Um mundo bipolar não é mais possível.

Semana passada o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, alertou o mundo para o perigo de uma nova Guerra Fria e pediu que os líderes mundiais evitem o conflito através do diálogo: http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/gorbachev-alerta-para-nova-guerra-fria-e-convoca-dialogo .

O que ocorreria se uma paz duradoura fosse alcançada entre russos e norte-americanos? A primeira e mais óbvia seria o sucateamento da Marinha, Exército e Força Aérea dos dois países, seguida pelo desemprego de centenas de milhares de militares que se tornariam obsoletos. Em seguida, as indústrias militares nos dois países entrariam em crise, pois seus maiores compradores certamente iriam parar de comprar equipamentos. Todos os fabricantes de peças e componentes utilizadas pelos montadores de armamentos (blindados, tanques, submarinos, caças, bombardeiros, mísseis, etc) também entrariam em crise, provocando significativa queda na atividade industrial nos dois países e um aumento do desemprego de civis.

A nova Guerra Fria é condenada por Mikhail Gorbachev, mas é certamente desejada por aqueles que vivem do medo da guerra (militares) e lucram com a possibilidade de conflito armado (fabricantes de armamentos e industriais que lhes fornecem peças e componentes). É por isto, aliás, que  V.G. Kiernam, afirma que:

“A guerra entre os fortes não recompensa, mas a fabricação de armas recompensa extremamente bem. O estabelecimento militar é, muito mais do que em qualquer país, uma extensão do mundo dos negócios, apesar de a graduação de funcionários do governo para empresas privadas ter começado há muito tempo como ex-generais e almirantes na Europa juntando-se às diretorias de empresas de armas. Isso vem acontecendo regularmente na América desde 1945. A indústria de armamentos acostumou-se a lucros incalculáveis que impulsionaram seu crescimento durante a Guerra Mundial. O povo foi convencido de que essa atividade é necessária à economia, assim como à defesa. Longos anos de depressão anteriores à guerra deixaram empresários e funcionários convencidos, de modo semiconsciente, que o precário céu capitalista só podia ser sustentado por gastos ilimitados em armas. ‘Todo setor importante de produção americana tornou-se profundamente militarizado no curso da Guerra Fria.’ ” (ESTADOS UNIDOS o novo imperialismo, Record, 2009, p. 312-313).

A deformação que a indústria de armamentos produziu na economia norte-americana também foi notada por Chalmer Johnson:

“Da Guerra da Coréia aos primeiros anos do século XXI a institucionalização desses vultosos gastos com a defesa nacional alterou fundamentalmente a economia política americana. Esses  gigantescos gastos se tornaram uma característica comum da vida ‘civil’ e todos os membros do Congresso, não importante de que partido, buscam atrair contratos de defesa para os seus respectivos distritos. Regiões como o sul da Califórnia passaram a depender dos fatos coma  defesa nacional, e períodos de  recessão, com demissões em massa nos anos em que os gastos com a defesa eram ‘normais’, viraram rotina na economia daquele estado. Calculou-se, em setembro de 2002, que o Pentágono tinha canalizado 25% de suas verbas de pesquisa e desenvolvimento para empresas da Califórnia, que dispunham da maior força de trabalho do país nesse setor. Na verdade, a quantia deve ter sido maior, porque muitas empresas do sul da Califórnia – como a Northrop Grumman em Century City, a TRW em Redondo Beach, a Lokheed em Palmdale e a Raytheon em El Segundo – se ocupam de projetos militares secretos, cujos orçamentos também são mantidos em sigilo.” (AS AFLIÇÕES DO IMPÉRIO, Record, 2007, p. 71)

Mas porque uma nova Guerra Fria coma Rússia? De fato, a Rússia não representa um perigo econômico para os EUA. A economia norte-americana é maior e mais diversificada que a russa. Os russos exportam muito gás e petróleo, é verdade. Mas também é verdade que a Rússia precisa desesperadamente comprar no exterior os alimentos que não consegue produzir no inverno. Os gastos militares da Rússia representam atualmente menos de 10% dos gastos dos EUA com armamentoshttp://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pa%C3%ADses_por_gastos_militares .

Do ponto de vista estritamente militar, a China representa um problema bem maior para os EUA do que a Rússia. Pequim já realiza gastos militares quase duas vezes maiores que os de Moscou. O aumento de gastos militares chineses nos últimos anos é objeto de preocupação constante das autoridades norte-americanas. O PIB da China já é quase tão grande quanto o dos EUA e o ultrapassará em breve http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,pib-da-china-passara-o-dos-eua-em-cinco-anos,1503303 .

Sobre o perigo representado pela China, diz Noam Chomsky:

“Quando indagado por que ‘os Estados Unidos devem gastar maciçamente em armamentos e a China não’, Max Boot, um veterano membro do Conselho de Relações Exteriores, deu uma resposta simples: ‘Nós garantimos a segurança do mundo, protegemos nossos aliados, mantemos abertas rotas marítimas cruciais e lideramos a guerra contra o terror’, ao passo que a China ameaça outros países e ‘pode provocar uma corrida armamentista’ – o que é inconcebível em se tratando dos Estados Unidos. Certamente, ninguém, exceto um desvairado ‘teórico da conspiração’, diria que os Estados Unidos controlam as rotas marítimas em prol dos objetivos de sua política externa, e não para o benefício de todos, e que grande parte do mundo vê Washington (particularmente desde o começo de Bush II) como a maior ameaça à segurança mundial.” (ESTADOS FRACASSADOS, Bertrand Brasil, 2009, p. 13-14)

Confrontar a China neste momento não seria muito educado, pois todo mundo sabe que os chineses financiaram as últimas aventuras militares norte-americanas no Oriente Médio. Os norte-americanos devem trilhões de dólares aos chineses e ninguém em sã consciência daria atenção ou razão a uma potência militar que ameaça seus principais credores. Confrontar a Rússia, porém, é algo perfeitamente possível. Os russos são orgulhosos e militarmente poderosos, mas eles não representam uma séria ameaça a hegemonia planetária militar e econômica dos EUA como os chineses. A vantagem de uma Guerra Fria contra a Rússia para os EUA é evidente, especialmente se Washington pretende manter as indústrias norte-americanas de armamento funcionando tendo em vista um futuro confronto mortal com a China.



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria