RESUMO

O estudo sobre a temática realidade sempre foi alvo de grande polêmica entre os cientistas que se dispuseram a observá-la. Entender a realidade é uma necessidade do homem, esperando desta forma dominar os aspectos da vida e alcançar a felicidade. Diversas são as áreas do conhecimento científico que se aproximam do tema referido, entretanto verifica-se que a filosofia é a que mais se identifica com o assunto. Na busca de compreender a realidade, constatou-se que não se poderá afastar alguns valores e princípios implícitos na natureza humana que se fundamentam na dignidade da pessoa. Considera-se que nossa realidade é o local onde as relações sociais humanas se desenvolvem respeitando os valores que consagramos como essenciais, fundamentais, inatos, estejam eles positivados ou não.

Palavras-chave:Realidade. Epistemologia. Dignidade da pessoa humana

SUMÁRIO: Introdução; 1 A relação entre realidade e filosofia; 2 A necessidade de conhecimento sobre a realidade; 3 Realidade e aparência; 4 O conhecimento na relação do binômio sujeito e objeto; 5 A percepção da realidade por meio de categorias; 6 A realidade nos postulados do direito natural e positivo; 7 Conclusão; Referências.


INTRODUÇÃO

A temática realidade é sempre objeto de estudo nas diferentes áreas do saber científico. Por sua dinamicidade e variedade, tanto em âmbito espacial quanto temporal e cultural, variando conforme os interesses da sociedade que a pesquisa, a realidade sofre interferências humanas e naturais. Não é à toa, portanto, que o tema é objeto de estudo em várias áreas do conhecimento científico, seja pela sociologia, filosofia, psicologia, política, dentre outras, estudando-a sob óticas e métodos diferentes, conforme cada especialidade.

Entende-se vulgarmente por realidade tudo aquilo que existe ou é, por oposição àquilo que se designa por nada, aparência, ilusão, desejo, projeto, imaginação e/ou fantasia.

O presente trabalho pretende observar o conhecimento do homem apreendido através da realidade por meio da teoria do conhecimento cientifico, ou seja, dentro de uma abordagem epistemológica.

Sabe-se que o homem também constrói sua realidade, em oposição a uma realidade que não depende dele como, por exemplo, a existência dos elementos naturais. Na realidade construída pelo homem se inclui os princípios, valores e regras relacionadas a uma determinada sociedade na busca de um fim. Dentre as finalidades está à realização o homem como pessoa.

Questiona-se sobre a possibilidade de se afastar os princípios do direito natural na busca desta realização do homem como pessoa humana, portanto portador de uma dignidade humana, pelo fato de dever ser somente considerados na aferição desta realização pessoal as regras inseridas no direito positivo.

Para tanto, verificar-se-á a importância da percepção da realidade diante de especulações filosóficas, demonstrando que o homem não simplesmente vive no mundo, mas possui uma real necessidade de compreender os fenômenos que ocorrem ao seu redor. Mostrará que existem realidades, aparências e imaginações que por vezes nos confundem e podem nos levar ao erro. Esclarecerá a relação existente entre o sujeito cognoscente e o objeto que se pretende conhecer, apresentando os graus de importância que diversos autores e doutrinas deram a estes elementos. Revelará a percepção da realidade por meio das categorias como forma de melhor compreensão da realidade. Finalmente, informará como a realidade interferiu nos postulados do direito natural e do direito positivo, fazendo breve conclusão sobre o tema abordado.


1.Relação entre realidade e a filosofia

São a religião, a arte e a filosofia que dão ao homem a convicção total sobre o sentido da realidade. A religião, como uma certeza recebida pelo homem dada por Deus gratuitamente e por Ele revelada; certeza esta que o homem não alcança por si mesmo. A arte significa certa convicção que o homem tem sobre determinado objeto, diante do qual interpreta seu sentido, transmitindo-o por meio de um dom. E a filosofia é uma certeza radical universal, que se justifica a si mesma, mostrando e provando sua verdade constantemente e nutrindo-se de evidências (Julían Marías 2004, p.4).

