3. Época moderna
3.1. Primeiro período — O espírito cartesiano
A época moderna, quanto ao espírito da sua filosofia, distingue-se nitidamente da cristã. Em uma palavra pode ser caracterizada como revolução anti-escolástica. Ela foi a manifestação do espírito revolucionário, pelo qual a sociedade, com pretensões à maioridade, rejeitava a direção da fé, da Igreja e de Deus.
É necessário apontar duas causas principais desta deficiência da escolástica e, especialmente, do tomismo, no século XVII.
Em primeiro lugar verifica-se a ausência do espírito metafísico com a utilização do sistema occamista para simplificar e facilitar a filosofia com o exagerado desenvolvimento da lógica. Os doutores das Universidades defendem-se, não por argumentos metafísicos, mas por decretos reais que prescrevem ou impõem este ou aquele sistema.
Igualmente houve um mal-entendido entre a ciência tomista e a ciência moderna. O Renascimento, chamando a atenção sobre o mundo material, trouxe um progresso notável às ciências particulares da natureza, graças à invenção de novos instrumentos de observação e, sobretudo, ao reconhecimento da ideia de medida aplicada a todos os fenômenos e permitindo submetê-los à análise matemática.
Assim os sábios começaram a edificação desta ciência moderna, cujas leis contradiziam as concepções de Aristóteles.
Os tomistas do século XVI tinham em sua doutrina o meio de mostrar o justo valor da ciência nova e de assimilá-la completamente; mas deveriam ter penetrado no sentido profundo dos seus conceitos e hierarquizado as suas consequências. Teriam então sacrificado probabilidades reconhecidas como falsas, considerando intato o seu patrimônio de verdades propriamente filosóficas. Nem a tese da incorruptibilidade do céu por exemplo nem a da imobilidade da terra formavam corpo com a verdadeira “filosofia” tomista e, antes das descobertas de Galileu, poderiam ter sido sacrificadas sem nenhum dano. Em vez disso esses escolásticos defenderam o aristotelismo em bloco, considerando como inseparáveis a sua metafísica sempre viva e a sua astronomia ou a sua física fora de uso.
Em face disso, verifica-se a presunção dos novos sábios, ligando as suas leis matemáticas demonstradas a hipóteses não autênticas e anti-escolásticas. Por isso julgavam que as suas descobertas subvertiam toda a antiga ontologia. Daí nasceu propriamente a filosofia moderna. Esta origem explica ser o seu pensamento caracterizado por dois erros muito universais no nosso tempo.
Assim a liberdade humana é um poder de independência absoluta sem limite algum do lado do bem ou do mal, dos homens ou de Deus. A liberdade do filósofo consiste em tirar toda a ciência do seu próprio espírito. É o seu liberalismo. No laicismo ou naturalismo, a filosofia moderna tende a substituir Deus pelo homem, quando busca o Ser necessário, centro do seu sistema. Numa palavra o espírito moderno é fundamentalmente racionalista, pois proclama que devemos confiar somente na razão e admitir nos dogmas religiosos apenas o que ela reconhece como lógico e satisfatório segundo a luz natural. Tal princípio vital é a própria negação da filosofia cristã e escolástica.
3.1.1. Precursores da ciência moderna
O pensamento moderno reconhece com razão como seus mestres dois homens de valor desigual: Francis Bacon, que voltou a dar aos pensadores o gosto da experiência e René Descartes, que renovou o espírito metafísico, impregnando-o, porém, de luz matemática. Este último, sobretudo pela ousadia do seu método, que inaugurava a era da filosofia crítica, bem como pela novidade das suas doutrinas que atropelavam o ensino tradicional da escolástica, foi o principal iniciador da filosofia moderna.
Todos os filósofos dos séculos XVII e XVIII sofreram, a títulos diversos, a sua influência e, sem serem sempre seus discípulos fiéis, apresentando-se até por vezes como seus adversários, vivem do seu espírito; os seus sistemas, conquanto mui diversos, são o desenvolvimento das inovações cartesianas.
Em primeiro lugar, segundo a lógica do princípio racionalista, o cartesianismo evoluciona para o panteísmo e, passando pelo ocasionalismo, de Malebranche, bem depressa lá chega com Spinoza (fim do século XVII).
Outros pensadores abertamente contradizem mais que um princípio de Descartes: na Alemanha Leibniz abandona a explicação mecanicista pelo dinamismo; e na Inglaterra o empirismo, que Francis Bacon tão bem restituiu nas honras, combate vitoriosamente as ideias inatas. Mas a inspiração profunda destas doutrinas e, especialmente, o método de que se servem, continuam cartesianos.
Assim o impulso dado por Descartes, atravessando o século XVIII, entra em reação com essas diversas influências, e os sistemas que engendra suscitam, desde o alvorecer do século XIX, o grande esforço crítico de Kant, que domina toda a época moderna.
Francis Bacon (1561-1626) foi acima de tudo um iniciador ou, como ele a si mesmo chama, o corneteiro (buccinator) da ciência nova que se germina sobre as ruínas da escolástica, e cuja excelência não se cansa de proclamar.
Os comentaristas falam que de um iniciador ele tem a fogosidade, a imaginação forte que grava os preceitos em forças indeléveis; mas também de um legista e administrador tem o espírito de organização, a prudência quase esmiuçadora de bagatelas, o desejo, na obra secular que começa, de distribuir a cada um (observador, experimentador, inventor de leis) uma tarefa limitada e bem definida.
Eis por que o centro do pensamento baconiano é constituído pela nova lógica da qual a filosofia moderna deverá servir-se para atingir, finalmente, a verdadeira ciência: é a parte original, a única explicitamente desenvolvida da qual decorrem como corolários as outras doutrinas concernentes à psicologia, à natureza e a Deus.
A grande ideia da ciência físico-matemática de Bacon com as suas majestosas teorias não se revelou de início na sua plenitude. Foi o fruto de uma colaboração secular e os sábios a construíram antes que os filósofos lhe delineassem os contornos.
Ela será uma ciência do concreto, ao contrário de Aristóteles, para quem uma demonstração consistia em elevar-se às noções universais e abstratas. Assim “não há verdadeira ciência senão a do concreto”; o que é necessário estudar é o real, isto é, os fatos da experiência, os fenômenos observáveis. Consequentemente a primeira parte do saber será constituída pela história.
Ela será uma ciência de invenções. O seu fim único será “dotar a vida humana de novas invenções e novas riquezas”. Não que o sábio persiga o fim egoísta de se enriquecer pessoalmente: pensa no agregado humano, que lhe alcançará o meio de viver o mais longamente possível sobre a terra e de achar nela o máximo de prazer com o mínimo de dor.
Sendo esta ideia um tanto vaga, Bacon voltou o seu plano para os imensos recursos da natureza. Daqui vem o seu terceiro caráter: é a ciência das leis da natureza, a fim de sobrepô-la a nossos interesses. “Não se triunfa sobre a natureza, senão lhe obedecendo”. Ciência experimental capaz de aplicações frutuosas graças às leis naturais melhor conhecidas: tal é a concepção profética de Bacon, que virá a chamá-la de ciência positiva. Infelizmente lhe falta o recurso às matemáticas, para estabelecer e coordenar as leis. Desconhecendo isso por completo, ele protesta contra o orgulho dos matemáticos, que desejariam ver a sua ciência comandar a física, quando deveria guardar o lugar de serva.
Apesar de seu desejo de sacudir o jugo de Aristóteles, permanece fiel à concepção corrente, a qual considerava os fenômenos da natureza como qualidades corpóreas.
Para esta nova ciência o “organon” contendo os tratados de Aristóteles era inutilizável. Era a lógica do silogismo cuja impotência Bacon censura para descobrir os verdadeiros princípios das coisas e fazer avançar as ciências, donde aparece o seu novo “organon”.
Inicialmente ele enumera os erros que evitar, os ídolos, representações imaginárias que nos enganam: a) os preconceitos comuns a toda espécie humana como a tendência ao antropomorfismo; b) os preconceitos individuais, oriundos do caráter, da educação e das leituras de cada um; c) os preconceitos provenientes do comercio social ou da imperfeição da linguagem; d) os preconceitos originados da autoridade dos mestres e escolas filosóficas.
Na segunda parte ele propõe o verdadeiro método científico ou indutivo. Inculca o uso da observação e da experimentação, ensinando para melhor apanhar o nexo causal dos fatos, método das coincidências constantes.
O grande título de glória de Bacon foi ter sido o primeiro teórico de método indutivo das ciências positivas. O seu grande mérito foi abranger e sintetizar na sua obra um dos aspectos do espírito moderno: o amor da experiência, o desejo de estudar a natureza por si mesma e para a utilizar. Proclamou com razão a legitimidade deste fim e foi o primeiro a apresentar as regras da indução científica com notável precisão e juízo de pormenores.
Se Bacon foi o primeiro teórico da indução científica, o seu contemporâneo Galileu a aplicava com grande êxito.
Galileo Galilei (1564-1642) é, acima de tudo, um sábio; preparado pela sua formação humanista para se desvencilhar das teorias físicas de Aristóteles às quais ficava acorrentada a escolástica decadente, tornou-se o defensor do sistema astronômico de Copérnico.
As suas obras: Il Saggiatore (1623), Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632), seguidas mais tarde pelos Discorsi e dimostrazioni matematichi (1638) ocasionaram o famoso processo em que foi condenado pelo Santo Ofício (1633).
Do ponto de vista filosófico Galileu prepara o mecanicismo universal, tal como o defende Descartes. Não ensina, mas o conduz a ele, criando uma ciência físico-matemática da natureza, capaz de prever os fenômenos. Não diz o que são as coisas, mas mostra, por comparação, que as matemáticas, com os seus triângulos, os seus círculos e as suas figuras geométricas são a linguagem única capaz de decifrar o livro da natureza. Aplica assim, com uma mestria genial, o método indutivo tal como o definirá St. Mill.
Assim Bacon e Galileu, um como teórico, o outro como prático, inauguravam a marcha triunfal da ciência moderna que subia ao assalto do aristotelismo, para o substituir na explicação do mundo físico. Contudo, por esse mesmo tempo, Descartes personificava um outro aspecto mais profundo e mais filosófico do espírito moderno: a estima das matemáticas que deviam substituir a metafísica na interpretação científica do mundo; é o que faz deste o principal iniciador da filosofia moderna.
3.1.2. Descartes e o cartesianismo
René Descartes, latinamente Cartesius (1596-1650), é, acima de tudo, um gênio matemático.
O seu ideal é “adquirir um conhecimento certo e claro de todas as coisas que podem representar para os homens qualquer utilidade para viver”. Espera descobrir os segredos da natureza com uma clareza e uma precisão iguais às de um teorema geométrico.
Foi este pensamento de construir uma matemática universal que, em 1619, decidiu a sua vocação filosófica, enquanto que soldado e preso pelo inverno em Neuburgo do Danúbio, “teve bastante lazer para se entreter com os seus pensamentos”. Ideia diretriz bem moderna: em vez de submeter a nossa ciência à filosofia, construiu pelo contrário o seu sistema em função dessa ciência formalmente matemática.
Demais, apenas se dedica à metafísica à medida que o julga necessário para buscar a “ciência”, à qual consagra a melhor parte do seu tempo; donde o caráter incompleto da sua filosofia. De mais, aceita plenamente o princípio do racionalismo moderno; quer tirar toda a verdade da meditação do eu sem recorrer a qualquer ajuda externa nem da autoridade nem da tradição nem do objeto da experiência.
Tal é o fundo do método da ideia clara e da dúvida universal com o qual estuda tanto a natureza da alma como o mundo corporal.
Na marcha lógica dos seus pensamentos Descartes estabelece o seu novo método, instituindo uma dúvida universal, nela encontrando o primeiro fundamento de qualquer certeza. O exame deste princípio “penso, logo existo” dá-lhe o critério da ideia clara, estabelecendo algumas regras, que transformam o critério num método universal.
Ele está impressionado com o fato de que na filosofia “coisa alguma se encontra ainda da qual não se dispute e, por conseguinte, que não seja duvidosa”. Ora, para chegar a uma ciência inteiramente indubitável, julga necessário “rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que ele pudesse imaginar a menor dúvida”.
Rejeita assim não somente as opiniões mas também o testemunho dos sentidos, porque às vezes nos ilude; igualmente exclui as informações da consciência e também as verdades demonstradas e as mais evidentes como dois e três são cinco ou o quadrado tem quatro lados, “porque permitindo Deus que eu às vezes me engane talvez permita que eu me engane sempre”.
Esta duvida universal é uma lei para o filósofo principiante, porque as próprias faculdades do conhecimento são suspeitas. Talvez a ideia de um Deus bom não passe de uma fábula e dependamos de um mau gênio que sente prazer em que erremos em cada um de nossos atos.
Com este ponto de partida põe Descartes em toda a sua amplitude o problema crítico. Trata-se de saber se possuímos a verdade e que meios temos de nos certificar dela. Assim a primeira fase do método cartesiano é a dúvida universal metódica.
“Depois de ter assim posto em dúvida as afirmações do senso comum, diz Leonel Franca, os argumentos de autoridade, o testemunho dos sentidos, as informações da consciência, as verdades deduzidas do raciocínio e os próprios princípios imediatos, Descartes detém-se diante da existência do próprio pensamento. Se eu duvido, penso, se penso, existo. “Cogito, ergo sum” é, pois, a única verdade de que não se pode duvidar, e que, portanto, constitui o fundamento, o aliquid inconcussum, incontestável, o ponto de partida de qualquer construção filosófica”.
E por que não se pode duvidar desta verdade? Porque é evidente, porque nós a concebemos clara e distintamente. Uma intuição: a existência do ser que pensa: um critério: a evidência --- eis o donde parte Descarte para reconstruir a filosofia.
O critério supremo da ideia clara e distinta é o centro não só do método, mas de todo o cartesianismo. Para termos dela uma concepção justa, teremos de reconhecer-lhe quatro caracteres: é indubitável, intuitiva, infalível e inata.
Pode a inteligência desviar-se dela, ignorá-la, mas desde que recebe esta ideia, não pode impedir de a ter como verdadeira. É ela assim dominada e como passiva perante a clareza do objeto.
Esta propriedade é a mais aparente e pertence eminentemente ao princípio “cogito, ergo sum”, pois a própria dúvida lhe fortifica a certeza.
Intuição para Descartes é a concepção firme que nasce num espírito são e atento.
Naturezas simples são aquelas cujo conhecimento é tão nítido e distinto que a inteligência não as pode dividir em muitas outras conhecidas mais distintamente: tais são a figura, a extensão, o movimento e também o ato de conhecer, de querer, de duvidar, o eu, a existência, a duração, a unidade etc..
Ele estabelece assim uma correspondência perfeita entre o objeto do conhecimento chamado ideia clara e distinta e o ato do conhecimento chamado intuição.
Resumindo, a intuição cartesiana é “o conhecimento duma verdade evidente, qualquer que seja a sua natureza, que serve de principio e fundamento ao raciocínio discursivo”.
A consequência do caráter intuitivo da ideia clara é torna-la infalivelmente
verdadeira. Efetivamente o erro não é possível a não ser que misturemos ao objeto conhecido um elemento estranho, tirado do nosso próprio fundo. Ora, isso é absolutamente impossível na visão intuitiva, na qual se revela claramente um objeto simples apreendido distintamente.
É necessário uma operação completa unindo duas ideias para poder errar. Esta composição é obra do juízo, que já não é apenas um ato de inteligência, mas exige sempre a intervenção ativa da vontade. Só a intuição diz necessariamente “o que é”; mas di-lo perfeitamente, sem qualquer temor de erro.
Aplicando o seu método da ideia clara, Descartes faz surgir o mundo espiritual todo inteiro, pois que: “Eu penso, logo sou” é a sua única certeza.
Considera-o primeiro do ponto de vista subjetivo, isto é, tomado em si próprio, como um fenômeno afetando um sujeito, e dele tira a sua psicologia.
Partindo do seu princípio ele assina como seu objeto apenas o pensamento; depois precisa as suas relações com a alma. Por pensamento entende-se tudo o que está sob o domínio da consciência. Aplicando a ele a introspecção ou observação interna conclui Descartes a espiritualidade da alma. O principal argumento é a ideia clara e distinta da irredutibilidade absoluta entre o pensamento e o movimento, da incompatibilidade irreconciliável ente entre os atributos da coisa extensa e da coisa pensante.
Considerando-o depois do ponto de vista objetivo, ou seja, no seu conteúdo, como fazendo conhecer esta ou aquela realidade, dela tira a sua teodiceia.
Descartes começa por classificar nossos conhecimentos; depois, analisando um deles, conclui a existência de Deus. Na análise do próprio pensamento, que é dúvida, ele se percebe como um ente imperfeito, mas ao mesmo tempo reconhece em si a ideia de um ser imensamente perfeito. Ora, sendo a existência uma perfeição, tal ser necessariamente existe - é Deus.
Descartes encontra no mecanicismo a explicação dos corpos em geral, quer dos vivos, compreendido o do homem, quer da origem do movimento.
Analisando o corpo em geral, a sua essência é a extensão ou a quantidade e os seus atributos são a divisibilidade, a figura e o movimento. Ora, estas propriedades são todas opostas ao pensamento, de modo que o corpo não pode agir sobre a alma, que apenas é pensamento. Assim as nossas ideias de cores, de som, de dores, de alegrias e de outras qualidades sensíveis são obras exclusivamente da alma.
Os corpos vivos, o vegetal, o animal, o corpo humano, tornam-se assim um capítulo de mecânica, porque não existe em todo o universo a não ser uma única matéria, conhecida pela ideia clara da extensão.
A causa geral de todos os movimentos não pode ser senão Deus, pois sendo o universo uma massa inerte, é preciso, para o mover, criar o movimento, tirando-o do nada, o que exige um poder infinito. E porque Deus é imutável e conserva imutavelmente o que produziu: a quantidade de movimento do universo é imutável. Tal lei é uma das bases da ciência moderna.
A imensa influência do cartesianismo sobre o pensamento moderno vem ao mesmo tempo do seu valor intrínseco e da oportunidade de sua aparição. Matemático, físico e filósofo, ele apoderou-se das tendências cientificas mais fundamentais da sua época e dominou-as. A sua doutrina é uma afirmação realista da independência total e da autossuficiência da nossa razão para atingir a plena verdade natural.
Descartes marcou a sua influência sobre a maior parte dos escritores do Grande Século: tornou-se o “filósofo da moda”. Todos os pensadores se ocupam dele; mas deste ponto de vista dividem-se em dois grupos: uns apenas o acolhem com reservas ou até o combatem; outros assimilam inteiramente o seu espírito e desenvolvem as consequências dos seus princípios.
Entre os primeiros citemos François de Salignac de La Mothe-Fénelon (1651-1715), que expõe claramente o método da dúvida universal: reconhece como fonte de verdade a intuição das ideias à luz interior de Deus “sol dos espíritos”; define o corpo pela extensão e a alma pelo eu pensante.
Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), quanto ao essencial permanece fiel à filosofia escolástica e declara que é uma estranha metafísica dizer que a substância da alma é apenas pensar e querer, mas mostra-se favorável a algumas ideias cartesianas.
Mas nem Bossuet nem Fénelon são filósofos de profissão: oradores, polemistas, educadores e, acima de tudo, teólogos católicos; a sua fé ativa preservou-os do racionalismo cartesiano.
Outros autores, tais como Pierre Daniel Huet (1630-1721), que toma posição contra Descartes; Pierre Gassendi (1592-1655), que defende os encontros dos átomos; a escola platônica de Cambridge com John Smith (1616-1652), Henry More (1614-1687) e Ralph Cudworth (1617-1688). Menos numeroso é o grupo dos espíritos fervorosos como Arnold Geulincx (1625-1669), Louis de la Forge (1632-1666), Claubert (1622-1665), que introduziu Descartes na Alemanha e R. Digby (1603-1665), que o levou para a Inglaterra.
