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História da filosofia em doses homeopáticas

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07/09/2026 às 20:20
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Como a filosofia ocidental passou dos gregos à modernidade? O texto percorre escolas e autores em debates sobre razão, fé, conhecimento, ética, metafísica e ciência.

Sumário: 1. Época grega e romana — filosofia pagã. 1.1. Primeiro período — aurora do helenismo filosófico. 1.1.1. Escola jônica. 1.1.2. Pitágoras. 1.1.3. Escola de Eleia. 1.1.4. Atomistas. 1.1.5. Sofistas. 1.2. Segundo período — apogeu do helenismo filosófico. 1.2.1. Sócrates. 1.2.2. Platão. 1.2.3. Aristóteles. 1.3. Terceiro período — decadência e transição. 1.3.1. Estoicismo. 1.3.2. Epicurismo. 1.3.3. Ceticismo. 1.3.4. Ecletismo. 1.3.5. Transição mística. 2. Época patrística e medieval — filosofia cristã. 2.1. Primeiro período — preparação patrística. 2.1.1. Santo Agostinho. 2.2. Segundo período — síntese escolástica. 2.2.1. Filosofia árabe e judaica. 2.2.2. Os cristãos e a formação da escolástica. 2.2.3. Santo Anselmo. 2.2.4. Apogeu da síntese escolástica. 2.2.5. Santo Alberto Magno. 2.2.6. Santo Tomás de Aquino. 2.2.7. Outros grandes escolásticos do século XIII. 2.3. Terceiro período — decadência. 2.3.1. William of Ockham. 2.3.2. Renovação escolástica. 3. Época moderna. 3.1. Primeiro período — o espírito cartesiano. 3.1.1. Precursores da ciência moderna. 3.1.2. Descartes e o cartesianismo. 3.1.3. Racionalismo pós-cartesiano. 3.1.4. Empirismo materialismo e Iluminismo. 3.2. Segundo período — o espírito kantiano. 3.2.1. Kant e o criticismo. 3.2.2. Idealismo alemão. 3.2.3. Tradicionalismo ontologismo e espiritualismo. 3.2.4. Positivismo e evolucionismo. 3.2.5. Socialismo e materialismo histórico. 3.2.6. Utilitarismo associacionismo e psicologia experimental. 3.2.7. Sociologia positivista. 3.2.8. Pragmatismo. 3.2.9. Idealismo anglo-saxônico.


1. Época grega e romana — Filosofia pagã

Entre os antigos povos do Oriente encontram-se obras doutrinais não desprezíveis (moralistas do Egito antigo, Índia com o bramanismo e o budismo, China com Confúcio e Lao-Tsé), mas os seus sábios foram antes de tudo pensadores ou reformadores de religião. Falavam mais em nome de Deus do que da razão.

Não se pode contestar que no Oriente se esboçaram as primeiras especulações filosóficas, que respeitam as tradições dos livros sagrados.

Foi assim com a filosofia persa, onde Zoroastro também chamado Zaratustra fundou o madeísmo, doutrina poderosa que sistematiza (e deforma) algumas das grandes verdades recolhidas pela tradição primitiva, esforçando-se por aprofundar racionalmente o problema do Mal - é a alta especulação pelo dualismo de Zoroastro.

Na Índia, o pensamento gira em torno dos Vedas, livros sagrados de hinos e orações. O bramanismo é a ciência das realidades supremas, a sabedoria do homem propriamente dita. Brahma é o próprio Principio do mundo, o que constitui a íntima realidade de tudo quanto é realmente: daí se segue logicamente o panteísmo ou confusão de Deus e das coisas. O budismo é doutrina essencialmente negativa e dissolvente, orientada mais para a prática do que para a metafísica e a especulação. O budism pode ser considera como a corrupção e a delinquência da filosofia bramânica. Dissolvente, no sntido de dsorganizador, corruptor. É o pessimismo hindu, o panteísmo e o idealismo dos brâmanes, o evolucionismo ateu de Buda.

Igualmente aconteceu com os primeiros vultos notáveis da história literária e religiosa chinesa.

Lao-Tsé estabelece a existência de uma razão suprema, causa de todos os seres e norma absoluta de toda a atividade moral - é a sabedoria ilusória de Lao-Tsé.

Confúcio dedica-se quase exclusivamente à filosofia moral. Fim supremo do homem é o aperfeiçoamento de si mesmo pelo domínio das paixões e desenvolvimento das faculdades morais - é o positivismo moral de Confúcio.

1.1. Primeiro período — Aurora do helenismo filosófico

Do século VI antes de Cristo até o século VI depois de Cristo

Parece que em toda a antiguidade pagã só a civilização greco-romana produziu pensadores que souberam libertar a especulação puramente racional das doutrinas religiosas. Conseguiram-no não só pelo seu gênio próprio, curioso e especulativo, mas também pelo caráter de sua religião mais ciosa do culto que da doutrina. Os gregos podiam, mais facilmente que nenhum outro pagão, permanecer fiéis a seus ritos tradicionais, racionalizando o ensino da mitologia.

Com certeza somente na Grécia a filosofia adquire existência autônoma, distinguindo-se explicitamente da religião. Desse modo, pelo menos na época mais pura e mais gloriosa do espírito helênico, ela reconhece suas fronteiras e restringe-se a um campo estritamente limitado - investigação científica das verdades puramente racionais - enquanto a religião grega, já muito decaída no tempo de Homero, tornava-se cada vez mais incapaz de satisfazer às necessidades da inteligência e corrompia-se dia a dia.

Quando os gregos, abusando com orgulho da filosofia e da razão, pretenderam englobar as coisas divinas nos limites da sua sabedoria, e esvaíram-se em seus pensamentos, merecerão a condenação lançada por São Paulo,“pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (I Cor,3,19).

Mas a filosofia, nascida de seu espírito, é isenta das máculas que eles, gregos, possuíam, e tem por único objeto a verdade.

Na forma de vida humana, moral, artística e intelectual, o helenismo desempenhou papel importante, pretendendo dar aos indivíduos e aos povos uma regra de comportamento segundo um ideal racional.

Sob o impulso grego, a civilização ocidental tomou uma direção totalmente diferente da oriental. Isso significa o mérito de os gregos terem dado uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização.

Os antigos jônios resolvem investigar só com seus próprios meios os princípios e as causas das coisas. Aquilo que o homem pode tocar e conhecer pelos sentidos impressiona logo a sua inteligência. Tales, observando que as plantas e os animais se nutrem da umidade e que os germes vivos são úmidos, afirma que a água é a substância única. Para Anaximenes é o ar que terá esse papel. Para Heráclito é o fogo e para Anaximandro é o infinito, no sentido indeterminado, mistura de todos os contrários.

Água, ar, fogo e infinito são tidos por algo de ativo, de vivo, de animado, que uma força interior torna capaz de fecundidade multiforme e sem limites. Tudo é cheio de Deus, dizia nesse sentido Tales.

1.1.1. Escola jônica

Os primeiros sábios da Grécia renunciaram às explicações poéticas e mitológicas, tais como se encontram em Homero ou Hesíodo, para procurar a explicação racional das coisas.

A sua observação não incide sobre o mundo interior da alma mas sobre o mundo exterior, sensível. São, como os chama Aristóteles, físicos.

Na forma de vida humana, moral, artística e intelectual, o helenismo desempenhou papel importante, pretendendo dar aos indivíduos e aos povos uma regra de comportamento segundo um ideal racional.

Sob o impulso grego, a civilização ocidental tomou uma direção totalmente diferente da oriental. Isso significa o mérito de os gregos terem dado uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização.

Os jônios posteriores imprimem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Eles são Heráclito, Empédocles e Anaxágoras. Filósofo da evolução, Heráclito vê todas as coisas como diferenciações de um princípio único em movimento, que ele imagina sob a forma do fogo, de um fogo eterno, vivo e divino. Empédocles ensina a metempsicose e parece admitir a existência de uma inteligência ordenadora. Anaxágoras acha que a substância primitiva é um agregado de partículas minimas de todas as substâncias existentes.

O que primeiro impressiona os físicos é a incessante evolução da natureza, que se renova constantemente, como que agitada por uma força misteriosa com o fato do movimento, atestado pelos sentidos.

Por um lado os jônios propõem uma solução sensista; por outro lado os eleatas sugerem uma solução racionalista; os atomistas tentam em vão uma conciliação; enfim os sofistas, abandonando a especulação pela ação, proclamam o ceticismo, não sob o ponto de vista objetivo ou físico mas subjetivo ou psicológico.

Esses filósofos, tomando como um fato o mundo existente, procuram explicar-lhe as transformações; noutros termos, não levantam a questão do ser ou da criação, mas do devir. Questão essa fundamental em filosofia, mas a solução exige uma metafísica que concilie o princípio de identidade apreendido no ser pela inteligência com o fato do movimento atestado pelos sentidos.

Os antigos jônios, superando o antropomorfismo das teogonias mitológicas, esforçam-se por reduzir à unidade a multiplicidade movediça dos fenômenos: a isso devem o ser contados no número dos filósofos.

Os primeiros são Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes. Eles podem chamar-se sensistas, porque não ultrapassam os dados sensíveis. A sua sabedoria é ainda muito rudimentar e confusa. Valem mais como iniciadores das ciências positivas que como filósofos.

Atribuindo vida à matéria e idenificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.

Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos.

Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento e Anaxágoras, se bem orientados pela ideia geral dos jônios antigos, deles se separam em muitos pontos, sob o influxo de outras escolas. Melhor do que jônios, poder-se-iam dizer ecléticos independentes.

Por esta escola jônica, tão primitiva, chamada de hilozoísta, porque atribui a vida à matéria, vemos que se deve tomar pelo que há de mais rudimentar em filosofia doutrinas tais como o “monismo materialista”, que ensina a existência de uma única substância material - o evolucionismo que pretende explicar todas as coisas pelo desdobramento histórico, o desenvolvimento ou a evolução de qualquer coisa preexistente.

1.1.2. Pitágoras

Entre os precursores dos eleatas surge a figura de Pitágoras, o primeiro que deu a si mesmo o nome de filósofo, isto é, amigo da sabedoria.

Ilustre matemático, para ele os números são o fundamento da vida, princípios de tudo o que existe. Toda a essência tem o seu número: 4 da justiça; 3 da santidade; 7 do tempo; 10 da perfeição.

Seus discípulos abdicavam em sua autoridade a própria razão, sendo a sentença dele expressão indiscutível da verdade: “O mestre falou” (Magister dixit) era a última palavra.

