A importância da introdução da mulher como elemento na história do mundo

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27/01/2020 às 16:11
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Reflexões sobre a trajetória da mulher na sociedade do Brasil e do mundo. É hora de desconstruir na humanidade as ideias e valores obsoletos sobre as mulheres, que reverberam até hoje.

INTRODUÇÃO

Quando se estuda qualquer marco histórico importante para a construção da sociedade em ambientes escolares, as mulheres nunca estão em foco, apontando sempre homens para que sejam vistos como exemplo e como única fonte capaz de revoluções ou conquistas – fazendo com que os movimentos feministas sejam deixados de lado.

Tida como incapaz por muito tempo, isso ajudou a alimentar estigmas que ainda são perpetuados atualmente, reforçando a invisibilidade do feminino perante a “história tradicional”, em que o movimento feminista sempre lutou para a visibilidade da mulher como ser humano e também protagonista, onde tiveram papeis essenciais e marcos registrados – os quais são muitas vezes menosprezados, mas que são importantíssimos para a construção da atual sociedade.

A teoria feminista, portanto, buscou investigar e expor o trajeto das mulheres no mundo, onde surgiram pensadoras como Simone de Beauvoir e Joan Scott, que abriram discussões de gênero e dos direitos das mulheres, mostrando o meio sexista em que a história geral é contada – intocando mulheres graças ao patriarcado –, necessitando de muita pesquisa, visto que o gênero muitas vezes era usado para perpetuar relações advindas das diferenças biológicas.

Ainda que diminuídas socialmente perante o sexo, as mulheres são muito mais do que características biológicas, e por isso que discussões sobre o tema se mostram extremamente importantes, como forma de desconstruir um estigma e de representatividade em períodos escritos por movimentos sociais em que as mulheres protagonizavam seu próprio roteiro existencial.

Desta forma, torna-se óbvio que a história construída pelas mulheres contribui para a descoberta de episódios inéditos, os quais alguns serão abordados pelo presente artigo, de maneira objetiva e simples, por meio do método teórico através de pesquisas bibliográficas sobre o tema.


1 A MULHER NO MUNDO

Infelizmente, desde os primórdios da humanidade a mulher é vista como um ser inferior ao homem. De acordo com a Bíblia, no Antigo Testamento, a existência do sexo feminino só foi possível devido à matéria-prima disponibilizada pelo sexo oposto, não sendo criada de maneira livre igual Adão, que veio do barro. Eva nasceu para satisfazer o companheiro, e como se isso não bastasse, ela que foi tida como responsável pelo castigo imposto à ambos ao seguir os conselhos de uma serpente alada falante, estimulando Adão à provar o fruto proibido – de acordo com a religião criada pelo homem. O livro sagrado sofreu alterações depois da passagem de Jesus Cristo, adotando um Novo Testamento, mas a situação da mulher permaneceu.

Por meio da obra “O Segundo Sexo” (1949), Simone de Beauvoir, escritora e filósofa francesa expõe como os dois sexos nunca estiveram em plena igualdade. Quando a mulher não era escrava do homem, era no mínimo sua subordinada, e mesmo que sua condição começasse a evoluir, sempre esteve em desvantagem em relação ao sexo masculino. O homem sempre considerou a função da mulher dentro do seu próprio ego, enxergando-a como o “Outro”, como um objeto e não como semelhante; para ele, esta só existia para satisfaze-lo em suas necessidades.

Ela relata que o homem esteve em foco por muito tempo, tendo sempre o mundo em suas mãos, o qual fazia girar ao seu redor; ele que detinha o poder desde o início da humanidade, e devido à esse privilégio, se achou apto para dominar as mulheres, oprimindo-as e desta forma, a mulher virou um tabu, e tais privilégios os fizeram achar que eram superiores. Os ovários eram chamados de “testículos femininos” até o dinamarquês Stenon classificar as glândulas genitais femininas como são conhecidas atualmente. Eles que determinavam o lugar da mulher na sociedade. Eles eram a lei. (Simone de BEAUVOIR, 1949).