Até a idade média a sabedoria e a filosofia eram a mesma coisa, ou seja, era um conjunto universal de saberes que tinha por objeto a realidade em todos seus aspectos ou dimensões. Pela evolução e desenvolvimento das ciências, sobretudo a partir do século XVII efetuou-se a distinção entre filosofia e ciência sendo denominadas ciências por excelência as ciências particulares, exatas e experimentais. Assim, nasceu a matemática, a astronomia, a política, a sociologia, etc, de modo que, as ciências estudam objetos parciais da realidade e foi configurada como um saber fenomênico e positivo pelo fato de exigir a observação e sua respectiva comprovação (Javier Hervada 2008, p.4-5).

Por outro lado, a filosofia é ciência no sentido clássico da palavra, ou seja, como conhecimento pelas causas que chega a conhecimentos gerais, metódicos e sistemáticos, que se relacionam entre si por princípios, conceitos gerais e teorias. Diante destes argumentos pode-se dizer que a filosofia é a ciência das ciências na medida em que fundamenta as demais.

Não frutificaram as tentativas de construir um saber filosófico de acordo com um modelo ou método utilizado pelas ciências particulares como o tentaram Descartes e o método matemático, Newton e a física, Husserl e seu método fenomenológico, o Circulo de Viena e o neopositivismo, Gadamer e a hermenêutica existencial e Habermas e o neomarxismo, por exemplo, por tentarem reduzir o alcance do real a algum aspecto parcial e a filosofia não pretende tratar de dados parciais, mas, de generalidades e universalidades. (Hervada 2008 p.7-8).

O homem passou a filosofar no momento em que se viu cercado pelos problemas e mistérios, adquirindo consciência de sua dignidade pensante. A filosofia por ser expressão mais alta da amizade pela sabedoria tende a não se contentar com uma resposta, enquanto esta não atinja a essência, a razão última de um dado "campo" de problemas (Miguel Reale 2005, p.6-7).

A filosofia costuma tratar de conceitos universais que contêm em si conhecimento supra-sensível, pois, de uma experiência parcial chega-se a um conhecimento universal alcançando verdades que devem ser declaradas com maior grau de certeza possível (Javier Hervada 2008, p.42-44).

Os enunciados tidos como universais são o reflexo da realidade como uma imagem no espelho. Sabemos que a imagem do espelho reflete o objeto real por isso a imagem é verdadeira. Assim, o conceito homem não se refere a cada homem, mas reflete uma realidade verdadeira de todo homem.

Além dos universais, observa-se que nosso intelecto atinge conhecimentos metafísicos porque chega a conhecer, partindo da experiência sensível, entidades que escapam aos sentidos. Toda vez que nos utilizamos de um conceito estamos realizando metafísica. Toda vez que se pensa, que estabelece-se diferenças, está-se realizando metafísica, daí porque toda vez que se procura eliminar a metafísica do saber humano é produzido um abandono incorreto de uma parte fundamental do nosso saber que torna opaca uma dimensão essencial da realidade.

A filosofia ultrapassa os ciclos históricos. Sua universalidade está mais nos problemas do que nas soluções. Para o autor, a filosofia moderna marca uma mudança substancial no pensamento que começa com o humanismo e apresenta uma acentuada preocupação de explicar a natureza segundo as suas leis imanentes, situando o problema do homem no universo à luz do destino humano. A filosofia moderna irá assim, desenvolver-se cada vez mais como uma crítica do conhecimento (Miguel Reale 2005, p.8) .

A realidade apresenta um conceito extremamente complexo que merece reflexões filosóficas aprofundadas. Trata-se em última análise de questionar o sentido da vida humana. O homem construiu seus conceitos de realidade e a partir deles exerce no mundo seu domínio, alterando a cada momento a face do planeta. O homem é o construtor do mundo, edificador da realidade. Mas o homem não se sente construtor desta realidade, ao contrário, sente-se submetido à realidade, sendo conduzido por forças naturais e sobre as quais não tem controle nenhum. Para o autor, a questão da realidade e da verdade passa pela compreensão das diferentes maneiras de como o homem se relaciona com o mundo. Ciência, filosofia, arte e religião são quatro formas marcantes e especiais que esse relacionamento se dar (João Francisco Duarte Junior 2006 p.12-15) .

