Apertem os cintos, o mundo enlouqueceu novamente.

Uma característica marcante da filosofia de Nietzsche é a crítica feroz feita ao cristianismo.

Segundo o alemão, o judaísmo teria começado a subverter a ordem natural das coisas ao elevar à condição de virtude a moral de um povo escravizado.

“Os judeus - ‘povo nascido da escravidão’ como disse Tácito em uníssono com toda antiguidade, ‘povo eleito entre todos os povos’, como eles mesmos dizem e crêem, levaram a cabo esta milagrosa inversão de valores que deu à vida durante milênios um novo e perigoso atrativo. Os profetas judeus fundiram numa só definição o ‘rico’, ‘ímpio’, ‘violento’, ‘sensual’ e pela primeira vez colocaram  a pecha da infâmia à palavra ‘mundo’. Nesta inversão de valores (que fez também da palavra ‘pobre’ sinônimo  de ‘santo’ e de ‘amigo’) é que se fundamenta a importância do povo judeu, como ele, em moral, começa a insurreição dos escravos.” (Além do Bem e do Mal, Hemus,  1981, p.  118)

A piedade cristã, que nasceu dentro do judaísmo e dele se destacou, seria o apogeu da inversão de valores. O cristianismo exalta  a moral do oprimido (com seus temores, desapegos, auto-sacrifícios e caridades) acima da saudável moral que existia na antiguidade. Para Nietzsche, o sucesso do cristianismo teria causado a degeneração da Europa. Ele foi um grande defensor da moralidade antiga, que exaltava as virtudes superiores do homem e justificava a diferença natural entre o senhor e o escravo.

“O que causa estupor na religiosidade dos antigos gregos é a exuberante gratidão que exala da mesma. Um homem que ocupa uma tal posição frente a natureza e à vida pertence a uma espécie realmente muito aristocrática!! Mas então, quando a plebe, também na Grécia, tornou-se preponderante, o temor invadiu também a religião e o Cristianismo começou a preparar-se.”(Além do Bem e do Mal, Hemus,  1981, p.  70)

Desde que os norte-americanos se auto-proclamaram vitoriosos na Guerra Fria, a crítica de Nietzsche ao cristianismo e ao judaísmo perdeu qualquer substrato histórico. Desde 2003 os EUA, país que não por acaso também se considera o campeão da nova cristandade, se outorgou o direito de invadir nações ímpias para impor sua vontade, seu governo e religião. O Iraque foi transformado em província do império global, a renda do petróleo é usada para pagar empresas norte-americanas que estão reconstruindo o que os EUA destruiu e até para construir templos evangélicos em Bagdá.

Com aprovação diplomática dos EUA, na última década Israel avançou sobre o que restava dos territórios palestinos destruindo fazendas centenárias para construir novos assentamentos para colonos judeus. O clímax da agressão israelense aos palestinos ocorre neste exato momento com a parcial destruição de Gaza. Um governante israelense chegou a exigir o extermínio dos habitantes da região e confinamento dos sobreviventes em campos de concentração.

Além de empregarem à violência militar para impor sua vontade aos povos desarmados, o sionismo e o cristianismo made in USA fazem a apologia da riqueza financeira e do seu avassalador predomínio político e social. Não por acaso, a crise financeira iniciada em 2008 começou exatamente nos EUA, país em que vários bancos desregulados foram salvos com dinheiro público à revelia da opinião pública que se opunha à medida. Parte da montanha de dinheiro entregue pela administração Barack Obama aos banqueiros foi utilizada para distribuir prêmios milionários àqueles que haviam quase causado a falência das instituições que administravam. Qual foi o critério para o pagamento destes prêmios por prejuízos causados senão a superioridade jurídica absoluta dos banqueiros sobre todos os demais cidadãos norte-americanos?

Israel apóia o culto financeiro inventado nos EUA, pois depende das generosas doações privadas e públicas que recebe dos norte-americanos. O sucesso financeiro dos judeus-americanos também é um fato inquestionável. Não por acaso, entre os construtores do império global durante a administração de Bush Jr. destacou-se muito um judeu-americano. Paul Wolfowitz foi o grande defensor da invasão e anexação do Iraque (do controle do petróleo iraquiano, para ser mais exato).

