Aécio Neves utilizou o regionalismo como arma discursiva. O candidato do PSDB brinca com fogo e pode acabar chamuscado.

O Debate do SBT revelou as principais estratégias discursivas dos dois candidatos e os problemas específicos que eles sofrem em razão de suas escolhas.

Dilma procurou contrapor as virtudes dos últimos 12 anos de governo petista (elevada taxa de emprego, solução do problema da fome, aumento dos salários, etc…) contra os defeitos do governo FHC que Aécio estaria tentando reviver (desemprego, endividamento externo, redução de salários, fome, etc…). O que parece ser uma boa estratégia política, enfrenta um grande problema discursivo. O distanciamento entre 2014 e os oito anos que antecedem 2002. Quem nasceu pouco antes ou depois de 2002 não sabe o que é viver num governo neoliberal. Muitos dos que já eram adultos e sofreram as consequencias do neoliberalismo FHCiano já esqueceram o passado. Portanto, Dilma não luta somente contra o esquecimento (que afeta a parcela mais velha do eleitorado), luta também contra a falta de memória.

O esquecimento sempre foi um problema para os estadistas. Na Antiguidade mais distante eles gravavam seus feitos em pedra, para que fossem conhecidos pela eternidade. Mas nem mesmo a pedra resiste à passagem do tempo. É por isto que pouco ou muito pouco sabemos acerca dos faraós das dinastias mais antigas do Egito. Papiro e papel são menos duráveis e mais facilmente destruídos. Isto explica porque sabemos mais sobre algumas dinastias egípcias mais recentes do que sobre o cotidiano da vida em algumas cidades gregas e romanas do século I aC. Preocupado com a posteridade em 1737, três anos antes de subir ao trono da Prússia, Frederico II (que ficou conhecido como Frederico o Grande) escreveu em francês suaOde sur l’oubli (Ode ao esquecimento), que transcrevo parcialmente abaixo:

“...

Quando estudo, e espero

Ter gravado em meu espírito

O que a paz, o que a guerra

Produziram de mais notável,

Procuro em vão na minha memória,

E não encontro mais a história

Que ainda sabia há um momento;

E, como um sulco pouco durável

Que se traçou sobre a areia

É apagado ao menor vento,

...” (Lete - Arte e crítica do esquecimento, Harald Weinrich, Civilização Brasileira, 2011, p. 131)

O uso da História numa campanha eleitoral exige um debate racional. Mas o formato imposto pela televisão (pergunta, resposta e réplica, tudo em alguns minutos), dificulta muito a luta de Dilma Rousseff contra o esquecimento. Aécio Neves, que não pode e não quer contrapor o governo FHC ao governo Lula/Dilma, se defendeu bem no SBT hoje usando uma estratégia trivial: ele tergiversou todas as vezes que Dilma tentou mergulhar ele no seu passado.

Além de tergiversar, sempre que Dilma tentou reconstruir a memória nacional, o candidato tucano aproveitou o tempo lhe destinado para fazer ataques genéricos à moralidade do PT e do governo Dilma. O contexto criado pela imprensa o beneficia muito, tanto que logo no início do debate Aécio atacou Dilma com base no escandalo da Petrobras dizendo que “segundo denúncias nos jornais…” .

Os ataques de parte a parte ocuparam boa parte do debate. Mas hoje ambos estavam um pouco mais relaxados. Até o momento que assisti o Debate Aécio foi menos agressivo do que Band*. Dilma se mostrou bem mais tranquila e à vontade. O candidato tucano reconheceu que conduziu um veículo embriagado no Rio de Janeiro, mas suas supostas ligações com traficantes de drogas (que são exploradas à exaustão no Facebook e no Twitter) não foram exploradas cara-a-cara pela petista.

A estratégia de Aécio de colar a corrupção da Petrobras no governo Dilma parece não surtir muito resultado, mas se ajusta bem ao formato televisivo e ao contexto do momento eleitoral criado pela imprensa. Sempre que confrontada com esta questão, a petista enfatizou que no seu governo os malfeitos são investigados doa a quem doer. Dilma também fez questão de frisar que isto não era feito no governo de FHC, citando alguns casos de corrupção. Alguns deles eu conhecia e havia esquecido. A maioria dos mais antigos os jovens provavelmente não conhecem. Lete conspira contra Dilma em duas frentes e Aécio parece estar tirando proveito disto.