No mais, a escritora e filósofa estudou a evolução da mulher em todas as épocas, de forma ampla. Na idade da pedra, onde tudo baseava-se na força física bruta, as mulheres se destinavam à atividades em que seu esforço era válido, como cultivo de jardins, permanecendo no lar enquanto o homem saía para caçar, pescar ou encontrar qualquer outro alimento. As mulheres nunca sobreporam os valores femininos aos masculinos em nenhuma época, foram os homens que inventaram essa divisão, o que elas lutaram e lutam até hoje é para que haja a igualdade de serem reconhecidas da mesma maneira que os homens eram – e ainda são (BEAUVOIR, 1949).

Seguindo o raciocínio de Simone perante as outras épocas, observa-se que o direito surgiu quando os nômades pararam de ficar se locomovendo e estabilizaram-se em um local próprio, onde começam a praticar a agricultura e outras técnicas. A maternidade se torna sagrada, e devido ao instinto maternal, a mulher escolhia permanecer em casa e dedicava a maior parte do seu tempo para com os cuidados dos filhos, ficando submetida ao lar, onde teciam e realizavam outras atividades econômicas domésticas enquanto os homens íam praticar as atividades de sempre. Há indícios que os primitivos chegaram a considerar a mulher como um ser divino devido à sua capacidade de gerar vida; mas a questão é que aceitando o seu destino de mãe e o seu dom da vida, as mulheres eram fadadas ao seu instinto maternal, enquanto os homens ganhavam poder (BEAUVOIR, 1949).

Os maridos compravam suas mulheres de outro clã, ou trocavam por serviços, e essa época de coisificação foi a que mais recusou integrar a mulher na sociedade como ser humano. Quando surgiram escravos, a mulher perdeu o papel econômico que representava, não passando desde então de uma serva; e à medida que o homem se tornava mais poderoso, ela ruía (BEAUVOIR, 1949).

As religiões e os mitos eram manipulados pelo homem para demonstrar a fraqueza e inferioridade da mulher. Pandora que fora a responsável em libertar todos os males do mundo, devido à sua traiçoeira curiosidade, e Medusa que fora amaldiçoada ao ser violentada por Poseidon dentro do templo de Atena, o deus saíra imune da situação, porque Atena escolheu ficar do lado dos homens. A soberba dos homens era tão grande, que quem conduzia o Olimpo e eram responsáveis pela ordem eram três homens: Zeus, Poseidon e Hades. A mulher sempre esteve em segundo plano, mesmo quando divindade. De acordo com Pitágoras, filósofo e matemático: “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz, o homem; e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher” (BEAUVOIR, 1949).

Com o surgimento do casamento, a mulher não é mais trocada de clã em clã, ela é retirada de sua família e atribuída à do marido. Tudo que à ela pertence ou vir a pertencer é agora do esposo, portanto, se esta fosse herdeira, transmitiria sua herança ao marido, sendo excluída da sucessão, porque este era seu tutor.

Seguindo agora a ideologia de Fustel de Coulanges, historiador francês, em sua obra “A Cidade Antiga” (1864), conta que na Grécia Antiga, a mulher era tida como incapaz com seus direitos civis, sendo necessária sua representação por um tutor – podendo este ser seu pai, irmão, ou qualquer outro membro próximo da sua família, desde que homem – e na ausência deste, pelo Estado ou por funcionários públicos, já que não possuía permissão para qualquer negócio jurídico. Não lhes era permitido que se exibissem publicamente, onde até em suas casas eram mantidas nos aposentos superiores, – com exceção de reuniões religiosas ou familiares, ou quando necessitavam fazer compras pessoais, em que eram acompanhadas pelo tutor. O único direito certo era o de contrair casamento e gerar filhos – mostrando a misoginia grega. (Fustel de COULANGES, 1864).

