A análise histórica das relações entre a soberania nacional na América Latina e a hegemonia econômica dos Estados Unidos revela um ciclo persistente de tensões, que evoluiu de disputas jurídicas no século XX para intervenções militares diretas no alvorecer de 2026. Esse embate tem como eixo central o controle de recursos estratégicos e serviços essenciais, manifestando-se inicialmente no Brasil através das encampações promovidas por Leonel Brizola. Nas décadas de 1950 e 1960, o então governador do Rio Grande do Sul tornou-se o expoente de uma doutrina nacionalista ao retomar o controle de subsidiárias americanas como a Bond and Share (energia elétrica) e a ITT (telefonia), argumentando que a má prestação de serviços e a remessa excessiva de lucros ao exterior estrangulavam o desenvolvimento regional e a emancipação econômica nacional.
Essas medidas de nacionalização forçada, fundamentadas no direito administrativo mas acompanhadas de indenizações que Washington considerava irrisórias, provocaram uma reação institucional imediata por parte do governo norte-americano. A aprovação da Emenda Hickenlooper, que autorizava a suspensão de ajuda econômica a países que atentassem contra a propriedade privada estrangeira sem compensação imediata e justa, exemplifica como as disputas comerciais eram rapidamente elevadas à categoria de segurança nacional. O clima de hostilidade resultante dessas encampações não apenas azedou a diplomacia entre o governo de João Goulart e os presidentes Kennedy e Johnson, como também se tornou um dos catalisadores políticos que pavimentaram o apoio externo ao golpe militar de 1964, especialmente após o decreto de encampação das refinarias particulares de petróleo, demonstrando o alto custo político de desafiar o capital corporativo norte-americano.
O paralelo histórico com a realidade contemporânea ganha contornos dramáticos em 3 de janeiro de 2026, quando a política de intervenção dos Estados Unidos na Venezuela atinge seu ápice com a prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O que na era Brizola era resolvido no campo das sanções econômicas e pressões diplomáticas, transmutou-se hoje em uma operação militar ostensiva fundamentada em acusações de narcotráfico e terrorismo, culminando no sequestro do líder venezuelano para ser julgado em um tribunal federal em Nova York. Esta escalada redefine os limites da soberania estatal, uma vez que a captura de Maduro não representa apenas um ato jurídico, mas o desmonte de uma estrutura de poder que resistia ao controle externo de seus hidrocarbonetos, ocorrendo simultaneamente ao anúncio de que corporações americanas assumirão a gestão da infraestrutura petrolífera venezuelana para "reconstruí-la" sob proteção militar direta.
A conexão entre esses dois momentos históricos reside, fundamentalmente, na disputa implacável pelas riquezas naturais, cuja fronteira de conflito agora se estende de forma crítica para a Amazônia e os minerais estratégicos. Se no Brasil de 1962 o foco era a infraestrutura de serviços, a geopolítica de 2026 mira a Amazônia como a maior fronteira de biodiversidade e mineração do planeta, essencial para a transição tecnológica e a segurança nacional das potências. A região concentra não apenas vastas reservas de petróleo, mas também depósitos massivos de terras raras, nióbio e lítio, fundamentais para as indústrias de defesa e tecnologia de ponta. Analistas apontam que a intervenção militarizada na Venezuela serve como um cerco estratégico à própria Amazônia brasileira e continental, onde o pretexto da estabilização democrática mascara a intenção de garantir o acesso irrestrito e o fluxo desses insumos vitais para o complexo industrial-militar americano.
Consequentemente, o risco geopolítico instaurado em 2026 é a criação de um precedente em que o direito internacional é substituído pela jurisdição da força e pela pirataria de Estado. Enquanto Brizola enfrentava o isolamento financeiro por buscar a nacionalização de serviços públicos, a Venezuela de 2026 enfrenta a desestruturação completa de sua soberania e a transformação de sua economia em um enclave extrativista vigiado por forças especiais. O aprendizado histórico que une as encampações brasileiras, o controle das refinarias em 1964 e a queda de Maduro revela que a gestão soberana de recursos estratégicos — sejam eles o petróleo, as terras raras ou o bioma amazônico — permanece sendo o gatilho mais perigoso para as intervenções agressivas da política externa americana. Em 2026, Washington abandona qualquer pretensão de soft power em favor de uma monetização militarizada dos recursos alheios, ameaçando transformar a autodeterminação dos povos latino-americanos em uma relíquia do passado.
Em última análise, a queda de Caracas neste 03 de janeiro de 2026 sinaliza que o continente latino-americano deixou de ser um vizinho soberano para tornar-se, novamente, um almoxarifado estratégico sob custódia bélica. A trajetória que partiu do nacionalismo desenvolvimentista de Brizola e culminou nos embates geopolíticos contemporâneos encerra-se não sob o império do Direito, mas na capitulação da autodeterminação frente à insaciável fome energética e mineral global. O que se disputa nas profundezas da Amazônia e nos campos do Orinoco transcende a permanência de qualquer governo; é a própria viabilidade do conceito de Nação no século XXI. Se a soberania sobre o subsolo e a biodiversidade não for defendida como um ativo inalienável, o futuro da região será reduzido a uma nota de rodapé nos balanços financeiros de corporações que, escoltadas por frotas e mísseis, tratam a herança dos povos como espólio de um 'estilo de vida' imposto globalmente. Ao fim, a retórica da liberdade revela-se apenas o invólucro para a logística do lucro, provando que, sob este novo Destino Manifesto, o direito internacional submete-se à conveniência do capital: a narrativa é adocicada para o consumo das massas, mas sua essência serve exclusivamente para preservar o monopólio de quem detém o controle da fórmula econômica e o poder da força bruta.