A corrupção foi o grande tema do debate. O melhor momento de Dilma foi quando acusou o PSDB de acobertar os crimes cometidos por tucanos e de lembrar que Sérgio Guerra foi mencionado pelo delator do esquema de propina dentro da Petrobras. Aécio se manteve fiel ao esquema que escolheu: tergiversar quando ele ou seu partido é acusado e atacar de maneira genérica a adversária.

Segundo Haquira Osakabe:

“...um discurso só se justifica à medida que, através dele, o locutor se situa de modo singular no quadro de informações preexistentes à sua enunciação. Retoma-se aqui uma das leis gerais do discurso, propostas por O. Ducrot, a lei da informatividade que. embora não conte muito para uma análise interna do enunciado, parece fundamental para a legitimação de um discurso dentro de determinado contexto.” (Argumentação e Discurso Político, Kairos Livraria e Editora, 1a. edição, 1979, p. 79).

Desde que foi colonizado e sob as três formas de governo por que passou (colonial, monárquico e republicano) o Brasil oscila entre períodos de centralização e de descentralização. O regionalismo é um fenômeno importante na cultura brasileira e gerou algumas guerras internas no passado. Rivalidades regionais ainda existem mesmo que não sejam fortes o bastante para fragmentar o território nacional. As manifestações racistas e regionalistas contra nordestinos ao fim do primeiro turno destas eleições comprovam provam que o regionalismo existe e pode ser explorado eleitoralmente. Tanto que os nordestinos defenderam com orgulho o seu legado e Dilma surfou na reação ao regionalismo tentando colar o racismo em Aécio Neves. Uma certa mineiridade também existe e já foi objeto de estudo universitáriohttp://periodicos.pucminas.br/index.php/cadernoshistoria/article/view/2886/3141.

No debate do SBT hoje em pelo menos três momentos ficou bem claro que Aécio tenta se aproveitar da mineiridade dos seus conterrâneos. Se mostrando indignado, ele repetidamente acusou Dilma de ofender Minas Gerais. A petista demorou um pouco para entender a estratégia de Aécio Neves, mas se defendeu bem ao dizer que o tucano não tem o direito de se identificar com Minas Gerais e com os mineiros. Lembrou aos eleitores que ela mesma é mineira e deixou aquele Estado porque foi perseguida e não para passear no Rio de Janeiro (caso de Aécio Neves).

O regionalismo como arma política não me agrada. De que adiantaria eleger um presidente para comandar um país dividido? Além disto, a CF/88 proíbe expressamente qualquer tipo de propaganda que atente contra a integridade do território nacional. Ao fomentar o regionalismo, o PSDB nos coloca a todos num imenso campo minado. Dilma fará um grande a serviço à nação se denunciar e desarmar a estratégia discursiva escolhida pelo seu adversário. No debate de hoje ela não fez isto.

Hoje Aécio Neves foi repetitivo, cansativo e evasivo. Ele abusou das generalizações ocas que elevam seu status moral e reduzem a qualidade da sua adversária. Quando falou do futuro o tucano invocou um passado supostamente glorioso. Quando foi confrontado com o passado real fogiu para o presente ou se escondeu no contexto eleitoral criado por um Juiz Federal com ajuda da mídia. O candidato tucano tem pouco a oferecer aos eleitores e pode ser descrito como:

“...

Um fantasma  que o desleixo fez

Coberto com camadas de urupês!

De seu vigor passado nada resta;

...” (Cruzeiro Abandonado, soneto de João Ribeiro de Freitas)

Dilma Rousseff oscilou entre chutar a canela do adversário, se defender dos seus ataques e historiar as virtudes de seu governo. Foi prejudicada pelo formato televisivo e sabotada deliberadamente por Aécio, que tentou impor sua própria dinâmica discursiva à dela. Impossível para mim dizer quem ganhou o debate. Mas sei exatamente quem perdeu com o mesmo: o público. Hoje o público foi derrotado. Nem Dilma conseguiu sobrepujar Lete, nem Aécio conseguiu se sobressair apelando para a mineiridade.

Na manhá seguinte ao Debate fiquei sabendo que após eu ter desligado a TV o candidato tucano protagonizou cenas grotescas. Ele agrediu verbalmente Dilma de maneira cruel e ironizou o fato da petista ter ficado abalada ao final do Debate. Creio que o incidente tende a se produzir um aumento da rejeição de Aécio Neves.



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