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Ucrânia, a guerra norte-americana que não pode ser vista

05/08/2014 às 19:23

A III Guerra Mundial não começará com o primeiro tiro e sim com as hostilidades jornalísticas contra a Rússia que estão em curso.

Os norte-americanos estão entrando de cabeça na guerra civil ucraniana. A imprensa brasileira, porém, se recusa a ligar os pontos quando fornece ao respeitável público informações sobre aquele conflito.

É fato incontestável que os EUA ajudaram a derrubar o governo pró-Rússia eleito na Ucrânia. A Casa Branca reconheceu imediatamente o novo regime de Kiev. Além de conceder generosos empréstimos à Ucrânia, os norte-americanos impuseram sanções à Rússia e enviaram consultores militares para o país. O fornecimento de armamentos made in USA para os ucranianos tem sido cogitado, mas os rebeldes mostraram à imprensa russa fragmentos de bombas norte-americanas usadas na região durante o conflito. Segundo notícia divulgada hoje, um avião espião dos EUA perseguido por um caça russo dentro do território da Rússia fugiu para a Suécia http://rt.com/news/177720-us-spy-plane-sweden/ .

A violação do espaço aéreo da Rússia é um ato de provocação inadmissível. Os militares russos provavelmente deixaram de derrubar o avião norte-americano para não piorar as relações entre os dois países. 

O crescente envolvimento dos EUA no conflito ucraniano lembra muito o início da Guerra do Vietnã. Antes de começar a aumentar sua presença militar no Sudoeste da Ásia, os EUA apoiaram diplomaticamente o regime de Ngô Dinh Diêm, concederam empréstimos ao regime de Saigon e enviaram consultores militares norte-americanos para a área do conflito. O fornecimento de armas made in USA ao Vietnã do Sul começou e foi ampliado. Pouco tempo depois dezenas de milhares de soldados estavam sendo enviados para o Vietnã. 

Ao que parece a imprensa Ocidental já está engajada na guerra contra a Rússia. Prova disto é a forma generosa como as ações norte-americanas na Ucrânia são noticiadas e o tom de desaprovação veemente utilizado contra toda e qualquer iniciativa russa para proteger seus interesses no ex-satélite. Os russos não vão ceder e nada indica que o Kremlin continuará a aceitar indefinidamente as provocações militares dos EUA na sua fronteira. 

Semana passada o primeiro ministro da Inglaterra disse que não pretende iniciar uma III Guerra Mundial por causa da Ucrânia. A imprensa noticiou isto. O que a imprensa não disse é que a III Guerra Mundial já pode ter começado.

A guerra moderna não começa com os tiros e sim com as hostilidades jornalísticas contra o inimigo (a preparação da opinião pública) e as represálias diplomáticas que se seguem (sanções econômicas, etc...). Enquanto os dois lados se confrontam na arena diplomática ambos começam a enviar e a estocar armamento e combustível próximo à região do conflito (logística militar) e passam a coletar as informações que permitirão um adequado planejamento das operações (espionagem). Nesse sentido, consideram-se o que tem sido noticiado, os EUA já estão em guerra com a Rússia. O primeiro tiro será apenas o coroamento de um processo longamente pensado e realizado sob a temerária aprovação da imprensa. 

Em suas reflexões sobre a guerra, o teórico André Corvisier afirma que:

"O gesto de loucura, que leva uma parte a lançar-se irrefletidamente sobre adversários, é geralmente um ato de pessoas que têm excesso de confiança nas próprias forças. seja porque invictas até antão, seja porque o adversário parece uma presa fácil à luz das informações que se têm dele ou da imagem que fazem dele." (A GUERRA, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1999, p.43)

Mais adiante ele afirma que:

"Um certo equilíbrio pode levar à guerra total para os dois lados. A guerra total implica não somente o emprego de todos os processos, mesmo aqueles previamente condenados, como também o emprego de todas as potencialidade." (A GUERRA, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1999, p. 124)

O excesso de confiança dos norte-americanos me parece evidente. Eles acreditam que venceram a Guerra Fria. A vitória dos EUA em todos os conflitos armados posteriores ao fim da antiga URSS certamente reforça a crença dos militares norte-americanos em sua invencibilidade. A Rússia, porém, segue sendo um formidável oponente para qualquer potência que a desafie em seu território. O Kremlin terá condições de equilibrar o conflito em favor dos rebeldes na Ucrânia caso os EUA enviem tropas para ajudar o infame regime de Kiev. O resultado deste equilíbrio será uma guerra total entre os dois países? Esta é a pergunta que a imprensa deveria estar fazendo, pois em caso de guerra total nem mesmo os jornalistas sobreviverão. 

Segundo André Corvisier:

"As guerras sempre tiveram por efeito redistribuir riquezas, tornar a sociedade mais aberta, acelerar a promoção social pela substituição de elites desgastadas e, mais especialmente, favorecer aqueles que trabalham para os exércitos, bem como os especuladores de todos os gêneros." (A GUERRA, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1999, p. 254)

Isto segue sendo verdade quando nos referimos a um Conflito de Baixa Intensidade em que predomina o uso de armamentos convencionais. Em caso de guerra total entre duas super potências nucleares, porém, ninguém resumiu melhor o resultado da guerra que Hannah Arendt:

"Estamos já tão escravizados pela guerra total, que não conseguimos imaginar uma guerra entre a Rússia e os Estados Unidos em que a Constituição norte-americana ou o atual regime russo sobrevivam à derrota. Mas isso significa que uma guerra futura não se dará por conquista ou perda de poder, por fronteiras, por mercados de exportação ou Lebensraum, isto é, por coisas que podem ser obtidas por meio da discussão política e sem o recurso à força. Significa que a guerra deixou de ser a ultima ratio de negociações e seus e seus objetivos determinados no ponto em que estas se rompiam, de modo que as ações militares supervenientes não eram senão uma continuação da política por outros meios. O que se está hoje em questão é algo que nunca poderia ser, é claro, objeto de negociação: a mera existência de países e seus povos. É neste ponto - em que a guerra não mais supõe como dada a coexistência de partes hostis e já não se busca apenas por fim ao conflito pela força - que ela deixa verdadeiramente de ser um meio de política e, como guerra de aniquilação, começa a cruzar a fronteira estabelecida pela política e a aniquilar a própria política." (A PROMESSA DA POLÍTICA, Difel, 2008, p.218/219).

O que se perdeu com o fim da URSS não foi só a Guerra Fria, mas a noção do risco que havia em caso de conflito armado entre russos e norte-americanos. Uma guerra entre estes dois inimigos nas proximidades da Rússia e dentro do território russo tem tudo para evoluir para um conflito marítimo no Atlântico Norte e aéreo sobre os EUA. O equilíbrio tecnológico e militar imporá perdas aos dois lados, levando cada qual a exigir maiores retaliações até o ponto em que o conflito convencional se torne uma guerra total nuclear que exterminaria não só os dois povos como todos os demais. É isto o que desejamos? Com a palavra os jornalistas que tocam os tambores de guerra em favor dos EUA.

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Sobre o autor
Fábio de Oliveira Ribeiro

advogado em Osasco (SP)

Informações sobre o texto

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