O casamento era visto como um ritual de passagem, tendo uma finalidade específica, muitas vezes com viés social ou político, beneficiando ambas as famílias. Tendo sua ascensão em Roma, na Idade Antiga, a cerimônia não era pública – como atualmente –, sendo realizada no interior das respectivas residências, onde a mulher saía de sua família de origem e era recebida pela do marido, ao redor do fogo sagrado – que tratava-se de um altar obrigatório nas casas dos gregos e romanos, onde sempre deveria haver um pouco de cinza e carvões acesos para representar o fogo, o qual era considerado algo divino, e usado para oferendas aos deuses, como forma de obter desejos como saúde, prosperidade e felicidade –, respeitando a crença que cada família seguia, já que naquela época a sociedade era politeísta. (COULANGES, 1864).

O ato acontecia através de um acordo entre o noivo e o pai da noiva, – já que o homem era considerado como superior, detendo assim toda a autoridade e a mulher não tinha direito de escolha – incluindo o pagamento de um dote oferecido ao noivo pela família da noiva, para se concretizar o casamento entre ambos, que desmanchava qualquer vínculo que a mulher tinha com sua família biológica, sendo obrigada agora a servir apenas a família de seu marido – e inclusive aos antepassados deste, que agora também eram seus, já que assim como não era permitido pertencer à duas famílias, o mesmo se aplicava às religiões domésticas (COULANGES, 1864).

Nessa época, o divórcio somente era permitido se a mulher fosse estéril, já que a finalidade do casamento era dar continuidade à família, bem como ao culto realizado nela. Entretanto, se o marido fosse estéril, a mulher não poderia divorciar-se, ocorrendo uma substituição deste no momento da por um irmão ou parente, sendo a criança nascida considerada fruto legítimo do casal, já que os gregos eram monogâmicos. (COULANGES, 1864).

O pai só ficaria satisfeito se nascesse um menino, já que uma menina não iria alcançar o objetivo do casamento, que era o de dar continuidade na família e no culto doméstico, uma vez que teria que abandonar o culto de sua família quando passasse a pertencer à família do marido – como havia acontecido com sua mãe (COULANGES, 1864).

Simone de Beauvoir ainda comenta que Esparta era o único lugar onde a mulher era tratada igualmente aos homens, diferentemente da mulher grega, que vivenciava uma “semiescravidão”. Meninas e meninos tinham a mesma educação, esposa e marido não viviam em mesmo teto e esta pertencia-lhe tão pouco, que podia ter outro homem (BEAUVOIR, 1949).

A mulher romana tinha as mesmas privações que as gregas, tendo sua existência sido baseada inteiramente à servidão. A herança não lhes era recusada, mas desta não poderiam dispor, sendo isto responsabilidade de seus tutores, os quais estabeleciam a tutela em interesse próprio já que eram os homens responsáveis em criar leis. (BEAUVOIR, 1949).

A condição das mulheres demorou à evoluir, além de tudo, o direito romano sofreu influência do cristianismo, refletindo na situação da mulher. Aqui a mulher foi tida como um ser perverso, um demônio, uma tentação. A submissão da mulher ao homem foi imposta de uma maneira que elas deveriam se sentir gratas por terem saído de uma costela, e de terem sido aceitas após tentar Adão à comer o fruto proibido, conduzindo ambos ao pecado. O direito canônico, imposto pela Igreja, admitia apenas como regime matrimonial o que tornava a mulher incapaz e impotente, sempre permanecendo sob tutela e sendo o divórcio proibido. Beauvoir (1949) comenta que: “Destarte, o direito canônico só admite como regime matrimonial o regime dotal que torna a mulher incapaz e impotente. (...) A família era monógama, o adultério severamente punido e o casamento respeitado. ”. (BEAUVOIR, 1949).

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Na Idade Média, o casamento religioso era o único aceitável, através da Igreja Católica. Com o auxílio da Igreja, o casamento tomou forma insolúvel, sendo a poligamia e concubinato proibidos e transformando a infidelidade em pecado. Quanto ao cunho sexual, este recebeu medidas limitadas, sendo permitido apenas os casamentos de parentes – por afinidade e consanguíneos – até o sétimo grau, para que a condição de pureza permanecesse intacta. Aqui já havia igualdade e liberdade perante o consentimento, mas não quanto ao desejo, sendo a relação sexual apenas permitida para a procriação, e não objetivando o prazer. Com o Concílio de Trento, a Igreja Católica consagrou uma guerra sistemática com todas as relações sexuais realizadas fora do casamento. E tendo a Igreja forte influência, fazia de tudo para dificultar o divórcio, sendo o casamento nesta época celebrado exclusivamente pela Igreja, que detinha o direito de interferir em qualquer coisa relativa ao matrimônio.

A Idade Média se concentra em dois períodos: a Alta Idade Média, onde ocorreu o surgimento do feudalismo e a Baixa Idade Média, onde se consolidou sua decadência. Com o feudalismo, a mulher tinha altos e baixos. Esta não tinha nenhuma capacidade política, mas tinha-se a sucessão feminina perante herança deixada pelo pai – apenas se este não tivesse herdeiros homens. E mesmo herdeira, necessitava de um tutor, e esta poderia ser castigada pelo marido. Porém, no fim do feudalismo, não havia mais razões para que os sexos fossem tratados com desigualdade, onde sua situação começara a mudar, em vão, já que no século XVI os costumes feudais desapareceram e sofreu-se influência do direito romano, onde a mulher não tinha nenhuma proteção. O homem torna-se o chefe da família, ficando responsável pela esposa – novamente –, sendo a mulher responsável apenas do lar e em fornecer filhos. Os códigos foram influenciados em desfavor às mulheres e as únicas que possuíam um pouco mais de independência eram as solteiras (BEAUVOIR, 1949).

Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander explicam em “História da Bruxaria” que durante a caça às bruxas, o número de mulheres acusadas foi quase o dobro do de homens, devido ao estereótipo de bruxa sustentado pela a Igreja e que insinuava pactos com o Diabo, canibalismo e sacrifícios humanos para condenar inocentes, onde mulheres que não eram casadas, viúvas, ou isoladas eram alvo para as acusações de bruxaria, não tendo proteção do Estado devido à ausência de uma figura patriarcal. (Jeffrey B RUSSEL; Brooks ALEXANDER, 2019)

(...) Numa sociedade que levava a magia à sério, pragas e feitiços formavam outra categoria óbvia de reação. Uma vez associado esse gênero de crime à mulher solitária, ninguém ficaria livre de suspeita nessa condição. Um semblante zangado poderia ser interpretado como um olhar maléfico; uma imprecação furiosa, como uma praga; um resmungo, como uma invocação de poderes diabólicos. Os anciãos também corriam esse risco, mas as viúvas sempre excederam amplamente em número os viúvos. É sabido que as mulheres tendem a viver mais tempo que os homens, e assim ocorria também nessa época, desde que conseguissem sobreviver ao parto. As mulheres sobreviveram muito mais facilmente às pestes; em alguns lugares, registraram taxas de reestabelecimento pelo menos 600% superiores às dos homens. Sob o domínio da tensão e do medo que acompanhavam as epidemias, era comum suspeitar que as mulheres recorressem a artes mágicas para garantir sua sobrevivência, ou mesmo para provocar a morte de homens. A própria fragilidade da posição social feminina, sobretudo viúvas e solteiras, tornava mais seguro acusar essas mulheres do que os homens, cuja força política, financeira, legal e até física deixava o acusador mais exposto a represálias. Uma anciã fisicamente fraca, socialmente isolada, financeiramente necessitada e legalmente impotente só podia oferecer seus feitiços como forma de dissuasão. (RUSSEL; ALEXANDER, 2019, pág. 143/144).

A imagem da mulher sempre fora tida como inferior em todas as religiões, o que provavelmente plasmou a ideia de que elas poderiam ser mais facilmente levadas à influência da heresia do que os homens. Daí a margem para as acusações de bruxaria, com consequente perseguição e morte de mulheres pela Idade Média, já que a heresia era duramente punida em uma época onde a Igreja detinha o poder. (RUSSEL; ALEXANDER, 2019)

Passando para os períodos das Revoluções, importantes marcos da humanidade, Hobsbawm, em seu livro “A Era das Revoluções: 1789-1848” (1977), explica que a Revolução Francesa e a Revolução Industrial foram uma dupla Revolução, já que aconteceram simultaneamente na França e na Inglaterra.

Sobre a Revolução Industrial ele explica que ela teve um impacto um tanto atrasado na Europa, tendo o seu ápice na década de 1780. Foi contemporânea à Revolução Francesa, sendo, porém, um pouco antes desta. Foi um dos acontecimentos mais importantes da história, tendo se iniciado na Grã-Bretanha. O avanço no crescimento industrial aconteceu por causa dos fabricantes de mercadorias perante o grande número de consumo – os produtos têxteis se sobressaíram na situação –, porque já existia uma demanda em certas mercadorias e a Inglaterra era rica em matéria prima, sendo a pioneira na Revolução Industrial desta forma – e seu poder era tamanho que fez com que outros países como França e Alemanha seguissem seus passos por medo de se tornarem dependentes da Inglaterra –, e trazendo a possibilidade de expandir o negócio, e por ser localizada em uma ilha, os diversos rios ajudaram no transporte, já que o terrestre era muito caro. Hobsbawm (1997, Pág. 49) destaca: “Além do mais, a Grã-Bretanha possuía uma indústria admiravelmente ajustada à Revolução Industrial pioneira sob condições capitalistas e uma conjuntura econômica que permitiu que se lançasse à indústria algodoeira e à expansão colonial”.

A primeira indústria a inovar foi a do algodão. A fibra era a responsável em aventurar empresários privados à Revolução Industrial, graças à sua condição e às invenções que a cercavam – Hobsbawm cita como exemplo a máquina de fiar, o tear movido à água, a fiadeira automática e o tear a motor; sendo a máquina a vapor que permitiu o surgimento das primeiras indústrias –, que eram simples e baratos para a manufatura. (HOBSBAWM, 1977).

Quanto à mão de obra, esta era muito necessária, tanto que os camponeses começaram a migrar para a cidade em busca de empregos e como tratava-se de um sistema industrial; fabril; esta era essencial, e foi aí que surgiu-se o interesse em mulheres e crianças para o trabalho. Até porque antes das fábricas, as produções eram artesanais e familiares, sendo os camponeses que realizam a manufatura, e com a chegada das fábricas, tal meio de produção deixou de ser familiar – mas continuou a ser artesanal (HOBSBAWM, 1977).

As mulheres trabalhavam mais de doze horas por dia com salários baixos e em situações deploráveis, porque se não aceitassem a vaga naquele momento, como a mão de obra não requisitava qualquer qualificação específica para se realizar as tarefas, outras pessoas poderiam facilmente substituí-la, fazendo com que as mulheres aceitassem qualquer coisa (HOBSBAWM, 1977).

 Foi, portanto, o movimento que fez com que a Inglaterra se tornasse a grande potência econômica, mudando o sistema de produção drasticamente, sendo responsável em trazer a independência feminina. Com as fábricas precisando de mão de obra, as mulheres eram contratadas geralmente nos setores de tecelagem – não recebendo salário equiparado ao dos homens, o que, de fato, trazia certa vantagem ao empregador, que se aproveitava da situação. Com a possibilidade da conquista de algo que nunca lhes fora imaginado, elas aceitavam qualquer salário para conseguirem certa autonomia. Quando a mulher começa a ajudar no sustento da família, deixavam os homens inseguros pela cultura do “chefe de família” criada pela sociedade, e esta “frustração” podia leva-los à cometerem atos de violência contra a família, de acordo com Simone de Beauvoir. (BEAUVOIR, 1949).