Pitágoras supõe que existe uma realidade mais alta que a sensível, mas não se eleva ainda ao verdadeiro objeto da inteligência, à realidade do ser capaz de abranger o mundo dos espíritos como o dos corpos.

Pitágoras estava com um problema e não conseguia resolver. Além disso não parava em casa. A mulher dele, Enusa, aproveitava-se da situação e transava com os quatro cadetes do quartel ao lado. Um dia Pitágoras, cansado, voltou mais cedo para casa, pegou Enusa no flagra e matou os cinco, que faziam uma orgia. Na hora de enterrar os safados, em consideração à esposa, dividiu o terreno para as sepulturas, um grande retângulo, ao meio e de um lado enterrou apenas a sua esposa. Do outro lado dividiu a área em quatro partes e enterrou cada cadete num quadrado igual. Assim os quatro ocuparam um espaço idêntico àquele em que ele enterrou a sua esposa. Desolado, subiu à montanha ao lado do cemitério para meditar, e olhando de cima para o cemitério, achou a solução do seu problema. Era óbvio: o quadrado da puta Enusa era igual à soma dos quadrados dos cadetes.

Claro que se trata de uma lenda. Esta é a história de como o mais famso teorema da matemática nasceu de um escândalo digno de novela das oito só que com mais triângulos e menos ipobe. Enquanto Pitágoras passava seus dias contando grãos de areia e tentndo provar que o universo era feito de números racionais, Enusa sonhavava com aventuras mais irracionais.

1.1.3. Escola de Eleia

A escola de Eleia está representada por dois filósofos: Parmênides e Zenão.

Parmênides distingue duas ordens de conhecimento: a sensitiva, que nos leva à opinião e a intelectual, que nos leva à verdade.

Os sentidos percebem o mutável, o múltiplo; a razão vê no fundo de todas as coisas uma realidade única - o ente uno, eterno e imutável. O mundo fenomenal não passa de uma ilusão.

Para Zenão, o movimento é impossível. Na sua dicotomia, o móvel deveria percorrer a metade do caminho e, antes disso, a metade da metade e assim por diante ao infinito (a metade da metade..nunca chega ao zero). Aquiles, correndo atrás de uma tartaruga, não a alcançará jamais, pois para atravessar um espaço divisível até o infinito, terá que percorrer todos os intermediários.

A escola de Eleia está representada por dois filósofos: Parmênides e Zenão.

Parmênides distingue duas ordens de conhecimento: a sensitiva, que nos leva à opinião e a intelectual, que nos leva à verdade.

Os sentidos percebem o mutável, o múltiplo; a razão vê no fundo de todas as coisas uma realidade única - o ente uno, eterno e imutável. O mundo fenomenal não passa de uma ilusão.

Para Zenão, o movimento é impossível. Na sua dicotomia, o móvel deveria percorrer a metade do caminho e, antes disso, a metade da metade e assim por diante ao infinito (a metade da metade..nunca chega ao zero). Aquiles, correndo atrás de uma tartaruga, não a alcançará jamais, pois para atravessar um espaço divisível até o infinito, terá que percorrer todos os intermediários.

Confunde Parmênides a ordem lógica com a ontológica, transportando os atributos provenientes do estado de abstração de uma ideia à realidade por ela representada.

Na sua cosmologia do aparente ele ensina que todas as coisas são compostas de dois princípio – luz e trevas, calor e frio, isto é, de fogo e terra.

Zenão prova que o tempo é uma sucessão de instantes indivisíveis, como o espaço uma sucessão de pontos indivisíveis. Assim o movimento será impossível, porque em nenhum destes instantes ou pontos indivisíveis não poderá haver movimento.

A flecha está ao mesmo tempo em movimento e em repouso. Está em movimento e não pode mover-se, porque não mudará de posição (num instante indivisível), sem supor o instante divisível.

Assim haverá que distinguir pelo menos duas partes: a primeira como ponto de partida e a segunda como ponto de chegada, visto que a flecha, que parte e chega ao mesmo instante, está imóvel.

Se a flecha está em repouso em cada um dos instantes, deve estar também na totalidade (na soma) de todos os instantes.

Portanto, num instante dado, a flecha está imóvel.

Os argumentos de Zenão tornaram-se célebres e contribuiram para atrair a atenção dos filósofos para os problemas do contínuo, do espaço e do tempo. Há que admitir que o contínuo (espaço e tempo) é matematicamente divisível até o infinito e não pode ser constituído de elementos indivisíveis. Mas Zenão supõe sem razão não só a divisibilidade mas a divisão realizada, de sorte que o móvel se encontra em presença de um número atualmente infinito a percorrer, o que é evidentemente impossível.

1.1.4. Atomistas

Os primeiros filósofos, que tentam resolver o problema do devir conciliando as afirmações da experiência, foram os atomistas.

Explicar uma certa imobilidade e a existência do movimento local é o seu princípio fundamental.

A sua teoria reduz-se a duas afirmações:

a) o movimento é real e como consequência o ser único dividir-se-á na pluralidade de seres (os átomos), infinitamente pequenos e em número infinito (sem dúvida por causa da divisibilidade infinita posta em relevo por Zenão);

b) a realidade é própria do ser. Os átomos são eternos, indivisíveis e possuem até uma certa imobilidade.

Assim as almas e os próprios deuses não são mais que combinações de átomos, mais sólidos, mas sempre perecíveis, segundo as leis da necessidade.

A grande fraqueza dos atomistas em filosofia é propor uma solução incompleta e insuficiente. Para conciliar ser estável e uno com o movimento e a multiplicidade contentam-se em negar a unidade e a mobilidade do ser. São incapazes de explicar o pensamento e o seu movimento espiritual; inclinam-se para o materialismo, negam que a alma seja espiritual e fecham o caminho de acesso ao conhecimento de Deus. No mundo sensível não explicam um grande número de mudanças que exigem a realidade de substâncias especificamente distintas.

Os principais atomistas foram Demócrito, Empédocles e Anaxágoras.

Demócrito ensina uma explicação mecânica do conhecimento. "O conhecimento exige que o cognoscente seja semelhante ou idêntico ao conhecido", o que interpreta no sentido físico. Dos objetos saem imagens que se vêm incorporar na alma cognoscente para a tornar idêntica ao conhecido.

Empédocles pensa que a diversidade dos seres exige pelo menos uma diversidade mínima dos elementos da matéria. A água, a terra, o ar e o fogo são formas passageiras de uma única substância, mas substâncias eternamente distintas.

Anaxágoras com suas homeomerias concebe a matéria como poeira de átomos formada de todas as substâncias irredutíveis, que entram na composição de cada corpo: e tendo cada um deles partículas de todos os outros, os corpos poderão transformar-se uns nos outros, sem no fundo mudarem de natureza.

Para Demócrito as grandes massas são compostas de corpúsculos chamados átomos. Substancialmente homogêneos, diferem uns dos outros pela figura, pela ordem e posição. Ao lado dos átomos admite o vácuo para explicar a possibilidade do movimento. A Empédocles é atribuída a invenção da teoria dos quatro elementos da matéria (terra, ar, fogo e água). Anaxágoras deixa ainda na sua teoria muitas imperfeições: não chega a precisar se a inteligência é pessoal nem se goza de vontade livre.

1.1.5. Sofistas

A atitude intelectual de alguns dos pensadores precedentes havia aplainado o caminho ao ceticismo. Heráclito negara a realidade permanente. Parmênides opusera-se à mais evidente experiência e desvalorizara o conhecimento sensível. Concluir daí que tudo é ilusão e que ciência é impossível era um passo fácil.

As condições sociais de Atenas, que atingira o apogeu de sua glória, ofereciam ainda na abundância das riquezas, na corrupção dos costumes, no abalo das tradições morais e religiosas discutidas pela crítica racionalista, um ambiente favorável ao aparecimento dos sofistas. Sofística é o deslocamento do eixo da pesquisa filosófica do cosmo para o homem. Sofista é termo que significa sábio, especialista do saber.

Sofista é o nome que se dá, no século V, aos professores ambulantes, conferencistas, enciclopedistas ou diletantes. Apresentam-se como homens universais, que ensinam moral, direito, economia, retórica e filosofia. São os educadores das juventudes das altas classes ansiosas por conseguir um lugar na vida pública ou simplesmente alargar o seu horizonte intelectual. Por este mister recebem honra e dinheiro. Mas são menos sábios ou verdadeiros filósofos. Não procuram a verdade e sim os proventos da ciência. “Queriam as vantagens da ciência, sem querer a verdade”, no dizer de Jacques Maritain (Introdução Geral à Filosofia, pág. 43). Daí o sentido pejorativo que se liga ao seu nome.

Chamam-se sofistas os mestres populares de filosofia, homens venais e sem convicções, ávidos de riqueza e de glória que, nesta época de crise para o pensamento grego, exploram em benefício da própria vaidade e cupidez o estado dos espíritos criado pelas especulações filosóficas e condições sociais do tempo.

Professores ambulantes, conferencistas, enciclopedistas ou diletantes, apresentam-se como homens universais, que ensinam moral, direito, economia, política, retórica e filosofia. São tudo menos sábios ou verdadeiros filósofos, pois não procuram a verdade e sim os proventos da ciência.

Conforme escreveu Leonel Franca, “o aparecimento dos sofistas foi de incontestável utilidade para o progresso da filosofia. Analisando e criticando os sistemas precedentes, mostraram-lhe a inanidade das generalizações ambiciosas e precipitadas. Abusando da dialética, revelaram-lhe o valor e a importância de se lhes estudarem as regras e as leis fundamentais. Impugnando a certeza e a veracidade das faculdades cognoscitivas, fizeram sentir a necessidade de aprofundar, ao lado das questões cosmológicas, a análise psicológica dos nossos instrumentos de conhecimento, estabelecendo-lhes o alcance e as condições de legitimidade” (Noções de História da Filosofia, pág. 43).

Dentre a numerosa turba dos sofistas extremam-se como os mais célebres os dois vultos de Protágoras e Górgias.

Para Protágoras tudo é relativo: não existe um “verdadeiro” absoluto e também não existem valores morais (“bens” absolutos). Existe algo que é mais útil, mais conveniente e portanto mais oportuno. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula: “o homem é a medida de todas as coisas”. Por “medida” entendia a norma de juízo, enquanto que por “todas as coisas” considerava todos os fatos e todas as experiências em geral. Esta máxima foi considerada a magna carta do relativismo ocidental.

