70% dos domicílios das regiões Norte/Nordeste não têm acesso à internet. Sem acessar o mundo, não há como se informar com qualidade. Ficam no ouvi dizer, precisam de outros para trocar mensagens. Dependentes na comunicação, não conhecem o alcance da autonomia.

Na linguagem antiga, nos idos de nossos pais na frente da TV com chiado, dizia-se que “o sinal caiu” e que “a TV estava fora do ar”. Nunca entendi muito bem o sentido empregado, porque a TV evidentemente não deveria estar no ar ou fora dele.. Fora do ar é quem está com asfixia ou, no caso mais estático: o vácuo. Enfim, estar fora do ar refere-se ao sujeito que perdeu os sentidos, que não tem mais significados para trocar com os outros.

            Hoje, pensa-se erroneamente que ninguém está fora do ar por escolha pessoal, que só não se liga com o mundo quem não quer: realmente, conheço pessoas que não têm celular. Eu mesmo tenho um perfil no “face” que não acesso há anos: vi tanta besteira que desisti. Nas últimas, um estudante postava uma foto sua ao lado de um modelo de cera de Hitler. Não dá, também não tenho tempo para idiotices.

            Enfim, há 25 anos a Internet era inventada e desde então, como “aldeia global” (McLuhan), o mundo nunca mais seria o mesmo. Muita coisa foi adicionada, a exemplo do Windows e das tecnologias Wiki, os softwares livres - aliás, ainda não temos um Marco Civil para a Internet. Nos anos de 1990 os grupos políticos descobriram o uso combinado dos celulares e dos e-mails: em Chiapas, México, os zapatistas liderados pelo subcomandante Marcos enfrentaram o exército mexicano e mobilizaram toda a opinião pública internacional. Era o primeiro caso registrado do que hoje chamamos de redes sociais (sic...o SUS também é uma rede social).

Os movimentos de enfrentamento ao capital especulativo – a partir de Davos/Suíça – rapidamente criaram redes de contato massivo que reuniam milhares de jovens que não se conheciam, mas com ideais em comum: lutar contra o capital que condena milhões a morrer de fome e de exclusão total. Hoje, no Brasil, vemos os rolezinhos, a comunicação instantânea que movimenta os Black Blocs. Tudo na base de SMS e das tais redes sociais de comunicação.

No entanto, quando olhamos os números de acesso e de inclusão digital no país, vemos que uma multidão de brasileiros (pobres, evidentemente) estão totalmente fora do ar. Estão fora do ar, fora da economia, fora da política, fora do direito, fora da sociedade de comunicação. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revela dados assustadores: 70% dos domicílios das regiões Norte/Nordeste não têm acesso à Internet; 60% de todas as famílias do Brasil não têm PC (computador pessoal) em casa. No século XXI, não há absurdo maior do que o fato de que 60% das famílias, quase 100 milhões de pessoas, não ter sequer um computador em casa, como este que uso para escrever o texto. Cem milhões de pessoas seguem sem-direito à comunicação. Não têm direito à voz, são sitiados no próprio país.

Essa pesquisa nos prova que o país está fora do ar; como também dizia-se antigamente, o país não está com nada. Para quem acredita em justiça, pense no que se reduz a vida desses 100 milhões de pessoas. Sem acessar o mundo, não há como se informar com qualidade. Ficam no ouvi dizer, precisam de outros para trocar mensagens. Dependentes na comunicação, não conhecem o alcance da autonomia.

Os gregos antigos diziam que sem isegoria (capacidade de se expressar, da livre-comunicação) os indivíduos não se completam como cidadãos, limitam-se como idiotes. O cidadão (ídion) que perdia sua singularidade - por exemplo, por não se comunicar livremente - tornava-se algo parecido com o idiota que conhecemos atualmente. O escravo da vontade dos outros, ontem e hoje, é tratado como idiotas. Toda vez que lhe sussurrarem sobre censura, lembre-se dos idiotas que sugerem tal situação.



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

MARTINEZ, Vinício. “Fora do ar” -. um direito fundamental que não existe para milhões de brasileiros. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 3910, 16 mar. 2014. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/26949>. Acesso em: 18 fev. 2018.

Comentários

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    mauro chuairi da silva

    Caro Giordano,
    No momento, a verdade pode ser o oposto de sua colocação.
    Se o Ministro Joaquim Barbosa estiver correto em seu pronunciamento de 03/05/2013, na Costa Rica, quando afirmou que a grande mídia brasileira é tendenciosa de direita.
    “3maio2013.
    CONFERÊNCIA INTERNACIONAL
    Barbosa aponta falta de pluralismo na imprensa
    Em evento na Costa Rica, nesta sexta-feira (3/5), para discutir a liberdade de imprensa, o Ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, discursando em perfeito inglês, disse acreditar que a imprensa brasileira não contempla a igualdade racial e critica a concentração da mídia em três jornais de abrangência nacional que “tendem para a direita”.”
    Neste caso, teríamos como os males informados, que não sabem votar (devidamente manipulados à direita), aqueles que se utilizam da grande mídia, que é mesmo público da internet.
    Eu devo admitir que concordo com o Ministro e que, em meu sentir, chamar esta nossa grande mídia de Imprensa é um dos maiores disparates que pode ser cometido pelas pessoas que vivenciaram neste País os acontecimentos das últimas 5 ou 6 décadas.
    Como exemplo repugnante sobre isto, a meu ver, temos a recente confissão do Jornal O Globo de ter colaborado integralmente com a ditadura enquanto esta perdurou:
    "NOTICIÁRIO JURÍDICO/ 01/09/2013
    A Justiça e o Direito nos jornais deste domingo
    Em editorial publicado no sábado (31/8), o jornal O Globo assumiu ter apoiado o golpe militar de 1964 e considerou a decisão "um erro". O texto conta que, à época, o levante militar pareceu a única forma de enfrentar a possibilidade de outro golpe, a ser dado pelo então presidente João Goulart, herdeiro do trabalhismo de Getúlio Vargas e apoiado pelos sindicatos. Temia-se, segundo O Globo, que Jango instaurasse uma "república sindical". "À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma", diz o jornal."
    Engraçado é que a família Marinho's, segundo a Revista Forbes, é a família mais rica do Brasil, com patrimônio em 50 bilhões de dólares e, para o meu espanto (talvez ridículo, quem sabe?), nunca falou em devolver à nação e ao povo brasileiro a parcela desta fortuna que amealhou apoiando a ditadura e colaborando, diretamente, assim, para a desgraça de milhões de conterrâneos.
    Agindo, desta forma, analogamente ao desprezo dos conhecimentos médicos coletados pelos nazistas em campos de concentração, diante dos horrores cometidos para este fim.
    Bem, vou deixar o assunto morrer "curto" assim.
    Um respeitoso abraço.

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    Paulo Francisco de Andrade Junior

    O texto é a absoluta verdade. Pessoas pobres não conseguem ter acesso a internet e em algumas cidades do interior do Nordeste mesmo quem pode pagar não consegue se conectar simplesmente porque não há empresas oferecendo o serviço! Quando há, é apenas uma, que cobra valores que podem chegar a mais que o triplo do que costumam cobrar nas capitais.

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