Como nos salões femininos, fala-se de tudo no barbeiro. Até de mulher.

~~É o santuário do machismo. Contudo, também lembramos do futebol e da política. Só de religião é que não me lembro de nenhuma incursão. O legal mesmo é falar de política. Uma diferencial, entretanto, é que não se trata de novela e nem se fofoca. Fofocar é falar da vida alheia, claro. Porém, via de regra, a fofoca cuida da vida privada do Zezinho e da Mariazinha. Retrata maldosamente a vida comum do homem médio. Por isso, já se disse há tempos e muito acertadamente, a fofoca é policial do status quo. Ressalto aqui que sempre fui abençoado por viver cercado de mulheres combativas, competentes, amáveis e brilhantes. Aliás, falei sobre isso hoje com minha amiga Cidinha Zuin: notável em tudo o que faz.
 Pois bem, depois de muito refletir sobre o título, batizei de crônica. Além de se cuidar de um estilo literário, não remete às fofocas. A crônica é imortal desde “As Luvas”, de Rubem Braga (Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Record, 1999). O Brasil produziu muitos cronistas, como Otto Lara Rezende, Carlos Heitor Cony e (por que não?) Paulo Francis. Pode-se/deve-se discordar das opiniões deste último, todavia, como técnica de redação era imbatível. Além das crônicas sagradas de Machado de Assis e de Graciliano Ramos. Outro gênio foi Walter Benjamin: um flâneur.
Por isso, quando falamos de política – e da vida comezinha dos políticos corruptos – não lançamos alegações ao vento. Porque, como se sabe, em política não há fofoca e sim boatos. Também é sabido que a boataria é crime. No Brasil, tudo é crime: as relações sociais são criminalizadas, como a necessidade de se averiguar quem difundiu um boato. Tudo é crime, menos a gatunagem dos Gênios do Mal. Esses são celebrados até pelo povo. Tornando-se bordão: “rouba, mas faz”.
Também aproveito esta deixa para explicar meus erros e pedir desculpas ao leitor. Há erros que estão entranhados; esses não vemos e duvidamos quando nos são apresentados. Não se trata de erros de caráter, mas daqueles lapsos acumulados pelas experiências e que, às vezes, transformam-se em preconceitos. Todos nós temos. Então, não cabem aqui. Falo de trocar um “a” por um “o”. Ou quando resolvo comer um “s”. Até mesmo manter um verbo em tempo equivocado. Minha desculpa, mesmo que não cole, é porque escrevo quatro textos ao mesmo tempo. Nunca faço uma coisa só, com total atenção. No meio tempo desta crônica, por exemplo, conferi e-mail e página pessoal. Até o fim, preciso ver o saldo da conta bancária. Se bem que, neste caso, é melhor deixar de lado, pois a crônica poderia sair amarga demais.
Enfim, meu problema – como de bilhões de pessoas incertas e imersas no mundo pós-moderno – é nutrir certo déficit de atenção. Estamos sempre ligados, procurando por respostas que ainda nem tiveram as perguntas formuladas. Não é curiosidade, é ansiedade – e isso é doença da alma e do corpo. Loucos por ver o mundo, não vemos o tempo passar. Também por isso já estamos no final do ano e todos estão chocados com a velocidade e a instantaneidade que se apossaram de nós. Para confirmar o que falei, a coisa é tão espessa que deixei a conversa da barbearia – com o amigo Reinaldo – e acabei falando de mim. Por isso é crônica e não fofoca. Estava certo.
Vinício Carrilho Martinez
Professor da Universidade Federal de São Carlos



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