Blaise Pascal (1623-1662) tem o seu caráter próprio. Digno de enfileirar com os grandes filósofos e também entre os cartesianos, ainda com mais justiça se disse dele: “Pascal não é um filósofo: é um sábio e um apologista da religião católica”.
Como sábio revela-se um mestre no método experimental e um apaixonado da verdade científica. A sua ideia principal é encontrar a demonstração e os princípios perfeitamente adaptados ao assunto. Por isso distingue com nitidez o domínio da história e da teologia, onde as provas dependem da autoridade, e o da razão, especialmente o das ciências físicas, onde mostra a necessidade dos progressos fundados sobre o raciocínio.
Como apologista deixou-nos os Pensamentos (Pensées) tão profundos como eloquentes, em que o seu esforço para converter o incrédulo supõe sem dúvida uma doutrina filosófica, mas difícil de desprender-se da sua obra.
Mas acima da razão, ele reconhece uma outra faculdade, que chama de coração, a qual apreende intuitivamente as verdades que escapam às demonstrações do raciocínio.
Vê a justeza das afirmações do bom senso, faz ver o valor do espírito de finura na vida ordinária, mas é também a faculdade dos primeiros princípios; apreende as definições e os axiomas da geometria.
É certamente bem distinto da razão. Sua famosa frase “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point) fala por si.
3.1.3. Racionalismo pós-cartesiano
Nicolas Malebranche (1638-1715), depois de ter lido o Tratado sobre o homem de Descartes, tomou-o de então por diante como o seu filósofo preferido.
Aceitando o cartesianismo nas suas teses mestras, quer guardar inteira liberdade de o corrigir e completar. A sua formação teológica permitiu-lhe aprofundar e criticar um dos pontos fracos do sistema: o inatismo das ideias claras e a sua relação com Deus, origem da sua verdade. Mas ao mesmo tempo a sua fidelidade inabalável à fé católica impediu-o de ir logicamente até à plena unificação do seu pensamento.
O princípio da ideia clara é inteiramente tomado de Descartes; enuncia que é necessário aceitar por verdadeiro apenas aquilo que nela é contido, quando se vê com evidência. Daí o seu desprezo da experiência, da erudição, e o caráter dedutivo a priori das suas teorias.
Mais original é o seu princípio do infinito, mas é menos absoluto e enuncia-se como uma tendência: “o infinito é a ideia clara suprema”. É por tal forma soberana que parece capaz de tudo unificar e explicar; mas como a aceitação franca deste princípio conduz ao panteísmo, Malebranche prefere modificar um pouco o seu sistema e admitir certa deficiência no valor das nossas ideias claras.
A aplicação deste duplo princípio ilumina três objetos principais: Deus pelo ontologismo; o mundo pelo ocasionalismo; e enfim o homem e a moral, onde se encontram ao mesmo tempo o ocasionalismo e o ontologismo.
O ponto de partida da filosofia, para Malebranche, está numa verificação dupla fornecida pela ideia clara do infinito: Deus existe, Ser infinito cuja claridade inteligível banha todas as nossas verdades. Da existência e do papel do infinito decorre esta tese: “É em Deus, única e imediatamente, que contemplamos o objeto das nossas ideias intelectuais”. Se, com efeito, cada uma destas ideias envolve a afirmação de infinito, é impossível, não só que qualquer objeto criado possa fornecer tão grande perfeição, mas que também a nossa alma finita a possa conter.
Só Deus pode conter o infinito e, com efeito, o Verbo de Deus vive o mundo ideal de Platão, possui os arquétipos eternos e infinitos de todas as coisas: as nossas ciências apenas têm por objeto essas ideias divinas e as suas relações essenciais. Assim se justifica o valor das ciências, especialmente as matemáticas cujo objeto, a extensão, é a ideia clara mais proporcionada à nossa razão e, portanto, a mais perfeitamente contemplada em Deus, já deste este mundo.
Esta teoria é a expressão mais franca do ontologismo, sistema que ensina a visão imediata e intuitiva de Deus, e, nesta luz divina, o conhecimento de todos os seres.
Rejeitadas as ideias inatas que Descartes admitira e excluída a possibilidade de qualquer comércio causal entre os objetos e a inteligência, força é recorrer a um intermediário para explicar a existência do mundo exterior. Deus é esse intermediário, diz Malebranche. Nele vemos as ideias eternas de tudo o que é. A contemplação direta da essência infinita explica, então, todo o conhecimento intelectual.
Descartes declara a matéria inerte e destituída de verdadeiras forças, reduzindo toda a atividade finita à simples transmissão e modificação de movimento. Malebranche atira a barra mais longe; nega, de todo, a causalidade às criaturas.
Só Deus é a verdadeira causa. Os seres finitos são apenas “causas ocasionais”, isto é, ocasião para o exercício da causalidade infinita, que, única e imediatamente, produz todos os efeitos. Se o mundo existe, criado e conservado por Deus, a isso limita o seu papel. Assim Deus é a causa de interação dos corpos. Essa, a filosofia do ocasionalismo.
Conquanto Deus tudo faça no universo, não torna inúteis as investigações científicas, porque atua segundo leis. As nossas ciências têm por objeto precisar estas leis particulares e ligá-las às vontades gerais. Deste princípio igualmente se segue que o mundo atual é o melhor possível, se não absolutamente, pelo menos pelo fato de comportar a maior soma de bem, obtido pelos meios mais simples.
O ocasionalismo, assim compreendido, é uma espécie de transposição da causalidade segunda, tal qual a doutrina escolástica. No entanto para Malebranche esta virtude própria torna-se um simples sinal ineficaz, mas que arrasta infalivelmente, segundo a lei da infinita sabedoria, a ação única eficaz de Deus.
Aplicando estas duas teorias ao homem, ele estabelece algumas teses de psicologia e deduz uma moral. A nossa alma está imediatamente unida a Deus e, por intermédio da causalidade divina, unida ao seu corpo; da mesma forma vê primeiro a ideia da extensão em Deus, por intermédio do qual conhece o corpo.
Distinguindo a realidade física do ato de vontade, por exemplo o ato de estudar, de falar, que apenas é por Deus produzido, ressalva a responsabilidade, base da moral, quase destruída pelo ocasionalismo, que roubou ao homem o seu ato livre.
Baruch Spinoza (1632-1677) foi educado por um rabino apaixonado pela exegese racionalista de Maimônides e bem cedo manifestou uma grande independência e audácia de pensamento. Para o seu espírito era fundamental a necessidade da unidade e, dentro em pouco, sob as influências das tradições judaicas da cabala, orientou-se para o panteísmo. Contudo como se trata de uma doutrina filosófica que identifica Deus como tudo o que existe, formando uma realidade integrada, algo diretamente oposto à doutrina dos Livros Santos, a sinagoga de Amsterdã solenemente o excomungou.
Dedicando-se à filosofia, após a leitura das obras de Descartes, encontrou no cartesianismo o quadro doutrinal que lhe permitiu mostrar rigorosamente o monismo que o havia fascinado. A sua obra principal Ethica more geometrico demonstrata, com definições, axiomas, teoremas, corolários etc. é o triunfo do método matemático da ideia clara.
Não somente ele adota o método da ideia clara, mas lhe dá a sua plena significação e a aplica com uma lógica rigorosa. Primeiro reivindica com inteira franqueza a independência total da razão em face da Revelação para atingir a verdade.
Segundo ele entre a fé e a filosofia “não há comunicação e assim não há que temer conflito. Nem a teologia está a serviço da filosofia nem a filosofia está a serviço da teologia”. Mas a Sagrada Escritura apenas pede ao crente que aceite o dogma único da existência de Deus e obedeça aos preceitos da justiça e da caridade. Todo o domínio da verdade especulativa e prática pertence à razão.
Spinoza cria na filosofia moderna uma primeira forma bem caracterizada de panteísmo, que se pode chamar de “intelectualista”, isto é, objetivo ou realista, que se pretende provar pela razão, por uma demonstração rigorosa.
Assim Deus é a substância única, conhecida pelos seus atributos. A ideia clara de substância é a de um ser que não carece de ninguém para subsistir, isto é, de ser perfeito que subsiste por si. Desta definição é preciso passar à afirmação de sua existência real.
Esta substância é infinita. Repugna que a substância, cuja definição inteira seja de existir por si, seja “não ser” por qualquer modo. Mas “ser finito” não se pode compreender senão como um não ser, uma limitação que é uma imperfeição. É pois impossível que a substância seja finita: é por definição infinita.
Esta substancia é única. Efetivamente uma segunda substância apenas é possível de se distinguir da primeira. Mas para isso é preciso que a primeira possua uma perfeição que não possui a segunda; assim é necessário que esta segunda substância envolva não-ser e seja finita, o que é impossível, por ser qualquer substância infinita.
Esta substância, conclui Spinoza, é Deus, Ser necessário, infinito e único, simples, imutável e soberanamente independente.
Se Deus é a única substância, é impossível encontrar fora dele qualquer outra. Mas segundo Spinoza, o mundo distingue-se de Deus pela sua natureza; assim se pode falar da sua emanação ou mesmo de sua criação, e é possível construir uma psicologia humana.
Não somente é evidente que a substância é única, mas é igualmente evidente que o mundo existe e é composto de seres múltiplos, móveis e muitos e, portanto, contingentes. Estas duas certezas conciliam-se admitindo um só Ser ou um só subsistente e duas naturezas realmente distintas.
A natureza divina é absolutamente simples e imutável. A natureza criada não pode existir em si mas somente em Deus e por Deus; assim é finita, múltipla e mutável, a qual constitui as coisas particulares das quais temos a experiência.
Em resumo: apenas há um Ser único, um único subsistente, mas a natureza do mundo, constituída pelos modos, é realmente distinta da de Deus, constituída pelos atributos. Os modos são a explicitação dos atributos, isto é, o seu desenvolvimento, necessário como um processo lógico e em sentido paralelo: o que explica a união da alma e do corpo e o caráter independente das nossas ideias.
A moral de Spinoza é indicativa e diz simplesmente o que acontece. Deste ponto de vista, o mal já não tem sentido, porque todos os acontecimentos são manifestações necessárias da providência de Deus que é, por essência, a Bondade. Portanto, tudo é bom: os crimes como as virtudes, tudo está justificado pelo fato de existir.
Mas nem tudo tem o mesmo grau de bondade. Entre os homens uns são “determinados” a conhecer os bens verdadeiros aos olhos da razão e depois a praticá-los; são os melhores, os virtuosos e são pelo fato determinados a serem felizes. Os outros, os viciosos também são “determinados” por outras influências que não a razão e por isso não são censuráveis, mas sim “desestimáveis”. Assim são legitimamente reprimidos, porque os primeiros são determinados a dominar os segundos, estabelecendo a justiça e a paz pública.
Para Spinoza, o desejo fundamental da alma subdivide-se em duas afeições: a tristeza e a alegria. Todos os outros sentimentos, ou seja, todo o problema moral se cifra em conquistar a alegria maior, a verdadeira alegria.
Em resumo: porque o panteísmo nega a liberdade, a moral de Spinoza diz simplesmente o que se faz e nega a própria ideia do mal, substituindo-a pela de desestimável. Mas porque toda a ideia se expande em tendência, as ideias inadequadas originam as paixões, fontes de tristezas, e a intuição das verdades eternas produz o amor intelectual de Deus, fonte de alegria verdadeira, finalidade da vida do sábio.
Durante o século XVIII a corrente filosófica originada em Descartes desenvolve-se em três ramos: uns, com Leibniz, exageram o espiritualismo cartesiano e sobem ao idealismo absoluto; outros, como La Mettrie e a maioria dos filósofos daquele século, agarram-se ao mecanicismo e precipitam-se no materialismo; a escola Inglesa enfim segue um curso intermediário, em que se fundem o idealismo e o positivismo.
O idealismo designa a tendência filosófica que consiste em reduzir toda a existência ao pensamento, isto é, aos fatos da consciência em duas formas: a) a que tende a reduzir a existência ao pensamento individual; b) a que tende a reduzir a existência ao pensamento em geral. Assim não conhecemos senão os nossos pensamentos e nada há de real a não ser os nossos pensamentos.
O positivismo é o sistema que admite um só modo de pensar para atingir a verdade, aquele cujo objeto não sobrepassa a experiência e, de ordinário, a experiência sensível. Assim só o conhecimento dos fatos é fecundo, o tipo de certeza é fornecido pelas ciências experimentais.
O empirismo é a doutrina que apenas reconhece como válida a experiência, quer em psicologia, como fonte única de conhecimento, quer em criteriologia, não baseando o conhecimento da verdade senão unicamente na experiência, fora da qual somente admite definições ou hipóteses arbitrárias.
Comparado ao positivismo, o empirismo parece antes designar um método e o positivismo uma doutrina, mas conduzindo o primeiro à segunda, apenas temos realmente um único sistema. Contudo, no século XVIII, a influência cartesiana sempre reconhecível e dominante não fica uma só, única, mas modifica-se por diferentes origens secundárias com as quais entra em reação. Daí o caráter fragmentário e transitório dos diversos sistemas.
Nascido em Leipzig, onde seu pai era professor na Universidade, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) formou-se, por assim dizer, sozinho, com a ajuda da biblioteca paterna. Leu avidamente, primeiro os antigos: Platão, Aristóteles e os escolásticos; depois aos 15 anos, os modernos: Bacon, Kepler, Hobbes, Galileu e Descartes.
Aos 20 anos empreendeu uma série de viagens pela Europa, entrando em relações diretas com os maiores sábios do seu tempo, Newton, Huygens, Malebranche, Spinoza, Arnaud, Boyle, Collins, com alguns dos quais manteve mais tarde assíduo comercio epistolar.
Gênio universal, foi historiador, filólogo, jurisconsulto e teólogo. Não foi apenas um filósofo original, mas também um sábio matemático; acabou a descoberta do cálculo integral e diferencial.
A sua obra parece ao mesmo tempo travar e impelir o espírito moderno; aparece primeiro como uma forte reação, em nome da doutrina tradicional, contra o individualismo e a crítica destrutiva de Descartes. Respeita e utiliza os antigos: o seu desejo é reencontrar o que ele chama de “Filosofia perene”, constituída pelos elementos de todos os sistemas.
Na verdade, o espírito geral desta filosofia é mesmo cartesiana. É um esforço para reconstruir o mundo fora da experiência, determinando-lhe os elementos primordiais simples e combinando-os depois segundo o método rigoroso das matemáticas. É um novo ensaio de aplicação do método da ideia clara.
A ideia diretriz de Leibniz pode exprimir-se na proposição seguinte: “Existe uma ciência universal do tipo matemático capaz de dar a razão, a priori, de tudo o que existe”. Assim continua o método da ideia clara, ainda que contradizendo e criticando Descartes em vários pontos importantes.
O seu ideal é resolver todos os problemas que o espírito humano põe a si próprio com a mesma clareza que em matemática, onde a prova exclui as controvérsias tão frequentes em outros assuntos. Teria mesmo desejado substituir o raciocínio por cálculo, a exemplo da álgebra.
Para isso trabalhou longo tempo na constituição duma “característica universal”, onde todas as ideias das diversas disciplinas seriam substituídas por sinais (como as letras em álgebra), de modo que fosse possível resolver qualquer problema por uma espécie de cálculo lógico.
Dispunha para isso não só do cálculo ordinário, mas também dos recursos do cálculo infinitesimal e integral que acabara de inventar. Assim conquanto admitisse o princípio de Spinoza “Toda a substância é infinita”, evitava o panteísmo, porque, segundo ele, pode haver vários infinitos.
Desse modo a série dos números que ligam 1 a 2, sejam 1 + ½ + 1/4 + 1/8 + 1/16 etc. é infinita, quer se trate de um comprimento, dum peso, duma superfície etc. Da mesma forma cada uma das características criadas contém em si mesma a série infinita dos acontecimentos do mundo, mas cada uma do seu ponto de vista. São infinitos “sob um certo aspecto”.
Por seu turno poderá ser substituído por uma série infinita de substâncias, comparável à série infinita de quantidades que ligam 1 a 2, concebendo-se Deus como limite, a perfeição suprema na qual toda a série encontra a sua razão de ser. Assim se constitui uma ciência de tipo matemático.
A teoria fundamental de Leibniz supõe que toda a afirmação verdadeira se reduz como na matemática à identidade de dois termos: “toda a proposição verdadeira é analítica”.
Segundo ele é sempre possível encontrar, na análise do sujeito, a razão a priori do predicado, não somente nas afirmações universais e necessárias, onde se deduzem as propriedades da essência como “todo o triângulo têm os seus três ângulos iguais a dois retos”, mas também nas afirmações de fato como: “César venceu Pompeu em Farsália”.
É neste sentido que ele põe na base de toda a especulação dois grandes princípios: o da identidade: “todo ser é o que é” e o da razão suficiente: “nada existe sem razão suficiente”. Se o princípio da identidade reina como senhor nas ciências matemáticas, o da razão suficiente é destinado a estender esta evidência a todas as outras matérias, tanto históricas, morais e religiosas, como físicas e metafísicas.
Leibniz esforçou-se em realizar o seu ideal em todos os domínios. Em religião dele concluía a possibilidade dum acordo de todas as confissões a partir de dados comuns e, com este fim, se dirigiu a Bossuet: mas o vírus racionalista que viciava a sua tentativa a fez abortar. Aplicando-o ao domínio metafísico, construiu um sistema filosófico original e bem unificado.
À concepção cartesiana dos corpos como substâncias extensas e inertes Leibniz opõe o dinamismo monadológico. Toda a substância é essencialmente ativa, que não age nem existe, e como a força é simples, os corpos constam de elementos inextensos e ativos.
Estas unidades simples de forças chamam-se mônades. Sua atividade é exclusivamente imanente, não havendo, portanto, entre os seres criados verdadeira reciprocidade de ação.
Não há duas mônades perfeitamente iguais. A sua imensa série dispõe-se segundo o grau de atividade representativa em escala hierárquica onde, em virtude do princípio de continuidade: a natureza não faz saltos (natura non facit saltus), as transições operam insensivelmente.
Nesta escala ele distingue quatro grandes ordens: 1ª) mônades nuas que constituem o reino mineral e as plantas, dotadas de representação inconsciente; 2ª) mônades sensitivas, capazes de representação consciente ou apercepção; constituem as almas dos brutos; 3ª) mônades racionais ou almas humanas, enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa; 4ª) mônade suprema ou Deus, absolutamente perfeita, causa eficiente de todas as outras.
Negada às mônades a faculdade de agirem transitivamente umas sobre as outras, como explicar a origem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. Deus ab aeterno regularizou todas as ações das mônades por tal forma que se correspondessem como se houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca.
Na ordem do real encontra-se a aplicação especial do princípio da razão suficiente, para demonstrar a existência de Deus, explicar a criação e a liberdade.
O título de teodiceia, justificação de Deus, foi pela primeira vez empregado por Leibniz no seu sentido mais restrito e posteriormente estendido a toda a teologia natural.
A existência de Deus é provada a posteriori pelo princípio da razão suficiente, que exige uma causa necessária como razão de quanto existe; pela harmonia preestabelecida, que requer uma suprema inteligência ordenadora; e a priori pelo argumento ontológico: Deus é possível, logo existe.
Na inteligência divina, que conhece tudo o que não implica contradição, existe um número infinito de universos possíveis. Cada um deles não tem uma exigência necessária para existir, pois é puro possível. Aí está a sua teoria do otimismo. O mundo atual é para ele o mais perfeito dos mundos possíveis.
A nossa atividade racional, como a de Deus, deve ter uma razão suficiente; se a liberdade fosse uma potência de agir sem razão seria irracional, absurda e má. É pois necessário concebê-la, por um lado, como uma energia espontânea que, pela sua operação natural, satisfaz uma tendência natural não imposta, e com isso manifesta a sua independência; mas, por outro lado, o seu ato é infalivelmente determinado a escolher o objeto que, em dada circunstância psicológica, se impõe como melhor e com isso encontra também uma razão suficiente.