Sob a batuta dos novos construtores do império norte-americano (cristãos e sionistas), portanto, a moral dos escravos foi novamente transformada na imoralidade dos opressores. Membros importantes da administração Bush Jr. mentiram na ONU para obter uma Resolução que autorizasse a agressão militar  ao Iraque por causa das armas de destruição em massa que todos sabiam que Saddan Hussein não tinha. O Secretário de Defesa dos EUA autorizou a utilização da tortura, apesar da mesma ser proibida por convenções internacionais negociadas e subscritas pelos EUA. Tropas norte-americanas dispararam tiros de canhão contra jornalistas portugueses num Hotel e despedaçaram a tiros de metralhadoras civis inocentes na frente de uma Escola. Exceto um ou outro soldado fotografado torturando prisioneiros em Abu Graib, ninguém foi responsabilizado pelos crimes de guerra cometidos contra os iraquianos. Enquanto atuaram no Iraque, os mercenários da Blackwater que prestavam serviços militares ao governo de ocupação não estavam sujeitos às leis norte-americanas, às leis internacionais ou às leis iraquianas. Eles eram os novos filhos de Ares e agiam com a superioridade lhes concedida pela ausência total de responsabilidade.

Durante a recente ofensiva de Israel em Gaza, centenas de crianças foram mortas e até mesmo as instalações da ONU foram deliberadamente bombardeadas pelos israelenses. “Nós somos superiores aos nossos inimigos e nenhuma lei internacional limitará nossa ação” - foi a mensagem evidente do regime de Tel Aviv deu à ONU e aos “anões diplomáticos” que a compõe (o Brasil entre os tais). Mensagem, aliás, semelhante a que Bush Jr. deu ao mundo civilizado quando disse "Quem não está conosco, está contra nós." ao iniciar o novo ciclo de guerras unilaterais norte-americanas no Oriente Médio.

Como era um grande admirador da vitalidade dos impérios antigos, cujas religiões valorizavam as diferenças entre os homens e não condenavam a guerra entre eles, Nietzsche provavelmente aplaudiria a inversão de valores operada no mundo desde o fim da Guerra Fria. Segundo o alemão:

“A igualdade, certa assimilação que se manifesta na teoria da igualdade de direitos, pertence essencialmente a uma civilização decadente; os abismos  entre homem e homem, entre uma classe e outra, a multiplicidade de tipos, a vontade de ser cada um algo, de distinguir-se, o que denomino o patos das distâncias, é o que é próprio das épocas fortes.” (Crepúsculo dos Ídolos, Hemus, 1984, p. 88)

Sobre a guerra, fenômeno que se tornou permanente na sua versão “guerra ao terror” movida pelos EUA, segundo as necessidades, com tropas ou com drones de combate, Nietzsche disse o seguinte:

“A guerra educa para a liberdade; porque o que é a liberdade? É ter vontade de responder sim; é manter as distâncias que nos separam; é ser indiferente às penas, às asperezas, à própria vida; é achar-se disposto a sacrificar os homens por uma causa.” (Crepúsculo dos Ídolos, Hemus, 1984, p. 90)

Deus está morto, disse certa vez Nietzsche. O que morreu na última década, porém, foi a crítica nietzschianiana ao cristianismo e ao judaísmo. Israelenses e norte-americanos enterraram a moral dos oprimidos ao se transformarem em opressores de novos povos oprimidos sob os tapetes de bombas despejadas por seus  caças F-18 e F-16. O mundo nunca mais será o mesmo, exceto talvez se o próprio mundo deixar de ser mundo quando enfim EUA e Israel declarem guerra à Rússia (algo que está bem próximo de ocorrer). Mas neste caso a moral do opressor provavelmente será exterminada junto com opressores e os oprimidos. E então “aqueles que sobreviverem invejarão os mortos”, como disse o comunista Nikita Serguêievitch Khrushchov fazendo uma irônica citação ao cristianismo que seria desaprovada pelo filósofo alemão. Nietzsche, porém, provavelmente aplaudiria o nome Satan dado pela Federação Russa ao seu moderno e mortífero míssil balístico nuclear.



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