As Olimpíadas de Inverno em Sochi (leia-se Soti), na Rússia, trouxeram-nos muitas lições.

As Olimpíadas de Inverno em Sochi (leia-se Soti), na Rússia, trouxeram-nos muitas lições: 1) o absoluto primor na organização do evento, sem falhas, contrastou com a enormidade de corrupção em torno das obras do evento: mais de 60 bilhões de dólares. Por quanto sairá no Brasil, em 2016? Além da Copa/2014, teremos outro monstrengo para arcar e pagar.

Enfim, quero mesmo ressaltar que a Rússia tem 40 mil livrarias (quarenta mil) e mais de 850 milhões de livros. Nem vou me alongar muito em todas as genialidades produzidas pelo país de Lenin e de Trotsky (esqueça Stalin). Basta-nos pensar em Gogol e na sua ácida crítica ao pequeno poder e ao maquinismo social em torno da conhecida reificação; trata-se de um fenômeno social que se verifica quando uma mercadoria intermedia relações sociais entre dois sujeitos e esses sujeitos não se reconhecem mais enquanto sujeitos, a não ser que alguma mercadoria faça a intermediação.

Gogol tratou dessa falácia de seriedade do mercado e do sistema social no livreto Capote. No pequeno romance, esta "síndrome do pequeno poder" (“tenho poder” de dirigir você a este ou àquele guichê, facilito ou dificulto seu acesso à repartição pública, ou seja, nada relevante, apenas "chateante") e o apego "mórbido" às formalidades são descritos de forma belíssima.

As livrarias, especialmente na Rússia, guardam os segredos das sociedades das coisas retratadas por Gogol, quando só nos resta a coisificação – o nada assombrado e representado literalmente por um capote de chuva. Afinal, como se sabe, coisa é ausência total de validade, de sentido expresso, de simultaneidade; empregamos o vocábulo “coisa” quando não há adjetivos ou vocabulário apropriado – isto é, quando só há insignificância ou significado frágil, inútil, pouco expressivo, quase nada expansivo, muito pouco explicativo.

Na sociedade das coisas não somos dotados ou equipados de consciência sobre o mundo fabricado, a cultura, e isto ocorre porque nossa interpretação das coisas não passa dos limites impostos pelas próprias coisas: uma consciência limítrofe, refratária à utopia, uma consciência que vem da coisa, mas que, ironicamente, por falta de densidade, de conhecimento, de clareza conceitual, não nos permite ver “a coisa em si”.

Somos dominados por um pragmatismo, sem ver coisa alguma de verdadeiro. Somos transportados para o interior dos domínios da coisa, por seu magnetismo de inconsciência, e acabamos digerindo apenas a matéria da coisa (mercadoria), sem a capacidade de apreender (“trazer para si”) o sentido e o significado das coisas relevantes. Na perspectiva da filosofia positivista, é como se o objeto dominasse o sujeito; a diferença é que a distância entre ambos não existe, uma vez que o sujeito está embotado pelo objeto (coisa). Daria título a um filme de terror: A Coisa. Por outro lado, se houvesse consciência, se víssemos a “coisa em si”, em um exemplo, saberíamos descrever o papel desempenhado pela República – e que é a “coisa pública”.

A coisificação ou reificação (“res” = coisa) ocorre quando as coisas parecem nos subjugar, quando nossa resistência está tão arqueada que nem notamos tais coisas, quando somos equiparados a coisas vis e, assim, colocamo-nos dispostos e prontos para a eliminação, como coisas velhas e descartáveis. Como coisas, não somos úteis e os resquícios de consciência servem à razão instrumental: a razão posta a serviço da (re)produção do próprio sistema produtivo.

Hierarquicamente inferiorizados, no sistema maquínico, somos apenas coisas comuns e perdemos até mesmo o status de utensílios do sistema; por isso o descarte como lixo, em que não se presta nem como material reciclável. Daí não percebermos uma pessoa caída na rua – ela já se adaptou à calçada. O mendigo morto é uma coisa no meio-fio. Mas, o dinheiro caído todos veem.

Kafka, o grande escritor de Praga, no conto Josefina, a Cantora ou O Povo dos Camundongos, retratou a vida burocrática que passa a ser a “coisa” mais importante que se tem (na filosofia barata, seria o Princípio da Coisa). A burocracia em demasia, o patrimonialismo, sugere o agravamento das dificuldades pessoais a ponto de afetar inclusive sua coordenação; porque o procedimento rotineiro é por demais massacrante e desnecessário ao funcionamento do sistema. Essa burocratização assimilada e vivenciada pela personagem nos mostra como as regras de ação coletiva são incorporadas pelos indivíduos, regras essas que são exteriormente definidas, e que as pessoas devem seguir (por força da coerção).

Sem maiores análises, podemos pensar que a Argentina tem mais livrarias do que o Brasil e que, apenas na cidade de Paris, há mais livrarias do que em todo nosso país. Em verdade, ler, estudar, refletir, pensar, no Brasil, sempre foi palavrão – hoje, ainda mais por causa da tecnologia de consumo que leva embora toda e qualquer consciência, por que ler se posso copiar/colar? O problema é que sem educação não há liberdade e não se faz educação sem livrarias e bibliotecas públicas e privadas. No Brasil, advogados, juízes, médicos e engenheiros já colaram em provas, exatamente porque não fizeram a lição de casa, e porque têm no ensino uma retórica burocrática de passagem até o sucesso e ao dinheiro da recompensa.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

MARTINEZ, Vinício. Gogol nas olimpíadas de inverno. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 3891, 25 fev. 2014. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/26786>. Acesso em: 25 maio 2018.

Comentários

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    Giordano Bruno

    Lembrei de Platão ao ler o seu artigo...vivemos em busca das "coisas" ou de meras sombras e para isso, diante da concorrência, acaba-se criando a burocracia.

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