Górgias partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. As suas três teses são: Nada existe; se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer; se a conhecêssemos, não a poderíamos manifestar aos outros. Ainda que incoerentemente, ambos se limitaram ao ceticismo especulativo.

Para conciliar as aparências instáveis com a estabilidade da verdade, Protágoras apelou para o sujeito pensante: “O homem é a medida de todas as coisas, das que existem faz que elas existam; das que não existem faz que elas não existam”. Noutros termos, a verdade imutável depende do homem, porque, se objetivamente tudo muda, na natureza humana é que se há de procurar a base do conhecimento estável. De sorte que o mesmo objeto pode ser branco para um, negro para outro. Górgias ficou célebre por três afirmações demonstradas com interessantes sofismas: a) “O ser não existe” ou “O nada não é real” b) “Ainda que existisse alguma coisa, não se poderia conhecer”; c) “Ainda que o ser fosse conhecido, o conhecimento seria incomunicável”. Górgias convidava a refletir sobre o valor das ideias abstratas e sobre as suas relações com os objetos concretos.

Ainda hoje existem sofismas no nosso dia a dia, como o equívoco, a passagem de um sentido a outro, a anfibologia, o acidental considerado essencial, a ignorância da questão, a petição de princípio e o círculo vicioso.

Exemplos:

a) Toda manga é comestível. Ora, uma parte da veste é manga. Logo uma parte da veste é comestível;

b) Quem faz castelos em determinada área deve pagar os impostos respectivos. Ora, João faz castelos no ar. Logo João deve pagar os impostos respectivos;

c) 2 vezes 3 mais 2 = 8. Ora, 10 = 2 vezes 3 mais 2. Logo 10 = 8;

d) Este ladrão é bom soldado. Ora, todo bom soldado deve ser premiado. Logo este ladrão deve ser premiado;

e) Para provar que João é filho de Paulo, afirma-se que Paulo é pai de João;

f) Descartes provava a existência de Deus pela ideia clara que tinha disto. E fundamentava o valor da ideia clara sobre a existência de Deus.

Uma das causas dos sofismas é: a) a imperfeita observação da realidade ou do problema. Assim o desejo de encontrar uma prova faz que a pessoa julgue ver circunstâncias ou fatos que na realidade não existem; b) outra causa é a interpretação inexata (o após isto é transformado em por isto). A pessoa toma uma coincidência ocasional como sendo causa. Exemplo: Já que uma desgraça ocorreu em 13 de agosto, todo dia 13 de agosto é tido como azarento; c) igualmente a enumeração insuficiente (vejo um caso; concluo generalizando). Porque é assaltado por um menino, o indivíduo julga que todos os meninos são assaltantes.

1.2. Segundo período — Apogeu do helenismo filosófico

1.2.1. Sócrates

Sem dúvida que os sofistas foram merecedores de aplausos para o progresso da filosofia.

Criticando os sistemas precedentes, mostraram a inutilidade de suas generalizações ambiciosas e precipitadas.

“Abusando da dialética, nas palavras de Leonel Franca, revelaram-lhe o valor e a importância de se lhe estudarem as regras e leis fundamentais.

Impugnando a certeza e a veracidade das faculdades cognoscitivas, fizeram sentir a necessidade de aprofundar a análise dos nossos instrumentos de conhecimento.

Desbravaram o terreno intelectual e abriram para a filosofia novos horizontes, orientando-a para o estudo do espírito e de sua atividade, para a investigação dos métodos científicos do conhecimento e o exame dos processos dialéticos” (Noções de História da Filosofia, pág. 43).

Sob a sua influência o espírito grego iria soçobrar no ceticismo, na sutileza e no paradoxo, se não encontrasse um homem capaz de lhe apontar um objeto ao seu alcance, indicando-lhe o método próprio para o atingir.

A Providência ou o Universo não negaram este homem ao paganismo. Esse homem foi Sócrates.

A influência pessoal de Sócrates foi grande, mas a empresa de restauração moral falhou perante a resistência dos costumes e da rotina da cidade pagã e democrática. Criticou a direção dos negócios públicos, a escolha dos magistrados à sorte. Partidário de uma aristocracia intelectual, ensina que o governo pertence por direito aos mais sábios, sendo assim inimigo declarado do conservantismo e da democracia. Sob o ponto de vista doutrinário a sua obra não é ainda uma síntese coerente e completa, mesmo em moral: é uma iniciação genial, as quais permanecem em germe.

O termo sofista refere uma pessoa de um grupo de pensadores do século V e IV a.C. na Grécia antiga, que viajavam de cidade em cidade, realizando discursos públicos e atraindo estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação.

A conhecida conotação pejorativa ligada a noções de “trapaça” ganharia posteriormente repercussão na história do Ocidente. Com o tempo isso ganhou uma prevalência, que permeia o consciente coletivo. Assim, sofista se aplica àquele que lança mão de habilidade retórica com o objetivo de defender argumentos enganosos ou inconsistentes do ponto de vista lógico.

Para combatê-los surgiu um homem chamado Sócrates.

Eterno discutidor, a despeito de seus ares de cético, Sócrates tem invencível confiança na inteligência e na ciência, - mas numa inteligência disciplinada e humilde em face das coisas, numa ciência que conhece seus limites e só progride com força e segurança na posse da verdade à medida que presta homenagem à soberania do real que se sente rodeada de ignorância. Sob este ponto de vista, Sócrates aparece como o mestre do espírito científico. Pelo seu esforço lógico e crítico forjou o instrumento necessário ao progresso do espírito e conseguiu fazer com que a crise da sofística revertesse em salvação da razão.

Sócrates era um ateniense de modesta condição, filho de um escultor e de uma parteira. As suas altas qualidades intelectuais e morais, o seu desejo de saber e, sobretudo, o seu ardente amor pela verdade e pelo bem iam assegurar-lhe influência considerável sobre os seus concidadãos.

Mas a importância da sua intervenção em filosofia está no fato de ele interpretar a sua missão - conversão moral dos seus concidadãos - duma maneira puramente intelectual: está persuadido que basta dar aos homens a ciência da virtude, para os formar virtuosos

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Querendo elevar a vida de seus patrícios, procurou unicamente reformar sua inteligência e dirigi-la a caminho da verdade.

Sócrates não substitui os oráculos pela inspiração interior e a autoridade regular pelo senso individual.

Os sofistas concluíram pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade, determinando o verdadeiro objeto da ciência.

Ele adotava sempre o diálogo, conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a ensinar.

“No primeiro caso assumia a humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática.

No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido) multiplicava ainda as perguntas, dirigindo-as agora ao fim de obter por indução dos casos particulares e concretos um conceito, uma definição geral do objeto em questão.

A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das ideias” (Leonel Fanca, Noções de História da Filosofia, pág. 46).

Sócrates, em Atenas, foi um antissofista. Proclamava: “Conhece-te a ti mesmo”. Praticava o diálogo, em que havia a ironia (crítica de opiniões superficiais vigentes) e a maiêutica, a arte de fazer parto ou de tirar da mente dos discípulos ideias inatas latentes. Todo sábio é virtuoso. O pecador é pecador porque é ignorante. Insistência no valor da razão e do saber. Intelectualismo ético.

“Conhece-te a ti mesmo” é o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral, o centro para o qual convergem todas as partes da sua filosofia.

A moral é a parte culminante da sua filosofia. Ele ensina a bem pensar para bem viver. O meio único de alcançar a felicidade é a prática da virtude. A virtude adquire-se com a sabedoria ou, antes, com ela se identifica. Essa doutrina é consequência natural de não distinguir a vontade da inteligência. Conclusão: virtude e ciência são sinônimos. ”Ser músico é o que sabe música, justo será o que sabe a justiça”.

Sócrates reconhece também, acima das leis mutáveis e escritas, a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano, universal, fonte de todo o direito positivo, promulgada pela voz interna da consciência.

Conta-se que um dia Sócrates foi levado junto à sua mãe para ajudar em um parto complicado. Vendo sua mãe realizar o trabalho, logo ele filosofou: “Minha mãe não irá criar o bebê, apenas o ajudar a nascer e tentará diminuir a dor do parto. Ao mesmo tempo, se ela não tirar o bebê, logo ele irá morrer, e iguamente a mãe morrerá”. Sócrates concluiu então que, de certa forma, ele também era um parteiro. O conhecimento está dentro das pessoas (que são capazes de aprender por si mesmas). Porém eu posso ajudar no nascimento deste conhecimento. Por isso, até hoje, os ensinamentos de Sócrtes são conhecidos por maiêutica, que significa parteira em grego.

Foi realmente muito grande a influência de Sócrates. O seu princípio fundamental era: Todo homem quer, e quer necessariamente, a sua felicidade, que consiste na posse do verdadeiro bem, isto é, do bem conhecido como tal pela inteligência. A primeira consequência: o bem reduzido ao útil. A segunda consequência: a virtude reduzida à ciência. Terceira consequência: a felicidade reduzida à virtude. Quarta consequência: a obrigação, sua redução possível ao util.

Sócrates foi creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental e até hoje é uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais abrangente de Sócrates a ter perdurado da antiguidade aos dias de hoje.

Sócrates mantém-se fiel à ideia de se restringir ao domínio das ciências humanas; mas porque, quer a natureza da alma e o seu destino, quer a existência de Deus e a sua providência podem exercer grande influência na nossa felicidade, completa a moral com um ensaio de psicologia e de teodiceia.

Em psicologia Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma, distingue as duas ordens de conhecimento, sensível e intelectual, mas não define o livre arbítrio, identificando a vontade com a inteligência.

Em teodiceia estabelece a existência de Deus:

a) com o argumento teológico (tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência);

b) com o argumento apenas esboçado de causa eficiente (se o homem é inteligente, também deve ser inteligente a causa que o produziu);

c) com o argumento moral (a lei natural supõe um ser superior ao homem, um legislador, que a promulgou e a sancionou).

Deus não só existe, mas é também Providência, governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações.

É grande a importância e a ascendência de Sócrates, pois determinou o verdadeiro objeto da ciência; a sua ética une pela primeira vez a ciência dos costumes à filosofia especulativa. Não é de admirar que tenha exercido sobre os seus contemporâneos tamanha influência.