Se o termo “filosofia positiva” apenas se inventou no século XIX, a corrente de ideias que recobre remonta incontestavelmente ao século XVII e tem sua origem na terceira parte do cartesianismo, que explica o mundo corporal pelo puro mecanicismo.
Foi na Inglaterra que encontrou o seu terreno de eleição: ali floresceu desde o século XVII com o sistema de Hobbes, síntese notável do “empirismo baconiano” e da dedução matemática cartesiana. Além disso, conquanto entrasse a fundo na corrente positivista, até o ponto de ensinar o materialismo, guarda o gosto das vastas construções, que ocupam os grandes pensadores do século XVII: os Descartes, os Spinoza e os Leibniz.
Entrando no entanto o século XVIII verifica-se certo “cansaço” no esforço intelectual. As sínteses poderosas são abandonadas; os filósofos – ou os que se enfeitam com este título – são numerosos, mas se ocupam apenas de problemas fragmentários. O mais importante destes problemas é o do valor dos nossos conhecimentos, posto em honra pelo “Essay” de Locke, que caracteriza a corrente mista com a reação mental que suscitou.
Os outros filósofos, quer em França quer na Inglaterra, enfileiram sem grande dificuldade na esteira do positivismo. Muitos são antes de tudo sábios ou admiradores de Newton, um dos melhores obreiros da ciência positiva, e esta admiração, unida à vulgarização de Locke, forma uma boa parte dos “Filósofos franceses” do século XVIII. Outros, continuando as preocupações práticas tão aparentes em Francis Bacon, agradam-se com as questões de moral e de economia política, esforçando-se já por aplicar-lhe as regras da ciência positiva.
Mesmo aqueles que se ocupam da filosofia religiosa proclamam acima de tudo os direitos da razão natural, atacando a Revelação e deixando Deus tão longe dos homens que se encaminham, parece, para a religião puramente humana do positivismo.
3.1.4. Empirismo, materialismo e Iluminismo
Thomas Hobbes (1588-1679), amigo e discípulo de Bacon, matemático, teórico político e filósofo inglês, foi discípulo e amigo de Bacon. Na filosofia forçou até ao materialismo as consequências dos princípios do mestre. Suas obras mais conhecidas são Leviathan e Elementos Filosóficos.
Ele define a filosofia como o estudo das coisas à luz da pura razão e dela exclui, de início, tudo o que depende da Revelação. Mas, segundo ele, a razão apenas descobre no universo corpos mensuráveis, cujas propriedades se explicam pelo movimento. Tal o princípio fundamental de onde decorre a divisão dos outros tratados; porque os corpos formam dois grandes gêneros: uns são produzidos pela natureza: são objeto da física; outros são formados pela vontade do homem, são os corpos sociais, onde se distinguem os movimentos de cada alma individual, objeto da ética; e os contratos entre várias pessoas, objeto da política.
Mais do que pelo seu materialismo, Thomas Hobbes ficou conhecido como autor de uma das mais exóticas teorias da origem do estado e da sociedade civil. Suas principais obras foram Leviatã (1651) e Do Cidadão (1642). A condição primitiva da natureza humana foi a vida isolada e independente, em que os homens, profundamente egoístas, e isentos de qualquer moral, viviam em perpétua luta com os seus semelhantes: “guerra de todos contra todos, o homem é o lobo para o homem”.
O homem acabou compreendendo que a guerra era inimiga do progresso e que a paz e a união seriam de maiores vantagens para os seus interesses, então instituíram – por um pacto livre – a sociedade civil. A conservação desse novo estado, continuamente ameaçado na sua existência pelos instintos egoístas, exige, segundo ele, um Poder forte, capaz de reprimi-los energicamente.
Semelhante poder só se encontra num tirano único, despótico, inquestionável. A monarquia absoluta é a única forma de governo que pode assegurar a paz social e impedir a volta à pior das condições da vida: o estado de guerra permanente. Segundo ele, tal é a origem da sociedade civil. Leviatã é o monstro horrível que devora e absorve os direitos individuais. A vontade do príncipe é a norma suprema da moral e da justiça, o árbitro das consciências e o juiz infalível da verdade em matéria religiosa.
O sistema de Hobbes apresenta-se primeiro como uma bela construção, onde as teses se escalam e ligam solidamente pelo cimento de uma lógica vigorosa.
Pelo seu mecanicismo universal, pelo seu empirismo que reconhecia a experiência como fonte única da verdade, Hobbes continua a corrente positivista inaugurada de maneira ilustre por F. Bacon. Mas enquanto este corre atrás da pesquisa dos fatos, apropriando-se no positivismo da fase indutiva, Hobbes, ligado ao ideal matemático, põe em relevo a fase dedutiva.
Mas foi sobretudo pela sua doutrina sobre o homem que ele se impôs à atenção, e é aí que se encontram as melhores partes de sua obra. Pelas suas análises psicológicas é um precursor da psicologia experimental, que veio a florescer nos séculos XVIII e XIX.
O seu esforço para submeter a vida moral a leis mecânicas será continuada nas doutrinas dos economistas.
Até a sua política, apesar do absolutismo, deduzido a priori e contraditado pelos fatos, se imporá à atenção dos juristas e forçará os sociólogos a examinarem de perto a origem da sociedade.
Entre os partidários de Hobbes no século XVII pode ser citado Lambert van Velthuysen (1622-1685) na Holanda. Na sua carta sobre os princípios da justiça e da decência, faz apologia do livro “De Cive” (A respeito do Cidadão), de seu mestre, no qual adota o princípio fundamental da conservação da pessoa, conquanto reconhecendo o papel de Deus Criador, da Providência e da sanção suprema do direito.
Na Alemanha seu discípulo muito conhecido é o jurista Samuel von Puffendorf (1632-1694), professor de direito nas Universidades de Heidelberg e de Lund. Foi um dos expoentes do Direito natural, ou Jus naturalismo, que nada mais é que o direito natural, portanto anterior ao ser humano e com existência independente do mesmo. Foi também o criador do “Transpersonalismo”, definido como a necessidade de realizar o bem coletivo para salvaguardar os interesses individuais. E na inexistência de harmonia entre o bem do indivíduo e o bem do todo, preponderam os valores coletivos.
Seus escritos influenciaram de forma duradoura o ensino do Direito na maior parte da Europa, com destaque para os países de tradição católica, entre os quais Portugal, onde suas obras foram adotadas como manuais na Universidade de Coimbra.
Já em suas obras “Elementos de Jurisprudência Universal” e “O Direito da Natureza e das Gentes” (1672) faz o elogio de Hobbes e dele colhe mais de uma doutrina, sem no entanto deixar de corrigi-las. Para ele a origem da sociedade é o amor pela própria pessoa, um egoísmo “simples” que, primeiro impele os homens a lutarem contra os que ameaçam seus meios de existência; mas também os inclina a se apoiarem em seus semelhantes para satisfazer as suas necessidades mútuas.
Podem distinguir-se três grupos entre os filósofos que se inspiram do espírito positivista na Inglaterra do século XVIII: os que insistem depois de Newton sobre o ponto de vista das ciências positivas; os que reivindicam, com os deístas e livres pensadores, os direitos de uma razão que podemos chamar “positiva”; e enfim aqueles que mais especialmente se ocupam de moral e de política.
Isaac Newton (1642-1727) fez seus estudos em Cambridge onde, depois de Francis Bacon, o espírito científico fizera grandes progressos; lá tornou-se mestre em artes em 1668 e seguiu as lições do geômetra Barrow (1630-1677) ao qual sucedeu em 1669 na cadeira de ótica. Tornou-se membro da Sociedade Real de Londres, em 1672, da qual foi presidente a partir de 1703. O rei Guilherme III o nomeou como “diretor” e depois “mestre” da Casa da Moeda Real, cargo este que conservou até a sua morte.
Suas grandes produções literárias são: “Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural” (1687) e “Ótica” (1704). A obra de Newton é acima de tudo científica; em astronomia principalmente a doutrina da gravitação universal apresentava uma poderosa síntese, onde um grande número de fatos e de leis descobertas anteriormente encontravam a sua explicação. Era uma posição científica sobre os fenômenos da natureza que aparecia no século XVIII como verdadeiramente nova e desde logo se impôs, destronando a de Descartes.
Samuel Clarke (1675-1729) foi um clérigo anglicano, que é considerado como a principal figura britânica na filosofia entre John Locke e George Berkeley.
Ele não segue Newton somente em física; admite também um “espaço e tempo absolutos” dos quais faz espécies de atributos divinos neste sentido pelo menos: que estão em Deus como no seu sujeito de inesão, de modo que são necessariamente eternos e infinitos.
Mas Clarke é sobretudo um teólogo e um apologista que se propõe defender por meio da razão e do raciocínio “as grandes concepções cristãs” da transcendência divina, da responsabilidade moral, da liberdade, imortalidade da alma, valor absoluto da ética, as causas finais, etc. Eis por que trabalhou toda a vida contra os “livres pensadores” e “deístas anticristãos”.
No fim do século XVII e no século XVIII muitos escritores na Inglaterra e também na França se enfeitam com o título de deístas: queriam, sobretudo, por esse meio garantir-se contra a acusação de ateísmo universalmente temida.
Suas doutrinas, por outro lado, são diversas: apenas estão de acordo sobre a admiração da física newtoniana e a hostilidade contra a Revelação protestante ou católica. Este último traço fez com que fossem chamados nas controvérsias da época de “free-thinkers”, livres pensadores.
John Toland (1670-1722) é o primeiro representante dos deístas ou livres-pensadores. Nascido na Irlanda de pais católicos, abraçou o presbiterianismo para cair enfim na incredulidade. Na sua obra “Christianity not Mysterious” (1696), nas suas “Letters to Serena” (1704) e no seu “Pantheisticon” (1720) desenvolveu os temas habituais do anticlericalismo: diatribes contra os padres aliados do poder para explorar o povo, acusação de superstição contra o culto religioso, elogio do cristianismo primitivo isento dos mistérios inventados propositadamente depois etc.
Como filósofo defende o mecanicismo universal e interpreta-o, como Hobbes, num sentido materialista. Para ele Deus não é mais que o universo corpóreo no seu conjunto, do qual provém todo o ser pela aplicação das leis mecânicas; e o próprio pensamento não é mais que uma modificação do cérebro.
Mathew Tindal (1656-1753), que ocupa alta situação no clero inglês e Thomas Woolston (1669-1731), um dos grandes inimigos do clero anglicano, estão de acordo em respeitar a Bíblia, mas buscam nela uma religião puramente racional sem mistérios e sem milagres. Esta confusão entre o domínio da Revelação e o da Filosofia, reduzindo a primeira à segunda, caracteriza muitos pensadores do movimento deísta.
Anthony Collins (1670-1720) em sua obra Discurso sobre o livre pensamento é mais agressivo, acusando a Bíblia de extravagâncias e rejeitando os milagres como embustes. Ensina que o pensamento é propriedade ou afecção da matéria sobre os nossos sentidos.
David Hartley (1705-1757) expõe também uma doutrina empírica mas limita-se à análise psicológica sem entrar no problema crítico.
Finalmente John (Joseph) Pristeley (1733-1804) afirma que o pensamento tem a sua origem nas vibrações dos nervos frontais, mas ao mesmo tempo repele o ateísmo e pretende conciliar suas teorias materialistas com a existência de Deus, ao mesmo tempo que reduz o cristianismo a doutrinas meramente racionais.
O que caracteriza a moral positivista inglesa no século XVIII é que não baseia as suas regras de ação sobre Deus ou acima de uma autoridade ou instituição mas sobre a observação científica das tendências humanas.
Deste ponto de vista distinguem-se dois grupos de moralistas: uns verificam no homem sobretudo o egoísmo (como o fizera Hobbes) e defendem diversas oras de utilitarismo; os outros descobrem em nós tendências altruístas e expõem uma moral sentimental.
Bernard de Mandeville (1670-1733), médico holandês, expõe a tese egoísta na sua obra famosa “A fábula das abelhas: ou Vícios privados, Benefícios públicos”, (1723). Nessa obra esforça-se por mostrar que, longe de assentar sobre inclinações altruístas, a sociedade tem suas bases no egoísmo e o seu progresso social e político tem por estimulante indispensável as paixões e os vícios dos particulares.
O que o século XVIII reteve dessa tese foi sobretudo a afirmação do pleno acordo entre o egoísmo e a utilidade social.
Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo e jurista, professa abertamente um utilitarismo que pouco difere do hedonismo epicureu. A utilidade do indivíduo e da sociedade são as únicas normas morais. Cabe ao moralista o dever de classificar os prazeres em série hierárquica, a fim de melhor aquilatar o valor moral das ações.
O defeito capital de quase todos os moralistas é erigir, como norma suprema de moralidade, uma regra inteiramente subjetiva, de onde decorrem consequências que são duma gravidade extrema.
A moral do sentimento está representada por um grupo de moralistas, que deu origem à escola escocesa. Citemos Adam Smith (1723-1790), filósofo e economista, que teve como cenário para a sua vida o atribulado Século XVIII mais conhecido na história como o Século das Luzes.
Smith é o pai da economia moderna e é considerado o mais importante teórico do liberalismo econômico. Em 1759 publicou sua “Teoria dos Sentimentos Morais”, uma das suas mais conhecidas obras. Ali ele se preocupa em explicar a aprovação e a desaprovação moral. Nomeado preceptor do jovem duque de Buccleuch, esteve com ele em Paris em 1765 onde frequentou os economistas. De volta à Inglaterra preparou “A Riqueza das Nações”, que apareceu em 1776.
Smith baseia toda a sua moral sobre o sentimento de simpatia, que define como “a comunicação à nossa alma das emoções de outrem”, e afirma ser o único meio de, na prática, definir o que é o bem. E só se chega a isso pela simpatia (ou a antipatia e repulsa) que sentimos, as quais se traduzem por um “juízo de aprovação do bem e de reprovação do mal”. Mas esta simpatia só terá “valor moral” se for perfeitamente desinteressada: vale em primeiro lugar para os outros, os sentimentos que os outros têm ao meu respeito. Se tratar-se de nossa própria vida, é preciso se colocar na posição de um espectador imparcial e desinteressado. Donde a regra fundamental que resume esta moral: “faremos sempre o bem, se agirmos de modo a merecer a simpatia mais pura e universal possível”.
Os fisiocratas franceses defendiam que a verdadeira riqueza de um país estaria em seus bens e serviços, não no acúmulo de superávits comerciais, como defendiam os mercantilistas ingleses. Eles adotam o mesmo princípio teórico de A. Smith, de que existem leis econômicas naturais, que é preciso respeitar, e que as velhas associações corporativas da Idade Média entravavam. Eles tem no entanto uma opinião divergente no domínio prático, vendo a fonte das riquezas na agricultura, mais do que na indústria.
François Quesnay (1694-1774) foi o primeiro e o maior expoente dos fisiocratas franceses. Suas ideias levaram às destruições da Revolução Francesa (1789) e à Lei Le Chapelier (1791) que proibia qualquer associação econômica.
Quesnay é conhecido por sua “Tabela Econômica” (1758) que forneceu os fundamentos para as ideias fisiocráticas; e foi talvez o primeiro trabalho tentando descrever o funcionamento da economia de uma forma analítica, e como tal pode ser visto como uma contribuição à economia mundial. Em “O Despotismo da China” (1767) descreve a política e a sociedade chinesas, mas também seu apoio pessoal e político ao “despotismo esclarecido”.
Julien Offray de La Mettrie (1709-1751) é o primeiro em data dos filósofos que continuam o cartesianismo, realizando a unidade em proveito do mecanicismo e do materialismo pela supressão do pensamento espiritual.
Médico e filósofo francês e o primeiro autodeclarado materialista na era do iluminismo, e um de seus representantes mais provocativos. Foi um precursor de grandes descobertas da fisiologia, especialmente no âmbito da neurologia.
Suas ideias ateístas e anticlericais, escritas em um estilo irônico e libertino, afirmado com demasiada franqueza, provocaram um forte antagonismo com o poder político e religioso da época e fizeram-no banir sucessivamente da França e da Holanda, refugiando-se junto de Frederico II da Prússia.
Intitula os seus livros de O Homem Máquina e O Homem Planta, e neles ensina que toda a realidade é apenas matéria e movimentos regulados pelas leis necessárias da mecânica (Teoria do mecanicismo). Por consequência Deus e a alma não passam de quimera; mas ainda não ousa tirar as conclusões morais.
Jean le Rond d’Alembert (1717-1783) é um dos pensadores mais brilhantes do Iluminismo. Matemático, físico e filósofo, deu também importantes contribuições à astronomia: foi o primeiro a explicar o fenômeno da precessão dos equinócios a partir das leis de Newton por meio de cálculos precisos. Participou na edição da Encyclopédie, a primeira enciclopédia publicada na Europa.
É autor de um Tratado da Dinâmica, do Discurso Preliminar da Enciclopédia etc. Neste último expõe a origem e a classificação das diversas ciências, excluídas como inúteis as doutrinas metafísicas e religiosas.
Enfatizava a importância da ciência prática e observável em detrimento de sistemas filosóficos abstratos. Era um empirista, enfatizando o papel da experiência sensorial na formação do conhecimento. Argumentava contra o raciocínio puramente especulativo, favorecendo uma abordagem mais baseada na evidência. Como muitos pensadores do Iluminismo, d'Alembert enfatizava o papel da experiência sensorial na formação do conhecimento.
Argumentava contra o raciocínio puramente especulativo, favorecendo uma abordagem mais baseada em evidências. Forte defensor da liberdade na investigação científica e no pensamento intelectual, opondo-se ao dogmatismo e defendendo uma abordagem racional e baseada na investigação para entender o mundo.
Denis Diderot (1713-1784) foi um filósofo, escritor e enciclopedista francês, uma das mais proeminentes figuras do Iluminismo, movimento político-filosófico que se caracterizou pela defesa dos direitos e da liberdade dos cidadãos. Ganhou destaque com a idealização e organização da "Encyclopédie" em parceria com d’Alembert no século XVIII.
Esse trabalho inspirou a criação de uma obra de referência e consulta geral, que apresentasse um panorama dos conhecimentos humanos e pudesse integrar as novas ideias que estavam circulando na época. O objetivo era destacar princípios essenciais das artes e das ciências, indo contra as ideias antiquadas da Igreja e do Estado.
Escreveu os Pensamentos filosóficos, Da suficiência da religião natural etc. e sobretudo numerosos artigos na Enciclopédia, que fica toda a seu cargo a partir de 1759. Aí defende com ardor o naturalismo, dando vida a todo ser material e concebendo a natureza como uma fonte de evolução, onde se vêm reabsorver os seres particulares.
Jean-Baptiste-René Robinet (1735-1820) foi um filósofo naturalista francês, conhecido por ter sido um dos precursores da teoria da evolução e um dos continuadores da Encyclopédie de Diderot, para a qual escreveu um suplemento em quatro volumes.
Participou da edição em 30 volumes do Dicionário Universal das Ciências Moral, Econômica, Política e Diplomática, a Biblioteca do Homem de Estado e do Cidadão.
Em sua obra Sobre a Natureza (1761) formulou o conceito de que os organismos vivos se transformam, formando uma cadeia ininterrupta que sobe até o homem. Essa ideia a desenvolve nas suas Considerações Filosóficas da Gradação das Formas do Ser. A natureza não era Deus, mas evoluiu necessária e eternamente da essência divina. Para ele a criação é o trabalho eterno da deidade, que desde a eternidade tem trabalhado e progredido suavemente à maneira da natureza.
Claude Adrien Helvétius (1715-1771) foi um filósofo e literato francês que aplicou os métodos positivistas ao estudo da vida consciente. Pretendeu ampliar o empirismo às questões morais e políticas.
Considerava que todas as ideias eram apenas afecções dos sentidos, não havendo qualquer faculdade especial de reflexão que fosse distinta das sensações. Essa fonte única de todo conhecimento servia de base para a doutrina ética e social, segundo a qual todos os homens seriam iguais e teriam as mesmas aspirações. Todos os comportamentos humanos seriam fundamentados no interesse. Proclama o prazer, fonte única de toda a atividade moral do homem, professando abertamente o egoísmo, o fatalismo e o ateísmo.
Nos seus livros Sobre o Espírito e Sobre o Homem, supondo que tudo no espírito provém da sensibilidade física, mostra que as diversidades psicológicas são os efeitos das paixões e que estas se cifram na procura do prazer e na fuga à dor. Mas a educação e a sociedade são capazes de regular estas paixões para o bem do conjunto, porque o ideal da legislação é de ligar por tal forma o interesse geral ao interesse particular, que cada um ache sempre mais interesse em observar a lei do que em a violar. Mas para isso era indispensável combater os grandes obstáculos constituídos pelas superstições e preconceitos religiosos, fomentados pelo egoísmo da classe sacerdotal.
Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquês de Condorcet, normalmente referido como Nicolas de Condorcet (1743-1794) foi um filósofo e matemático francês que, no seu célebre Ensaio de um Quadro Histórico do Progresso do Espírito Humano, aplica o mesmo método positivista ao estado dos espíritos, não já em cada indivíduo, mas para explicar a evolução das ciências da humanidade.
Distingue dez períodos nesta evolução que vai, segundo ele, se aperfeiçoando incessantemente, cada vez se libertando mais da tutela religiosa e dogmática, para alcançar o desenvolvimento das ciências experimentais inaugurado no século XVI. Demais, estas ciências têm diante de si um campo de ação ilimitada e os seus progressos não findarão nunca.
Da primeira à nona história do progresso espiritual ele narra a trajetória da humanidade desde o início hipotético até à Revolução Francesa. Na décima época ele pretende mostrar os progressos que a humanidade fará no futuro. A sua principal ideia é a inevitabilidade do progresso e do racionalismo. Declara que a regularidade do avanço dos conhecimentos humanos forma a dinâmica da história. As épocas vão passando com estágios de superação, onde o espírito humano acumula cada vez mais conhecimento. Dessa maneira o dever dos filósofos é apenas acelerar esta marcha inexorável do progresso.
Paul-Henri Thiry, nascido Paul Henrich Dietrich von Holbach (1723 – 1789) foi autor, filósofo, enciclopedista franco-alemão, amigo e mecenas de filósofos, além de ter sido uma figura proeminente do iluminismo francês.
Apesar de ter nascido na Alemanha Holbach viveu e trabalhou principalmente em Paris, onde mantinha um salão literário — a “Coterie holbachique“ — frequentado por Diderot, Grimm, Condillac, Condorcet, D'Alembert, Marmontel, Turgot, La Condamine, Raynal, Helvétius, Galiani, Morellet, Naigeon e, por algum tempo, também Jean-Jacques Rousseau
D'Holbach é principalmente conhecido por sua forte posição ateísta e seus muitos escritos contra a religião. Acusa seus representantes de a terem inventado para dominar o povo. Sua posição ateísta começa com a negação da existência de Deus e afirma ser o universo não mais que um movimento eterno e variado da matéria.
Sua obra que mais claramente expõe suas ideias foi o “Sistema da Natureza (1770) onde se propõe a “edificar uma nova moral inteiramente livre de qualquer religião positiva”. Em todos os seus escritos tenta mostrar que a ordem não é o efeito de um plano divino, mas das leis da física.
Quanto à sociedade, parte do princípio de que a lei dos atos humanos é amar o prazer e evitar a dor; verifica que a sociedade se funda no favor mútuo, e julga que a moral universal visa ensinar a cada um o meio de ajudar os outros pelas recompensas e os castigos que promete. Conclui que o problema moral é principalmente de legislação: trata-se de estabelecer um sistema de sanções tal que o homem seja impelido pelo prazer a cumprir atos virtuosos, isto é, úteis aos outros.
François-Marie Arouet (1694-1778); mais conhecido como Voltaire, sem ser propriamente um filósofo, muito falou de filosofia, especialmente nas obras “O Filósofo Ignorante”, “O Tratado da Alma”, “Os Diálogos de Evêmero” – que, aliás não são suas obras mais conhecidas – e em seus artigos do Dicionário Filosófico.
Ele combate os enciclopedistas, mas prossegue, como eles, a destruição de qualquer religião, sobretudo do catolicismo. Seus críticos falam que as grandes especulações o desanimam; tem horror pela metafísica.
Sem doutrina própria, é um vulgarizador, especialmente de Locke. Nunca duvidou da existência de Deus, mas não vê nele mais que “o sábio autor de uma natureza útil ao homem”.
Sua ideia mestra é a luta contra a intolerância, isto é, contra todo o dogma, e reivindica, incansável, a plena independência da sua razão em face de qualquer autoridade divina e humana. Nisso a sua obra merece ser associada à da filosofia moderna.
A conclusão a que se chega é que o caráter comum de todos esses filósofos é o abandono das teses espiritualistas e metafísicas, que faziam a grandeza do cartesianismo.
Já não se é atraído senão pelo mecanicismo. Doravante ele empolgará irresistivelmente os pensadores, depois dos magníficos êxitos de Newton (1642-1727), um dos mestres do século XVIII.
A mediocridade dos espíritos é tão grande neste século de decadência filosófica que a consideração das leis da natureza conduz rapidamente a não ver qualquer outra realidade, que não seja a matéria.
Para arrastar também os filósofos ao materialismo, a necessidade de unidade juntava-se ao desejo de simplicidade, porque o modo de existência e de operação da alma espiritual na glândula pineal é pouco inteligível. No entanto, a ciência moderna trazia seus alentos, multiplicando as suas objeções contra a alma, pois a existência desta seria inútil, visto que se começa a explicar tudo sem ela.
No início do século XIX as descobertas científicas, sobre-excitando a esperança duma “Ciência mecanicista universal”, parecerão justificar as teses materialistas e explicarão, pelo menos, o seu êxito.
Parece, à primeira vista, que as duas orientações, idealista e positivista, sejam contraditórias e exclusivas; porque uma, exaltando a ideia, favorece o espiritualismo; a outra, cingindo-se à experiência sensível, dá o primeiro lugar aos fatos materiais e tende a sacrificar o espírito.
A história da filosofia ensina-nos que não é assim e que se pode sustentar ao mesmo que tudo é ideal e que tudo é corporal: basta para isso tomarmos ideia ou pensamento no sentido cartesiano de "fato de consciência", e reduzir todos os fatos de consciência à ordem sensível.
Esta evolução foi levada a cabo no século XVIII sobretudo na Inglaterra por três degraus: 1) Locke respeita ainda a noção de causa, mas abala fortemente a de substância. 2) Berkeley sacrifica toda a substância corporal e apenas guarda o espírito; mas, durante este tempo, Condillac, em França, sacrificava o espírito, explicando toda a vida consciente pela sensação. 3) Enfim Hume, levando a crítica a fundo, rejeita qualquer causa e apenas retém os fatos de consciência e suas leis.
Estes filósofos continuam através do século XVIII a série dos grandes pensadores, neste sentido pelo menos, pois continuam e aprofundam um problema importante da filosofia moderna: o do valor do conhecimento, e buscam a solução pelo meio de método cartesiano. Mas fiéis ao ponto de vista concreto da filosofia inglesa, adotam ao mesmo tempo a tese empirista da qual deduzem progressivamente todas as consequências na ordem crítica.
John Locke (1632-1704), filósofo inglês, foi uma das mais importantes figuras do empirismo. Exerceu grande influência sobre vários pensadores da sua época, entre eles Berkeley e Hume.
Quando leu Descartes, ficou encantado com a maneira como ele encarava os grandes problemas pelo seu centro, apelando, primeiro que tudo, para a ideia clara e distinta e, sem admitir todas as suas teorias, tornou-se um fervoroso adepto do seu método.
Sua obra fundamental intitula-se Essay concerning human understanding. Thoughts on education e Letters on toleration são tratados menores. Toda a sua obra é dominada por três tendências: o amor da tolerância, o atrativo para as ciências positivas e a estima do método cartesiano.
Do ponto de vista filosófico teve o mérito de retomar um dos problemas cuja elaboração honra a filosofia moderna: o do valor do nosso conhecimento.
George Berkeley (1685-1753) leu Platão, Descartes, Malebranche e Locke. Viajou pela França, Itália e Estados Unidos e morreu bispo anglicano na Irlanda. Entre outras obras menos importantes escreveu Theory of vision e Treatise concerning human knowledge.
O seu sistema toma o nome de imaterialismo porque, prosseguindo a marcha lógica do empirismo para o idealismo, nega a realidade de qualquer substância material e apenas aceita os espíritos (alma e Deus) sujeitos das ideias.
Esta negação da matéria, que causou escândalo no século XVIII, estava em germe na teoria da ideia clara, tomada como objeto único das nossas ciências. Descartes, considerando nossas ideias como representativas ou dotadas de valor objetivo, assinalava-lhes como razão de ser a existência das coisas representadas.
A intuição central de Berkeley é de dar como razão de ser às ideias, não já o seu objeto, mas o sujeito que as produz. Segundo ele, “as nossas ideias, que são objeto único das nossas ciências, explicam-se plenamente pela atividade do espírito”, seja do nosso espírito, seja do Espírito soberano, Deus; tal é o princípio fundamental do sistema.
Berkeley, adversário irredutível da matéria, de forma alguma se opõe ao conhecimento sensível nem sequer à experiência externa. Adota, pelo contrário, o ponto de partida de Locke e distingue primeiro três espécies de ideias: 1) as que são impressas atualmente nos sentidos; 2) as que provêm das afecções dos sentidos (reflexão); 3) as ideias complexas obtidas por combinação das precedentes, e reduz todo o valor destas últimas ao das simples.
Locke afirmara que imediatamente nós só conhecemos as ideias e delas concluímos a existência dos corpos. Berkeley por sua vez fala que só é lícito afirmar a existência do que conhecemos. Ora, só conhecemos as ideias, logo só as ideias existem.
Qual a origem das nossas ideias? Deus e as almas, as únicas substâncias existentes, As ideias são o intermediário, porque Deus se comunica diretamente às inteligências, falando-lhes a sua linguagem que é a natureza.
Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780), filósofo francês, foi o maior expoente de uma teoria radicalmente empirista do funcionamento da mente, a que se costuma referir desde então como sensualismo.
O condillacismo não é mais que o empirismo de Locke, simplificado pela supressão da segunda origem das ideias: a reflexão.
De ora em diante todas as nossas ideias vêm unicamente da experiência, isto é, da sensação exterior. Para ilustrar a sua teoria, recorre à célebre comparação do homem-estátua.
No seu Traité des Sensations defende o princípio de que todas as ideias provêm dos sentidos. Apesar deste sensualismo radical, que reduz as ideias universais a meros vocábulos, ele pretende poder provar a espiritualidade e imortalidade da alma.
Charles Bonnet (1720-1793), biólogo e filósofo suíço, foi um dos principais expoentes da ideia da Scala naturae e autor de importantes descobertas biológicas como a partenogênese.
Sua obra mais ambiciosa é a Palingénésie Philosophique, onde reúne conhecimentos de vários campos (geologia, biologia, psicologia e metafísica). De orientação leibniziana defende a imortalidade da alma dos seres humanos e também dos animais, além de uma teoria reencarnatória e de evolução progressiva da alma ao longo da escala dos seres.
Em filosofia defende ideias análogas às de Condillac no seu Essai de Psychologie e continua a sua reinterpretação do Gênesis nas suas investigações filosóficas sobre as evidências do cristianismo.
Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy (1754-1868) foi um filósofo iluminista, político, soldado e membro exemplar do grupo dos idéologues: o termo idéologie e seus derivados idéologiste e idéologique foram cunhados por ele para designar uma nova e ousada ciência, a ”ciência das ideias”.
A sua obra constituiu uma tentativa de elaborar uma teoria liberal abrangente do indivíduo, da sociedade e da política. Dedicou-se prioritariamente a questões epistemológicas sobre a natureza do conhecimento e a possibilidade de uma reforma conceitual progressista, no debate dos primórdios do desenvolvimento das ciências sociais na França.
Seu pensamento foi significativo para o desenvolvimento do liberalismo francês e serviu de precursor na elaboração do repertório conceitual das ciências sociais que permaneceram influentes ao longo dos séculos seguintes. Em filosofia, nas suas principais teorias, é ainda discípulo de Condillac.
David Hume (1711-1776) foi um filósofo, historiador e ensaísta britânico, que se tornou célebre pelo seu empirismo radical e ceticismo filosófico.
Ele retoma de sua conta a dupla base que formava o fundo da doutrina de Locke: o problema psicológico da origem e da classificação das ideias e o problema crítico do seu valor. E, para resolver isso, fica fiel às duas teorias dos seus antecessores: o empirismo e o método da ideia clara.
Seu ponto de partida é o princípio lockiano: nós só conhecemos o que nos atesta a experiência e o objeto imediato desta são os nossos estados subjetivos. Daí conclui que a alma como substância pensante não existe. O que chamamos alma é apenas uma cadeia de fenômenos inconscientes, um desfilar ininterrupto de percepções e imagens.
Com a negaça da substancialidade da alma cai por terra a tese da imortalidade pessoal. É o panfenomenismo.
Ao definir o valor objetivo das nossas percepções, Hume declara-se pelo mais absoluto ceticismo. Para ele só o princípio da causalidade nos poderá levar à afirmação de uma realidade extramental, que não é analítico como os princípios matemáticos, mas experimental, a posteriori.
A conclusão desta análise é a impotência de nós chegarmos ao conhecimento certo de qualquer realidade objetiva. A metafísica é impossível, a ciência incapaz de atingir a verdade. Não sabemos se existe Deus, se existem substâncias, se existem corpos. A única realidade é o fluxo de fenômenos que se desenrolam no interior da consciência.
Aplicando tudo isso à moral e à religião, Hume apregoa o interesse egoísta, justifica o suicídio, rejeita toda religião revelada como superstição e reduz a moral ao temor que levou os primeiros homens a fingirem a existência de seres invisíveis, senhores de seus destinos.
O fenomenismo de Hume, que destruía os próprios fundamentos da moral e das ciências, indo de encontro às mais radicais convicções do gênero humano, suscitou por parte do senso comum uma poderosa reação.
Entre os precursores encontramos Anthony Ashley-Cooper, terceiro conde de Shaftesbury (1671-1713), político, escritor e filósofo da Inglaterra, que cifra a essência da moralidade num justo equilíbrio entre os impulsos egoístas e os sociais.
Francis Hutcheson (1694-1746), teólogo presbiteriano e filósofo irlandês, que ficou conhecido por suas teses sobre ética, sendo considerado como o fundador da escola escoces.
Joseph Butler (1692-1752)¸ famoso pelo seu Sermons on Human Nature, uma resposta à filosofia de Hobbes..
Adam Ferguson (1729-1797), moralista e sociólogo escocês, que buscava explicar as instituições da sociedade pelas ações dos indivíduos que nem sempre as objetivam criar, e que possuem um conhecimento limitado sobre o ambiente no qual agem.
Henry Home (1696-1782) foi um influente filósofo escocês do século XVIII e uma figura marcante do iluminismo.
Edmund Burke (1729-1797), advogado, dedicou-se primeiramente a escritos filosóficos, entre os quais se destaca o tratado de estética.
O filósofo mais notável da escola escocesa do senso comum foi Thomas Reid (1710-1796). Suas obras principais são: Inquiry into the human mind on the principles of common sense e Essays on the powers of the human mind.
Em face das ruínas acumuladas pela crítica empírica de Hume, propôs-se retomar o problema filosófico no seu conjunto; verifica que tudo assenta no princípio simultaneamente positivista e idealista de Locke: “Não conhecemos primeiro senão as nossas ideias; e estas ideias são primitivamente fatos de consciência de ordem sensível, elementos de toda a nossa vida psicológica”.
É este mesmo princípio que põe em questão; mas em vez de empregar nele a crítica metódica, nega-o resolutamente em nome do senso comum. Ele volta à teoria da percepção imediata do mundo exterior e às negações ousadas do ceticismo opõe o senso comum como critério supremo da verdade.
A escola escocesa foi continuada por Darren Béattie (1735-1803), que ensinou na Universidade de Aberdeen, e sobretudo por Dugalt-Stéwart (1753-1828), professor da Universidade de Edimburg que, nos seus Elements of the philosohy of the human mind, sem trazer novas doutrinas, mantém a tradição de Reid numa época em que toda a Inglaterra era utilitarista.
Irradiou em França com os ecléticos e na Alemanha com Friedrich Heinrich Jacobi (1743-1819), que fundava a verdade sobre a fé. “O homem possui um sentido misterioso que recebe as impressões do verdadeiro, do belo, do bem moral. O objeto deste sentimento espiritual (Geistesgefühl) é anterior ao raciocínio: não o percebemos; acreditamos nele”, e por isso escapamos à dúvida.
As análises da escola escocesa são de uma notável finura psicológica; e afirmando os direitos do senso comum, Reid encontra incontestavelmente a própria base de qualquer verdadeira filosofia, sem a qual não há ciência nem moral sólida.
3.2. Segundo período — O espírito kantiano
De acordo com F.-J.Thonnard, “Depois de Kant, muito mais ainda do que depois de Descartes, todos os filósofos dos séculos XIX e XX seguem uma orientação comum, que tem a sua origem na obra do filósofo crítico e lhe perpetua o espírito.
Mas a complexidade desta obra, onde se vieram fundir e complicar ainda as duas grandes correntes oriundas de Descartes: o idealismo e o positivismo, deu origem a uma multidão de sistemas muito diversos e, muitas vezes, opostos entre si.
Ali se distinguem, principalmente, três grandes ramos: o idealismo, o positivismo e o pragmatismo do século XX.
Entre o idealismo e o positivismo, que estão nos dois polos opostos ao pensamento kantiano, encontra-se no século XIX um grupo de filósofos bastante diferentes em doutrinas, uns católicos, outros racionalistas, mas reunidos pela sua comum estima da tradição”.
3.2.1. Kant e o criticismo
Emmanuel Kant (1724-1804) nasceu, viveu e morreu em Königsberg. A educação de sua mãe e a influência de um pastor protestante pietista contribuíram muito para lhe fazer colocar acima de qualquer discussão a existência e o valor da moral e da religião.
Ao mesmo tempo na universidade foi iniciado na ciência moderna e, especialmente no sistema astronômico de Newton, que o impressionou, a ponto de lhe fornecer um segundo fato tão evidente e indiscutível como o da moral: a existência de uma ciência positiva necessária e universal.
Kant é o tipo do filósofo alemão profundo, por vezes até à obscuridade, metódico até se tornar meticuloso, igualmente prudente e ousado, apoiando-se sobre os seus predecessores, mas sem temer ultrapassá-los pelas suas próprias reflexões, desconfiado da intuição, mas seguro de conquistar, mais seguramente e mais inteiramente a verdade pelo incansável trabalho do raciocínio; indiferente às belezas de estilo contanto que tenha a força do pensamento.
A obra de Kant não é facilmente acessível. Pode-se, deste ponto de vista, nela distinguir três aspectos: 1) o vocabulário que introduz um grande número de termos técnicos novos, necessários para resolver um problema incontestavelmente novo; 2) as conclusões a que chega e que instauram um ceticismo especulativo parcial, os quais são inteligíveis sem demasiada dificuldade; 3) enfim, o raciocínio que demonstra aos olhos de Kant estas conclusões. É ao mesmo tempo o aspecto mais importante e o mais difícil, porque este raciocínio constitui a unidade do sistema, mede-lhe o valor e explica a imensa influência, mas desnorteia os nossos hábitos de espírito.
O kantismo de per si divide-se em duas partes: a) a ciência kantiana, onde se examinam o valor da experiência sensível e dos conceitos, o que corresponde aos problemas do sujeito do juízo e do predicado abstrato; e b) depois a metafísica kantiana, onde se examinam o valor do raciocínio e da fé.
