A indústria cinematográfica dos EUA não consegue mais criar alta cultura, mas é capaz de destruir qualquer herança cultural.

Nos EUA a indústria do cinema tem que se reinventar constantemente. Esta necessidade lhe é imposta pela fabricação em série de produtos destinados a se tornar rapidamente obsoletos.

O desenvolvimento da informática provocou um verdadeiro boom das HQs cinematografadas. Na era dos efeitos especiais mecânicos e cênicos eram poucos os heróis em quadrinhos que podiam ser adaptados com sucesso por Hollywood. Nem todos os personagens das revistas podiam ser levados para a tela grande. Antes da popularização dos personagens híbridos possibilitados pela informática (atores reais substituídos pelos seus duplos digitalizados durante as cenas de ação), alguns filmes horríveis foram feitos e esquecidos (como Fantastic Four de Roger Corman, por exemplo). Nos últimos anos temos visto séries intermináveis de novos heróis sendo introduzidos com sucesso na história do cinema (Thor, X-Men, Homem de Ferro, Avengers, etc...).

A indústria do cinema, porém, não pode viver apenas de HQs. Então, os cineastas e mercadores de filmes “made in USA” criaram um novo ramo do cinema que eu chamarei de Bullshitdo (Bullshit + Bushido). O vocábulo tem uma referência na Uncyclopediahttp://mirror.uncyc.org/wiki/Bullshitdo, mas lá designa algo diferente do fenômeno estético que me proponho a analisar aqui.

Bullshit é uma palavra muito usada nos EUA para designar cascata, galhofa, mentira, lorota, pegadinha, bobagem, etc... O Bushido pertence à cultura japonesa. O “caminho do guerreiro”, o código de honra desenvolvido e cultivado pelos samurais durante a idade média no Japãohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Bushido, foi e ainda é uma importante fonte de inspiração para o cinema japonês.

Existem dezenas de filmes japoneses sobre a saga dos 47 Ronins. Um deles, filmado em 1941 por Kenji Mizogushina, tem como tema justamente o Bushido. A obra mestra de Mizogushina mostra como o “caminho do guerreiro” foi honrosamente respeitado pelos 47 samurais sem senhor antes e depois deles assassinarem o chefe de um clã rival que provocou a morte injusta de Lorde Asano. Após vingar seu senhor, os ronins praticam seppuku. Neste filme de Mizogushina, a batalha no castelo de Lorde Kira é menos importante que o caminho que leva à bem sucedida e honrosa vingança. Por isto, a carnificina entre os samurais não é mostrada.

Akira Kurosawa também fez vários filmes tematizando p Bushido. Mas ao contrário de outros diretores japoneses ele não valorizava demais a cultura guerreira medieval de seu país. Em Kagemusha (1980), por exemplo, um chefe samurai morto é substituído por seu sósia. Tudo vai bem até que o sósia começa a acreditar que pode realmente liderar seus soldados em combate. Em Ran (1985) todos os personagens que praticam o Bushido acabam morrendo tragicamente. Apenas o budismo permite ao sobrevivente das guerras entre clãs, um flautista cego, seguir caminhando em segurança num mundo extremamente perigoso. Depois da Chuva (1999, com roteiro de Akira Kurosawa filmado por Takashi Koiozumi), o samurai se importa mais com sua família do que com o Bushido e comete a impostura de confraternizar com camponeses como se eles fossem seus iguais. A atitude dele causa repugnância aos orgulhosos samurais, que acreditam pertencem a uma casta superior.

Os filmes manufaturados em Hollywood com alguma inspiração no Bushido não respeitam os códigos de conduta definidos pelos samurais japoneses, misturam elementos do  americanismo (doutrina que já foi chamada de o nazismo dos norte-americanos) à história e à tradição dos guerreiros japoneses.

Em O Último Samurai (2003), um soldado norte-americano que massacrou índios indefesos, chega desonrado ao Japão. Aprisionado pelo inimigo de seu empregador, ele entra em contato com o Bushido e resolve seguir o “caminho do guerreiro”. Ele recupera a hora e se torna o único sobrevivente na batalha campal entre o moderno exército imperial japonês e o exército de samurais ao qual ele aderiu.

Kill Bill I e II (2003 e 2004), narra o caminho da vingança percorrido pela protagonista interpretada pela belíssima Uma Thurman. A violência exagerada e desonrosa (um tema constante nos filmes de Quentin Tarantino) disputa espaço com a obsessão dos personagens pelas katanas manufaturadas por Hattori Hanzo. 

O filme 47 Ronins (2013) é uma versão totalmente desfigurada da história japonesa filmada por Kenji Mizogushina em 1941. Keanu Reeves interpreta um mestiço que se junta ao bando de ronins que pretendem vingar a morte de Lorde Asano. Entre os inimigos a serem combatidos há uma feiticeira, demônios e dragões.

Os quatro filmes acima mencionados pertencem, por razões diversas, ao ramo cinematográfico que chamei de Bullshitdo. Em todos eles elementos estranhos à cultura japonesa foram forçosamente amalgamados com o “caminho do guerreiro” para produzir algo que não pertence nem à cultura do Japão nem à dos EUA. Natan Algren (herói de O Último Samurai) troca as armas de fogo, objetos que são reverenciados pelos norte-americanos desde que foram inventados e passaram a ser fabricados em escala industrial, pela katana japonesa com uma facilidade que só pode ser comparada à dos personagens de HQ (um produto típico dos EUA). A heroína de Kill Bill I e II aprende a lutar com Pai Mei, que foi um mestre chinês. A feiticeira que ajuda Lorde Kira e confronta Kai (personagem interpretado por Keanu Reeves em 47 Ronins) se parece muito com a antagonista de A Bela Adormecida (filme de 1959). Ambas se transformam em dragões quando precisam derrotar seus inimigos.

O que há de especificamente japonês nestes filmes perde sua identidade cultural. O Bushido se transforma no seu oposto (ou em algo muito diferente) em razão da tendência que os cineastas norte-americanos tem de produzir Bullshit para vender filmes. Vem daí que todos eles pertencem ao ramo do Bullshitdo criado pela indústria cultural tóxica dos EUA.  



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