1.2.2. Platão

Platão ouviu Sócrates por quase dez anos. Era poeta de raça e tinha composto tragédias na juventude; mas aos vinte anos, depois de ter ouvido Sócrates, queimou os versos para se dedicar inteiramente à filosofia. Por morte do mestre, fundou a Academia em um ginásio situado no parque dedicado ao herói Academos, de onde derivou o nome. Platão é o primeiro filósofo de quem possuímos as obras completas. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. O mito e a poesia confundem-se muita vez com os elementos puramente racionais do sistema.

A Academia, enquanto viveu Platão, se fundamenta no pressuposto de que o conhecimento torna os homens melhores e, consequentemente, aperfeiçoa a sociedade e o Estado. Entretanto, embora visando sempre a realização desse objetivo, ela abriu portas a personalidades de formação extremamente diversificada e de várias tendências. Ultrapassando de muito os horizontes socráticos, Platão providenciou para que lecionassem na Academia matemáticos, astrônomos e médicos, que promoviam debates extraordinariamente fecundos.

A filosofia de Platão é dominada e unificada pela teoria das ideias, que se pode sintetizar neste princípio: o objeto próprio da ciência é o mundo real das ideias de que o mundo sensível não é mais que a sombra ou a cópia.

Assim a ideia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas.

Todas as ideias existem num mundo separado, o mundo dos inteligíveis, situado na esfera celeste.

A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos.

Tal a célebre teoria das ideias, alma de toda a filosofia platônica, centro em torno da qual gravita todo o seu sistema.

As ideias, de que Platão falava, não são simples conceitos ou representações puramente mentais, mas representam entidades, substâncias, aquilo que o pensamento pensa, quando liberto do sensível: constituem o verdadeiro ser, o ser por excelência. Assim as ideias platônicas são as essências das coisas, ou seja, aquilo que faz com que cada coisa sja aqulo que é.

Platão concebeu um reino, o Hiperurânio, também conhecido como “Reino Platônico” que seria um lugar no Céu ou Espaço, onde todas as ideias de coisas reais estão reunidas. Platão imaginava que todo fenômeno real, verdadeiro (objeto, pensamento ou divindade) tinha uma ideia, espécie de projeto ou alma das coisas, e que tudo o que experimentamos em nossas vidas é cópia de um “modelo perfeito” que existiria no Hiperurânio. Este é descrito como um local acima mesmo dos deuses, pois até a divindade destes dependia do conhecimento dos “seres” hiperuranianos.

O hiperurânio significa lugar acima do céu ou acima do cosmo físico e, portanto, constitui representação mitica e indica um lugar que não é absolutamente um lugar. Hiperurânio é a imagem do mundo espacial do inteligível, do ser suprafísico. Assim o Hiperurânio e as ideias que nele existem são captados apenas pela parte mais elevada da alma, isto é, pela inteligência.

Platão e o mito da caverna. Imagine uma caverna habitada por seres humanos que dela nunca saíram e na qual apenas uma fração da luz do dia entre. Amarrados uns aos outros, enxergam apenas uma parede ao fundo da caverna.

Em frente à luz outros homens se movem carregando objetos representando diversos tipos de coisas. Os habitantes da caverna nada podem ver além das sombras dos objetos projetadas no fundo da caverna, nada podem escutar senão os ecos das vozes dos homens que carregam os artefatos.

Por nunca terem visto outra coisa, os habitantes da caverna acreditam que as sombras projetadas na caverna são a única verdade, a própria realidade. Confundem o eco das vozes escutadas, pensando serem emitidas pelas próprias sombras.

Porém um dos habitantes da caverna consegue se soltar das correntes, se volta para a luz e começa a subir em direção à entrada da caverna. Com sua visão ainda ofuscada pela luz começa a se habituar às novas imagens com que se depara. Aos poucos passa a ver as estatuetas se movendo e gerando as sombras.

Percebe nas estatuetas mais detalhes e mais beleza que as sombras que antes via projetadas na caverna. As sombras agora lhe parecem algo irreal, limitado, apenas uma representação pobre dos objetos.

Segue para a extremidade da caverna e enxerga várias coisas em si mesmas, objetos dos quais apenas percebia sombras. Vê a luz do sol e seu reflexo em todas as coisas.

O habitante percebe agora que estas coisas são a realidade. Triste por seus companheiros da caverna, reféns de sua ignorância sobre as causas últimas das coisas, decide retornar a fim de libertar seus irmãos das correntes que os prendem à escravidão da ignorância.

Quando retorna à caverna é recebido como louco. Seus amigos, acorrentados e vendo nada além das sombras dos objetos, reconhecem apenas a realidade que pensam ser verdadeira, as próprias sombras.

O mito da caverna traduz os diversos graus em que se divide a realidade, isto é, os gêneros do ser sensível e suprassensível com suas subdividões: as sombras da caverna simbolizam as aparências sensíveis das coisas, as estátuas as próprias coisas sensíveis; o muro representa a linha divisória entre as coisas sensíveis e as suprassensíveis. O mito da caverna expressa também a concepção política tipicamente platônica. O retorno á caverna por parte do que se libertara das algemas, retorno cuja finalidade consiste na libertação dos em companhia dos quais se encontrava como escravo. Tal retorno representa certamente o retorno do filósofo político.

Platão é o primeiro filósofo que tenta a sistematização de toda a filosofia.

Na sua vasta síntese achamos as verdades capitais do espiritualismo: existência de Deus, Providência, espiritualidade e imortalidade da alma, distinção entre o sensível e o inteligível, noção de virtude e felicidade.

A sua força - descobre assim ou vislumbra as verdades mais elevadas sobre o valor da ciência, sobre a relação entre a virtude e a felicidade.

A sua fraqueza - a sua doutrina vem se estribar sob todos os aspectos no dualismo, que lhe compromete a solidez.

Mesmo assim, Platão imprimiu à especulação um movimento progressivo prodigioso.

A sua filosofia abrange todos os campos da cultura humana, tanto práticos como teóricos; e esta universalidade é dominada por toda a parte pela teoria fundamental das Ideias, que lhe imprime uma orientação decisiva para a unidade.

Alguém já disse que Platão foi o fundador da teologia ocidental. Nela devemos distinguir entre o divino impessoal, por um lado e Deus e os deuses pessoais, por outro lado. Divino é o mundo das ideias em todos os seus planos. Divina é a ideia do bem, mas não é Deus pessoa. Assim, do ponto mais alto da hierarquia do inteligível encontra-se um ente divino (impessoal) e não um Deus (pessoal), assim como as ideias são entes divinos impesssoais e não deuses pessoais.

1.2.3. Aristóteles

“Se é verdade, diz Boutroux, que em certos homens se encarna por vezes o gênio de um povo, e que esses vastos e poderosos espíritos são como o ato e a perfeição, onde um mundo de virtualidades encontra o seu termo e perfeição, Aristóteles, mais que nenhum outro, foi um desses homens: nele o gênio filósofo da Grécia encontra a sua expressão universal e perfeita. É, portanto, mais que o pensamento de um indivíduo, aliás considerável, é o espírito de toda a Grécia no apogeu de sua grandeza intelectual que se invoca nesse momento" (Etudes d’Histoire de la Philosophie, pág. 95).

As grandes diferenças entre Platão e Aristóteles não estão no domínio da filosofia, mas sim na esfera de outros interesses. Nas obras esotéricas deixou de lado o componente mistico-religioso-escatológico que era tão forte nos escritos do mestre. Trata-se daquele componente platônico que tem suas raízes na religião órfica, alimentando-se mais da fé e crença do que de logos. Ao deixar isso de lado nos escritos esotéricos, Aristóteles sem dúvida pretendeu proceder a uma rigidez do discurso filosófico.

Aristóteles, conforme Leonel Franca, "foi um gênio universal. Assimilou todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio, fruto de muita bservação e de profundas meditações. Escreveu sobre todas as ciências, constituindo algumas desde os primeiros fundamentos, organizando outras em corpo coerente de doutrinas, sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência.

Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência, agudeza de penetração, vigor de raciocínio, poder admirável de síntese, faculdade de criação e invenção em aliança com vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos.

O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam se poderá avaliar a sua prodigiosa atividade literária"(Noções de História da Filosofia, pág, 33).

Foi precisamente na escola de Platão que Aristóteles amadureceu e consolidou sua própria vocação filosófica de modo definitivo, tanto que permaneceu na Academia por vinte bons anos, ou seja, enquanto Platão viveu. Na Academia, além de ter conhecido os mais famosos cientisas da época, assimilou os principais princípios platònicos em sua substância, defendendo-os em alguns escritos e, ao mesmo tempo, submetendo-os a prementes críticas, tentando encaminhá-los para novas direções. Atribui-se-lhe esta frase: “Amicus Plato; magis amica veritas” (Platão é meu amigo, mais amiga minha é a verdade).

Como caráter geral da filosofia de Aristóteles, pode-se afirmar que os caracteres desta grande síntese são:

a) observação fiel da natureza, pois toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias, buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas;

b) rigor no método, porque aplica em todas as suas obras o processo dedutivo e indutivo, criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. Fala-se até que foi o autor da metodologia e da tecnologia científicas;

c) unidade do conjunto, uma vez que sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema, uma verdadeira síntese;

Em uma palavra, todas as partes se compõem, se correspondem, se confirmam.

Na obra de Aristóteles encontram-se a definição da metafísica, as quatro causas, o ser e seus significados, a problematica relativa à substância, o ato e a potência, a substância suprassensível e seus problemas, a física e a matemática, a teoria do movimento, o espaço, o tempo e o infinito, a matemática e a natureza dos seus objetos, a alma e a sua tripartição, a alma vegetativa e suas funções, a alma sensitiva, o conhecimento sensível, o apetite e o movimento, a alma intelectiva e o conhecimento racional, o fim supremo do homem, ou seja, a felicidade, as virtudes éticas como “justo meio entre os extermos”, as virtudes dianoéticas e a felicidade perfeita, acenos à psicologia do ato moral, a Cidade e o cidadão, o Estado e suas formas, o Estado ideal.

Um historiador antigo caracteriza Aristóteles, dizendo que era "moderado de temperamento até o excesso". Encarna na sua personalidade como na sua doutrina moral o ideal grego da medida, do harmonioso equilíbrio das forças: inacessível às perturbações violentas, sem para isso ter de se encerrar na impassibilidade.

Conta-se que o seu domínio de si deu-lhe a possibilidade de um trabalho intelectual imenso e ininterrupto; sentiu aliás uma verdadeira paixão pela ciência, e sabemos que lhe consagrava as noites. Não possuindo a imaginação poética e os voos audaciosos de Platão, como ele atingiu os mais altos cumes do pensamento: mas sobe passo a passo, firmando-se na ascensão no terreno firme da experiência.