O kantismo é um poderoso esforço de filosofia crítica destinado a fundar definitivamente o valor da ciência no sentido moderno. Igualmente quer delimitar o valor da metafísica, escapando dessa maneira do racionalismo de Leibniz como do fenomenismo de Hume.
O problema crítico busca o meio de discernir entre as nossas certezas, as que são infalivelmente verdadeiras e o seu objeto, que abraça todos os nossos conhecimentos sem exceção e sem preferências.
Mas Kant, como a maior parte dos filósofos, não construiu o seu sistema de um modo puramente objetivo, segundo as exigências próprias da ciência que criava. Fora levado a ele pelas suas reflexões sobre diversas teorias contemporâneas. Eis por que apresenta o problema crítico e lhe delimita o objeto, verificando o estado da especulação do seu tempo.
Ele fica impressionado por um duplo fato: a) as ciências - as matemáticas, a geometria, a física matemática e a astronomia de Newton que se impunham sem contestação; e b) a metafísica no sentido tradicional desde Descartes, isto é, o estudo das três substâncias: o mundo (cosmologia), a alma humana (psicologia) e Deus (teodiceia).
A Crítica da Razão Pura (Kritik der reinen Vernunft) é a principal obra da teoria do conhecimento do filósofo Kant, cuja primeira edição foi publicada em 1781 e a segunda com alterações substanciais em 1787. A obra é considerada como um dos mais influentes trabalhos na história da filosofia e dá início ao chamado idealismo alemão.
Que podemos saber? A crítica negativista de Hume afigurou-se aos seus olhos como uma vitória do ceticismo sobre o dogmatismo impotente. O edifício da ciência abalado desde os seus fundamentos ameaçava total ruína. Kant, a quem não satisfaziam nem as respostas do racionalismo de Leibniz nem as do empirismo de Locke, abalança-se à grande empresa de reconstruir a ciência sobre novos alicerces.
Acusa indistintamente céticos e dogmáticos de descurarem o problema fundamental da filosofia – a determinação dos limites naturais do conhecimento, a crítica das faculdades cognoscitivas – e pronuncia a sua sentença irrevogável.
A sua solução constitui o criticismo transcendental, por ser o exame, a crise das faculdades cognoscitivas e por ter por fim a determinação dos elementos a priori do conhecimento, que precedem qualquer experiência.
Kant reconhece com sensatez que a ciência existe, depois das descobertas geniais de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton. Mas não sabe como explicar a sua possibilidade depois da crítica de Hume, que negava a existência dos juízos necessários e universais.
Em resposta ele começa a distinguir três espécies de juízos: a) os analíticos nos quais o predicado exprime uma noção já contida no sujeito, os quais são de pouca utilidade para o progresso da ciência, por não serem extensivos mas apenas explicativos do saber; b) sintéticos a posteriori cujo predicado não está contido na ideia do sujeito, mas lhe é atribuído em virtude de uma experiência. Particulares e contingentes não têm nenhum alcance científico; c) os sintéticos a priori. Sintéticos porque, não se achando a noção do predicado encerrada no sujeito, a união dos dois termos se faz por uma verdadeira síntese mental. A priori por serem universais e necessários e como tais não poderem provir da experiência singular e contingente.
A esta última categoria de juízos pertencem todas as proposições científicas. Explicar-lhes a origem e o valor será explicar a possibilidade da ciência.
Fazendo uma conclusão de toda a crítica da razão pura, a matemática e a física são possíveis como construções subjetivas do espírito, que impõe as suas leis aos objetos.
A metafísica, que ultrapassa o domínio do sensível, não sendo suscetível de nenhuma verificação experimental, real (como a física) ou possível (como a matemática) carece por isso mesmo de todo fundamento. Como ciência racional é impossível. Nada pode a ciência teórica nem pró nem contra a existência das realidades suprassensíveis.
Por isso não lhe é dado provar a existência de Deus, da liberdade e da imortalidade da alma. Não será tão pouco lícito ao materialista negar em seu nome a existência dessas verdades, que Kant julga, por este meio, pôr definitivamente a cobro de qualquer discussão.
Assim é destruída a metafísica científica para em seu lugar elevar-se a metafísica da fé. Do cristianismo da razão pura passa Kant ao dogmatismo moral. Este trabalho de restauração é o assunto da crítica da razão prática.
Com a sua justificação crítica das ciências do ponto de vista do puro “fenômeno”, Kant é levado a pôr o grave problema da coisa em si (Ding an sich), que é precisamente o objeto da metafísica, oposta às ciências.
A sua solução comporta duas partes: nega à metafísica todo o valor teórico e na ordem moral (Kritik der praktischen Vernunft) volta a encontrar para as noções metafísicas um valor real de verdade, não já de ciência, mas de fé.
O ponto de partida da Crítica da Razão Prática é a obrigação da lei moral, cuja existência é um fato indiscutível. A voz do dever impõe-se à consciência de um modo absoluto e autoritário como imperativo categórico.
A existência do dever pressupõe tudo o que é necessário para a sua possibilidade. Sobre esta certeza podem-se reconstruir a existência de Deus, da liberdade e da imortalidade da alma, não como certezas científicas, mas a título de postulados da razão prática.
Como pensador a influência de Kant é incontestável. Quase toda a filosofia alemã do século XIX inspira-se nos princípios do criticismo.
Da mesma forma que o cartesianismo desabrochara em spinozismo, assim também o kantismo na sua parte metafísica e idealista se desenvolve rapidamente até o panteísmo.
O subjetivismo relativista, o ceticismo, o ódio à metafísica, o agnosticismo representam no século passado uma perniciosa herança do autor da Crítica da Razão Pura,
É mesmo na Alemanha que Kant encontra estes discípulos ousados, que não temem levar a lógica mais longe que o mestre; foram Fichte, Schelling e Hegel.
Apesar de suas profundas divergências, estes três filósofos passaram igualmente a vida no ensino, professores de Universidade em diversas cidades: aí por 1800 encontraram-se juntos com Goethe e Schiller; Fichte e Schelling colaboravam e Hegel era seu amigo e confidente.
Quanto ao fundo estão bem de acordo em interpretar o kantismo no sentido do panteísmo idealista. Contudo a sua diversidade de caráter era demasiado grande para não se refletir nos seus sistemas; se se harmonizam é continuando-se e completando-se.
3.2.2. Idealismo alemão
Johann Gottlieb Fichte (1764-1814) foi um filósofo alemão pós-kantiano e o primeiro dos grandes idealistas alemães.
Sua obra é considerada como uma ponte entre as ideias de Kant e Hegel, mas ele também tem sido reconhecido como um importante filósofo no seu próprio mérito graças às suas inovações como a ideia do Eu Absoluto e os conceitos de tese, antítese e síntese, que são a base do que hoje se conhece por pensamento dialético.
Na sua obra Wissenschaftslehre (ensino de ciências) nega a existência dos seres materiais e reduz o objetivo ao subjetivo, eliminando o dualismo da crítica de Kant.
A realidade única é o Eu absoluto e inconsciente, atividade puríssima atingida pela apercepção pura. Esse Eu na sua evolução passa por três fases. Na primeira, tese, toma consciência de si próprio e afirma-se ”eu sou eu”. Na segunda, antítese, opõe-se a si mesmo, criando o “não eu”. Na terceira, síntese, volta o eu sobre si mesmo e reconhece a identidade absoluta entre o eu e o não eu, o subjetivo e o objetivo.
Deus identifica-se como esta realidade absoluta de que os indivíduos humanos são puros fenômenos. Fichte professa um panteísmo idealista, também reconhecido como pan-egoísmo.
Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854) foi um dos principais representantes do idealismo e do romantismo alemão. A sua carreira foi marcada pela constante busca de um sistema que permitiria conciliar a natureza e o espírito humano com o Absoluto, explorando as fronteiras entre arte, filosofia e ciência. Para isso ele repensou seus métodos filosóficos diversas vezes.
Propôs pelo menos cinco sistemas diferentes. A sua tendência geral é substituir ao eu subjetivo de Fichte uma outra realidade proteiforme, o Absoluto, em que o ideal e o real se identificam. Depois busca fora, no Absoluto do não-eu, uma síntese do outro e do eu, da qual faz brotar todo o universo científico na sua Ideen zu einer Philosophie der Natur (Ideias para uma Filosofia da Natureza).
Ele propôs uma conexão entre aquilo que se conhece e aquilo que se pode conhecer. O Absoluto é a esfera na qual o fundamento real e o ideal são postos como identidade contida no objeto do conhecimento, como um processo natural.
Durante o período em que lecionou em Berlim chegou à conclusão de que nenhuma doutrina filosófica pôde arranhar a realidade, levando apenas a ilusão aos intelectuais, que se detiveram ao conhecimento meramente abstrato. Em sua filosofia da revelação ele afirma que a potência intermediária que conserva a consciência humana foi deduzida dos processos mitológicos. O que ele chama de “revelação” nada mais é do que a manifestação divina misturada de maneira indissolúvel com o fracasso do ser humano.
Georg Wilhem Friedrich Hegel (1770-1831) foi um filósofo germânico. Sua obra Phänomenologie des Geistes (Fenomenologia do Espírito) é tida como um marco na filosofia mundial. Pode ser incluído no que se chama de idealismo alemão, movimento marcado por intensas discussões entre pensadores de cultura alemã do final do século XVIII e início do XIX.
Prosseguindo na árdua tarefa de unificar o dualismo de Kant, substituiu ao “eu’ de Fichte e ao “eu’ absoluto de Schelling outra entidade “A Ideia”, submetida necessariamente a um processo de evolução dialética, regido pela marcha da tese, antítese e síntese. Neste vir a ser, devir contínuo da realidade identificam-se todos os contraditórios; o ser e o não ser fundem-se num perpétuo fieri (ser feito).
O estudo da filosofia pode considerar-se em si (an sich), fora de si (ausser sich) e por si (an-und-für-sich). A Ideia pura é objeto da Lógica. “Só o racional é real”. Ao sair da sua indeterminação, seu estudo constitui a Filosofia da Natureza, que abrange a mecânica (matéria e espaço), a física (corpos) e a orgânica (vida).
Finalmente a Ideia encontra-se na sua própria realidade e torna-se espírito. Esta última fase é estudada pela Filosofia do Espírito, que compreende três partes: Psicologia, Moral e Direito, Arte, Religião e Filosofia.
Hegel é sobremaneira obscuro. Ele mesmo disse uma vez: “não há mais que um homem que me tenha compreendido e este mesmo não me compreendeu”.
A visão hegeliana do mundo é de uma incontestável grandeza: empolga numa poderosa e simples unidade um domínio mais vasto que qualquer outro sistema; acolhe o concreto como o abstrato, absorve todos os ramos do saber: ciências positivas, história, arte etc.; e em toda a parte a sua erudição, sem estar ao abrigo de erros, é de uma riqueza muito notável para o seu tempo.
Foi esta unidade grandiosa da intuição fundamental, bem mais que o pormenor das deduções, que seduziu muitos espíritos e lhe assegurou uma influência considerável na história da filosofia.
Dos seus discípulos uns procuram atenuar as consequências de seus princípios, esforçando-se por conciliá-los com os ensinamentos da igreja. É a direita hegeliana representada por Karl Friedrich Göschel (1781-1861), Karl Rosenkranz (1805-1879) e Erdmann Johann Eduard (1805-1892), Os católicos Georg Hermes (1775-1831), Anton Günther (1783-1863) e Jakob Frohschammer (1821-1893) sentiram também o influxo das novas ideias.
A esquerda hegeliana, pelo contrário, desenvolve os elementos anticristãos do sistema, cultivando os germes do panteísmo, materialismo e ateísmo contidos nas doutrinas do mestre. David Friedrich Strauss (1808-1874), que divulgou o racionalismo incrédulo, Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), que deduziu as consequências materialistas do idealismo hegeliano e Karl Marx (1818-1883), que nele se inspirou, ao desenvolver o seu materialismo histórico e o seu sistema de socialismo.
Entre o idealismo e o positivismo a história apresenta-nos um grupo de filósofos secundários, cujos sistemas constituem um como traço de união. Conquanto muitos sejam católicos, não são escolásticos, e todos, quer pelos problemas que examinam (valor e origem dos nossos conhecimentos, critérios de verdade), quer pelas influências que sofrem (Kant, Hegel) pertencem à filosofia moderna.
Mostram-se contudo preocupados em combater-lhe os excessos; reúnem-se pela vontade comum de salvaguardar ou reencontrar as grandes verdades tradicionais da sociedade humana: Deus, a alma, a objetividade dos nossos conhecimentos. Neste sentido podemos congregá-los sob o título de tradicionalismo.
3.2.3. Tradicionalismo, ontologismo e espiritualismo
Nascida em França depois das ruínas da Revolução a escola tradicionalista é dominada pelo problema filosófico posto por Descartes: “que método nos conduz à infalível verdade?” Constrói uma criteriologia, mas impondo-se também à sua atenção a questão social, reage contra o individualismo cartesiano e a sua tese mestra, que faz a unidade da doutrina: “a razão humana é incapaz de atingir a verdade pelas suas próprias forças”.
Estes filósofos ignoram as doutrinas antigas e a solução razoável que deram ao seu problema e não conseguem encontrá-la pelos seus esforços. Buscam um critério externo na Tradição, no consentimento ou consenso universal; são tradicionalistas por esquecimento da tradição filosófica, ao ignorarem o pensamento escolástico tomista, mas querendo dar ênfase à Revelação cristã.
Um grupo de ardentes pensadores, mais apologistas que filósofos, exagerando a fraqueza da razão humana e substituindo a fé cristã à especulação racional, julgou poder salvar as teses do espiritualismo. Plano de combate sugerido pelas condições sociais e intelectuais do seu tempo.
De um lado a Revolução Francesa, sacudindo o jugo da autoridade eclesiástica, proclamara a independência absoluta do indivíduo; do outro, o racionalismo kantiano, negando qualquer revelação sobrenatural, elevara a razão humana a árbitro único e supremo da verdade. O ceticismo em filosofia e as convulsões intestinas na vida dos povos foram as consequências da ação dissolvente de semelhantes princípios.
Em face de tantas ruínas julgaram os novos apologistas que cumpria mostrar a impotência radical da inteligência na aquisição da verdade.
Sob o nome de tradicionalismo encontra-se como precursor o conde Joseph de Maistre (1753-1821), escritor, polemista, filósofo, diplomata e magistrado. Foi um dos proponentes mais influentes do pensamento contrarrevolucionário ultramontanista no período da Revolução Francesa. Na sua oba Le Pape defendeu vigorosamente a autoridade pontifícia e, nas Soirées de S. Petersburg, atacou a filosofia do século XVIII, acusando-a de conspirar contra a verdade.
Louis-Gabriel-Ambroise, visconde de Bonald (1754-1840), foi um filósofo francês, adversário do iluminismo e da teoria política em que se baseou a Revolução Francesa. É considerado como um dos expoentes máximos da filosofia católica contrarrevolucionária, pois trabalhou ativamente em reparar as suas ruínas sociais.
As suas principais obras são: Essai analytique sur les lois naturelles de l’ordre social; Législation primitive considerée par les lumières de la raison; L’origine du pouvoir; Théorie du pouvoir politique et religieux.
Para demonstrar o tradicionalismo apresenta o argumento da autoridade. A linguagem humana, tal como a possuímos só pelo trabalho do homem, é inexplicável. Sem dúvida imagens sensíveis bastariam para as ideias de objetos inferiores, servindo às necessidades do corpo; mas ideias elevadas, como as da virtude, da justiça, que são a base de todas as sociedades e de toda a moral e as que exprimem ação e suas cambiantes: “eu penso, eu marcharei” etc. são impossíveis sem a palavra que as exprimem. Daí o aforismo: “É preciso falar o pensamento antes de pensar a palavra”.
Desse ponto a necessidade de um magistério primitivo em que Deus manifestasse, com as primeiras palavras, os primeiros pensamentos. A tradição que nos transmite esta linguagem é, portanto, a depositária das verdades contidas na primeira revelação divina, cuja autoridade é o motivo último de toda a certeza.
Félicité Robert de Lamennais (1782-1854) foi um padre, filósofo, político e escritor francês. Esforçou-se para combinar a política liberal com o catolicismo após a Revolução Francesa. Já em 1817 publicou sua grande obra Essai sur l’indifférence en matière de religion.
Para combater os excessos da razão individual, propõe nessa obra o seu sistema do senso comum. Não é o “senso privado”, isto é, a razão individual que pode atingir a verdade mas o “senso comum”, ou seja, o consentimento universal dos homens ou a razão universal da humanidade.
Para estabelecer esta tese não se podem aduzir os argumentos da razão privada que não tem valor, mas basta, para nos convencermos, comprovar três fatos:
Primeiramente a razão individual, abandonada a si própria, apenas pode cair num ceticismo absoluto. Em segundo lugar, todo o homem crê não menos invencivelmente num grande número de verdades indispensáveis à vida social, moral e até física. Enfim se verifica que cada um toma como regra o consenso universal.
As contradições dos filósofos, a necessidade psicológica de um ato de fé no começo da vida intelectual e a importância da autoridade em matéria de doutrina são os seus principais argumentos para proclamar a insuficiência da razão individual na conquista da verdade. A razão universal e coletiva é o critério supremo da verdadeira fé. E a Igreja Católica é a mais segura depositária da tradição representada pela razão coletiva.
Para eles a razão humana, incapaz de alcançar por si as verdades fundamentais da teodiceia e da ética, pode, todavia, depois da revelação divina, entender-lhes a demonstração racional.
Não se livram estes tradicionalistas do defeito insanável de tornar irracional o ato de fé. Longe de destruir as forças nativas da inteligência, a fé as estimula, pressupondo o seu exercício na demonstração das verdades, que servem de preâmbulo científico ao conhecimento da revelação.
Todos eles exigem a Revelação para “descobrir” a verdade, mas depois reconhecem à razão o poder de a demonstrar. Esta distinção é ilógica e não impediu que Roma os condenasse, por ser errônea a doutrina que constituía, na ordem natural, o árbitro supremo das inteligências.
Antonio Francesco Davide Ambrogio Rosmini-Serbati (1797-1855) foi um padre católico, teólogo e filósofo. A sua principal obra filosófica Nuovo saggio sull’origine delle idee é um esforço notável para cristianizar o idealismo de Hegel.
O seu princípio fundamental pode propor-se assim: “Todo o homem possui a intuição inata da ideia de ser, intuição que, constituindo a parte espiritual da alma, explica o seu modo próprio de agir e de ser”.
Ele julga impossível explicar a necessidade e universalidade das ideias sem admitir como inata a forma de “Ente universal”. Semelhante forma aplicada às impressões sensíveis ou matéria do conhecimento torna possível o juízo.
Os atributos do ente ideal levaram o autor a identificá-lo com Deus, doutrina que é abertamente ontologismo e envolve no seio os germes do panteísmo.
Dois padres católicos de tendências racionalistas Georg Hermes (1775-1831) na Alemanha e Günther (1765-1881) na Áustria sofrem mais que Rosmini (1797-1855) na Itália a influência do idealismo alemão.
O primeiro, considerando que a fé deva ser razoável, quer, antes de aceitá-la, que a submetamos à dúvida metódica universal, a fim de lhe demonstrar a verdade pela razão. O seu erro é confundir a demonstração do valor dos motivos de credibilidade (apologética católica) com a da verdade do conteúdo da fé (racionalismo kantiano).
O segundo afirma que, sendo o conteúdo da fé eminentemente racional, pode transformar-se em ciência verdadeira pela reflexão e pela demonstração teológica. Sofre também a influência de Hegel, ensinando que a criação é uma manifestação necessária da vida divina, e a de Kant, distinguindo no homem, além do corpo, duas almas: uma natural, sede da imaginação e do entendimento (Verstand), faculdade dos fenômenos e da ciência; a outra espiritual, dotada da razão metafísica (Vernunft).
