Era ainda criança, mas lembro de uma voz longínqua e entrecortada por ruídos da estática que dizia: "Trabalhadores do Brasil..."

Pronto. Nesse instante, dissolviam-se os interesses individuais em prol do interesse da Nação. E assim, embora sem muito entender, observava os mais velhos cravarem os ouvidos no rádio de válvulas e sentia-me enquadrado na categoria de trabalhador, ordeiro, honesto, que superaria as intempéries pelo suor do trabalho. Naquela época, associado a idéias positivas, o trabalhador brasileiro era a principal via para a riqueza da nação, predestinado a alcançar a felicidade pessoal e por fim, a ordem social.

O programa a "Hora do Brasil" entre outras notícias, irradiava os discursos e narrações da regulamentação de salário mínimo, isenção de impostos para a aquisição de casas para o operário, instalação da Justiça do Trabalho, criação da lei do abono familiar, aprovação da CLT e reformas dos serviços de assistência social. De acordo com Lourdes Sola visavam incutir, na mente dos trabalhadores, a ideologia oficial do regime, processo que recebeu o nome de trabalhismo. O rádio assumiu, na época, posição privilegiada na transmissão da política estadonovista.

Nos cinemas, mesmo sem alcançar o chão com os pés, com orgulho assistia as transmissões obrigatórias de documentários que continham as realizações das autoridades. A produção e edição de livros contribuíram, da mesma forma, para a difusão da importância do trabalhador. Pasmem, o Ministério do Trabalho chegou a instituir uma premiação para quem conseguisse levar uma mensagem "ao homem que luta nas fábricas e nas oficinas (...) uma direta mensagem do valor educativo".

Recordo que as músicas exaltavam o valor do trabalho, em oposição aos temas da boêmia e da malandragem, freqüentes naquela época. Paulo Duarte enfatiza "Poetas, que cantaram a liberdade, passaram a cantar o trabalho". Valia a pena ser trabalhador. Tínhamos que combater a marginalização, favelas, criminalidade e pobreza, oriunda do aumento populacional não absorvido pelas indústrias, através do idealização do trabalho. Ângela Maria de Castro Gomes lembra que a grande questão era, portanto, não só organizar o mercado de trabalho, livrando-o dos distúrbios, como fundamentalmente combater a pobreza que sintetizava - como uma síndrome - todos os problemas nacionais.

Era bom ser brasileiro.


O tempo passou, os valores mudaram. O lobby das multinacionais e dos grupos econômicos interessados na globalização da economia empobreceu o País, desnobilizou a palavra trabalhador, envergonhou o salário. Hoje, o desemprego registra taxas de 7,6% e agora por fim, desmantelam a Justiça do Trabalhador.

Operário ficou sinônimo de favelado, trabalhador...esfomeado.

Comparando com o momento presente, onde os juízes/trabalhadores pressionaram democraticamente por uma solução de seus vencimentos congelados, e encontraram apenas a resposta indecorosa da Medida Provisória ou o caminho oblíquo apresentado pelo Supremo Tribunal Federal através do Auxílio-Moradia para resolver a questão salarial da própria classe, fico perguntando-me: a quem interessaria a greve do Judiciário contra o próprio Judiciário? Coisas de Maquiavel.

Na verdade, já não se fazem bons tempos como aqueles.



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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

CALIENDO, Felipe Iran. A hora do Brasil. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 5, n. 41, 1 maio 2000. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/1900>. Acesso em: 24 fev. 2018.

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