Todas as ciências de Aristóteles estão intimamente ligadas , procedendo umas das outras como os diversos ramos de uma árvore, e nascendo como de um único tronco, do mesmo princípio fundamental. Assim sendo:

Teoria fundamental (ontologia).

A ordem lógica.

A física geral.

Os corpos ou ciência física.

As plantas ou ciências biológicas.

Os animais ou ciências zoológicas.

A alma subsistente da psicologia.

A atividade humana ou moral.

A obra humana ou a arte.

A metafísica ou teologia.

“Dizeis que é preciso filosofar?” dizia Aristóteles num dilema célebre.”Então é preciso filosofar de fato. Dizeis que não é preciso filosofar? Então, ainda é preciso filosofar (para demonstrar). De qualquer modo é necessário filosofar”. Esse dilema encontra-se numa obra perdida, chegando até nós apenas alguns fragmentos.

Para estabelecer as suas teorias, Aristóteles procura conhecer o pensamento de seus predecessores: é o primeiro historiador da história da filosofia.

Sem dúvida não expõe as opiniões dos outros por si mesmas, e muitas vezes exprime-as em fórmulas próprias, em função do seu sistema; mas sabe que a ciência filosófica requer a colaboração dos séculos para atingir a perfeição, que as tentativas, as verdades incompletas, até os erros do passado lhe servirão para descobrir a boa solução. Procura nos seus predecessores, precursores.

Assim a sua teoria fundamental aparece como a conclusão de toda a história da filosofia exposta até aqui. Com efeito, a preocupação dominante, que é o caráter comum dos primeiros filósofos, é a investigação do ser.

Todos os seus esforços para descobrir, sob a multiplicidade e as mudanças que se impõem como um fato, o elemento estável e único exigido pela inteligência, a saber "o que é" ou "a razão explicativa do ser".

Todos os predecessores de Aristóteles procuraram conhecer as coisas sob o seu aspecto necessário, único, estável, isto é, de fato, embora muitas vezes implicitamente sob o seu aspecto de ser. Mas não conseguiram determinar esse objeto inteligível sem se defontar com dificuldades insuperáveis. Aristóteles esforça-se por evitar os escolhos em que naufragram os seus predecessores.

Todos os predecessores de Aristóteles procuraram conhecer as coisas até o seu aspecto necessário, único, estável, isto é, de fato, embora muitas vezes implicitamente, sob o seu aspecto de ser. Mas não conseguiam determinar esse objeto inteligível sem se defrontarem com dificuldades insuperáveis.

Aristóteles considera esta convergência unânime dos filósofos como uma prova evidente da verdade, mas esforça-se por evitar os escolhos em que naufragaram os seus predecessores.

E consegue-o com a sua teoria da abstração.

Aristóteles não criou a sua filosofia do zero; em vez disso desenvolveu seu pensamento tanto a partir da influência de seus mestres quanto em oposição a eles.

O objeto da ciência, segundo Aristóteles, é o ser; mas este ser não será nem uma realidade universal e espiritual intuitivamente apreendida, porque só existe o concreto composto, nem o concreto e individual como tal, porque não possui estabilidade; será o elemento estável e não liberto da realidade sensível por abstração.

Graças a esta, com efeito, a razão despreza o aspecto sob o qual a realidade evoluciona e muda e se multiplica, participando da matéria, para só considerar o aspecto de essência da natureza, em virtude do qual o sensível participa do absoluto do ser.

Para Aristóteles a abstração é o processo cognitivo fundamental que transforma experiências sensoriais em conhecimento universal. Ao contrário de Platão, ele defendia que as essências (formas) estão nos objetos físicos, e não em um mundo separado; o intelecto abstrai o “universal” (o conceito geral) através da observação repetida de casos concretos.

Aristóteles confirma a sua tese com a refutação do idealismo platônico contra o qual invoca, - a impossibilidade por parte do universal para existir no estado de substância individual; - a necessidade para o princípio que unifica o múltiplo de estar no múltiplo e não fora dele, - a inutilidade dos modelos abstratos que duplicam o número das coisas sob pretexto de lhe facilitar o conhecimento.

Assim se estabeleceu o princípio do realismo moderado, fundamento do aristotelismo: "O objeto formal proporcionado da inteligência é a essência das coisas sensíveis, ainda que o seu objeto em geral seja o ser".

Aristóteles refuta o idealismo de Platão, especificamente a famosa teoria das ideias (ou formas), ao questionar a separação estabelecida pelo seu mestre entre o mundo sensíve e o mundo inteligível. Ele desenvolveu uma filosofia realista, que valoriza o mundo material e a experiência sensível, oposta ao idealismo platõnico.

De todos os esforços tentados pelo helenismo para conquistar a sabedoria, o peripatetismo é, certamente, o sistema mais acabado; se não é o mais brilhante, é o mais equilibrado e que melhor corresponde ao ideal talhado à medida humilde da nossa pura razão.

Aristóteles nos dá assim uma síntese em que todas as ciências estão plenamente unificadas, porque soube encontrar o ponto central e único em que se harmonizam as duas tendências fundamentais do espírito humano: a tendência positivista que insiste sobre as riquezas da intuição sensível e a tendência idealista, que insiste sobre a potência da inteligência para atingir o absoluto.

Para Aristóteles o absoluto refere-se ao que é incondicionado, autossuficiente e fim em si mesmo, sem depender de outra coisa para existir ou ser desejado. No campo metafísico é o “motor imóvel”, a causa primeira e pura atualização. Na ética é a felicidade (eudaimonia), o bem supemo buscado por si só.

A herança metafísica do peripatetismo será recolhida pelos sírios, que a transmitirão aos árabes, e por eles Aristóteles entrará, no fim do século XII e XIII, nas escolas do Ocidente.

E há de provocar intensa fermentação intelectual e marcará poderosamente, com a sua influência, a filosofia cristã da escolástica.

Não se poderá ver intenção providencial neste papel extraordinário da sabedoria pagã, elaborada durante muitos séculos antes de Jesus Cristo e convertida, desde a Meia Idade até nossos dias, em instrumento perfeitamente adaptado aos trabalhos dos teólogos da Igreja Católica?

A herança de Aristóteles no mundo sírio foi fundamental para a preservação e transmissão do conhecimento clássico, sendo como uma ponte crucial entre a antiguidade grega e o pensamento islâmico medieval. Pensadores e trdutores sírios, frequentemente utilizando a lingua siríaca, desempenharam um papel central na interpretação e disseminação da lógica e da filosofia aristotélica.

Depois de Platão e Aristóteles o progresso do pensamento pagão não se manteve. Os discípulos que continuaram a ensinar no Liceu e na Academia não souberam nem aprofundar, nem mesmo compreender a alta doutrina metafísica legada por seus mestres e encontramos seis séculos de decadência, ricos em autores secundários, discípulos e comentadores numerosos, mas pouco importantes.

Contudo este segundo período não é inteiramente destituído de vigor filosófico, porque tem um segundo caráter: o de transição. Constitui evolução providencial entre Aristóteles, puro racionalista, que não admite outra fonte de verdade além da razão natural e santo Agostinho o místico, que realiza com o auxílio do Espírito de Sabedoria, o novo ideal de uma filosofia cristã, de que a escolástica e o tomismo não serão mais que o pleno desenvolvimento.

A filosofia após a morte de Platão e Aristóteles marcou a transição da era clássica (focada na polis e na metafísica) para o período helenístico, caracterizado pela expansão do império de Alexandre, o grande. Gerou um sentimento de insegurança cosmopoítica e um foco maior na ética individual, na busca pela felicidade pessoal e na tranquilidade da alma (ataraxia).

1.3. Terceiro período — Decadência e transição

O terceiro período de decadência e transição é vencido em duas fases: 1) passa-se da metafísica à moral, mas mantendo a natureza humana como ideal; 2) passa-se da moral à mística, submetendo o homem à religião.

Cada uma dessas fases é realizada por certo número de pensadores a que não falta nem originalidade nem influência sobre a evolução do espírito humano.

A sucessão dessas duas fases não é estritamente cronológica; e o fim da primeira é contemporâneo do princípio do segunda.

Assim a transição moral desenvolve-se desde Aristóteles (morto em 321) até Marco Aurélio (129-180), o imperador filósofo; - enquanto que a transição mística se estende de Filon, contemporâneo de Jesus Cristo (40 antes - 40 depois), até Proclos (morto em 487), o último discípulo de Plotino.

Depois de Platão e Aristóteles o progresso do pensamento pagão não se manteve. Os discipulos que continuaram a ensinar no Liceu e na Academia não souberam nem aprofundar nem mesmo compreender a alta doutrina metafísica legada pelos seus mestres, Assim encontramos seis séculos de decadência, ricos de autores secundários, discípulos e comentadores numerosos mas pouco importantes.

O regresso às preocupações estritamente morais, que tinham já caracterizado a obra de Sócrates, explica-se pela situação geral da sociedade grega do fim do século IV.

Parece, com efeito, que a grande inspiração do espírito filosófico, como da nobreza moral dos antigos gregos, foi o seu patriotismo: amor da liberdade e dedicação à prosperidade da pátria, não estendida à nação, mas concentrada na cidade.

Assim nasciam os valentes generais para a defender, os oradores para a governar, os escritores célebres para dar beleza às suas festas, e os grandes filósofos para formar a sua inteligência e dar-lhe as melhores leis sociais.

Este segundo período não é inteiramente destituído de valor filosófico, porque tem um segundo caráter: o de transição. Constitui evolução providencial entre Aristóteles, puro racionalista, que não admite outra fonte de verdade além da razão natural e Santo Agostinho, o místico que realiza com o Espírito de Sabedoria o novo ideal de uma filosofia cristã ancila da fé, de que a escolástica e o tomismo não são mais que o pleno desenvolvimento.

A partir do século III as "cidades" gregas conquistadas por Alexandre perdem a independência. Passam dos reis da Macedônia aos reis de Pérgamo, da Síria e do Egito; mudam apenas de escravidão, enquanto esperam pela servidão definitiva de Roma.

A alma pagã não sendo já sustentada pelo patriotismo dobra-se sobre si mesma e abandona-se à decadência, porque não pensa acima de tudo em se apoiar na religião, cuja força foi quebrada com a da cidade de que fazia parte integrante.

