O centenário da morte de Joaquim Nabuco é convite para retomada da obra memorialista do grande pernambucano. As páginas de Minha Formação, bem como excertos de Um Estadista no Império, fornecem material para investigação da vida, do tempo e das idéias do humanista campeão do abolicionismo.

Joaquim Nabuco notabilizou-se pela extraordinária capacidade de argumentador, aglutinador e de líder pela inteligência [01]. Mas também contraditório, porque revolucionário e ao mesmo tempo conservador (na visão de um conterrâneo) [02], dândi que simultaneamente fora o centro de um furacão (na percepção de uma biógrafa recente) [03], Joaquim Nabuco é o retrato mais bem acabado da cultura brasileira da segunda metade do século XIX, proscênio de patriarcas e bacharéis [04], espremidos por um remorso incurável que os atingia desde o ocaso do Imperador, que deixou o país num vapor noturno, como se fosse um escravo fujão, nas próprias palavras de Sua Majestade.

Era um tempo de escolhas inconciliáveis. Na organização do Estado, Império ou República? Na formulação econômica, agricultura ou indústria? Na literatura, romantismo ou realismo? Na filosofia, o positivismo francês ou o idealismo alemão? Na política, conservadorismo ou liberalismo? Na fixação do regime de trabalho, escravos ou proletários? Na parceria, Inglaterra ou Estados Unidos?

O maniqueísmo que o século XIX viveu colocava perguntas irrespondíveis; mal formulados, os problemas refletiam menos o que efetivamente se vivia, do que o pensamento dos que nutriam a existência na exploração inconsciente daquelas contradições. E no mundo das escolhas a paixão cede à razão, não sem a cobrança do pedágio faustinano da opção pelos desejos incontidos: a questão é muito freudiana.

Expiava-se a culpa na prosaica justificativa da escolha heróica. Na percepção de Luís Martins, o debate íntimo de Joaquim Nabuco é quase patético (...) ele discute consigo mesmo, desculpa-se, justifica-se, explica-se (...) essa ânsia de se exculpar se me afigura profundamente comovedora [05]. A queda da Monarquia foi também um dos resultados diretos da campanha abolicionista. Esta última anunciou que o Império esgotou-se na própria seiva. Para o monarquista Joaquim Nabuco a escravidão era uma ilegalidade, uma trilogia infernal, cuja primeira cena era a África, a segunda o mar, a terceira o Brasil [06]. Anotou no diário, em entrada de 13 de maio de 1888, que ouvia o próprio nome aclamado no Senado, com o povo em delírio no recinto [07]: era a consagração, que custaria o trono da dinastia Bragança...

Fiel ao Imperador, crente nas virtudes do Império, mas antes de tudo um brasileiro genuíno, Joaquim Nabuco não poderá festejar a vinda da República. E também não lutou por ela, objetivamente. Embora, por força da campanha abolicionista é da República um dos mais importantes fundadores e responsáveis, como o foram também os Bocaiúvas, os Deodoros e os Florianos da vida real, e os Policarpos Quaresmas da prosa de Lima Barreto. O realismo era o tom característico dos políticos do Império, dividido entre liberais e conservadores, luzias e saquaremas [08]. Substancialmente, os antagonistas diziam as mesmas coisas. Não avançavam, não recuavam, mas também se recusavam ao imobilismo... Sobreviveram os que conciliavam. Nabuco, pai e filho, são exemplos dos sobreviventes daqueles dias em que pensávamos que tínhamos nossos tories e whigts.

O pai (Nabuco de Araújo) é a figura central na construção da memória de Joaquim Nabuco; era do pai que este último reivindicava o fundo hereditário de seu liberalismo [09]. O trânsito que o pai viveu entre os dois extremos imaginários, conservadorismo e liberalismo, fora pelo filho plenamente justificado como ato refletido e ponderado, que sempre tinha como mira o bem da pátria:

Meu pai (...) tinha terminado a sua passagem do campo conservador para o liberal, marcha inconscientemente começada desde a Conciliação (1853-57), consciente pensada (...) Houve diversas migrações em nossa história política do lado liberal para o lado conservador. Os homens da Regência, que entraram na vida pública ou subiram ao poder representando a idéia de revolução, foram com a madureza dos anos restringindo as suas aspirações, aproveitando a experiência, estreitando-se no círculo das pequenas ambições e no desejo de simples aperfeiçoamento relativo, que constitui o espírito conservador. O senador Nabuco, porém, foi quem iniciou, guiou, arrastou um grande movimento em sentido contrário, do campo conservador para o liberal, da velha experiência para a nova experimentação, das regras hieráticas de governo para as aspirações ainda informes da democracia [10].

O pai é o lutador, o vencedor, pertencente à forte família dos que se fazem asperamente por si mesmos, dos que anseiam por deixar o estreito conchego da casa e procurar abrigo no vasto deserto do mundo, em oposição aos que contraem na intimidade materna o instinto doméstico predominante [11]. Construído na prática, e não abstração teórica e gongórica, o pai é o símbolo do homem de ação; segundo o biógrafo, o biografado nunca fez estudos sistemáticos ou gerais de direito, não esquadrinhou o direito como ciência; viveu o direito, se se pode assim dizer, como juiz, como advogado, como ministro (...) essa falta de estudos metódicos na mocidade fa-lo-á até o fim tratar o direito como uma série de questões práticas e não abstratas [12]. O pai é a figura recorrente em todos os instantes da formação do caráter e das idéias:

Era natural que eu seguisse aos quinze e dezesseis anos a política de meu pai, mesmo porque essa devoção era acompanhada de um certo prazer, de uma satisfação de orgulho. Entre as sensações da infância que se me gravaram no espírito, lembra-me um dia em que, depois de ler o seu jornal, o inspetor de nosso ano me chamou à mesa (...) para dizer-me com grande mistério que meu pai tinha sido chamado a São Cristóvão para organizar o gabinete. Filho de Presidente de Conselho foi para mim uma vibração de amor-próprio mais forte do que teria sido, imagino, a do primeiro prêmio que o nosso camarada Rodrigues Alves tirava todos os anos. Eu sentia cair sobre mim um reflexo do nome paterno e elevava-me nesse raio: era um começo de ambição política que se insinuava em mim. A atmosfera que eu respirava em casa, desenvolvia naturalmente as minhas primeiras fidelidades à causa liberal [13].

A admiração pelo pai é constante na pena memorialística de Joaquim Nabuco:

Por onde quer, entretanto, que eu andasse e quaisquer que fossem as influências de país, sociedade, arte, autores, exercidas sobre mim, eu fui sempre interiormente trabalhado por outra ação mais poderosa, que apesar, em certo sentido de estranha, parecia operar sobre mim de dentro, do fundo hereditário, e por meio dos melhores impulsos do coração. Essa influência, sempre presente por mais longe que eu me achasse dela, domina e modifica todas as outras, que invariavelmente lhe ficam subordinadas (...) Essa influência foi a que exerceu meu pai [14].

Joaquim Nabuco também seguia a geração do pai na admiração incontida pela Inglaterra e pelo pensamento inglês, que opunha ao modelo norte-americano, foco de críticas e comparações, não se esquecendo que foi nos Estados Unidos, como embaixador brasileiro, que Nabuco viveu os quatro últimos anos de sua vida [15]:

Na Inglaterra um gabinete sólido obtém o concurso da legislatura em todos os atos que têm por fim facilitar a ação administrativa: ele é, por assim dizer, ele próprio, a legislatura. Mas um Presidente pode ser embaraçado pelo poder legislativo e o é quase inevitavelmente (...) Além do enfraquecimento causado por esse antagonismo do legislativo, o sistema presidencial enfraquece o poder executivo, diminuindo-lhe o seu valor intrínseco (...) [16].

Joaquim Nabuco repudiava o presidencialismo, o regime com o qual terá que compor a partir do golpe de 15 de novembro de 1889, em momento que certamente o afetou com uma profunda crise de consciência. Porém, certa ambigüidade se revelava com a confissão de que o republicanismo também o fascinava:

É provável que em mim também existisse o embrião republicano: não duvido que, nascido em outra condição, se não tivesse meu pai na mais alta hierarquia da política, (...) eu não tivesse acompanhado o movimento republicano o de 1870, do qual faziam parte alguns dos espíritos que me fascinavam [17].

Mas era a Londres da velha Monarquia que o encantava. A declaração de amor pela city não deixava dúvidas:

A grande impressão que recebi não foi Paris, foi Londres. Londres foi para mim o que teria sido Roma, se eu vivesse entre o século II e o século IV e um dia, transportado de minha aldeia transalpina ou do fundo da África romana para o alto do Palatino, visse desenrolar-se aos meus pés o mar de ouro e bronze dos telhados das basílicas, circos, teatros, termas e palácios (...) O efeito dessa impressão de domínio foi uma sensação de finalidade, que somente Londres me deu (...) [18].

A influência inglesa foi talvez a experiência mais marcante na fixação de seu espírito liberal; e no livro de confidências confessava que sua passagem pela Inglaterra havia lhe deixado uma convicção, que depois se confirmara nos Estados Unidos, de que somente havia, inabalável e permanente, um grande país livre no mundo [19]. A Inglaterra lhe era cara, imbatível, especialmente se cotejada com a grandeza norte-americana que então despontava:

A comparação do maquinismo político-social entre a América do Norte e a Inglaterra é, em quase tudo, favorável a esta. As instituições inglesas, tanto política como as judiciárias, tanto as públicas como as privadas, têm mais dignidade, mais seriedade, mais respeitabilidade. Na Câmara dos Comuns não se imagina o processo do lobbying, não há na administração inglesa o spoils system (...) não há na Inglaterra um trecho do território em que os cidadãos só tenham confiança na justiça que fazem por suas mãos, como nos lynchings norte-americanos. A todos os que têm que tratar com a administração, que estão na dependência da justiça, a organização americana oferece muito menos garantias de equidade e menor proteção do que a inglesa [20].

Monarquista que lutou contra a escravidão, instituição que era um dos esteios da Monarquia; revolucionário cuja medida da rebeldia era o gesto sublime da conciliação; admirador de uma Inglaterra ordeira que teimava em se reproduzir em algumas fórmulas norte-americanas; jornalista na Inglaterra e embaixador nos Estados Unidos; filho devoto cuja devoção substancializou-se no abre-te-sésamo de fulgurante carreira política; historiador, publicista, memorialista e diplomata, Joaquim Nabuco é a síntese das tensões que marcaram a passagem da Monarquia para a República.

Embora livre das idiossincrasias dos positivistas, dos maneirismos dos militares e das intenções ocultas das oligarquias do café, em Joaquim Nabuco são nítidas as contradições de um tempo indefinido. São várias ambigüidades, dissolvidas em reminiscências que transitam em páginas de uma história na qual a explicação era a própria narrativa.


REFERÊNCIAS

Alonso, Angela. Joaquim Nabuco, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Andrade, Olímpio de Sousa. Joaquim Nabuco e o Brasil na América, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

Chacon, Vamireh. Joaquim Nabuco: Revolucionário Conservador (sua Filosofia Política), Brasília: Senado Federal, 2000.

Martins, Luis. O Patriarca e o Bacharel, São Paulo: Alameda, 2008.

Mattos, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2004.

Nabuco, Carolina. Oito Décadas, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

Nabuco, Joaquim. Diários- Vol. 1- 1873-1888, Rio de Janeiro: Bem-te-vi, s.d.

Nabuco, Joaquim. Minha Formação, Belo Horizonte: Itatiaia, 2004.

Nabuco, Joaquim. O Abolicionismo, Brasília: Editora da UnB, 2003.

Nabuco, Joaquim. Um Estadista do Império, Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.


Notas

  1. Cf. Andrade, Olímpio de Sousa. Joaquim Nabuco e o Brasil na América, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978, p. 3.
  2. Chacon, Vamireh. Joaquim Nabuco: Revolucionário Conservador (sua Filosofia Política), Brasília: Senado Federal, 2000.
  3. Alonso, Angela. Joaquim Nabuco, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  4. Martins, Luis. O Patriarca e o Bacharel, São Paulo: Alameda, 2008.
  5. Martins, Luís, cit., p. 145.
  6. Nabuco, Joaquim. O Abolicionismo, Brasília: Editora da UnB, 2003, p. 141.
  7. Nabuco, Joaquim. Diários- Vol. 1- 1873-1888, Rio de Janeiro: Bem-te-vi, s.d., p. 292.
  8. Conferir Mattos, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2004.
  9. Cf. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, Belo Horizonte: Itatiaia, 2004, p. 31.
  10. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit, loc. cit.
  11. Nabuco, Joaquim. Um Estadista do Império, Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 39.
  12. Nabuco, Joaquim. Um Estadista do Império, cit., p. 46.
  13. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 32.
  14. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 154.
  15. Nabuco, Carolina. Oito Décadas, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 51.
  16. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 42.
  17. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 62.
  18. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 95.
  19. Cf. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 109.
  20. Nabuco, Joaquim. Minha Formação, cit., p. 146.

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. O centenário da morte de Joaquim Nabuco. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 15, n. 2628, 11 set. 2010. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/17365>. Acesso em: 21 jul. 2017.

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