E enquanto a Revolução Industrial foi a responsável em formar a economia e introduzir a mulher no mercado de trabalho, a Revolução Francesa, que ocorreu de 1789 a 1815, se destacou na política e ideologia com destaque aos ideais iluministas – movimento que criticava práticas econômicas mercantilistas, absolutismo e direitos concedidos ao clero –, como ciências naturais – física e a matemática por exemplo –, estando à frente dos ingleses nesse quesito, seus grandes rivais. O feminismo teve seu alicerce nessa época. (HOBSBAWM, 1977).

A França era o país mais povoado da Europa e era absolutista, já que o rei detinha os poderes absolutos. A sociedade era formada pelo clero – que se localizava no topo da “pirâmide social” -, seguido pela nobreza, que era beneficiada por privilégios como a exoneração de impostos; e por último ficava o “Terceiro Estado”, que era composto pelos trabalhadores e camponeses; e pela burguesia (HOBSBAWM, 1977).

Os trabalhadores, por serem economicamente escassos viviam na miséria, sempre desejando uma melhoria na qualidade de suas vidas e a burguesia queria uma maior participação na política e uma maior liberdade econômica, já que vivam num regime absolutista que o rei que governava tudo (HOBSBAWM, 1977).

Segundo Hobsbawm, o que desencadeou a Revolução Francesa foi o apoio da França na independência das Treze Colônias inglesas, fazendo com que o Terceiro Estado se rebelasse, buscando o fim dos privilégios das classes superiores.

Quem teve destaque na Revolução foram os burgueses, obtendo o apoio dos trabalhadores e camponeses, e a queda da Bastilha – uma prisão e depósito de armas estatal que era símbolo de poder do Rei – foi um dos resultados da mobilização, que retratou a libertação e o fim do absolutismo (HOBSBAWM, 1977).

Aqui as mulheres começaram a exigir seus direitos  – já que vários foram negados pelo homem, como o da participação na política - , e nasce então o movimento feminista, onde as mulheres buscam a sua declaração de cidadã, deixando de serem submissas aos maridos, homens em geral e ao fardo doméstico para conquistar os mesmos benefícios que o sexo masculino detinham na sociedade, sendo uma das funções de tal Revolução, a igualdade dos sexos, já que nessa época homens e mulheres exerciam tarefas específicas – o direito ao voto é um exemplo do ideal machista presente na época, já que de acordo com Simone de Beauvoir, a superioridade masculina era tão nítida – e pode-se dizer também imatura –  que os homens acreditavam que se tornariam efeminados se as mulheres tivessem o direito de votar, porque estas eram “menos inteligente e menos instruídas do que os homens”.

Esta foi a importância da Revolução Francesa para as mulheres, já que através dela, elas tiraram a venda colocada em seus olhos pelos homens e começaram a escrever a própria história. Elas começaram a se enxergar como completas, e não dependentes de qualquer outro indivíduo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres entraram para serviços industriais, bem como qualquer outro serviço anteriormente realizado por homens, como ao Exército ou às Forças Armadas, Gabriela Fujita deixa isso claro em matéria publicada no site de notícias “UOL”, denominada “Guerra destruiu figura do “homem herói” e consagrou mulher no trabalho”.

A jornalista expõe que, apesar de as mulheres serem tidas como as responsáveis pela educação dos filhos e da casa, foram elas que ocuparam os cargos dos homens que estavam em batalhas, como na condução de trens e ônibus, trabalhando em fábricas de armas e munições, e quebrando o estereótipo criado pela sociedade, já que a força de trabalho feminina era necessária na época, sendo-lhes permitido o alistamento militar e ajudar nas operações de análise de códigos dos inimigos. Porém, com a volta dos homens, parte da mão de obra feminina fora desprezada, e as que permaneceram, ganhavam menos e tinham funções inferiores à estes, o que ocorre ainda atualmente, em todos os lugares do mundo. No Brasil – que entrou na Guerra em 1942 –, a participação das mulheres foi mínima, ajudando, mais notadamente, na função de enfermeiras. (Gabriela FUJITA, 2015).

Mas mesmo mínima, já foi, de fato, uma faísca.

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