O único fim dos filósofos é assegurar aos indivíduos a paz e a felicidade no meio das desgraças do tempo: daí, entre eles, o desinteresse pela especulação metafísica e até física e a predileção pelos problemas morais; daí também a ausência de espíritos superiores e as três características que marcam essa época da decadência: materialismo, egoísmo e naturalismo.

Ao declínio da Pólis não corresponde o nascimento de organismos politicos dotados de nova força moral e capazes de acender novos ideais. As monarquias helenísticas, nascidas da dissolução do império de Alexande, foram organismos instáveis. Entretanto não o foram de tal forma a provocar a reação dos cidadãos nem de construr um ponto de referência para a vida moral. De “cidadão”, no sentido clássico do termo, o homem grego torna-se súdito.

Incapazes de apreender as bases metafísicas de Platão e Aristóteles, os espíritos mais altos deste tempo teimem em considerar como únicos reais os corpos, os bens corpóreos e como único válido o conhecimento sensível.

Todos os sistemas, não obstante as diferenças radicais, convêm neste ponto (egoísmo), dirigem-se apenas ao indivíduo e propõem-se unicamente conduzi-lo à ataraxia, paz da alma e ausência de perturbação, em que cada qual encontrará a felicidade pessoal sem ideal algum político ou social.

Sem auxílio algum religioso, é apenas com os recursos da razão e da liberdade humana que se procura a felicidade; trata-se de Deus só para o negar, o diminuir até o nível dos seres corpóreos, ou quando muito, identificá-lo ao homem.

A transição após Platão e Aristóteles na filosofia antiga é marcada pela mudança do período sistemático (clássico) para o período helenístico (final do século IV a.C, até o século I a.C.). Enquanto Platão se concentrava no mundo ideal e Aristóteles sistematizava o conhecimento no mundo físico e da Pólis, o período pós-aristotélico mudou o foco para a ética individual e a busca pela felicidade em um contexto de incerteza política.

Este naturalismo é também ocasião de progresso. Considerando o homem como tal, a filosofia torna-se internacional e cosmopolita: dirige-se indiferentemente a todos os homens do universo, como o império de Alexandre e de Roma. E foi por isso sem dúvida que ela foi adotada pelos primeiros pensadores romanos, enamorados do universalismo. De resto o gênio latino, mais prático que especulativo, aceitou naturalmente esta tendência para as questões morais e prolongou-a até o século II depois de Jesus Cristo.

É de notar que a tríplice raiz destas teorias remonta, além de Aristóteles e Platão, a Sócrates: porque os diálogos deste último não suscitaram somente os dois grandes discípulos, mas também várias escolas secundárias que continuaram ligadas só do ponto de vista moral (escolas menores socráticas), distinguindo-se na escola cínica que inspirou o estoicismo, no cirenaico, que revive no epicurismo e no megárico, que deu origem ao ceticismo.

Compreende-se que o pensamento helenístico tenha se concentrado sobretudo nos problemas morais, que se impunham a todos os homens. E, propondo os grandes problemas da vida e algumas soluções para eles, os filósofos dessa época criaram algo de verdadeiramente grandioso e excepcional, o cinismo, o epicurismo e o estoicismo, propondo modelos de vida nos quais os homens continuaram a se inspirar ainda durante outro meio milênio e que, ademais se, tornaram paradigmas espirituais, verdadeiras conquistas para todo o sempre.

1.3.1. Estoicismo

O estoicismo foi fundado por Zenão de Cítio, em Chipre (336-264). Sendo a princípio negociante como seu pai, um naufrágio que o arruinou decidiu a sua vocação filosófica. Veio para Atenas e ouviu as lições de Crates, da escola cínica; depois, ouviu ainda vários outros mestres, e fundou uma escola sob o pórtico de Pecilo um dos mais belos de Atenas : daí o nome de filosofia do Pórtico (stoá) ou estoicismo, dado à sua doutrina. Tendo chegado à idade avançada, suicidou-se de harmonia com seus princípios.

O estoicismo atraiu um grande número de espíritos superiores e teve um brilhante destino no mundo romano, cuja nobreza altiva parecia ter nascido estoica. Os principais foram: Cleanto (300-232). sucessor de Zenão na escola de Atenas; Crisipo (282-204), poderoso dialético, chamado o segundo fundador do estoicismo; Possidônio (135-51), sábio enciclopedista ; Sêneca (4 antes de Cristo-65 depois de Cristo), que se revela nas suas cartas casuísta engenhoso, foi preceptor de Nero e amigo de Catão e de Tráseas; Epiteto (morto em 117 depois de Cristo), escravo liberto, que viveu a sua filosofia antes de a expor, como Sócrates, em seus Diálogos ; e o imperador Marco Aurélio (121-180), que moderou Epiteto em seus pensamentos.

O vício radical do estoicismo é o panteismo materialista, fruto da decadência do espírito especulativo. Porque Deus é a inteligência organizadora da matéria, a causa há de ser semelhante ao efeito, estes filósofos concluem daí que Deus é inteligência corpórea idêntica ao mundo.

O estoicismo é a moral do esforço ou da tensão necessária para atingir a felicidade suprema (ataraxia), colocada exclusivamente na vida segundo a natureza racional.

Esta definição mostra que o ponto de vista moral é o que dá unidade à especulação dos estoicos.

Ao contrário dos epicuristas, poder-se-ia dizer que procurava a felicidade no bem especificamente humano, visto que é a razão que distingue o homem dos animais.

Estes filósofos, contudo, esforçam-se mais que os outros neste tempo em fundamentar as regras de procedimento sobre uma teoria geral da natureza humana e do mundo: se se procura a raiz de sua concepção de felicidade, encontra-se na maneira de compreender a vida segundo a razão em sentido panteísta; e este panteísmo é efeito de seu materialismo, impotente para explicar melhor a ordem do mundo. Assim o primeiro estoico tem a sua origem na física e aplica-se depois quer na ordem intelectual que na ordem moral.

Em uma bela passagem referida por uma fonte antiga, Cleanto escrevia: ”Guia-me, ó Júpiter, e tu, Destino, ao fim, qualquer que seja, que vos praza assinalar-me. Seguirei imediatamente, pois se me atraso por ser vil, mesmo assim deverei alcançar-vos”. Bem mais tarde Sêneca diria: “O destino conduz quem quer e arrasta quem não quer”(Ducunt volentem fata, nolentem trahunt).

"Seguir a natureza". Tal o preceito essencial por onde o estoicismo pretende conduzir-nos à independência da felicidade.

Para compreender o sentido deste adágio, convém estudar a natureza universal de que o homem não é mais que uma parte.

Vê-la-emos animada de um Logos divino que dá unidade aos diversos entes em harmoniosa hierarquia.

A regra suprema da moralidade é viver conforme a natureza, ou seja, para o homem é viver segundo a razão, submetendo-se espontaneamente à fatalidade das leis cósmicas, cuja inexorabilidade ele racionalmente reconhece.

Para os estoicos o principal atributo de Deus é a providência: porque realiza continuamente a organização progressiva do universo, o que supõe ao mesmo tempo não só o conhecimento perfeito de todos os acontecimentos que conduz, mas também a influência eficaz da sua ação para derramar por toda a parte o bem e a perfeição.

Mas esta ação benéfica desenvolve-se segundo leis imutáveis e necessárias, semelhante ao desenvolvimento intelectual das conclusões a partir de um princípio: nisto ainda Deus é concebido como Logos.

Pode-se dizer, no entretanto, que é livre, porque esta necessidade vem do próprio fundo da sua natureza, sem que tenha sofrido constrangimento algum de seres exteriores a si, visto que não os há.

Contra os epicuristas os estoicos defendiam vigorosamente a providência, mas no sentido fatalista que lhe destrói a verdadeira noção.

Deus não é um ser com forma humana, mas a própria natureza e a razão universal que governa o cosmo. Chamado de Lgos, essa força divina está presente em tudo, o que confere ao estoicismo uma visão panteísta.

Para os estoicos impõe-se que Deus seja corpóreo, para desempenhar o papel de organizador, porque é inconcebível que um puro espírito exerça qualquer ação sobre a matéria. Os estoicos tiravam essa conclusão das teorias físicas de Aristóteles sobre a causa eficiente.

A causalidade exige não só que o paciente esteja privado da perfeição que recebe e, por isso, seja diferente do agente, mas também que tenha semelhança de natureza com o agente para lhe receber o contato.

Os estoicos deduziram daí o seu grande princípio da analogia universal. Uma vez que todos os seres do universo agem uns sobre os outros, como o prova a sua ordem harmoniosa, gozam todos, não obstante as diferenças individuais, da identidade profunda de natureza: são todos, sem exceção, corpóreos e materiais.

Eis por que Deus, o ser supremo, será o mais sutil dos corpos, o fogo: e sintetizando atributos contraditórios , o Logos será, como dizia Heráclito, o Fogo Inteligente.

Deus não é um ser separado do universo ou um espírito abstrato. Ele é o próprio universo e a soma de tudo o que existe (o cosmo). O mundo material é considerado o corpo de Deus. A força que dá vida, organiza e rege esse corpo é chamado de Logos (razão universal) que também os estoicos encaravam como uma espécie de “sopro” ou fogo criador divino.

O panteísmo aplicado especialmente à nossa alma permite compreender o princípio fundamental dos estoicos.

A felicidade está na vida conforme a natureza racional, porque esta nos permite dominar o universo em todos os acontecimentos e atingir assim a "ataraxia", identificando-nos ao Logos universal.

De fato nós somos ricos de todos os bens de Deus. A felicidade consiste em ter disso consciência clara e convicta e, portanto, em compreender e querê-la.

Daí as duas partes do estoicismo, em que se expõem os dois meios necessários à realização desse ideal, um especulativo (lógico) e outro prático (moral).

O panteísmo estoico postula que Deus não e uma entidade antropomórfica separada do mundo mas sim a força vital, a inteligência e o todo da propria existência. Não há dualismo entre criador e criatura. Tudo é interligado.

Na sua teoria da ciência os estoicos são os precursores dos nossos modernos positivistas.

Uns e outros substituem o estudo das essências pelo dos fatos e de suas relações concretas, trabalho próprio do conhecimento sensível. Mantêm, contudo, a superioridade do homem atribuindo-lhe a razão; implicitamente admitem até a influência de uma faculdade espiritual, necessária para transpor a terceira fase e estabelecer leis; mas eliminando do seu sistema toda a metafísica, apelam para o postulado do determinismo universal a que submetem não só a natureza, mas a vida humana individual e social.

