Numa disputa eleitoral os candidatos devem convencer os eleitores como se fossem advogados, mas precisam lembrar que os jurados nunca se comportam como se fossem juízes togados.

Como advogado acostumado às disputas nos Tribunais, gostei muito do desempenho de Dilma Rousseff no debate. Ela foi irônica, utilizou com maestria uma incrível massa de dados para demonstrar seu ponto de vista. Não se deixou impressionar pela ascensão de Marina Silva nas pesquisas, nem tampouco demonstrou fraqueza quando atacada por Aécio Neves. 

Como cidadão, eleitor e modesto estudioso das eleições brasileiras fiquei preocupado com a barreira que Dilma colocou entre si e os meros mortais. Marina Silva não está crescendo nas pesquisas porque tem uma proposta consistente de governo, nem porque ela se mostra particularmente informada sobre a realidade administrativa do Brasil e sua economia. A candidata do PSB cresce nas pesquisas porque os brasileiros a veem e podem dizer para si mesmos "ela é uma de nós". Nos últimos 4 anos, apesar da intensa campanha da mídia contra o PT, Dilma Rousseff provou que é uma de nós, mas em razão de não descer do salto ele está sendo vista como "alguém distante, lá no poder, lá em Brasília"

A estratégia de Dilma Rousseff no debate foi igual a de um advogado ao fazer ou sustentar oralmente um recurso de apelação. Ela procurou demonstrar aos juízes de seu mandato que as provas sustentam sua tese e utilizou os dados com muita habilidade. O problema é que Dilma não será julgada por técnicos e sim por leigos. 

Num Tribunal do Júri o advogado procura seduzir os jurados, fazê-los ver que ele é um deles e que aqueles que acusam o seu cliente (no caso de Dilma, o seu governo) estão errados, agem de má-fé e são motivados não por justiça e sim por vingança. A tese jurídica da defesa (negação de autoria, legítima de defesa, estado de necessidade, etc...) tem tanta importância no Tribunal do Júri quanto as retórica do defensor para construir um cenário em que o réu pareça inocente e o acusador seja culpado de cometer uma injustiça. Em plenário, diante de jurados leigos, o convencimento racional - baseado em provas consistente - tem pouco valor, pois a grande tarefa do advogado é ganhar é a empatia dos jurados. 

As eleições presidenciais são um tribunal do júri com centenas de milhões de jurados. Caso Dilma Rousseff fique querendo convencer racionalmente meia dúzia de especialistas, perderá a eleição não porque é incapaz de governar e sim porque foi incapaz de adotar a estratégia correta. Ela precisa ser percebida pelo povo como "uma de nós" e fazer com que Marina Silva e Aécio Neves aparentem ser o que realmente são "alguém distante, lá no poder, lá junto com os banqueiros que querem mandar em Brasília". Desce do salto Dilma, por favor. 



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