Quando o homem constrói realidades dá nome a tudo que constrói. Tudo o que existe para o homem possui um nome. A linguagem utilizada para expressar os objetos e sentidos que apreendemos é um elemento fundamental para comunicação de nosso conhecimento. A linguagem é o sistema fundamental e primordial de criação e significação do mundo. Assim, quanto mais palavras se conhece, maior será a amplitude da consciência do mundo (Duarte Jr. 2006, p.23-32) .

O mundo apresenta realidades múltiplas e frequentemente passamos de uma para outra realidade. Sabe-se que cada uma delas exige de nós uma forma específica de pensamento e de comportamento a respeito de como cada uma delas deve ser vivida. Entretanto, nosso cotidiano apresenta nossa realidade predominante. A linguagem que utilizamos em nosso cotidiano tende a ser também nosso meio linguístico predominante e as experiências que temos em outra esfera de realidade são traduzidas para nossa linguagem predominante e nessa atividade é inevitável que ocorra certas distorções dos significados.

Tendemos em acreditar que apenas os fatos cientificamente provados são verdadeiros. Assim, tudo aquilo que não seja cientificamente provado não deve merecer nosso respeito. Porém, faz-se necessário entender que a ciência é apenas uma das formas de se construir a realidade. Na verdade a realidade nasce de um jogo dialético entre o homem e seu mundo físico, entre a consciência e a materialidade das coisas. Assim, dependendo do tipo de pergunta que fazemos as coisas obteremos uma resposta e isso significa que as respostas são impregnadas de nosso ponto de vista e que não existe uma única realidade fechada em si mesma (Duarte Jr., 2006, p. 89-91).

A ciência funciona através de modelos. Logo, se um determinado modelo funciona, isto é, se o modelo permite que por ele determinados aspectos do mundo possam ser manipulados, então ele é considerado verdadeiro. Tais modelos vão sendo ao longo da história substituídos por outros e a realidade que a ciência constrói vai sendo modificada paulatinamente (Duarte Júnior. 2006, p. 92-94).

Percebe-se que a questão da realidade vai depender de dois aspectos: sua localização na história do conhecimento e sua validade num determinado setor da realidade. As construções científicas partem de nossa percepção da realidade e a filosofia é o ramo do conhecimento científico que melhor se ocupa desta área de conhecimento.


2.Necessidade de conhecimento sobre a realidade

Por uma tendência natural de sua inteligência, o homem não se conforma em fazer as coisas nem em conhecer a realidade de modo superficial. Tende a indagar as razões de sua atuação.

Não restam dúvidas que o homem nutre o profundo desejo de conhecer a si mesmo e o mundo em que está inserido, com o desejo de atingir o saber fundamental que dê coerência a seu agir, aquele saber que dá sentido último a sua vida e lhe forneça a mais plena explicação da realidade. (Javier Hervada 2008, p.2).

Para melhor viver, o homem necessita se ater a alguma certeza radical e universal, a partir da qual possa viver, além de outras certezas parciais a ordenar. A origem do desejo de conhecer do homem é para Aristóteles nada menos que sua própria natureza. A atitude teorética do homem o faz ver as coisas como são, com propriedades distintas e o faz despertar para as coisas numa atitude de assombro (Julían Marías (2004, p.5).

Em qualquer sociedade humana a presença do conhecimento é uma constante. A história do homem pode resumir-se na luta por aprimorar seus conhecimentos sobre a natureza, sobre a sociedade em que vive e sobre si próprio, bem como por aplicar praticamente tais conhecimentos para aperfeiçoar suas condições de vida. A história do conhecimento é, portanto, um processo permanente de retificação e superação de conceitos, explicações, teorias, técnicas e modos de pensar, agir e fazer (Agostinho Ramalho 2001, p.2).