Sobre estes pontos fundamentais estão plenamente de acordo, embora o positivismo se tenha aproveitado do progresso das ciências e, mais reservado, se diga agnóstico e não materialista.

O determinismo estoico não é cego ou caótico, mas profundamente teleológico (com um propósito) e racional. É a visão de que todos os eventos do universo são governados por uma ordem racional e causal, o Logos. Embora o destino determine os acontecimentos externos, os estoicos defendem o livre-arbítrio interno, afirmando que a liberdade reside em julgar essas circunstâncias.

O vício radical do estoicismo é o panteísmo materialista, fruto da decadência do espírito especulativo.

Porque Deus é a inteligência organizadora da matéria, e a causa há de ser semelhante ao efeito, estes filósofos concluem daí que Deus é inteligência corpórea idêntica ao mundo. Assim se mostram incapazes de se elevarem às noções metafísicas para conceber o ser como tal realizável até ao infinito, distinto do ser corpóreo, objeto da experiência, o que lhes permitiria compreender a causa perfeita, realidade espiritual, semelhante ao seu efeito quanto ao aspecto de perfeição, mas plenamente distinta dele pela exclusão de todo o limite material.

Há que reconhecer aliás que, entre os sistemas pagãos, a moral estoica foi uma das mais elevadas; ela teve em particular o mérito de reagir contra as tendências comunistas dos velhos moralistas, inclinados a absorver o indivíduo no Estado; ela, ao contrário, pôs em relevo o valor da pessoa humana que goza, graças à razão, de direitos imprescritíveis.

A parte mais significativa e mais viva da filosofia do Pórtico não é a sua orignal e audaz física mas sim a ética: foi com a sua mensagem moral que os estoicos, durante meio milênio, souberam dizer aos homens uma palavra realmente eficaz que foi sentida como particularmente iluminadora acerca do sentido da vida.

1.3.2. Epicurismo

O epicurismo é a moral da serenidade ou do equilíbrio sem esforço, que coloca a felicidade suprema ou ataraxia no prazer sensível. Esta definição parece opor absolutamente o epicurismo ao estoicismo. Contudo Epicuro também quer que o sábio contribua por si mesmo para a felicidade, e para isso é obrigado a "racionalizar" o prazer sensível, de sorte que acaba por aproximar-se de Zenão. Estes dois sistemas parecem-se com dois viajantes que, partindo de pontos opostos, um do cimo e outro da raiz da montanha, se encontram finalmente, visto que este se esforça por subir enquanto que o primeiro desce pelo mesmo caminho. O estoicismo parte do domínio soberano da Razão, pondo assim em evidência a tensão, isto é, a síntese e a perfeição da inteligência; mas rebaixa-se à matéria pela concepção panteísta do fogo divino; - o epicurismo, por seu lado, parte do domínio sensível e põe em evidência a calma, isto e, a imperfeição e a dispersão da matéria; mas espiritualiza-a o mais possível para a tornar independente e tende para um real ascetismo, vizinho da renúncia estoica.

As doutrinas de Epicuro, estatuindo como norma suprema de moral um critério eminentemente subjetivo, tornaram-se mais tarde a dissolução de todo vínculo e o germe da abominável corrupção moral de costumes, que fez do epicureu o sinõnimo do homem sensual, efeminado, incapaz de qualquer esforço ou luta moral pelo dever.

O bem supremo para o homem é o prazer. E para ser claro, Epicuro dirá no seu estilo desprovido de cambiantes literários: “O princípio e a raiz de todo o bem é o prazer do estômago, isto é, aquele cuja origem é o bom estado das funções vegetativas. O único prazer que reconhece, portanto, como materialista lógico, é o prazer sensível sob todas as suas formas : prazeres do gosto, da vista, do ouvido. Todas estas sensações agradáveis que nos vêm através dos órgãos do corpo".

Para demonstrar este princípio, apela para a voz da natureza, que se encontra em estado puro e franco entre os animais e as crianças. Ora espontânea e constantemente vemos estes fugir antes de tudo à dor corpórea e procurar unicamente o prazer sensível: sinal infalível, para Epicuro, que não temos outro fim supremo capaz de nos tornar felizes.

Para Epicuro o verdadeiro prazer vem a ser a ausência de dor no corpo (aponia) e a falta de perturbação da alma (ataraxia). Sendo assim a regra da vida moral não é o prazer como tal , mas a razão que julga e discrimina, ou seja, a sabedoria que, entre os prazeres, escolhe os que não comportam em si dor e perturbação.

Mas a sua teoria fundamental transforma a virtude epicurista em egoísmo calculado: poder-se-ia definir: "A arte de organizar a sua vida com moderação, de modo a realizar o maior número possível de vezes o equilíbrio perfeito do corpo e da alma, onde tem origem o supremo prazer". Eis por que a virtude principal é a prudência que se completa com a temperança, a justiça e a amizade.

O epicurismo, ainda mais claramente que o estoicismo, manifesta a decadência materialista que subordina conscientemente a razão às funções inferiores do corpo.

Apesar do esforço sério para se elevar a uma concepção universal e filosófica da vida humana, tudo é viciado e rebaixado na doutrina pelo ponto de partida: se se fala de amizade e de justiça, é em sentido utilitário; se se recomenda a virtude, é como fonte de prazeres mais seguros; se se prega verdadeiro ascetismo, é um ascetismo por prazer que não sustenta nenhum entusiasmo generoso, a que falta sentido do ideal, porque se destruiu toda a noção de espiritualidade da alma e de Deus.

Se o epicurismo não justificou a devassidão, como se acusa por vezes, pelo menos desconheceu a verdadeira nobreza do homem: não viu nele mais do que "o seu deus é o ventre" de que fala São Paulo (Fil 3, 19); e a sabedoria cuja fórmula fixou continua impotente para satisfazer as aspirações da verdadeira natureza humana.

Epicuro adota substancialmente a tripartição senocrática da filosofia em “lógica”, “física” e ”ética”. A primeira deve elaborar os cânones segundo os quais reconhecemos a verdade; a segunda estuda a constituição do real; a terceira, o fim do homem (a felicidade). A primeira e a segunda são elaboradas rm função da terceira.

Para os homens de seu tempo, agora privados de tudo o que tornava a vida segura para os antigos gregos e atormentados pelo pavor e pela angústia do viver, Epicuro indicava um novo caminho para o reencontro da felicidade e pregava uma palavra que era como um desafio à sorte e à fatalidade. Mostrava que a felicidade pode vir de dentro de nós, embora as coisas estejam fora de nós, porque o verdadeiro bem, à medida que vivemos e enquanto vivemos, está sempre e somente em nós: o verdadeiro bem é a vida. Para mantê-la basta pouquíssimo e esse pouquíssimo está à disposição de todos, de cada homem – e todo o resto é vaidade.

1.3.3. Ceticismo

Mais ainda que o materialismo, o ceticismo é um sinal de decadência: indica o cansaço da inteligência em face de especulações abstratas e controvérsias incessantes dessa época. Por isso floresceu especialmente neste terceiro período.

Podem-se-lhe referir até todos os filósofos, além dos estoicos e epicuristas; uns porque renunciam a toda a especulação e inauguram o ceticismo universal ou filosófico; outros porque, sem negar a verdade, mas impotentes para a conquistar, satisfazem-se com a seleção das melhores teses entre as diversas doutrinas existentes: são os ecléticos.

Sobre todos os princípios fundamentais da filosofia, diz o cético, sobre as causas e a natureza dos seres, sobre Deus, a alma e a moral, os filósofos estão em perpétua contradição entre si e cada um consigo mesmo. Ora, as opiniões contraditórias não podem ser todas verdadeiras. Portanto é prudente não aceitar nenhuma.

O fundador do ceticismo foi Pirro (365-275), cidadão de Eleia, onde, após a morte de Alexandre, em 323, veio abrir uma escola.

As suas objeções renovaram as discussões suscitadas outrora pelos sofistas, agravando-as, e elevaram-nas à verdadeira escola filosófica. Por isso, deu o seu nome ao ceticismo universal chamado ainda pirronismo.

O ceticismo filosófico perpetuou-se por dois homens, cujas obras constituem a codificação definitiva do sistema: Enesidemo de Creta, que viveu entre 80 antes de Cristo e 130 depois de Cristo, ensinou em Alexandria onde escreveu 8 livros sobre o pirronismo; e Sexto Empírico (segunda metade do século II) que, aparecendo em último lugar, colige todas as objeções de seus predecessores nas suas Hipotiposes ou Bosquejos pirroneanos. Isso sem falar em Agripa e Favorino de Aries, o primeiro filósofo gaulês.

A distinção entre essência e fenômenos ou entre objetivo e subjetivo e mais geralmente entre a especulação e a ação também permite aos céticos tratar o problema da felicidade, propondo um ideal de vida e, como todos os moralistas da época, procuram-na na “ataraxia”. O sábio cético, persuadido da sua ignorância total em especulação, terá como regra universal a abstencão ou suspensão do juízo (epoche - que se pronuncia epôrré).

O ceticismo universal, tal qual se apresenta como teoria filosófica, pode definir-se: a doutrina que, admitindo embora a existência de certeza, como fato subjetivo, declara indemonstrável o valor objetivo de todo o juízo especulativo e ensina, consequentemente, a impossibilidade de obter em sentido próprio, uma certeza infalivelmente verdadeira.

"O nosso ceticismo, escreveu Sexto Empírico, consiste essencialmente em opor os fenômenos e as essências; só estas são incognoscíveis; mas dizer que o nosso ceticismo destrói os fenômenos é não nos entender".

Esta mesma distinção permite também à doutrina desenvolver-se sem se contradizer imediatamente, o que aconteceria afirmando como "juízo certo e verdadeiro" que não há "juízo algum certo e infalivelmente verdadeiro".

Basta então ao cético mostrar a fragilidade da posição contrária, para concluir que aquilo que se julga certo (subjetivamente) continua duvidoso (objetivamente). Em especulação, limita-se à crítica e reserva a sua adesão para o domínio da ação.

1.3.4. Ecletismo

Mais do que uma escola nova é o ecletismo uma orientação comum a quase todas as escolas nesta época. Suas causas mais importantes foram: a) o enfraquecimento do primitivo poder de coesão dos sistemas num mesmo centro de cultura: Atenas; b) o embate das ideias e as várias discussões que revelaram, nas doutrinas das várias escolas, lacunas evidentes; c) a conquista da Grécia pelos romanos, que impuseram o gênio utilitarista e prático. Nestas circunstâncias voltaram naturalmente os espíritos ao critério espontâneo do senso comum. E escolheram em cada escola o que lhes pareceu mais consentâneo com a verdade.

