A história das grandes potências mundiais não discrepa muito na necessidade que todas desenvolveram de explorar as riquezas de outros países, neles intervindo para impedir o seu avanço e o fortalecimento de suas posições no cenário internacional.
Não é diferente com a potência norte-americana, na verdade, o império estadunidense manifestou, ao longo de toda sua história, preocupação obsessiva com destruir qualquer nação que pudesse apresentar uma alternativa à sua hegemonia, mesmo que pudesse rivalizar apenas no aspecto cultural, representando um experiência de poder que tenta se impor em todos os aspectos das sociedades, explorando-as e submetendo-as a uma forma de pensar uniformizante.
Após o estabelecimento do modelo baseado no discurso de globalização e de flexibilização das fronteiras mundiais, para a facilitação na circulação de produtos e capitais e mais fluída possibilidade de exploração de mão de obra barata, onde quer que ela se encontre, os Estados Unidos desenvolveram uma forma de atuação interventiva nos demais países, baseada na geração da ilusão de que estes atuavam por conta própria, trata-se da chamada “Guerra Híbrida”.
Na Guerra Híbrida os métodos militares não desaparecem por completo, mas, são utilizados com alternativa final e combinados com métodos não convencionais prioritários, como as ações cibernéticas, econômicas, políticas e no controle e desenvolvimento das informações.
Dois exemplos recentes do uso da Guerra Híbrida são muito contundentes: a chamada primavera árabe e a lavajatização da América Latina.
Na primeira, foram atacadas pelo controle da informação interna, com o gerar de movimentos de revolução interna, as nações árabes economicamente mais estáveis e com governos, ainda que conservadores, sobretudo, laicos, os quais se contrapunham ao modelo de controle externo de suas economias, permitindo que somente nações com governos vinculados aos Estados Unidos, controlados por ditaduras com forte viés de religioso, portanto, com populações absolutamente cativas e servis sobrevivesse, às outras, como Líbia, Iraque e Síria foram completamente massacradas.
Na América Latina, a tendência regional à administrações e políticas mais progressistas e de viés social, gerou, no processo de Guerra Híbrida, o domínio midiático visando corroer às instituições internas, derrubar governos e restabelecer o controle norte-americano, abalado após o fim das ditaduras militares.
Desde o experimento havido no Paraguai, com a deposição do Presidente Fernando Lugo, toda região foi atingida por uma onda de denúncias, regra geral, baseadas na acusação da existência de grandes esquemas de corrupção, a maior parte delas não provadas até hoje, mas, incorporadas por grupos internos que assumiram a posição de “heróis do momento” e, sem reflexão, pulverizadas pelos grandes meios de comunicação de massa, apresentando plena eficácia na derrubada de governos e guinada em 180 graus nas estruturas sociais e econômicas.
Na América Latina, o caso mais emblemático foi o brasileiro, em que o País assumia protagonismo universal, participando das principais discussões do planeta, afora o seu crescimento econômico e fortalecimento do eixo energético, representado pela Petrobrás, conjunto que, em poucos anos, foi absolutamente destruído por ações levadas a cabo por pessoas do próprio País, as quais cada vez mais, vão se mostrando vinculadas a organismos estadunidenses e orientações das agências estatais norte-americanas.
Ocorre que, a Guerra Híbrida, embora tenha se mostrado eficaz na derrubada de governos, não parece ter produzidos os efeitos desejados na manutenção do controle sobre os países periféricos ao império Norte-Americano, pois, alguns dos Países por ela atingidos, começaram a experimentar tentativas de restabelecimento, somente permanecendo em completo controle àqueles que foram transformados em ruínas, pelas ações militares combinadas, como Iraque e Líbia.
Nesse contexto, ressurge a ação de violência direta para estabelecer o controle hegemônico, sendo a recente operação de bombardeio da Venezuela e sequestro de seu Presidente, pelos Estados Unidos, demonstração clara de uma nova etapa das ações de controle sobre as nações periféricas.
Assim como os Nazistas realizaram experimento inicial de suas estratégias na Espanha de Franco, para verificar a posição dos demais Países com uma ação violenta, também ocorreu um experimento antes de os Estados Unidos alterarem a sua ação fortemente baseada no controle da informação interna e estímulo para que grupos do próprio País atuem em favor dos interesses de controle cêntrico, esse experimento foi a Palestina.
Pode-se dizer que nos anos de 2024 e 2025 perdemos nossa humanidade. O mundo assistiu pela televisão e acompanhou pela internet o desenvolvimento do maior genocídio da história e a procupação essencial dos governos centrais foi impedir que o genocídio fosse nominado de genocídio, foi tentar estabelecer o rótulo de antisemitas para aquelas pessoas com coragem para se manifestar contra o masssacre humano, como se o povo Palestino tambem não fosse semita.
