Você é capaz de saber exatamente que tipo de ideologia consome ao ligar sua televisão?

Hoje fiz algo que não fazia há meses: assisti alguns minutos da programação da Rede Globo. Vi algumas cenas de Malhação, em que garotas trocavam porradas e chutes num torneio de vale-tudo. No intervalo, propaganda convidando as pessoas a se inscreverem para o novo BBB com o mantra “você pode ser um vencedor”. Rapidamente mudei de canal irritado. E como quase tudo que me incomoda profundamente fiquei ruminando o que vi e ouvi.

As cenas de Malhação e da propaganda do BBB resumem bem a ideologia da Rede Globo: dispute com violência, ocupe um espaço na TV e vença a qualquer custo. Caso contrário você será um derrotado. A derrota, porém, não deveria incomodar muito as pessoas. Todos somos mortais,  portanto, vitoriosos e derrotados ficam lado a lado sob a terra.

A disputa faz parte da existência humana, mas não é o propósito da vida em sociedade. Tudo que o homem faz bem sozinho e em guerra contra todos à sua volta, faz melhor se cooperar com seus supostos adversários. Onde a cooperação predomina a distinção entre vitoriosos e derrotados não faz muito sentido, pois há espaço e felicidade para todos. Num ambiente extremamente competitivo a vitória isola e separa as pessoas, produzindo felicidade transitória para os vitoriosos e derrotados deprimidos por bastante tempo.

Civilização é cooperação e não competição. Além disto, a idéia  de que ocupar um espaço na TV é algo essencial me parece absurda por dois motivos. A televisão tem menos de um século no Brasil e todas as gerações de brasileiros que precederam à sua existência não sentiram falta do universo paralelo que ela cria. Na atualidade, a internet é um veículo de comunicação mais importante do que a TV. A nova tecnologia instituiu uma sociedade do espetáculo total e muito mais democrática do que a televisão. Ninguém precisa passar num processo de seleção para produzir, editar e divulgar seus próprios vídeos na web. Nesse contexto, o BBB é um programa anacrônico.

Jovens trocando chutes e socos num programa de TV produzido para adolescentes e veiculado a tarde me parece bastante inadequado. Nos últimos anos e com crescente regularidade, o telejornalismo noticia casos de violência entre adolescentes em escolas públicas. A arte não só reflete a realidade, pode ajudar a reforçar alguns aspectos positivos ou nocivos da mesma. Ao se verem representados no programa Malhação, os garotos e garotas que gostam de trocar chutes e porradas nas escolas se sentirão estimulados ou não a brigar mais?

Nos EUA a vida cotidiana é muito marcada por agressividade, competitividade, valorização dos vitoriosos e depreciação dos derrotados. Mas isto não faz dos norte-americanos um povo feliz.  O consumo elevado e crescente de estimulantes, alucinógenos e medicamentos psicoativos nos EUA é um fato notório. E provavelmente está ligado à infelicidade que a cultura predominante naquele país inocula em seus cidadãos desde a mais tenra infância.

Durante o debate da Band, Aécio Neves se esforçou bastante para parecer mais agressivo,  competitivo e vitorioso do que Dilma Rousseff. Podemos, portanto, concluir que o candidato do PSDB está totalmente mergulhado naquela ideologia veiculada pela Rede Globo e cometeu o equívoco capital de se dirigir aos brasileiros como se eles fossem norte-americanos (ou, no mínimo, quase que totalmente norte-americanizados). Sua derrota será, sem dúvida, a derrota da ideologia estrangeira que ele representa.

A cultura brasileira é e deve continuar muito diferente da cultura norte-americana. Ela é a verdadeira fonte de nossa felicidade? Creio que é perfeitamente possível ser um brasileiro feliz e rejeitar a ideologia estrangeira veiculada pela Rede Globo. Ser vencedor no Brasil significa, sobretudo, seguir sendo um brasileiro que nem sequer cogitou participar do BBB eleitoral da Rede Globo.



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