O ceticismo universal, apesar da sua prudência, destrói-se a si mesmo.

Porque isentando da dúvida o domínio prático, incorre necessariamente em contradição, porque toda a decisão voluntária é impossível sem um mínimo de certeza especulativa, ainda que só fosse a aceitação firme do princípio: "A vontade quer o que é bom".

Mas se o ceticismo se estende até ao domínio prático e subjetivo, torna impossível toda a a vida intelectual, e assim suprime toda a filosofia, incluindo a filosofia cética.

Pirro não fundou uma escola propriamente dita. Seus discípulos ligaram-se a ele fora dos esquemas tradicionais. Mais do que verdadeiros discípulos, tratava-se de apreciadores, homens que buscavam no mestre sobretudo um novo modelo de vida, um paradigma existencial ao qual fazer referência constante, uma prova segura de que, apesar dos trágicos eventos que convulsionavam os tempos e malgrado o desmoronamento do antigo quadro de valores ético-políticos, a felicidade e a paz de espírito ainda podiam ser alcançadas, quando se considerava impossível construir e propor um novo quadro de valores.

O ecletismo foi, em certa medida, o resultado do ceticismo. Das múltiplas hipóteses filosóficas nenhuma poderá impor-se definitivamente; parecia portanto preferível não procurar explicações novas mas rever as opiniões anteriores para escolher e recolher (termo derivado do grego ek-léghein, que signfica “escolher e reunir, formando de várias partes”), que visava reunr e fundir o melhor (ou o que era considerado tal) das várias escolas, conciliando o que não era inconciliável.

O ecletismo encontrou no espírito de Roma outra causa.

Os romanos, homens de ação, pouco inclinados à especulação, procuravam sobretudo na filosofia regras de procedimento, e não tinham escrúpulo em recolher dos diversos sistemas o que julgavam capaz de favorecer a sua política. Daí os dois grupos de ecléticos: os romanos e os comentadores.

As causas que produziram esse fenômeno são numerosas: a exaustão da vitalidade das escolas singulares, a polarização unilateral de sua probemática, a erosão de muitas barreiras teóricas operada pelo ceticismo, o probabilismo difunddo da Academia, a influência do espírito prático romano e a valorização do senso comum.

O principal representante do ecletismo em Roma é Cícero (106-44). Mais orador e homem de Estado que filósofo, escreveu contudo bom número de obras filosóficas, em particular De officiis (Moral).

A nota característica dessas obras é o ecletismo. Fazendo uma escolha das doutrinas mais conformes com o bom senso, tomou dos acadêmicos a teoria da verossimilhança.

"Limitamo-nos, diz ele, a admitir muitas coisas prováveis, fáceis de seguir na prática, mas que com dificuldade se podem afirmar na teoria". Em suma, há que dizer que a Roma pagã não teve propriamente filósofos, mas literatos que escreveram quer pensamentos, recordações e caracteres (estoicos) quer poemas filosóficos (epicuristas); além de juristas eminentes, que basearam as suas teorias no bom senso (ecléticos).

Cícero oferece, em certo sentido, o mais belo paradigma da mais pobre filosofia, que mendiga em cada escola migalhas de verdade. Além disso ele é de longe a mais eficaz, a mais vasta e a mais significativa ponte através da qual a filosofia grega se introduziu na área de cultura romana e, depois, em todo o Ocidente: e esse também é um mérito não teorético, mas de mediação, de difusão e de divulgação cultural.

Se os ecléticos não têm envergadura, são por outro lado numerosos e cada vez mais influentes.

Durante os dois primeiros séculos do império romano penetram largamente na sociedade; ocupam as cátedras instituídas nas grandes cidades (Roma, Atenas e Alexandria), quer pelo Estado, quer pelos particulares e atraem à sua volta a juventude culta.

O espírito dominante desta filosofia é a moral, mas, no seu caminho, absorve num largo ecletismo muitos outros elementos respigados nas diversas escolas, e assimila religiões nacionais, tudo o que lhe parece conciliável com a moral e a ideia de Deus; sobretudo se enriquece com a preocupação mística cada vez mais pronunciada e, por isso, filia-se na tradição platônica.

Com efeito ela provoca o renascimento do platonismo; a tradição moral muda-se pouco a pouco em tradição mística e dá origem ao neoplatonismo.

Com sua dúvida sobre nossas representações (isto é, sobre o critério da verdade), os céticos arruinaram aquilo em que se baseia a existência humana. Por um lado, negado o valor da representação, fica comprometida a própria possibilidade das diversas artes (que nascem da memória e da experiência). Por outro lado, negado o valor do critério, exclui-se qualquer possibilidade de estabelecer o que seja o bem, exclui-se a possibilidade de determnar o que seja a virtude e, assim, exclui-se a possibilidade de fundamentar autêntica vida moral.

1.3.5. Transição mística

Para precisar este fenômeno geral da Transição Mística, podem-se fixar três notas distintivas da nova filosofia:

1) O predomínio do Aspecto Religioso: a filosofia é antes de tudo uma teologia e trata do mundo e do homem em função de Deus, considerando-os como criaturas, mas que manifestam a sua perfeição ou procuram subir até Ele.

2) O dogma da Transcendência Divina. Deus é sempre concebido como Espírito, eminentemente superior ao mundo; por isso, esta nova fase opõe-se claramente ao panteísmo e às negações materialistas da fase precedente.

3) Recurso a múltiplos Intermediários para permitir a Deus descer às ínfimas criaturas, e ao homem subir, da matéria em que vive, até Deus Transcendente, onde encontra a felicidade suprema.

Antes de atingir o apogeu, a filosofia mística conheceu três séculos de preparação.

As mais notáveis foram as de Filon para o judaísmo; de Plutarco para o paganismo; dos gnósticos para o cristianismo.

Filon (40 anos antes de J.-C. - 40 anos depois de J.-C.), judeu de Alexandria, é o principal representante da escola greco-judaica, fundada nesta cidade, cerca de 150 anos antes de J.-C. , por Aristóbulo, com o fim de conciliar o ensino da Bíblia com o dos sábios pagãos.

Filon procura a doutrina pagã sobretudo em Platão; e, para reconhecer ou justificar essas teorias com a revelação, usa e abusa do método da interpretação alegórica.

O filonismo, se não é contraditório, é pelo menos muito obscuro, por falta de uma teoria.

Plutarco (50 - 120 depois de J.-C.), célebre pelas suas "Vidas dos homens ilustres da Grécia e de Roma", é também o principal representante do esforço tentado pela filosofia mística para dar uma interpretação racionalista da religião pagã. Com este fim, funde numa espécie de sincretismo religioso elementos respigados nos cultos racionais gregos e egípcios, assim como no dualismo oriental; admite em face do princípio do bem (o Deus Transcendente), o do mal (a matéria); e entre estas duas potências, intermediários, dos quais uns são deuses do paganismo, e outros espíritos puros.

O gnosticismo (1º e 2° século depois J.-C.), movimento complexo em que apareceram as primeiras heresias combatidas por São Paulo e São João Evangelista, é um esforço orgulhoso de interpretação racionalista de toda a revelação cristã do Antigo e do Novo Testamento.

Desenvolve-se num conjunto de sistemas meio religiosos, meio filosóficos, cuja exposição minuciosa será mais facilmente compreendida em patrologia.

Nele se encontram os três caracteres da filosofia mística, com superabundância de intermediários chamados de eões, cujo conjunto forma o pleroma.

A filosofia mística elevou-se ao seu apogeu com Plotino (205-270).

Nele o gênio grego reúne todas as suas energias vitais para tentar coordenar, em largo ecletismo, o que produzira de melhor nos séculos precedentes e adaptar-se às novas necessidades, respondendo às novas aspirações religiosas então reinantes.

A princípio propôs-se como fim recolher a herança de todos os grandes pensadores gregos; quer reunir e conciliar todas as teorias, especialmente as de Platão, dos estoicos e de Filon.

Não se satisfaz aliás em reeditar Platão ou justapor-lhe doutrinas respigadas nos diversos filósofos. A sua obra é mais que um ecletismo; é uma síntese, porque há um princípio original que a anima e lhe dá unidade, e marca uma nota de profundidade na metafísica platônica e o coloca ao lado dos grandes filósofos.

Plotino, retomando o ponto de vista metafísico e místico de Platão, participa em primeiro lugar de sua fraqueza. Desprezando excessivamente a experiência, afirma gratuitamente a existência de intermediários entre Deus e o homem; e é obscuro na explicação das mudanças, isto é, das realidades materiais.

Mas participa também da força de Platão. Sem atingir ainda a ideia precisa da criação, aprofunda notavelmente as relações entre Deus, causa perfeita do ser e o mundo, cuja bondade, vida e duração explica pela sua influência.

Este princípio da causalidade perfeita, sobre o qual está fundado todo o sistema, é sem duvida limitado demais para explicar todos os aspectos da realidade.

Mas a fórmula de Plotino marca progresso notável sobre os seus predecessores e fecha bem, como cimo radioso, toda a filosofia pagã.

A grande e mortal fraqueza do helenismo está na ausência da noção firme de um Deus pessoal, Criador, Legislador e Remunerador, sem o qual nem a ordem lógica nem a ordem moral têm razão suficiente.

E embora estas doutrinas vitais não estejam por si mesmas fora do alcance natural da inteligência humana, a deficiência destes grandes gênios demonstra a necessidade de uma revelação para nos instruir.

Sob outro ponto de vista contudo, a filosofia pagã, à medida que avançava, aproximava-se cada vez mais da verdade plena e despertava-lhes o amor e a investigação nas almas de escol; conseguia formar os quadros racionais definitivos, capazes de receber as fórmulas da fé; dava às grandes concepções universais da metafísica a precisão e a clareza que permitiriam penetrar mais profundamente nas riquezas do dogma em si mesmas e nas suas consequências, e constituir enfim a sabedoria sublime divina e humana da teologia.

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Sobre o autor
Máriton Silva Lima

Advogado militante no Rio de Janeiro, constitucionalista, filósofo, professor de Português e de Latim. Cursou, de janeiro a maio de 2014, Constitutional Law na plataforma de ensino Coursera, ministrado por Akhil Reed Amar, possuidor do título magno de Sterling Professor of Law and Political Science na Universidade de Yale.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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