O pensamento visa à contemplação e nela termina, onde a própria contemplação não é uma atividade, mas uma passividade; é o ponto em que as atividades espirituais entram em repouso (Hannah Arendt 2009, p.21).

Com o surgimento da Era Moderna, o pensamento tornou-se um servo da ciência, do conhecimento organizado e não mais aquele estado de contemplação. Entende que a distinção entre razão e intelecto coincide com a distinção entre pensar e conhecer e dois interesses distintos: significado e cognição. Afirma que a necessidade da razão não é inspirada pela busca da verdade, mas pela busca do significado. E verdade e significado não são a mesma coisa (Hannah Arendt 2009, p.21-29).

As ciências não se destinam à produção de um saber desinteressado e contemplativo. Elas existem para serem aplicadas e trazerem benefícios à sociedade, comprometida com a problemática que a realidade social contém onde teoria e prática se complementam (Agostinho Ramalho 2001, p.53).

Conhecimento é o processo mental pelo qual o homem se informa do mundo exterior e de si mesmo. Ao informar-se o ser humano se modifica e se reorganiza. Conhecimento é, para o autor, modo de informação peculiar do homem. Os modos de conhecimento são: sensível ou inteligível. No conhecimento sensível a informação é adquirida através de sinais recebidos pelos órgãos sensoriais. No inteligível é obtido como resultado de processos mentais de criação, organização e reorganização das ideias (José Luiz Bulhões Pedreira 2009, p.7).

O conhecimento é estruturado a partir de dois juízos: os analíticos e sintéticos. A perspectiva analítica é importante porque auxilia, a partir da decomposição e organização, na construção de aspectos efetivamente novos em relação a determinado fenômeno. A composição de juízos sintéticos apesar de buscar a aproximação com os juízos analíticos dele se afasta, pois os juízos analíticos são carregados de universalidade e generalidades capazes de abranger muito mais situações do que as construídas pela experiência (Wilson Engelmann 2007, p.59)

O pensamento de Kant revela que a intuição e os conceitos são os dois modos de conhecimento. Kant afirma que o entendimento não é uma faculdade de intuição, de modo que, o conhecimento se dá por meio de conceitos (Engelmann, 2007).

O conhecimento é organizado a partir da representação conceitual dos fenômenos que vem ao encontro do ser humano. O entendimento dentro dos contornos conceitualmente definidos busca compará-los aos fatos da vida, verificando a sua adequação ou não, e tendo em vista sua aplicação.

Na perspectiva de conhecer surge a questão de se saber qual a medida de conhecimento humano e qual a capacidade de conhecimento do homem. Sabe-se que nossa capacidade de conhecimento é limitada. Mas, limita-se a que? A limites de extensão e profundidade. Existe um conhecimento natural que parte de nossos sentidos? Sim, a experiência sensível é a porta de nosso conhecimento. Entretanto, trata-se de realidades aparentes por não serem bem conhecidos.


3. Realidade e aparência

A distinção entre realidade e aparência sempre foi um dos problemas centrais da filosofia. A questão foi colocada pela primeira vez por Parmênides no século VI a.C para quem o caminho da verdade é o caminho da razão ao passo que o caminho do erro é o caminho dos sentidos (Giovanni Reale 2007, V.1, p. 35).

Portanto, é importante não se deixar enganar pelos sentidos e pelos hábitos que eles criam. A chamada "terceira via" ou via das aparências plausíveis descrita por Parmênides consiste em entender que o erro está em não se ter compreendido que os opostos não devem ser excluídos na unidade superior do ser.

Parmênides compreende que a opinião e a aparência coincidem. Platão também possui esse entendimento e interpreta o principio expresso por Protágoras, da homo mensura, como se significasse "tal como as coisas aparecem para mim, tais elas são", portanto, como se identificasse conhecimento e sensação. Para a autora, Sócrates e Platão consideram as opiniões e as percepções sensoriais ou imagens das coisas, como fonte de erro, mentira e falsidade, formas imperfeitas de conhecimento que nunca alcançam a verdade plena da realidade (Marilena Chauí, 2002, p.39-40).

