A crise nos EUA revela, também, uma profunda crise no jornalismo.

Há mais de uma semana Ferguson, Missouri-EUA, é convulsionada por manifestações violentamente reprimidas pela polícia local. Tudo começou quando um policial branco matou a sangue frio um jovem negro desarmado com vários tiros. A polícia tentou acobertar o crime e o ódio dos moradores dos guetos negros explodiu em violência noturna.

Durante os conflitos, policiais usaram bombas de gás e balas de borracha para acalmar a turba. A violência oficial racial somente ampliou o conflito. As declarações racistas do chefe de polícia local também não ajudaram a pacificar a população negra rebelde. Lojas foram saqueadas e várias pessoas ficaram feridas nos conflitos nos dias seguintes. Até mesmo os jornalistas que cobriam os confrontos foram agredidos pelos policiais. O governador do Estado mandou tropas para a cidade e a lei marcial foi instaurada. Autoridades federais asseguram que o responsável pela morte do jovem negro será devidamente responsabilizado. Nada disto parece colocar um fim a violência nas ruas.

Lideres religiosos negros exigem justiça. Apesar de ter sido eleito com ajuda daqueles cidadãos, Obama se omitiu no princípio do conflito causando a ira de seus conterrâneos de pele escura. A mulher dele, sempre solícita quando se trata de defender a vida de meninas negras em países africanos que tem petróleo, também ficou em silêncio. A omissão dos habitantes da Casa Branca revela que o poder que eles exercem só pode ser exercido em determinadas situações. Nada que afronte o status quo, que afete os interesses dos anglo-americanos brancos de olhos claros pode ser feito pelo presidente norte-americano (especialmente se ele for negro).

Nos anos 1960, quando conflitos semelhantes explodiram no Mississipi, a resposta de um presidente branco foi bem mais rápida e eficiente que a de Obama. Os fatos serviram de argumento para o filme Mississipi em Chamas. A paralisia do atual presidente dos EUA parece ter acendido as chamas em Ferguson, Missouri. O incidente tem tudo para ter um grande efeito eleitoral. E o mais provável é que ocorra uma guinada à direita, pois os anglo-americanos racistas estão realmente apavorados com o que está ocorrendo. Alguns deles não escondem seu desejo de mais repressão contra os negros rebeldes que o Obama se recusou a imediatamente apoiar apesar da justiça auto-evidente da reivindicação deles.

Alguns jornalistas norte-americanos reclamam das violações à liberdade de imprensa que estão ocorrendo em Ferguson. Outros jornalistas, porém, parecem mais interessados em apoiar a repressão policial por razões raciais do que em defender os direitos de seus colegas.

A Anistia Internacional acusou a polícia de cometer violações de direitos humanos. A imprensa televisada norte-americana, entretanto, deu pouca atenção a denuncia. As grandes redes de TV dos EUA estão bem mais preocupadas com a crise na Ucrânia, se esforçam para colar aos russos à imagem de racistas se recusando a criticar os racistas norte-americanos.

A militarização das polícias nos EUA passou a ser intensamente criticada pela mídia liberal norte-americana. Nós brasileiros, que ainda sofremos em razão da militarização das PMs, sabemos exatamente do que aqueles jornalistas estão falando. Mas não podemos deixar de notar uma certa ironia nesta novidade. Afinal, não é segredo que a Ditadura brasileira foi fomentada pela CIA e apoiada pelo governo norte-americano. De 1962 a 1964 os norte-americanos gastaram vários milhões de dólares para desestabilizar João Goulart. O veneno que os brasileiros engoliram e engolem até hoje - em razão da militarização das polícias durante a Ditadura - está sendo provado por cidadãos norte-americanos dentro dos EUA. Irônico, não?

A imprensa brasileira, geralmente generosa com as brutalidades policiais cometidas pelas PMs nas periferias pobres das capitais brasileiras toma o partido dos negros vítimas em Ferguson. A hipocrisia dos jornalistas neste caso é auto-evidente. Não seria melhor eles olharam com os mesmos olhos para os nossos problemas ao invés de apontar seus dedos sujos de sangue para os problemas de nosso poderoso vizinho ao norte? Como é que eles podem atacar a militarização das polícias nos EUA se defendem a preservação das Polícias Militares no Brasil?

Na internet o debate é intenso. No Twitter e no Facebook milhões de norte-americanos se mobilizam contra a violência policial ou a favor dela. Impossível não notar uma certa dramatização teatral neste debate virtual, pois a maioria daqueles que se mostram profundamente ofendidos em razão das ações policiais em Ferguson não iriam às ruas para contestar o governo Obama em razão de sua paralisia racial ou para demonstrar solidariedade aos negros. Os norte-americanos não querem correr o risco de ser agredidos e por isto ficam confortavelmente em seus notebooks, iPads e smartphones brincando de fazer política?

No Facebook, um norte-americano branco ficou profundamente ofendido quando chamei a "democracia norte-americana" de Uniformecracia e critiquei o jornalismo-propaganda que tem ajudado a construir aquele monstrengo político desde os tempos em que legitimava as guerras ilegais iniciadas por Bush Jr. com base em mentiras repercutidas à exaustão pela TV e pelos jornais e revistas norte-americanos. Não repetirei aqui as ofensas que ele sacou contra mim. Encerrei a conversa bloqueando o sujeito. Não tenho tempo para perder com um nacionalista que é capaz de demonstrar mais ódio por um estrangeiro do que amor pelos seus próprios conterrâneos de cor.



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria