O que é melhor para um candidato a presidente da república: ser amado, temido, odiado ou respeitado?

As primeiras ações de Aécio Neves indicam claramente que ele prefere ser temido que amado pelo povo brasileiro. Apesar de a maioria da população brasileira ganhar de 1 a 2 salários mínimos, o candidato do PSDB afirmou que pretende reduzir o salário mínimo. Aécio tenta de todas as formas calar os blogueiros que o criticam e já chegou a usar o MP para intimidar uma moça no Rio de Janeiro.

 

Muito embora estejamos no século XXI, o candidato tucano se mostra um adepto do maquiavelismo. Em seu livro “O Príncipe”, Nicolau Maquiavel faz a seguinte afirmação:

 

“Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer profissão de vontade é natural que se arruíne entre tantos que são maus.

Assim, é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valar-se disso segundo  a necessidade.”  (O Príncipe, Capítulo XV, Editora Abril, 1973 p. 69)

 

Há dois problemas na opção de Aécio Neves pelo maquiavelismo neste momento. A primeira e mais óbvia é que ele almeja um cargo que não está exercendo. Portanto, ele não está em condição de ser mau e neste momento ninguém tem qualquer razão real para ter medo dele. Ao tentar se impor pelo terror (afirmando que pretende reduzir o salário mínimo) o candidato tucano só conseguirá ser odiado pelo eleitorado que deveria conquistar. A segunda é que em outra obra Maquiavel deu conselhos bem diferentes àqueles que almejam a carreira pública.

 

“Nada é mais útil para assegurar a estima do povo do que certas palavras e gestos extraordinários, que visem a felicidade do povo, e que projetem a imagem de um soberano magnânimo, justo e liberal, respeitado pelos súditos.” (Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, UNB, 5a edição, 2008, p. 402)

 

Aécio Neves quer ser eleito presidente dizendo desde logo que pretende causar a infelicidade da maioria do povo brasileiro reduzindo o salário mínimo. Não me parece que ele esteja seguindo o conselho dado por Maquiavel no fragmento acima transcrito.

 

Um governante pode escolher ser amado, temido ou odiado. Um candidato deve sobretudo  ser amado, pois se for temido ou odiado ele certamente afastará de si parte do eleitorado. E a rejeição que ele inspirar certamente poderá transformar-se em apoio ao seu adversário. O PT parece ter consciência disto, tanto que esta semana Dilma Rousseff começou a divulgar no Twitter e no Facebook que não foi eleita para trair a confiança dos cidadãos, nem para arrochar salários. A réplica ao discurso de Aécio Neves em favor da redução do salário mínimo é evidente e tem grande potencial de aceitação entre os eleitores menos favorecidos (a maioria da população brasileira, aliás).

 

Os grandes estadistas modernos conhecem Maquiavel. Alguns deles, porém, procuraram ser respeitados pelo povo e não amados, temidos ou odiados pelo mesmo. Respeito é algo que inspira confiança e devoção, sentimentos que  contém tanto amor quanto temor (nunca ódio). O avô de Aécio Neves foi, sem dúvida alguma, um homem respeitado. Como jurista,  Tancredo certamente teve contato com a obra de Nicolau Maquiavel e de Marco Túlio Cícero.

 

Em sua Filípica I, Cicero afirma que:

 

“Mas muito mas receio que, ignorando o verdadeiro caminho da honra, tenhas por mais glorioso poderes tu só mais do que todos, e quereres antes ser temido de teus patrícios do que amado. Se assim o entendes, muito te desvias do caminho da glória. A glória consiste em ser cidadão amado, ser benemérito da República, e louvado, respeitado e querido; mas ser temido e malquisto é coisa aborrecível, detestável, fraca e caduca. Até na fábula vemos que aquele que dizia: 'Aborreçam, contanto que temam', lhe serviu isto de ruína. Oxalá, Antonio, te lembrasses de teu avô de que me tens ouvido falar não pouco muitíssimas vezes. Julgas que quis ele merecer a imortalidade, procurando fazer-se temido por meio das armas que tinha a faculdade de ter consigo? Toda a sua vida e próspera fortuna consistia em ser igual aos demais na liberdade, e superior no merecimento. Enfim, deixando as prosperidades de teu avô, eu antes quisera o seu rigoríssimo fim do que o despotismo de Cina, que o matou crudelíssimamente. Mas para que é querer dobrar-te com minha oração? Se o fim de César não pode fazer que antes queira ser amado que temido, não haverá oração que tal possa conseguir, nem acabar. Resolve-te, pois, olha para os teus antepassados e governa a República de modo que os teus cidadãos folguem de ter nascido, porque sem isto ninguém pode chegar a ser feliz, nem esclarecido, nem muito poderoso.” (Orações, Marco Túlio Cícero, Filípica I, Atena Editora, São Paulo, 1957, p. 122)

 

Aécio Neves está hoje para Tancredo Neves como Antonio esteve para o avô dele ao tempo que Cícero escreveu esta oração. A História sugere que Antonio preferiu não dar atenção às palavras do seu ilustre concidadão. Ao preferir ser mais temido e odiado do que respeitado e amado pelos romanos comandados por Otávio, Antonio construiu para si um fim trágico. Aécio Neves segue pelo caminho errado, mas ainda pode fazer algumas escolhas. O destino dele dependerá apenas das escolhas que ele fizer.  



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