Foi no período socrático que pela primeira vez se fez uma separação radical entre a opinião e a imagem das coisas, trazidas pelos nossos sentidos, hábitos, tradições, interesses e, de outro lado, as ideias. As ideias se referem à essência íntima, invisível e verdadeira das coisas que só podem ser alcançadas pelo pensamento puro, afastando os dados sensoriais, os hábitos recebidos, os preconceitos e as opiniões.

Assim, a opinião, as percepções e imagens sensoriais são consideradas falsas, mentirosas, mutáveis, inconsistentes e contraditórias, devendo ser abandonadas para que o pensamento siga seu caminho próprio no conhecimento verdadeiro.

Os ídolos e as falsas noções que invadiram o intelecto humano, nele lançando raízes profundas, não só sitiam a mente humana, a ponto de torna-lhe difícil o acesso a verdade, mas também, continuam a nos incomodar durante o processo de instauração das ciências e os homens não se dispõem a combatê-la (Francis Bacon in Giovanni Reale 2007, V.4, p.263-271).

Assim, primeira missão dos ídolos é avisar aos homens que as falsas noções congestionam sua mente e barram-lhe o caminho para a verdade. Esses ídolos devem ser eliminados através de um método justo, ou seja, a indução.

Descongestionada a mente das antecipações da natureza, o homem pode encaminhar-se para o estudo da natureza. A obra e o fim da ciência humana estão na descoberta, estão na sua diferença. Uma vez purificada a mente dos ídolos e fixado o verdadeiro escopo do saber no conhecimento das formas, o método para alcançar tal escopo se compõe de dois procedimentos:

1. Extrair os axiomas da experiência;

2. Derivar experimentos novos.

Desta forma, os axiomas são tirados por meio de indução por eliminação da hipótese falsa. O trabalho proposto por Bacon consiste primeiramente em desconstruir, limpar a mente dos ídolos ou falsas noções existentes no intelecto humano para depois reconstruí-lo.

O conhecimento pode ser dividido em três graus Spinoza in Giovanni Reale 2007, V. 4, p.22) :

1.Opinião e imaginação, ligadas as percepções sensoriais e às imagens, sempre confusas e vagas;

2.Conhecimento racional, próprio da ciência;

3.Conhecimento intuitivo, que consiste na visão das coisas em seu proceder de Deus, ideia adequada da essência das coisas pelos atributos de Deus.

As percepções do espírito em duas classes ou espécies (David Hume 2006, p.30). Para o autor, as menos fortes são denominadas de pensamentos ou ideias e a outra espécie, as impressões. O pensamento não tem limites na natureza nem na realidade. O pensamento pode nos transportar num instante, as mais distantes regiões do universo, no entanto, nossos pensamentos estão presos as nossas impressões ou percepções da realidade alcançáveis por nossa mente.

A aparência teve dois significados diametralmente opostos: 1) ocultação da realidade; 2) manifestação ou revelação da realidade. No primeiro caso, a aparência esconde a realidade das coisas. É preciso transpô-la; no segundo caso, a aparência é o que manifesta ou revela a realidade, de tal modo que este encontra na aparência a sua verdade, a sua revelação. No primeiro caso, conhecer significa libertar-se das aparências (Sócrates e Platão); no segundo, conhecer é confiar na aparência, deixá-la aparecer (Nicola Abbagnano 2007, p.78).

Na vida quotidiana assumimos como certas muitas coisas que, se examinadas melhor, descobrimos serem tão contraditórias que só uma reflexão demorada permite que saibamos em que acreditar. Na busca da certeza é natural que comecemos pelas nossas experiências imediatas e, num certo sentido, o conhecimento que deriva delas. É, no entanto, possível que esteja errada qualquer afirmação acerca do que as nossas experiências imediatas nos permitem conhecer (Bertrand Russell, 2008, p. 69).

Deve-se admitir que não se poderá provar a existência de coisas distintas de nós mesmos e de nossas experiências. Não resulta nenhum absurdo lógico a hipótese de que o mundo se reduz a mim mesmo, a meus pensamentos, sentimentos e sensações, e que tudo o mais é pura imaginação. Nos sonhos, por exemplo, podemos ter a impressão de que existe um mundo muito mais complexo e, no entanto, ao despertar, descobrimos que se tratava de uma ilusão; ou seja, descobrimos que os dados dos sentidos do sonho não corresponderam aos objetos físicos como naturalmente inferiríamos de nossos dados dos sentidos. (RUSSELL, 2008, p. 70 -78)

O esforço fundamental do ser humano, em qualquer cultura, consiste em mover-se do mundo das aparências para o mundo da realidade. No esforço de mover-se do mundo das aparências para o mundo da realidade, a evolução do ser humano encontra três tipos básicos de objeções: o ceticismo, que nega a capacidade do espírito de atravessar as aparências; o niilismo, que nega a existência de uma realidade além da aparência; e o misticismo, que constrói realidades aparentes, negando a transcendência da realidade e impossibilitando ao espírito comunicar-se para além dos limites da aparência (Vilem Flusser, 2009)

Em metafísica, depois de Kant, o termo aparência caiu em desuso. Em seu lugar deve-se usar fenômeno. O termo aparência, hoje em dia, conserva um sentido psicológico, ou seja, toda a representação, ou melhor, toda apresentação que se considere diferente do objeto que lhe corresponde (Sergio Biagi Gregório, 2009).

Kant distinguiu aparência e ilusão. Ilusão é a ideia errônea, falsa noção da realidade. As aparências são objetos de uma intuição sensível da experiência; diferentes das realidades que o homem pode conhecer. Seria um erro transformar em mera ilusão aquilo que se deve considerar como fenômeno. Assim, os sentidos nos apresentam os objetos como eles nos aparecem; mas o intelecto os vê como eles realmente são (Nicola Abbagnano, 2007. p.79).

Kant ainda faz uma distinção entre númemo e fenômeno. Númeno é a coisa em si mesma, em sua essência inatingível pelo espírito. Fenômeno é sua aparência. Essa aparência está coberta de subjetividade, pois depende de como pode ser apreendido por nossa sensibilidade e ordenado por nosso intelecto.

Hegel vê na aparência a própria essência das coisas. A aparência é a essência em sua imediação. A fenomenologia é a ciência do aparecer do espírito. Pode ser entendida como o caminho que leva ao absoluto. A fenomenologia significa manifestar-se ou aparecer. Este aparecer é do espírito a partir da consciência empírica (Giovanni Reale 2007, V.5, p.111-113),.

Na etapa da consciência, o homem vê o mundo como algo independente de si. A consciência se desdobra em três momentos sucessivos: da certeza sensível, da percepção e do intelecto. No momento da sensação, o objeto aparece como verdade, no momento da percepção, o objeto parece ser a verdade, mas, ele possui muitas propriedades e no momento do intelecto, o objeto aparece como fenômeno, produzido por forças e leis, que depende de alguma coisa, ou seja, do intelecto, e a consciência torna-se então, autoconsciência. Para Hegel, a razão nasce no momento em que a consciência adquire a certeza da realidade.

A opinião é o primeiro obstáculo que deve ser superado no ato de conhecimento, pois aquilo que cremos saber com clareza ofusca o que deveríamos saber. Assim, a ciência opõe-se a opinião. A opinião não pensa, pensa mal ou traduz necessidades como conhecimento. Não se pode basear nada na opinião, antes de tudo é preciso destruí-la. Assim, o espírito científico nos impede que tenhamos uma opinião sobre algo que não compreendemos (Bachelard 2007, p.18).

A aparência, portanto, não tem nenhuma garantia de verdade. Só um juízo intelectual poderá refutá-la ou certificá-la. Entretanto, a aparência não deixa de ter sua importância, pois ela é considerada o ponto de partida para a pesquisa cientifica.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

SALDANHA, Ana Claudia. A realidade em uma abordagem epistemológica. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 15, n. 2589, 3 ago. 2010. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/17107>. Acesso em: 26 maio 2018.

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