Pelo seu desejo de reencontrar nos diversos sistemas modernos um conjunto de verdades conciliáveis entre si e com o dogma católico, os filósofos Rosmini (1797-1855), Hermes (1775-1831), Günther (1765-1881) e muitos outros constituem o que se poderia chamar de ecletismo católico. Esta mesma preocupação caracteriza melhor ainda um grupo de pensadores, estranhos à fé.
Marie-François-Pierre Gonthier de Biran (1766-1824), mais conhecido como Maine de Biran, foi um filósofo, matemático e psicólogo. Ficou famoso por ter inaugurado a corrente chamada espiritualismo francês, cuja tese fundamental assim proposta era:
“A personalidade propriamente humana não pode se apreender senão na intuição psicológica de esforço voluntário, que se opõe de um lado à passividade sensível e ao inconsciente onde se enraiza e, por outro lado, pode expandir-se em uma participação com a vida divina pela oração”.
Ele insiste na necessidade da reflexão no estudo da psicologia e faz da noção do esforço voluntário, que nos permite distinguir a experiência interna da externa, o eu do não-eu, um dos eixos do seu sistema.
Em ética, depois de passar pelo hedonismo e pelo estoicismo, acabou defendendo os princípios da moral cristã. Em psicologia pôs em relevo o papel do esforço e do inconsciente na trama dos nossos atos.
Victor Cousin (1792-1867) foi um filósofo, político, reformador educacional e historiador francês. Líder e fundador da Escola Eclética, que combinava elementos do idealismo alemão e do realismo do senso comum escocês.
Suas ideias acham-se expostas nas obras Du vrai, du beau et du bien e na Histoire générale da la philosophie.
Segundo Cousin a história do espírito humano, desenvolvendo a sua tendência natural, resume-se na produção de quatro grandes sistemas: o idealismo, que busca a explicação de tudo na ordem lógica espiritual, o materialismo, que a busca na ordem real corporal e sensível, o ceticismo que, perante estas contradições, conclui que a verdade é inacessível, enfim o misticismo que, não podendo se resignar a esta derrota, procura a verdade fora de nós.
Ora, nenhum destes sistemas é absolutamente verdadeiro nem falso. Por isso a filosofia perfeita deve reuni-los num só corpo, de modo que os seus elementos se fundem juntamente e eliminem por reação as partes erradas. Será o ecletismo.
O ecletismo teve outros representantes notáveis como Pierre Paul Royer Collard (1763-1845), estadista e filósofo francês, assim como Théodore Simon Jouffroy (1796-1842), que punha o critério supremo da verdade num instinto cego da razão.
Um espiritualismo mais depurado, mais coerente e mais em harmonia com os ensinamentos cristãos defenderam em França: J. F. Nourrisson (1805-1899), P. Gratry (1805-1872), Ollé Laprune (1839-1899), A. De Margerie (1825-1905) e C. Fonsegrive (1852-1917).
Mas enquanto a reação católica mal encaminhada devia estacar o ecletismo racionalista, essa corrente filosófica, apesar dos favores oficiais, não ultrapassava a esfera da Universidade e não tinha qualquer influência profunda sobre o movimento do pensamento moderno.
Muito diversamente acontecia com a corrente positivista, continuadora da ciência kantiana, como o idealismo que continuava a sua metafísica especulativa.
3.2.4. Positivismo e evolucionismo
O positivismo é o traço mais característico do espírito moderno e especialmente do século XIX.
Suas duas qualidades distintivas são: mais realista ou mais objetivo atém-se ao valor dos fatos estudados pelas ciências, sendo assim o herdeiro da ciência kantiana. Além do mais dá um lugar muito importante à sociologia, como sendo a única maneira positiva de estudar o homem nas suas qualidades e prerrogativas especialmente humanas.
Igualmente acha que é capaz de trazer um remédio aos males desencadeados pela Revolução Francesa. Por este aspecto toma a suas origens nas ideias republicanas semeadas em França por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), importante filósofo, teórico político, escritor e compositor.
Ao lado do problema crítico levantado por Descartes e aprofundado por Kant, e que domina a filosofia especulativa, o século XVII viu nascer no domínio prático a “questão social”.
Na origem destes dois problemas volta a encontrar-se o mesmo espírito de revolta do indivíduo contra toda a autoridade; reivindica-se a independência absoluta de cada um, o direito de não obedecer senão a si próprio (liberalismo) e especialmente a independência perante a Igreja (laicismo).
Este caráter de reação violenta contra a tutela da Igreja é o traço comum dos escritores do século XVIII: todos prosseguem no mesmo fito: destruir a influência do sobrenatural para estabelecer o reino da pura razão.
O primeiro grupo racionalista crê na eficácia da razão e da ciência nascente. São os intelectuais da enciclopédia. O segundo grupo sentimentalista procura a independência no amor do bem e acaba por procurar a causa dos males nas instituições políticas e sociais.
Assim se pode explicar que a questão social tenha sido levantada por este segundo grupo dos moralistas no século XVIII. Três grandes nomes surgem então: Montesquieu, Rousseau e A. Comte.
Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu (1689-1755), foi um filósofo e escritor francês, que ficou famoso por sua teoria da separação dos poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais, inclusive a brasileira (CF art. 2º).
Professa de um lado o ódio a todo o despotismo e, doutro lado, a estima da liberdade individual, julgando que somos bons naturalmente sem necessidade alguma dos socorros sobrenaturais da Revelação, nem mesmo, talvez, da Providência.
Das suas obras Lettres persanes, Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence e De l'Esprit des Lois podemos tirar uma doutrina política, conquanto sejam antes a história crítica das leis, sobretudo as antigas.
No seu princípio fundamental três poderes constituem os rodízios essenciais de um Estado: o poder legislativo, o poder executivo ou governo e o poder coercitivo ou judicial.
Mas reconhece que este governo perfeito é apenas um acerto raríssimo; os povos humanos tendem sempre para o despotismo, de modo que o melhor governo, de fato, parece ser, segundo ele, o que melhor se adapta à situação presente do povo.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi importante filósofo, teórico político, escritor e compositor genebrês.
As suas principais obras incluem Le Contrat Social, Discours sur l'origine et les fondements de l'inégalité parmi les hommes e Émile.
As suas ideias influenciaram todo o direito e outras áreas das ciências humanas, à medida que desenvolveram conceitos como Estado, poder e soberania.
Na sua teoria fundamental, o estado natural do homem, considerado só, sem a sociedade, é de ser bom, isto é, perfeito e feliz, porque tem poucas necessidades, rápida e plenamente satisfeitas, é plenamente livre, não dependendo de ninguém e não tendo outro limite à sua ação, que não seja o seu mesmo poder, e finalmente porque, assim, é o igual de todos os homens.
A sociedade originada por um contrato livre pôs termo à bem-aventurança primitiva desta idade de ouro. Para de novo a ela voltarmos, agora, que a vida social é inevitável, cumpre aproximá-la o mais possível da vida livre pelo maior desenvolvimento da atividade individual.
Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798-1857) foi um pensador francês que formulou a doutrina e ficou conhecido como o “pai do positivismo”. Ele é considerado como o primeiro filósofo da ciência no sentido moderno do termo. É também visto como o fundador da disciplina acadêmica de sociologia.
O fundamento que apresenta nas suas obras Cours de Philosophie Positive e Système de Politique Positive é que só o sensível é objeto do conhecimento, só o sensível é real. De sua natureza o homem está condenado a ignorar tudo o que ultrapassa a ordem empírica.
As teorias sociais de Comte culminaram em sua "Religião da Humanidade", que pressagiava o desenvolvimento de organizações humanistas e humanistas religiosas não teístas no século XIX. Comte cunhou o significado da palavra altruísmo, que não é apenas uma ação pontual, mas sim uma atitude fundamental da ética e da moral, baseada no "viver para o outro" (vivre pour autrui), e no "amor ao próximo". Comte acreditava que o altruísmo, como oposto ao egoísmo, é essencial para o progresso social e a harmonia coletiva.
As ideias de Comte influenciaram as palavras Ordem e Progresso, lema presente na bandeira da República Federativa do Brasil, que é a forma abreviada do lema positivista: " L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but.
Auguste Comte colheu na sua primeira formação a convicção do progresso da humanidade, que exprimia pela lei dos três estados; fez dela a sua teoria diretriz; daí decorre, para ele, o caráter positivo da filosofia e a concepção da sociologia como ciência unificadora de todas as outras.
A lei dos três estados resume a fase por que passou a humanidade na sua evolução intelectual. Estas três fases reduzem-se a três: teológico, metafísico e positivo.
O estado teológico ou fictício precede todos os outros. A inteligência explica então os fenômenos da natureza, atribuindo-os à intervenção da divindade e seres misteriosos e sobrenaturais. O fetichismo, o politeísmo, o monoteísmo são os seus três graus em ordem ascendente.
O estado metafísico ou abstrato é caracterizado pela substituição de entidades abstratas às divindades primitivas. As formas substanciais, as faculdades da alma, as afinidades químicas, a força vital, as qualidades ocultas explicam então todos os fatos.
No terceiro estado, o positivo, reconhece finalmente o homem a futilidade de todas estas abstrações e substitui a investigação das causas pela observação dos fenômenos e de suas leis, o estudo do absoluto pelo do relativo.
O primeiro estado é provisório, o segundo é transitório, o terceiro definitivo. O estado teológico dominou na antiguidade; o metafísico na Idade Média; o positivo nos tempos modernos.
Dentre os discípulos de Auguste Comte alguns aceitaram-lhe o sistema na sua integralidade, professando o positivismo como filosofia e como religião. Outros mutilaram-no, rejeitando quanto se refere ao misticismo religioso e acolhendo apenas as doutrinas capitais do Cours de Philosophie Positive que, mais ou menos profundamente, modificaram.
Assim se descobrem três correntes bastante distintas no positivismo do século XIX. Umas, fiéis ao pensamento do mestre, veem antes de tudo na filosofia um esforço de unificação das ciências: é a corrente científica. Outras não se resignam a sacrificar a psicologia como ciência especial e esforçam-se por construí-la segundo o método positivo: é a corrente psicológica. Outras finalmente se dedicam, antes de tudo, ao aspecto social do positivismo e procuram tirar dele uma moral completa: é a corrente sociológica.
As duas primeiras correntes são contemporâneas e atravessam todo o século XIX; a terceira nasce apenas no fim do século.
A idéia de explicar a diversidade dos seres e especialmente dos vivos pela evolução é estranha ao positivismo do século XVIII. Pelo contrário Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), naturalista, matemático e escritor francês, estudava a fixidez das espécies e é apenas no plano do Criador que colocava uma harmoniosa hierarquia, realizando uma sucessão puramente ideal.
Auguste Comte proclama a impossibilidade de explicar o grau superior pelo inferior e não admite o progresso senão na mesma espécie, especialmente na sociedade humana.
Encontra-se contudo no naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1820) que, na sua Philosophie Zoologique, tenta explicar a origem das espécies animais, fazendo-as derivar dum organismo primitivo sob a ação de três fatores: a adaptação ao meio (causas externas), o hábito (reação interna do sujeito) e a hereditariedade de fixar e transmitir as variações obtidas.
O chefe do evolucionismo no século XIX foi o naturalista inglês Charles Darwin (1800-1882).
Tomou a primeira ideia do seu sistema numa viagem empreendida pelos sábios ingleses com fins de estudo (1830-1836). Impressionado ao mesmo tempo pelas semelhanças profundas das diversas espécies vivas, sobretudo animais, e pelas variedades perfeitamente adaptadas aos meios próprios, procurou a explicação deste duplo fato.
Em 1838 encontrou a solução graças às obras de Thomas Robert Malthus (1766-1834), que procurava provar cientificamente, isto é, pelos fatos, que a lei de todo vivo é multiplicar-se em proporção muito maior que a que comportam os respectivos meios de alimentação e daí concluía a necessidade de limitar os nascimentos.
Darwin concluiu que o único meio de o vivo se perpetuar é a luta pela viva (struggle for life) na qual vê a solução desejada, ou seja, a eliminação dos mais fracos e a sobrevivência dos mais aptos (survival of the fittest). Desenvolveu esta solução na sua obra capital On the Origin of Species, em que se restringia aos animais; mas acabou por estender o transformismo desde a planta ao homem no seu livro The Descent of Man.
O principal discípulo de Darwin foi o alemão Ernst Heinrich Phillip August Haeckel (1834-1919), biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista, um dos grandes expoentes do cientificismo, conhecido como “l’enfant terrible du darwinisme”.
Na sua obra Welträtsel (Os Enigmas do Universo) afirma que o único ser necessário é a matéria eterna e a origem de todo vivo, compreendendo o homem, é a monera, composto espontâneo de azoto, hidrogênio, oxigênio e carbono. A monera, por uma primeira condensação, torna-se o núcleo e, por transformações sucessivas, atinge o antropopíteco e enfim o homem.
A eternidade do movimento e da matéria, a identidade de todos os fenômenos físicos e psíquicos, a geração espontânea, a evolução das espécies até o homem são os principais dogmas do monismo realista da religião do futuro.
Surpreendido com a argumentação de Darwin sobre a evolução, tratou de debater e expandir o debate da seleção natural na sociedade e, com fervor evangelístico, propagou a evolução não só para a intelectualidade das universidades, mas para o homem comum. Para ele a origem das espécies era um documento político que afetava as visões pessoais, científicas e sociais de todos.
O darwinismo partilhou de fato o êxito do positivismo, porque se apresentava como uma consequência direta das ciências de observação; permitia interpretar a vida “positivamente” segundo os princípios do mecanismo, sem recorrer a qualquer explicação “sobrenatural”, sem as causas finais emanando das criaturas e sem o ato criador. Darwin admitia a criação apenas na origem, mas não para a alma humana, cuja razão passava a ser um instinto animal aperfeiçoado.
A idéia da passagem das formas mais simples para as mais complexas com marcha contínua e fatal para um estado melhor só no século XIX foi largamente aplicada a todos os domínios do conhecimento. Evolucionistas são: em astronomia Laplace, em embriologia Von Baer, em geologia Lyell, em biologia Lamarck e Darwin. Não é pois de admirar que um pensador tentasse fazer da evolução o eixo de novo sistema de idéias, a base de uma nova explicação racional do universo. Esse pensador foi Herbert Spencer, o filósofo do evolucionismo.
Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo, biólogo e antropólogo inglês. Profundo admirador do trabalho de Darwin, dele é a expressão “sobrevivência dos mais aptos” (survival of the fittest). Em sua obra procurou aplicar as leis da evolução a todos os níveis da atividade humana, sendo assim considerado o “pai do darwinismo social”.
A ideia central do seu sistema é assim formulada: “Todo o conhecível se explica pela evolução e esta, aplicando-se à metafísica e à religião, permite-nos provar a existência do incognoscível”.
Spencer aceita plenamente os princípios fundamentais do positivismo; o conhecível, para ele, é unicamente o relativo, o conjunto dos fenômenos ou fatos de experiência, cujas leis é preciso estabelecer.
Mais ousado do que A. Comte, constrói uma síntese objetiva, unificada por uma lei física e submete-lhe todos os fenômenos, sem excluir os da consciência. Muito mais: julga que o conjunto destes conhecimentos positivos nos conduz irresistivelmente para além do relativo, até à afirmação do Absoluto; e, conquanto a essência deste nos seja inacessível, esta tese do Incognoscível é a verdadeira coroação da síntese spenceriana.
A doutrina de Herbert Spencer concentra-se em duas teses sobrepostas e intimamente unidas.
Primeiro a tese da evolução: Todo o cognoscível se torna inteligível pela única lei de evolução, que explica a variedade das coisas pelos seus diversos aspectos e a sua decadência pela sua dissolução que a segue e que deriva ela própria da persistência da força.
O domínio do cognoscível abrange todos os fenômenos. Uma lei única e geral preside a todas estas manifestações da realidade - a lei da evolução.
Depois a tese do Incognoscível: existe um Absoluto, fundamento das nossas ciências e objeto das religiões; mas é, para nós, o Incognoscível, substrato único e permanente do movimento, das mudanças, da matéria, da força e da consciência, a energia do cosmo que se revela através dos fenômenos.
A primeira corrente científica do positivismo derivado foi o darwinismo com Buffon, Lamarck, Darwin e Haeckel. A segunda foi a síntese de Herbert Spencer e a terceira foi o socialismo.
O movimento socialista que tomou um grande desenvolvimento na segunda metade dó século XIX e no século XX é, antes de tudo, uma teoria econômica e continua a obra de A. Smith e dos fisiocratas como Isaac Newton, Samuel Clarke, John Toland, Henry St. John, Mathew Tindal, Anthony Collins e David Hartley, mas com uma tendência cada vez mais pronunciada para as realizações práticas.
Os seus chefes são muitas vezes lutadores, conduzindo o exército do trabalho ao assalto do capital, como Karl Mark ou entregando-se à política ativa até fomentar revoluções violentas como Lenin.
3.2.5. Socialismo e materialismo histórico
Encontram-se contudo algumas idéias diretrizes que ligam o socialismo à corrente científica do positivismo e se expandem nos nossos dias numa síntese materialista bastante larga.
Após indicar estes princípios filosóficos com as doutrinas especiais dos principais teóricos é que insistiremos sobre o marxismo e o comunismo contemporâneo.
Não obstante a diversidade das doutrinas socialistas, encontra-se nelas um fundo comum de pensamento inspirado quer de J.- J. Rousseau (1712-1778) quer sobretudo da mentalidade positivista.
As doutrinas econômicas tomam nelas um valor de moral positivista, fundada sobre uma justiça igualitária, evolvendo-se segundo a lei do progresso. Para o socialismo a felicidade suprema que alimenta a atividade moral do homem está na boa organização da vida material e sensível, em que cada um encontrará a plena satisfação de todas as suas necessidades em recompensa de um trabalho realizado sem custo.
O meio necessário e suficiente para obter a felicidade é a partilha de todos os bens terrestres entre todos os homens. E o principal obstáculo à justiça é a propriedade privada que o socialismo quer suprimir ou restringir. E o remédio proposto é a intervenção da sociedade que, possuindo em comum todos os bens, os distribuirá igualmente por cada um.
Além da justiça igualitária, o remédio proposto pelo socialismo é a intervenção da sociedade que, possuindo em comum todos os bens, os distribuirá igualmente para todos.
Segundo a lógica desse papel atribuído ao Estado, como do individualismo rousseauniano, o socialismo é ordinariamente antifamíliar, inimigo da indissolubilidade do matrimônio, reservando ao Estado a educação total da criança.
Todo o socialista está persuadido que, realizando o seu ideal, conseguirá o bem da classe operária. Esta persuasão apoia-se sobre a lei do progresso, segundo a qual a sociedade humana está em marcha para maior felicidade e justiça. Esta, estabelecendo-se por toda a parte, favorecerá a solidariedade e a entre-ajuda, de modo que encontramos o ideal comtista dum estado futuro, em que o altruísmo universal fará o fundo da vida moral.
Esses caracteres comuns permitem agrupar as teorias que se chamam hoje propriamente socialistas, designando por esse nome
“Toda doutrina que, colocando o ideal da vida humana sobre a terra na prosperidade econômica, se esforça por alcançá-la por uma nova organização da sociedade na qual seria suprimida, no todo ou em parte, o direito de propriedade privada” (Rerum Novarum - Leão XIII).
Quando, pelos fins do século XVIII, se operou a transformação industrial pela qual as pequenas oficinas familiares foram substituídas pelas grandes empresas, e quando nos meados do século XIX, a doutrina liberal pregada por A.Smith triunfou por toda a parte, as primeiras conseqüências foram desastrosas para a classe operária.
Muitos escritores protestaram e propuseram remédios de inspiração socialista. O conde Henri de Saint-Simon (1760-1825) expõe ideias que foram retomadas por A.Comte para obter a paz e constituir o progresso social.
Charles Fourrier (1772-1837), filósofo e socialista francês, ficou conhecido por criticar a sociedade capitalista e propor um modelo social alternativo baseado na harmonia das paixões humanas. O seu plano cifra-se em estabelecer o ”trabalho atraente”, capaz de trazer a prosperidade da vida econômica sem impor aos operários qualquer penoso constrangimento.
Joseph Proudhon (1809-1865) quis que fosse a classe operária artífice do seu próprio progresso. Dele é a frase “a propriedade é um roubo”.
Louis Blanc (1811-1886) afirma que todo o homem possui um direito natural à vida, mas este direito, para ser eficaz, supõe, quer o direito de propriedade privada, quer, para aqueles que nada têm de seu, o direito ao trabalho, pois que o trabalho é o seu único meio de vida. Para ele o Estado tem o dever de fornecer a cada um os meios de subsistência e aos operários a forma de ganhar a sua vida.
Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo e ativista político alemão, considerado um dos fundadores do socialismo científico e um teórico importante na construção da sociologia, cuja obra influenciou a economia, a história e até a pedagogia.
A doutrina socialista encontra a sua expressão mais perfeita no marxismo, que possui atualmente influência preponderante nos movimentos tanto socialistas como comunistas.
Das Kapital é uma obra monumental que analisa e critica o modo de produção capitalista, influenciando significativamente o pensamento socialista e a economia política, sendo considerada a obra mais citada nas ciências sociais publicada antes de 1950.
Pretende ser uma exposição de ciência econômica, é verdade, mais que uma tese filosófica. Este caráter foi uma das causas mais eficazes do seu êxito junto dos espíritos do século XIX, tão imbuído do cientismo, mas encontra-se nela uma real doutrina filosófica do materialismo histórico e dialético que a inspira, como no comunismo ateu que é a sua floração última.
A teoria fundamental do socialismo é o materialismo histórico e dialético. Para Karl Marx o desenvolvimento da vida humana individual e social depende totalmente das condições sociais e econômicas.
Na vida econômica o capital e o trabalho podem resumir-se assim: a) o valor verdadeiro de toda a mercadoria é igual à quantidade de trabalho que lhe está incorporado, de modo que o trabalhador tem o direito de apoderar-se de todo ele; b) a organização capitalista frustra o operário. Por isso o capital é um roubo contínuo sobre o trabalho; c) o antagonismo entre o capital e o trabalho tornar-se-á cada vez mais violento e iníquo; d) a classe operária sairá necessariamente vitoriosa da sua luta contra o capitalismo.
Na vida cultural o indivíduo existe para a sociedade. O verdadeiro valor do homem é o de ser um trabalhador digno de fazer parte da classe operária, de ora em diante dominadora.
A vida moral é inteiramente subordinada ao interesse do proletariado e às exigências da luta de classe.
A vida religiosa é sinônimo de ateísmo militante. Um dos obstáculos mais essenciais a extirpar é a religião e a crença em Deus, pois “a religião é o ópio do povo”.
Antonio Sebastiano Francesco Gramsci (1891-1937) foi um filósofo marxista, escritor, teórico político, jornalista, crítico literário, linguista, historiador e político italiano.
Na cidade de Turim, que passava por um rápido processo de industrialização com as fábricas Fiat e Lancia, que recrutavam trabalhadores de várias regiões da Itália, ele escreveu sobre teoria política, sociologia, antropologia, história e linguística. Seus escritos eram publicados em jornais de esquerda e lhe proporcionaram fama.
Nos seus artigos ficaram conhecidas suas ideias sobre a hegemonia cultural, a ampliação da concepção marxista do Estado, a necessidade de educar os trabalhadores e a de formar intelectuais provenientes da classe trabalhadora denominada “intelectuais orgânicos”, a distinção entre a sociedade política e a sociedade civil, o historicismo absoluto, a crítica do determinismo econômico e do materialismo filosófico.
Ficou famoso pela elaboração do conceito de hegemonia e bloco hegemônico, assim como por focar no estudo dos aspectos culturais da sociedade (superestrutura no marxismo clássico) como elemento a partir do qual se poderia realizar uma ação política e como uma das formas de criar e reproduzir a hegemonia.
Descobrem-se na psicologia contemporânea dos séculos XIX e XX três caracteres que, dum lado, lhe levam as origens até Descartes através de A. Comte e Kant e, de outro lado, fazem dela um autêntico afluente do grande rio positivista.
Toma por objeto o fato da consciência, isto é, tudo o que depende da observação interna. A única classificação exata põe, de um lado, os fatos de observação exterior chamados de objetos materiais, físicos; - e de outro lado os fatos de consciência chamados, por oposição, fatos psíquicos, de ordem ideal e, por vezes, espirituais.
Sob a dupla influência de Kant e de A. Comte, as pesquisas sobre a natureza da alma e das suas faculdades são substituídas por hipóteses científicas no sentido positivista, destinadas a unificar os fenômenos do eu.
Os métodos psicológicos tornam-se cada vez mais científicos e matemáticos e o seu fim é estabelecer unicamente as leis, explicando a origem e desenvolvimento dos diversos estados da consciência.
William Hamilton (1788-1856) apresenta a sua teoria da percepção, admitindo o seu valor no mundo externo, que é apreendido por intuição como um objeto que se opõe ao nosso eu. O objeto real assim conhecido não é aquele que está longe de nós mas a realidade em contato imediato com os nossos sentidos.
Quanto à relatividade do conhecimento mostrou a nossa impossibilidade de atingir o absoluto. Antes de tudo recorre à observação psicológica e sintetiza o caráter próprio do nosso conhecimento nesta lei :”Pensar é condicionar”. Para ele o Infinito é “incondicionalmente ilimitado” e o Absoluto é “incondicionalmente limitado”.
Depois de Descartes, os lógicos esforçavam-se por precisar os métodos das ciências positivas e denunciavam os abusos do silogismo entre os antigos.
Aristóteles tinha distinguido três espécies de proposições: universais, particulares e singulares segundo a extensão do sujeito. Hamilton quer que se tenha também em conta a quantidade do predicado, porque dizendo “Todo homem é racional”, o espírito pensa muito diversamente o atributo: todo homem com efeito é “todo ser racional”, mas não “todo ser vivo”. Assim ele obtém na lógica quatro formas de proposições: as todo-totais, como as definições; as todo-parciais como:”todo homem é algum vivo”; as parti-totais como “algum vivo é todo homem” e as parti-parciais como “algumas figuras equilaterais são alguns triângulos.
3.2.6. Utilitarismo, associacionismo e psicologia experimental
Jeremy Bentham (1748-1832) foi filósofo, jurista e um dos últimos iluministas a propor a construção de um sistema de fiosofia moral, não apenas formal e espceculativa, mas com a preocupação radical de alcançar uma solução para a prática exercida pela sociedade de sua época.
A sua originalidade foi fundar uma verdadeira escola para espalhar suas ideias e obter a reforma das leis.
“Os homens têm por único motivo determinante nas suas decisões o prazer ou a dor, que esperam ou temem, da sua ação.” Ele supõe que isso é um fato verdadeiro e erige como regra suprema de moralidade. O bem é pois o que nos é útil e o mal o que nos é nocivo: tal é o princípio do utilitarismo.
A utilidade do indivíduo e a da sociedade são as únicas normas morais. Dever do moralista é classificar os prazeres em série hierárquica, a fim de melhor aquilatar o valor moral das ações.
Pai de John Stuart Mill, James Mill (1773-1836) foi um historiador e filósofo escocês. Partidário do liberalismo, é um famoso representante do radicalismo filosófico, uma escola de pensamento também conhecida por utilitarismo, a qual defende uma base científica para a filosofia.
Ficou conhecido por sua obra Analysis of the Phenomena of the Human Mind, tratado de psicologia experimental em que expõe sistematicamente a teoria do associacionismo.
O princípio fundamental é este: “Todos os fenômenos de consciência se podem resolver em elementos simples que, combinando-se diversamente segundo as leis da associação, explicam todas as nossas funções psicológicas”, da mesma forma que em química, graças às leis da das combinações, alguns corpos simples explicam todos os outros.
Assim pois com apenas três elementos: sensações, ideias e as leis da associação J. Mill reconstrói todos os aspectos da nossa vida consciente.
John Stuart Mill (1806-1873) foi um lógico e economista britânico. É considerado como o filósofo de língua inglesa mais influente do século XIX.
Conquanto permanecendo fiel às teses essenciais do positivismo, exprime-se nas suas obras primas System of deductive and intuitive logic e Principles of political economy, que exprimem, relativamente aos tratados anteriores de Malthus e Ricardo, uma reação fundada sobre o sentimento da vida e o otimismo moral.
Contrariamente ao sentir de Comte reivindica para a psicologia o caráter de verdadeira ciência independente. É esta a nota distintiva do positivismo inglês.
Em lógica defende o nominalismo, em moral e sociologia professa o utilitarismo e o socialismo moderado. Em psicologia filia-se na escola associacionista, que pretende explicar toda a vida psíquica do homem pelas leis de associação de imagens.
A tese fundamenal que parece unificar as suas diversas doutrinas é certamente a seguinte: “O essencial da existência do homem é a espontaneidade vital que devemos conceber, não como uma substância ou princípio espiritual, mas como um fato de experiência apreensível em si pela consciência e nos outros pela observação externa”.
O impulso dado por Stuart Mill à escola associacionista desenvolveu-se na Inglaterra na obra de vários psicólogos. O discípulo preferido de Mill e o mais notável foi Alexander Bain (1818-1903), professor da Universidade de Aberdeen, que se dedicou de preferência ao estudo da psicologia, codificando e sistematizando as ideias dessa escola.
Filósofo e educador escocês da escola britânica de empirismo, é figura proeminente inovadora nos campos da psicologia, linguística, lógica, filosofia moral e reforma educacional. Fundou Mind, primeiro jornal de psicologia e filosofia analítica.
Suas obras principais são: The senses and the intellect, The emotions and the will, Mind and Body, Logic.
A ideia diretriz de Bain é querer construir a ciência dos fatos da alma, aplicando-lhes o método das outras ciências positivas, sobretudo da história natural e da fisiologia.
Dois traços caracterizam a sua obra: a) o uso contínuo da fisiologia e b) a lei fundamental que explica a nossa vida é a associação nas duas grandes partes da nossa vida: o conhecimento e o sentimento.
George Henry Lewes (1817-1878) é outro seguidor da escola associacianista. Fisiologista, foi autor de várias obras filosóficas como A Biographical History of Philosophy e The Problems of Life and Mind.
Nelas toma posição em favor do positivismo, mas reservando entre as ciências positivas um lugar à psicologia. Defende a tese de que a nossa consciência não tem unicamente por sede o cérebro mas também os outros centros do sistema nervoso, os órgãos externos e os gânglios da medula espinhal.
Samuel Bayley (1791-1870) nas obras Letters on the Philosophy of the Human Mind e The Theory of Reasoning trata também do estudo dos fatos de consciência segundo o método positivo. Liga-se à escola escocesa, admitindo a percepção do mundo exterior como uma crença válida.
John Daniel Morrell (1816-1891) nas obras An Introduction to mental philosophy on the inductive method e Philosophy of the religion quer igualmente submeter a psicologia ao método indutivo, mas concedendo maior importância aos fatos religiosos, que nos fazem entrever o Incognoscível além dos fenômenos.
Joseph Murphy (1898-1981) na obra Habit and intelligence in ther connection with the laws of matter and force reduz todos os fenômenos da vida a dois fatores principais: a inteligência e o hábito.
Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893) foi um cítico e historiador, um dos expoentes do positivismo do século XIX.
Seu método consistia em fazer história e compreender o homem à luz de três fatores determinanes: meio ambiente, raça e momento histórico.
As suas principais obras de flosofia são: Les Philosophes Classiques du XIXe Siècle en France, Histoire de la Littérature Anglaise, De l’Intelligence e Philosophie de l’Art. No seu gande trabalho sobre Les origines de la France contemporaine desenvolve as suas qualidades eminentes de sábio positivo, de escritor e também de filósofo sistemático.
Fascinado ao mesmo tempo pela ciência positiva e pela necessidade de unidade levada até o panteísmo, essa dupla tendência pode ser sintetizada assim:
“Dado que o objeto único proporcionado à nossa inteligência é o fato de experiência sensível, o ideal do sábio é de libertar por abstração a lei unificadora e explicativa do grupo de fatos que constituem cada ciência, para atingir enfim a lei suprema que unifique todas as ciências”.
Este princípio é a afirmação dos seus dois postulados: a) apenas atingimos o fato de experiência e b) cada ciência tem a sua lei unificadora.
A psicologia positiva construída segundo o método associacionista nascido na Inglaterra sobretudo com Stuart Mill e seu discípulo Bain, foi implantada em França por Taine, mas teve o seu apogeu na Alemanha quando foram inaugurados os estudos de psicofísica destinados a encontrar a fórmula matemática das leis psicológicas.
O iniciador desta escola foi Johann Friedrich Herbart (1776-1841), filósofo, psicólogo e pedagogo considerado o fundador da pedagogia científica moderna. É conhecido por sua teoria da apercepção e seu modelo de ensino em cinco etapas, que combina filosofia e psicologia para aprimorar a prática pedagógica.
É também conhecido por haver tentado aplicar aos fenômenos psíquicos as leis mecânicas e matemáticas. Seus estudos neste sentido preludiam o aparecimento da psicologia experimental. As suas obras Psychologie als Wissenschaft e Lehrbuch zur Psychologie são apoiadas sobre a experiência, a metafísica e a matemática.
Rudolf Hermann Lotze (1817-1881) foi um filósofo e lógico alemão, que contava com uma graduação de médico e era muito versado em biologia. Os seus estudos em medicina foram pioneiros no campo da psicologia científica.
Além de suas obras médicas escreveu também uma Metaphysik, uma Logik, uma Medicinische Phychologie e o Mikrokosmus, onde estuda sucessivamente o corpo, a alma, a vida, o homem, o espírito, o curso do mundo, a história, o progresso e o encadeamento das coisas. Enfim publicou o seu grande System der Philosophie.
Ele tem a sua maneira própria de interpretar as coisas. Mantém uma posição intermédia entre o realismo de Leibniz e de Herbart e o idealismo de Schelling ou de Hegel; ensina igualmente não só a importância da ideia e do papel do espirito mas também a existência dos fatos de experiência e das coisas exteriores.
Afirma explicitamente a distinção entre Deus e o mundo, por Deus criado e por Ele dirigido para o bem ou contemplação da verdade.
Gustav Theodor Fechner (1801-1887) foi um filósofo alemão. Professor em Leipzig, era tido como um matemático e físico brilhante. Em 1839 esteve ameaçado pela cegueira. Isto resultou em uma grave crise pessoal que o impossibilitou de lecionar e despertou seu interesse por questões psicológicas e religiosas.
Para ele o físico e o psíquico não seriam realidades opostas mas aspectos de uma mesma realidade essencial, ou seja, fenômenos mentais correspondem a fenômenos orgânicos (estímulos), algo denominado paralelismo psicofísico. O universo seria então um conjunto vivificado de seres finitos sustentados pela infinitude de uma entidade divina. Assim as leis naturais seriam manifestações da perfeição dessa entidade.
Procurando demonstrar que o psíquico e o físico são dois aspectos diferentes da mesma realidade, formulou em seus
Elemente der Psychophysik uma lei estabelecendo a relação entre a quantidade de excitação e a intensidade da sensação. Fechner foi um dos pioneiros da psicologia experimental e da própria psicologia.
Wilhelm Maximilian Wundt (1832-1920) foi um médico, filósofo e psicólogo alemão. Professor em Leipzig, é considerado um dos fundadores da psicologia experimental junto com Weber, ultrapassando de muito as investigações bastante limitadas de Fechner. Está apesar disso com ele, mantendo o ponto de vista positivista e dando um lugar escolhido aos problemas de psicologia.
Na sua obra Völkerpsychologie trata das grandes classes permanentes das manifestações da vida coletiva: a linguagem, a arte, o mito e a religião, a sociedade, o direito e a civilização.
No seu pricípio fundamental a filosofia é um esforço para interpretar os fatos autênticos de experiência. A fim de provar esse princípio indica: a) qual é o dado autêntico de experiência; b) a natureza e o valor do princípio da razão suficiente e c) os resultado da sua aplicação.
Os estudos feitos no sentido da aplicação dos métodos experimentais aos fatos psíquicos são hoje muito numerosos e constituem uma nova ciência - a psicologia experimental.
Théodule-Armand Ribot (1839-1916) foi um psicólo francês. A partir do estudo dos métodos experimentais analisou um grande número de peculiaridades herdades.
Dedicou especial atenção ao elemento físico da vida mental, ignorando todo o fator espiritual ou material do ser humano. Tomou resolutamente partido pela psicologia positiva de Stuart Mil e de Taine, prosseguindo a reação contra o ecletismo.
A sua tese fundamental pode resumir-se assim:
“A psicologia é uma ciência positiva, cujo objeto é o fato da consciência estudado na sua individualidade segundo o método experimental, para estabelecer um sistema de leis dinâmicas”.
Os elementos da sua tese são: a) o objeto a estudar é o fato de consciência concreto; b) o método deve ser a união harmoniosa de três processos subjetivo, objetivo e experimental e c) as leis que resumem os três períodos da sua vida. O primeiro é sobretudo combativo, o segundo é construtivo e o terceiro é consagrado ao estudo da psicologia afetiva.
As suas obras são La Psychologie anglaise et allemande contemporaine, onde mostra a dependência da vida consciente em face das condições materiais, o que se opõe à espiritualidade e nos leva a explicar tudo pelas leis biológicas.
Sob o impulso de Ribot um grupo de psicólogos se constituiu em Paris, aplicando o seu método em diversos domínios.
Alfred-Edouard-Louis-Antoine Binet (1857-1911) consagrou-se ao método objetivo, em particular dos testes. Foi levado a estabelecer solidamente a lei da independência do pensamento em face não só de qualquer sensação mas da imagem no sentido estrito.
Pierre-Marie-Félix-Janet (1859-1947) continua a aplicação do método patológico, pois o que constitui a personalidade e o seu valor é o poder de síntese que unifica os fatos de consciência.
Jean-Paulhan (1884-1968) admite também na base da vida psicológica um sentimento inconsciente de ordem fisiológica, cuja tendência predominante funda o caráter de cada um.
À escola francesa podem ser ligados dois psicologos austríacos: Franz Clemens Honoratus Brentano (1838-1917) fundador em Viena de uma escola de pscologia dinamista e Sigismund Schlomo Freud (1858-1939), que dirigia uma escola de psicanálise especializada no estudo do subconsciente.
Alfred Jules Émile Fouillée (1838-1912) tudo reduz à psicologia pela sua teoria das ideias-forças ou da mente como causa eficiente através da tendência das ideias de se realizarem em movimentos apropriados.
3.2.7. Sociologia positivista
Os grandes pensadores, como H. Spencer, Taine e Stuart Mill, todos deram, na sua síntese, lugar à sociologia.
Mas no fim do século XIX nasceu em França uma escola que exclusivamente se entregou ao estudo das sociedades segundo os métodos positivos, esforçando-se por extrair daí uma verdadeira ciência moral.
É esta escola que prolonga e renova um dos pontos mais originais do Comtismo.
A esta corrente sociológica podem dar-se como precursores Joseph Ernest Renan e David Émile Durkheim.
Josph Ernest Renan (1823-1892) foi um escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês.
Seu único sistema filosófico foi um ceticismo diletante fugidio. Teve sobretudo influência como literato e exegeta.
A sua obra está dominada por duas ideias que o ligam ao positivismo social: a exclusão de todo o sobrenatural a priori em nome da ciência e a excelência proclamada das ciências (paleontologia, exegese etc.) destinadas a substituir todo o resto.
Suas obras mais conhecidas são Vie de Jésus, Réforme intellectuelle et morale, Dialogues philosophiques, Examen de conscience philosophique e l’Avenir de la science.
