O artigo tem por objetivo desenvolver, de forma introdutória uma análise sobre a obra Crepúsculo dos Ídolos de Nietzsche.

            Ora aclamado ora criticado, ainda hoje Nietzsche é considerado um clássico, seus textos, no alto de seus mais de cem anos de existência, ainda estão presentes – e ainda muito vivos – nos bancos acadêmicos e nas pesquisas científicas e filosóficas. Tachado de louco por alguns, gênio para outros, não há como negar que Nietzsche representa a ruptura de uma tradição científica cartesiana, pautada pelo rigor metodológico, que tardava mais de duzentos anos. Por meio de sua filosofia, a princípio, ametódia, utilizando uma linha de raciocínio lógico e uma estrutura textual totalmente nova – o aforismo – o filósofo alemão conseguiu reconstruir e recriar a Filosofia, criando  ideias, quebrantando preconceitos e reconstruindo uma nova forma de pensar o homem.

            A obra de Nietzsche pode ser classificada em três períodos: de 1970 a 1876, em um momento de ainda grande incipiência intelectual, cujas principais ideias advinham da influencia de Schopenhauer; de 1876 a 1882, onde já se evidenciava a construção de um pensamento filosófico próprio e a criação de sua identidade metodológica – ou ametodológica; e, por fim, de 1882 a 1889, seu auge intelectual, o período de maior produção.

            O Crepúsculo dos Ídolos – em ironia à ópera de Wagner, Crepúsculo dos Deuses – foi escrito em 1888, num momento em que o autor já se encontrava bastante debilitado, pouco antes de perder totalmente sua lucidez. A obra, grosso modo, constitui uma introdução a sua filosofia, na medida em que tenta quebrar paradigma filosófico, questionando a legitimidade de ícones do pensamento humano e que, até então, eram considerados ídolos intocáveis das ciências e da filosofia. De Sócrates aos românticos de seu tempo, Nietzsche percorre citando e criticando pensadores, teorias e instituições, incluído a própria educação alemã, pondo em cheque os mais respeitados intelectuais do ocidente: Rousseau – o naturalista impuro; Dante – a hiena; e Kant – o funcionário público infantil.

            Em O problema de Sócrates, Nietzsche inicia seu texto falando sobre a fragilidade da vida. Em meio a frases de efeito como: “ela não vale nada” e “viver – isso significa padecer de uma longa doença”, o autor introduz Sócrates na fala dizendo que ele estava farto de viver, o que talvez tenha explicado seu suicídio – e não sua execução. Em seguida, já rebate o próprio argumento, questionando a legitimidade dos próprios clássicos, sobretudo de Sócrates, dizendo: Será que todos eles já não estava mais firmes das pernas?

            A questão que se deve levantar até aqui é: qual vida Nietzsche está falando que não tem valor? A sua, a nossa ou a de Sócrates? A princípio ele parece fazer uma provocação a respeito da morte de Sócrates, que na sua opinião foi suicida, uma forma de desistência voluntária, permanecendo a dúvida se ele morreu pois desistiu de si mesmo ou se desistiu da própria humanidade e de seu papel como – suposto filósofo –, ainda assim, imortalizado como eterno mártir do conhecimento.

            Na continuação, sabendo que a cultura grega valorizava a beleza física, a posição social – numa sociedade extremamente estratificada e segregada – e a sabedoria, Nietzsche faz críticas mais ásperas, afirmando que Sócrates não representava nenhum destes padrões gregos: feio, pobre e – ao que parece – dotado de uma inteligência mediada. O que nos levaria a cogitar: será que Sócrates era realmente era grego? Ou, em realidade, não passava de um estrangeiro? – e não nos esqueçamos que o povo grego era absolutamente xenófobo. Talvez pior do que estrangeiro, diz Nietzsche, com base no pensamento lombroseano, por ser tão feio, Sócrates poderia ter sido um criminoso, um decadente.

            O filósofo também questiona o método dialético socrática, que consistia em fazer perguntas para o interlocutor, por meio da ironia e da maiêutica, na tentativa de fazê-lo chegar a alguma conclusão sozinho – ou, pelo menos, tentando fazê-lo desconstruir pensamentos derradeiros equivocados. Para Nietzsche, esse método representava apenas a ausência de método, a incapacidade de Sócrates não ter elaborado outra forma melhor e mais autêntica de se parecer superior diante de seus discípulos. Além disso, sua ironia representaria uma possível vingança aos nobres, que Sócrates tanto invejava e cobiçava.

            Nietzsche termina seu texto falando sobre o mal-entendido que representava Sócrates, assim como foi a fé cristã. Nesta medida, observa-se que o filósofo grego é comparado à moral cristã e, como tal, torna-se um nobre engodo, aclamado e difundido até os dias de hoje. Por fim, a morte de Sócrates é tratada como um suicídio, sua última aliciação. Assim, numa Grécia já decadente, Sócrates morre por afirmar que havia um só Deus e, ao tomar cicuta, deixa o plano dos homens e torna-se também um deus, cujas ideias serão retomadas por Platão, difundidas e sedimentadas pelo Medievo, chegando incólumes e incontestadas aos dias hodiernos – assim se criou um ídolo, um deus.

            Nietzsche chega a citar as alucinações de Sócrates como provas de seu charlatanismo – o daemon –, personificado em sua figura histriônica. Juntamente com o que foi citado a respeito de sua fragilidade física e econômica diante dos demais gregos, não teriam estas críticas uma motivação maior do que a crítica intelectual? O que levaria Nietzsche a fazer críticas tão pessoais a respeito de uma figura tão respeita como Sócrates – sem mencionar as outras tantas críticas despejadas ao redor do texto? Em outras palavras, qual a motivação para tamanha violência em suas críticas?

            Indiretamente Nietzsche se coloca como superior a todos estes ídolos. Mas quem foi Nietzsche afinal? O que se esconde por debaixo de seu ego inflado? A psicanálise nos demonstra muito bem que a arrogância e a prepotência eram eficientes mecanismos de defesa, tal como a ironia – tão criticada em Sócrates, mas muito utilizada por Nietzsche. Ora, nesse diapasão, as duras críticas nietzschianas refletem, a conta-senso, um homem pequeno, feio, frágil, doente, fracassado e, em suma, plenamente consciente de suas limitações.

            Ao mesmo tempo que as críticas de Nietzsche se mostram levianas e plenamente explicáveis diante de sua saúde frágil e sua lucidez inconstante, podemos analisar este pensador como, antes de mais nada, um provocador – um filósofo autêntico, que não se acovardou diante de uma sociedade vitoriana deveras tradicional. Assim como Freud, que teve coragem de mostrar ao mundo seus dilemas mais íntimos por meio de sua obra, Nietzsche teve igual mérito. Assim, em última análise, não importa se Nietzsche estava certo ou errado ao criticar Sócrates – assim como os demais intelectuais citados em sua obras. O mais fundamental é que ele teve coragem de fazê-lo, possibilitando, ao menos, repensarmos a respeito do pedestal em que colocamos nossos mais queridos ídolos. 


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