Algo sem precedentes aconteceu. Milhares de pessoas foram sendo deliberadamente mortas de fome e sede, com o declarado objetivo de exterminar um povo e apropriar-se de seus já reduzidos territórios, isso tudo de forma não velada, não em locais isolados, mas sob os olhares do mundo todo e, embora fortes oposições de populações civis, de pessoas comuns com coragem a desafiar um poder planetário-financeiro impossível de quantificar e descrever, os governos centrais permitiram que o massacre acontecesse e, com isso, o discurso de uma Europa defensora da humanidade virou pó, salvaguardada a posição coerente e democrática da Espanha.
Efetivamente, assim como a violência de Franco serviu a demonstrar aos Nazistas de Hitler que o mundo, estava pronto para ficar em silêncio com suas ações de massacre; a Palestina quase exterminada foi uma “carta branca” para novos movimentos autoritários e de controle global, habilitando os Estados Unidos a abdicar de ações veladas para controlar econômia, recursos e governos de países periféricos e ingressar novamente na política da imposição direta, pela força das armas.
Todo o discurso do Presidente norte-americano e das autoridades do primeiro escalão de seu governo, após a invasão da Venezuela, deixam patente que não se trata de uma ação com outro objetivo que não o controle e a expropriação e que não é a última, mas, apenas o início de um novo processo imperialista, sem a necessidade de gerar ilusões, pois, se o mundo aceita que crianças sejam mortas de fome na Palestina, criminalizando as pessoas que denunciam tamanha brutalidade, está preparado para invasões unilaterais do País militarmente mais poderoso do planeta, nas nações em relação às quais deseja controlar governos e sobretudo os recursos econômicos.
Partindo dessas premissas, a análise desapaixonada da intervenção norte-americana na Venezuela, longe de sugerir uma ação isolada, indica a parte de um processo que vem se dissolvendo de substituição da guerra híbrida pelo retorno da intervenção militar direta, estabelecendo a lógica de que o País com mais estrutura de guerra e maior controle financeiro pode ditar unilateralmente as regras, pode decidir o futuro do planeta e quais nações podem existir e quais podem ser exterminadas.
A Palestina e a conivência de governos e de muitos cidadãos do mundo com o seu extermínio, com a mais atroz demonstração de rebaixamento do ser humano à sua condição animalesca primária representa uma dívida histórica eterna dos que silenciaram e permitiram que novamente a violência fosse a linguagem imperante nas relações humanas.
Os Nazistas não chegaram ao poder dizendo que iam matar ciganos, semitas, gays, negros, deficientes físicos e mentais por prazer mórbido e forma de espoliar os seus bens, mas, quando se admitiu o início de sua engenharia de morte, foi aceita toda sua máquina de extermínio. Novamente, os países centrais, os quais se apresentaram após a segunda guerra mundial como os grandes guardiões do avanço civilizatório, fizeram o mesmo, admitiram a retomada da máquina de destruição e a Venezuela se mostra claramente como apenas uma página, de várias que ainda serão escritas de dominação violenta.
Com isso, não se quer dizer que o regime de governo venezuelano fosse bom ou devesse persistir em seu cerceamento democrático e manipulação das instituições, mas que sim, a forma como uma ditadura é vencida importa, é significativo se a vitória é pelo poder de resistência de um povo, o qual deseja sua liberdade ou apenas pelo plano de substituição de quem controle o poder, em especial, quando essa substituição é a evidente anexação de um País soberano por outro, a fim de espoliar suas riquezas.
Eduardo Galeano ensinou que, “nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e se, por vias das dúvidas, se nenhuma dessas mentiras é suficiente, aí estão os grandes meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, em um imenso matadouro.”
A realidade atual atinge tamanha estrutura de desumanização da espécie que sequer elaborar a mentira para justificar o roubo parece necessário, na Palestina se testou o massacre assumido, o “matamos para roubar” e o silêncio das lideranças mundiais foi compreendido como legitimação, então, na Venezuela o Presidente Norte-Americano não tem pudores em dizer, invadimos para roubar e como queremos roubar mais, invadiremos mais Países, tantos quantos desejemos, pois, a nova lógica é a da força.
A humanidade experimenta atroz rebaixamento de sua condição civilizatória, com destino imprevisível, mas a certeza da alteração da lógica de controle e domínio, com o estabelecimento de uma não nova, antiga, centrada na imposição pela força das armas, a qual se pensava superada e que retorna na velocidade frenética da sociedade atual, neste cenário, nenhum conselho parece melhor que o de Jão em sua canção Fim do Mundo, “respira bem fundo…eu vou te levar pro fim do mundo."