Jean-Gabriel de Tarde (1843-1904) foi um filósofo, sociólogo, psicólogo e criminologista francês. É como um traço de união entre os psicólogos e sociólogos, porque estudou especialmente a psicologia das multidões, fazendo sobressair, em particular, o papel da imitação.
Suas obras foram: Les lois de l’imitation, La logique sociale, L’opposition universelle e Les lois sociales.
David Émile Durkheim (1858-1917) foi um sociólogo, antropólogo, cientista político e filósofo francês. Considerado o pai da sociologia, formalmente a tornou uma disciplina acadêmica, como o fundador da Escola Sociológica.
Pode datar-se esta fundação de 1895, quando apareceu o seu livro Les règles de la méthode sociologique ou de 1896, em que começou a publicação da Année sociologique, repositório de estudos originais e de análise de todos os tratados sociológicos aparecidos durante o ano.
As suas principais obras são: La division du travail social, Le suicide, Les formes élémentaires de la vie religieuse, Éducation et sociologie, Sociologie et Philosophie e l’Éducation morale.
As circunstâncias impunham um duplo fim à nova escola: 1) estabelecer como ciência especial positiva a sociologia, até então posta de lado pelo ensino oficial e contudo necessária à uma política sã; 2) fundar também a moral como ciência positiva. Daqui duas partes da obra de Durkheim: a sociologia e a moral. Estas duas partes não eram mais que os dois aspectos de uma solução.
A tese fudamental de Durkheim é o estudo da atividade própria do homem, isto é, da vida moral e social, que constitui uma ciência positiva especial, cujo objeto é uma realidade distinta de qualquer outra: um ser sui generis.
Esta tese, apesar das aparências, não é una: subdivide-se em dois princípios independentes: o do realismo social e do positivismo absoluto.
No princípio do realism social a sociedade é especificamente distinta dos indivíduos que a compõem: é uma realidade nova, dotada de qualidades próprias, tendo a sua vida e a sua atividade regidas por leis especiais.
No princípio do positivismo absoluto não há outro meio legítimo e fecundo de estudar o homem senão o da observação científica objetiva ou externa, já aplicada em outros domínios: é a obra da sociologia, última e suprema ciência positiva. O princípio justifica-se facilmente como aplicação da doutrina positivista: “Não podemos conhecer cientificamente senão os fenômenos sensíveis e suas leis”.
Em sociologia Durkheim estuda em primeiro lugar o método que expõe em pormenor e do qual dá alguns exemplos de aplicações fragmentárias. Pode reduzir-se a quatro regras o método proposto e deduzido da tese fundamental.
Na regra de preparação o sociólogo deve começar por afastar do seu espírito qualquer premoção, isto é, toda teoria a priori sobre o homem; deve praticar a dúvida metódica e pôr-se em presença do seu objeto como diante de um fato do qual deve verificar a existência e os caracteres. Esta regra é uma consequência do segundo princípio; deve assegurar à sociologia a categoria de ciência experimental ou positiva.
Na regra de especialidade o sociólogo deve esforçar-se por considerar os fatos pelo lado em que se apresentam isolados das suas manifestações individuais e, para estabelecer as suas leis, deve procurar a explicação ou a causa dum fato social exclusivamente num outro fato social.
Na regra de adaptação o melhor método para descobrir a causa dum fato social é a das variações concomitantes: admitido que um mesmo fato tem a mesma causa, se dois fatos ligados entre si variam semelhantemente, estão evidentemente unidos como causa e efeito no sentido positivista, isto é, como antecedente e consequente regulados pela lei do determinismo.
Na regra de especialização é preciso renunciar a estabelecer, de momento, leis universais para nos consagrarmos a monografias ou estudos de pormenor. A sociologia deve continuar ainda por muito tempo um método dirigindo os múltiplos trabalhos particulares para um mesmo fim, esperando que deles possa tirar conclusões gerais.
Segundo Durkheim o método único capaz de constituir uma verdadeira ciência moral será objetivo e sociológico. Objetivo, pois não considera o que deve ser, mas o que é, observando a atividade moral da humanidade atual ou passada. Sociológico, uma vez que o bom método deverá considerar o fato moral como eminentemente social e apontar-lhe-á a causa de ordem exclusivamente social.
Nos caracteres da moralidade ele aplica simultaneamente os dois aspectos do seu método, correspondentes às duas faces da sua tese fundamental. No espírito de disciplina um ato não é considerado moral senão quando é informado por uma regra exterior, uma lei que o predetemina e o torna habitual e estável. Na dedicação do grupo todo ato egoísta é reputado imoral; assim o segundo caráter de todo ato moral é ser altruísta. Na autonomia da vontade tudo que viola a consciência pessoal e a livre disposição de si próprio é reputado imoral.
O terceiro elemento da moral é o caráter sagrado do indivíduo, a autonomia da sua vontade. No seu papel a sociedade é a explicação suficiente e científica da religião.
Do mesmo modo que a física e a química a ciência moral tem um fim prático: permitir aos homens viverem plenamente a sua vida, conformando-se com as leis melhor conhecidas da sua existência.
O século XIX retivera sobretudo as conclusões negativas da crítica kantiana; os idealistas como os positivistas tinham abandonado o estudo da coisa em si (das Ding an sich), excluída por Kant do domínio da ciência, e tinham reduzido a filosofia a um simples exercício de síntese geral, construída com os dados das cências. Mas nos fins do século XIX e princípios do XX produziu-se uma reação entre os filósofos modernos, impelidos por uma necessidade natural da nossa inteligência, pretendendo ultrapassar o fenômeno sensível e suas leis a fim de atingir a substância e o real espiritual, para retomar a tese do primado da Razão Prática e da metafísica moral.
Esta escola filosófica pode caracterizar-se por três teses fundmentais: a) agnosticismo absoluto (A inteligência humana é radical e totalmente incapaz de conhecer o real); b) verdade utilitária (As concepções intelectuais apenas têm valor à medida que favorecem a vida e o progresso); c) conhecimento sentimental (O único meio de atingir o verdadeiro objetivo é o sentimento ou a ação).
3.2.8. Pragmatismo
O verdadeiro fundador do pragmatismo foi Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo, pedagogista, cientista, linguista e matemático americano. Seus trabalhos apresentam importantes contribuições à lógica, matematica, filosofia e pincipalmente à semiótica. Foi um polimato, que desenvolveu uma teoria triádica dos signos e categorizou a realidade em primeiridade (possibilidade), secundidade (fato/ação) e terceiridade (lei/hábito).
Num artigo publicado em 1878 no Popular Science Monthly expôs as ideias fundamentais do seu sistema, ou seja, que o conhecimento humano é construído através de signos e que a verdade de uma ideia reside em seus efeitos práticos.
Inovador em matemática, estatistica, filosofia, metolologia de pesquisas e várias ciências, ele se considerava antes de tudo um lógico. Fez grandes contribuições à lógica que, para ele, abarcava muito daquilo que agora é chamado de epistemologia e filosofia da ciência. Ele enxergava a lógica como ramo formal da semiótica, que prenunciava o debate entre os positivistas lógicos e os defensores da filosofia da linguagem, que dominou a filosofia ocidental do século XX. Além disso definiu o conceito de raciocínio abdutivo, bem como a indução matemática rigorosamente formulada e o raciocínio dedutivo. Já em 18869 viu que operações lógicas poderiam ser realizadas por circuitos elétricos de comutação.
William James (1842-1910) é o chefe incontestável da escola do pragmatismo americano. Na sua teoria ele estabelece uma regra de verdade da qual se serve principalmente nas suas investigações de psicologia.
É aí que propõe a sua célebre hipótese da subconsciência e a sua metafísica imanentista, que fazem dele um precursor do modernismo e do movimento que arrasta a filosofia contemporânea para além do positivismo.
A teoria do pragmatismo que transforma a noção de verdade é um novo ensaio de solução do problema crítico. Conclui que Kant tem razão: a inteligência ilude-se a si própria quando julga refletir nas suas ideias a “coisa em si”; só o que da experiência provém pode aceitar-se com válido.
A sua segunda preocupação é fazer obra científica. Para o filósofo americano “uma doutrina é verdadeira à medida que é útil e proveitosa”.
Por este meio a nossa inteligência volta a encontrar o seu verdadeiro papel, que não é estático e passivo mas dinâmico e ativo: “Pensar é resolver problemas”.
As suas obras principais são: The Principles of Psychology, The Varieties of Religious Experience e Pragmatism.
William James é um dos principais representantes da psicologia experimenal e o seu livro The Principles of Psychology tornou-se o manual para o ensino desta ciência nas universidades americanas.
Em nome da intuição psicológica ele afirma que a consciência é uma realidade irredutível à ordem física; o seu caráter essencial é ser uma corrente vital ininterrupta, inexprimível em conceitos e cuja unidade e variedade se esforça por descever.
O que distingue a percepção da sensação é unicamente a educação que ensina a falhar, no campo da consciência, objetos determinados. O conceito abstrato explica-se graças às leis da atenção e corrige a teoria da origem fisiológica das emoções. Em vez de termos objeto conhecido, emoção e reação, teremos objeto conhecido, reação e emoção.
Assim ele precisa a ideia do inconsciente ou subconsciente graças às investigações da psicologia experimental.
Na sua metafísica imanentista ele junta o caráter transcendental do sentimento religioso e verifica que todas as experiências religiosas de conversão têm em comum um duplo estado de alma: uma inquietude ou sentimento de que qualquer coisa vai mal; depois uma mesma libertação, sentimento de termos sido salvos desse mal por um Poder superior. Tudo se explica, se admitirmos que, pela subconsciência, nos identificarmos a um Ser, a um Eu maior, que podemos chamar de Deus ou o Divino.
Para caracterizar as grandes correntes da filosofia contemporânea, é necessário não esquecer, duma parte, que a mentalidade positivista continua ainda poderosa especialmente em psicologia e em sociologia; por outro lado, que o despertar do pensamento católico, sob o aspecto do neotomismo, inicia um movimento pleno de riqueza e de esperança na ordem metafísica, psicológica e crítica.
Entre os dois, precedida do pragmatismo americano, como uma porta-bandeira, avança a massa dos pensadores unidos num impulso comum para escapar às proibições do positivismo; mas esforçam-se por dois caminhos bastante divergentes.
Uns tomam a via do espírito, remontando às fontes do idealismo e do criticismo kantiano para o corrigir e ultrapassar, na esperança de encontrar ”a coisa em si”. Outros, mais estreitamente aparentados ao pragmatismo, adotam a via do sentimento; entre estes encontra-se o grupo dos pensadores religiosos, conforme F.- J.Thonnard (Compêndio de História da filosofia, pág.888), que vêm naufragar na última grande heresia do nosso tempo: o modernismo.
A doutrina kantiana, dissociando-se, produzira, no século XIX, em face do positivismo, os grandes sistemas dos idealistas panteístas; entre estes, a poderosa síntese de Hegel fez sentir a sua influência até ao nosso tempo: foi a primeira forma de reação pela via do espírito contra o positivismo.
Mas com este impunha às nossas ciências metas arbitrárias, pretendendo que além dos fenômenos já não há ciência acessível ao homem, bom número de pensadores, conquanto ficando convencidos do valor filosófico da inteligência, levantaram-se contra esta pretensão,
a) quer retomando o exame crítico dos nossos conhecimentos, segundo o espírito crítico de Kant. Foi o idealismo crítico.
b) quer submetendo a uma séria reflexão os títulos à verdade das ciências positivas. Foi a crítica das ciências.
c) quer, enfim, retomando de novo o problema da possibilidade e do objeto da filosofia. Foi a fenomenologia.
3.2.9. Idealismo anglo-saxônico
A influência de Hegel espalhou-se através do século XIX, sbretudo no mundo anglo-saxônico: mas também na Itália, em França e nos Países Baixos.
Aceitando o dealismo, os pensadores anglo-saxões sofrem ainda o atrativo do concreto. O espírito universal do panteísmo aparece-lhes como uma realidade que a experiência não perde a esperança de atingir. Por isso o monismo hegeliano tende, pouco a pouco, a dissolver-se em pluralismo.
Hegel foi revelado na Inglaterra por James Hutchison Stirling (1820-1909) na sua obra The Secret of Hegel. Ele enfatiza continuamente a peculiar vertente desse racionalismo e via na categoria kantiana de reciprocidade a essência da identidade entre identidade e não identidade de Hegel.
Quanto à filosofia política de Hegel, ele interpretou a ideia de uma vontade objetiva como um ataque à excesssiva subjetividade da economia política laissez-faire. Essa abordagem era particularmente forte e autoconfiante nessa época.
Stirling parece ter encarado a economia política como mera filosofia política deficiente, enquanto Hegel via nela a explicação da vida econômica burguesa e o meio de introduzir um elemento subjetivo em sua teoria do Estado racional. Assim ele contribuiu para criar um clima de opinião no qual Hegel pudesse ser levado a sério, mas não fez nenhuma contribuição direta para uma apreciação sóbria e uma compreensão crítica do hgelianismo.
Thomas Hill Green (1836-1882) foi um filosofo inglês, político radical, reformador do movimento da temperança e membro do idealismo britânico. Influenciado pelo historicismo metafísico de Hegel, foi um dos pensadores da filosofia do liberalismo social.
Parte de Kant. Como o fundador do criticismo, proclama a necessidade de um princípio capaz de dar às sensações uma unidade orgânica. A exigência desse princípio estável e construtor do objeto para explicar a vida de conhecimento basta, outrossim, para evidenciar a existência de Deus e fundar a ordem moral, refutando, com o empirismo, também o ateísmo e o hedonismo.
Ele insiste sobre o papel do espírito que, ligando as diversas sensações, faz delas um real conhecimento científico. Assim, o espirito mostra que não vem da evolução das forças mecânicas: é uma realidade imaterial, acima do espaço e do tempo; e, no seu fundo, é a própria consciência de Deus, da qual cada uma das nossas consciências não é mais que uma participação limitada por um organismo e cujos pensamentos constituem todos os seres do universo. Caímos assim num panteísmo idealista à maneira de Fichte e de Hegel.
As palestras que proferiu como professor foram transformadas em suas duas obras mais importantes, a saber, Prolegomena to Ethics e Lectures on the Principles of Political Obligation, que contêm todo o seu ensino construtivo positivo.
Francis Herbert Bradley (1846-1924) foi um filósofo inglês, o membro mais influente do movimento conhecido por idealismo britânico.
Ele julga que o dado da experiência sensível, tomado na sua totalidade, contém este “Absoluto” infinito do qual as nossas individualidades são apenas manifestações fragmentárias. Na experiência sensível um tal objeto fica “um fato indescritível e inexplicável”; os nossos juízos científicos determinam-no por atribuições parciais; mas estas não são verdadeiras senão quando sugerem a realidade total que parece viver no fundo de tudo como o espírito hegeliano, ao mesmo tempo universal e concreto.
Na sua obra Ethical Studies,The principles of Logic, Appearence and Reality, Essay on Truth and Reality a realidade define-se pela experiência absoluta, universal, de que a consciência humana, experiência finita é simples participação. A nossa experiência só atinge os fenômenos e está condicionada pelas categorias de espaço, tempo, substância, causa etc. que envolvem contradição e são insuficientes para definir a realidade absoluta, só atingíve pelo contato direto. Nela se resolvem todas as antinomias do mundo das aparências, simples fragmentos de uma totalidade abraçada pela experiência integral.
Bernard Bosanquet (1848-1923) foi um filosofo e teórico inglês, figura influente em questões de política social no final do século XIX e início do século XX. Insiste sobre as confirmações experimentais que podem fornecer a este idalismo quer a vida social, quer o mundo da arte e da religião. Aí, com efeito, a soluçao das contradições não se obtém pelo trabalho intelectual mas pela presença duma realidade onde tudo é coerente. Esta dominação do espírito universal em idealismo helegeliano ameaça sempre absorver o indivíduo o no monismo.
Josiah Royce (1855-1916) foi um filósofo americano, sendo reconhecido como o principal expoente do idealismo absoluto nos Estados Unidos no final do século XIX e início do XX.Ele se esforça por conciliaros dois aspectos. Afirma a existência de um “eu” absoluto, cuja unidade possuindo todos os objetos de pensamento, garante o valor das nossas ciências, mas este “eu” apenas se manifesta numa pluralidade de indivíduos livres que são os artífices do seu próprio destino.
JohnMcTaggart Ellis McTaggart (1866-1925) foi um influente metafísico idealista britânico, conhecido por seu idealismo hegeliano e pela célebre tese de que o tempo é irreal. Pouco mais guarda do hegelianismo que o método dialético. Não admite como reais “eus” finitos e múltiplos, diversamente agrupados entre os quais o próprio Deus é um ser finito de poder limitado. E assim se entra em contato com o pluralismo querido de W. James.
Benjamin Jowett (1817-1893) foi um escritor inglês, estudioso de clássicos, tradutor de Platão e Tucídides. Iniciador do segundo movimento de Oxford, foi um platonizante notável, mas que muito contribuiu para chamar a atenção da filosofia de Hegel.
Edward Caird (1835-1908) foi um filósofo escocês, que se aplicou ao estudo da religião. Nas suas obras mais importantes, The evolution of Religion e The evolution of Theology in the Greek Philosophers distingue três fases no desenvolvimento da religião: o da religião objetiva ou dos povos selvagens que fazem de Deus um objeto entre os outros objetos; a da religião subjetiva, ou dos budistas, judeus e estoicos, que encontram Deus na própria alma, mas em oposição ao mundo; finalmente a da religião absoluta, em que Deus transcendente se manifesta no mundo mas dele se dintingue. O cristianismo é a expressão perfeita dessa religião absoluta em que se depura o conceito da divindade e se define melhor a comunhão dos homens com o Absoluto.
Também a desenvolver a filosofia religiosa do hegelianismo dedicaram-se John Caird (1820-1898), irmão mais velho do precedente é William Wallace (1843-1897), que se esforça mais por determinar as relações entre a teologia natural e a revelada.
Na Itália o hegelianismo conserva mais o seu caráter monista. O movimento político do Risorgimento que trabalhava para a unficação da península encontrou na teoria hegeliana do Estado um apoio, expressão e um estímulo, cujos iniciadores foram os seguintes pensadores:
Augusto Vera (1813-1885) que traduziu muitas das obras de Hegel. Escreveu Introduction à la philosophie de Hegel.
Bertrando Spaventa (1817-1883) que publicou La filosofia italiana nelle sue relazioni con la filosofia europea.
Francesco Fiorentino (1834-1884) que escreveu Volgarizzazione dell’itinerario della mente a Dio di S. Bonaventura, dei Libri del Maestro, Dell’immortalità dell’anima e dei Libero arbitrio di S. Agostino, del Proslogio di S. Anselmo e Il panteismo de Giordano Bruno.
Pasquale D’Ercole (1831-1917) que ficou famoso por estudar o positivismo e o pensamento de Nietzsche. Publicou La pena di morte e la sua abolizione dichiarate teoricamente e storicamente secondo la filosofia hegeliana.
Benedetto Croce (1866-1952) foi um dos intelectuais mais importantes da Itália do século XX. Suas obras abrangem estética, história, historiografia e filosofia política, destacando-se por sua visão de um idealismo absoluto e pela defesa do libealismo.
Ele adota o modelo dialético de Hegel. “Os contários, diz ele, opõem-se entre si, mas não se opõem à unidade, pois a unidade verdadeira e concreta não é mais que a unidade ou a síntese dos contrários”. Depois, valendo-se desse método, considerando o espírito como realidade fundamental, dele deduz a estética, a lógica e a ética. Nesta apenas reconhece às leis o papel de “simples auxiliar das volições reais” e proclama a necessidade, sobretudo para um governante, de adaptar as suas decisões às realidades concretas,
Suas obras principais são Ciò che è vivo e ció che è morto della filosofia di Hegel, La filosofia come scienza dello Spirito e Logica come scienza del concetto puro.
A religião, para ele é uma forma impefeita e antecipada da filosofia, que será um dia absorvida pela própria filosofia já adulta e perfeita.