voto da desilusão provoca um insuportável cinismo político. O voto obrigatório, em virtude da desilusão com a democracia parlamentar brasileira, elege muitos tiriricas. Porque, com um milhão e tanto de votos, sua legenda se abastece e ajuda a levar outros ainda mais inexpressivos que só farão barganhar seu próprio voto na Câmara Federal e na Assembléia Legislativa. Além desses, há cínicos na forma de ex-alunos de Enéas, Bin Laden, Sula Miranda e congêneres. Por décadas, temos de conviver com a tolice e a demagogia de tipos como Levy Fidélix – este apenas a ponta de um imenso iceberg que, sozinho, afundaria qualquer democracia. Em recente debate televisivo, Fidélix acatou os gays cheio de xenofobia – antes que o ato vire crime. Sua resposta veio pela OAB, que pediu o descredenciamento da candidatura e por ignorância da razão que se arrasta desde a adolescência. Na explicação da bióloga Karla Tepedino: “Não aguento quando vêm me dizer que ‘órgão excretor não reproduz’. Gente, aulas de biologia, vamos lá. Ânus é parte integrante do sistema digestório, o que sai dele não é considerado excreta, apenas restos da digestão. Em compensação, pênis é parte do sistema excretor”. Ainda precisamos recordar dos animais que se reproduzem pela cloaca. Sem trocadilhos, se Fidélix fosse eleito seríamos digeridos pela “oclocracia”: governo dos piores e medíocres. Aliás, mais um exemplo lapidar de que sem educação não há democracia e nem política. Na vida, que é política por excelência, a língua é o chicote da bunda. Entretanto, isto não autoriza que um candidato defenda a revolução e que outro queira o controle da imprensa pelos petroleiros. Isto também é parte da aventura democrática. Não dá! Mesmo que muito se queira, não é possível viver no passado. Até Robinson Crusoé, que dispensaria a democracia, tem de suportar o peso acachapante do presente.

A democracia é tão aventureira que só loucos ou anjos apostariam nela – parafraseando o filósofo francês J. J. Rousseau. Como não temos anjos em política – apenas bobos manipulados –, resta-nos uma aposta política louca, desvairada, em razão da liberdade. Sem a liberdade é horrível, é equivalente a morrer no ninho, sem ver a luz do dia. Contudo, no Brasil, desafiamos até a máxima de que a democracia é a melhor das piores formas de governo – dizia Winston Churchill, primeiro ministro britânico na Segunda Guerra Mundial. Sem saber controlar seus efeitos, no ensinamento de Carl Popper, nossa aventura democrática já nos brindou com Fernando Collor e, depois, com o primeiro impeachment da histórica política mundial. Nos EUA, Richard Nixon renunciou em 1974, antes de perder o cetro e devidamente atolado no escândalo Watergate: um dos atentados à democracia. Como visto, além dos ataques orquestrados pelo “lado escuro da força”, a democracia é uma aposta totalmente cega no futuro incerto. Hitler não foi eleito na Alemanha nazista; todavia, foi nomeado chanceler graças à permissividade democrática. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 pune como crime hediondo quem ataque militarmente a democracia. Porém, a degeneração moral e a oclocracia política, muito mais nefastas do que um bando armado e que vêm pelo ovo do voto, não têm remédios jurídicos ou políticos que as contenham. O pior da democracia é que se utilizam da própria democracia para acabar com ela. Nosso estágio é tão grave que os tiriricas nem conhecem os furos da aventura democrática, apenas navegam pelo mau-cheiro da imoralidade política. Nosso desaire, desatino democrático. No latim, “fidelis” refere-se a quem é fiel; pois bem, somos fiéis ao nosso dejeto imoral.



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