Se a civilização não chegar ao governo nos EUA a barbárie se espalhará pelo planeta novamente.

O governo Obama se esforçou para tentar restaurar a credibilidade dos EUA fortalecendo os organismos multilaterais e renunciando, ainda que de forma hesitante, ao unilateralismo de seu predecessor. George W. Bush Jr. havia transformado o unilateralismo aliado ao "big stick" na sua única política externa. Após declarar que "Quem não está conosco está contra nós" Bush Jr. começou duas guerras (Afeganistão e Iraque) e ameaçou iniciar outras (contra Irã e Coréia do Norte).

Durante aquele período e mesmo depois, a imprensa tratou Bush Jr. como sendo o grande arquiteto do unilateralismo norte-americano pós Guerra Fria:

http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_54.htm

http://www.cartacapital.com.br/revista/813/e-veio-o-unilateralismo-exasperado-1173.html

Analisando friamente os fatos, devemos perdoar Bush Jr. Ele não foi e não poderia ser o pai do unilateralismo dos EUA. Afinal, este não começou com a Guerra Fria mas foi seu principal causador.

Durante o século XIX apenas dois grandes impérios eram realmente mundiais. Inglaterra e França tinham possessões coloniais na Ásia, África, Oceania e América do Sul. Os EUA emergiram como potencia regional no final daquele século, quando anexou territórios do México e declarou guerra ao decadente império espanhol. A I Guerra Mundial reorganizou o mapa da Europa, mas não destruiu o imperialismo inglês e francês. A independência das colonias da Inglaterra e da França somente ocorreria após o fim da II Guerra Mundial. Isto ocorreu exatamente no período em que os EUA surgiram como potência capaz de projetar mundialmente sua influência econômica, política e seu pode militar.

Durante as Guerras Napoleônicas, Carl von Clausewits afirmou que a guerra é a continuação da política por outros meios. Este princípio foi muito citado durante e depois da II Guerra Mundial. Porém, o conflito entre os totalitarismos (nazismo e fascismo x comunismo) e entre dois totalitarismos e as democracias ocidentais   modificou um pouco a doutrina da guerra. Ao tempo de Clausewits exércitos combatiam exércitos para controlar territórios e tributar os civis submetidas ao poder político e militar. Na II Guerra Mundial os exércitos em conflito (e isto é válido inclusive para os Aliados) passaram a aniquilar as populações inimigas e a destruir de maneira sistemática a capacidade do inimigo de produzir os bens necessários à guerra mecanizada.

Entre os Aliados, a política unificou as ações no campo de batalha. As reuniões entre os governantes da URSS, EUA e Inglaterra definiram de maneira geral os grandes lances da guerra e foram, a partir de certo momento, construindo a realidade do pós-guerra. Em Yalta os três grandes (Stalin, Roosevelt e Churchill) escreveram a história futura do século em curso se considerarmos que este iniciou ao fim da II Guerra Mundial. Mas eles não foram grandes o bastante para destruir as desconfianças que haviam entre os vitoriosos.

Winston Churchill se sentia desprestigiado em razão de Rossevelt e Trumam serem anti-colonialistas. O primeiro ministro da Inglaterra detestava Stalin e tentou convencer o governo dos EUA a declarar guerra a URSS logo após a destruição do império nazista. Stalin desconfiou que Rossevelt e Churchill retardaram a invasão da Europa para dar a Hitler tempo de preparar a derrota o Exército Vermelho. Roosevelt e Truman sabotaram o imperialismo de Churchill apoiando guerrilhas nacionalistas e comunistas nas colônias da Inglaterra envolvidas na II Guerra Mundial. Os presidentes dos EUA tentaram usar Stalin para assegurar a predominância dos EUA na Ásia.

A guerra contra o Japão foi conduzida predominantemente pelos EUA. Enquanto suas tropas pulavam de ilha em ilha desalojando os exércitos coloniais japoneses, o governo dos EUA percebeu que não teria condições de derrotar seu inimigo nas ilhas principais do Japão e no continente ao mesmo tempo. A URSS foi convocada então a romper seu pacto de não agressão com o Japão para atacar as tropas japonesas na Manchúria e na Coréia. Os EUA forneceriam, como de fato forneceram, parte dos recursos financeiros e materiais necessários à campanha soviética na Ásia.

Foi exatamente neste contexto que nasceu o unilateralismo dos EUA. O ataque soviético aos japoneses na Manchúria havia sido decidido em Yalta (fevereiro de 1945) e começou a ser preparado pela URSS depois da derrota do III Reich (maio de 1945). As operações militares do Exército Vermelho na nova frente começaram em 08 de agosto de 1945, dia em que os EUA lançaram a bomba atômica em Nagasaki (a primeira bomba atômica havia sido detonada em Hiroshima dois dias antes).

Os espiões de Stalin o haviam informado que os norte-americanos estavam desenvolvendo em segredo uma nova arma. Mas o líder soviético não sabia qual era esta arma, também não sabia se a mesma seria usada contra o Japão antes ou durante a campanha soviética na Manchúria. O ataque nuclear ao Japão não havia sido decidido pelos Aliados e o unilateralismo dos EUA no episódio só poderia ter um propósito: aterrorizar o ex-aliado russo que já passava a ser tratado como rival na Europa. A paranoia resultante das explosões nucleares detonadas pelos EUA em solo japonês levou a URSS a empreender esforços para adquirir igual ou superior capacidade de destruição em massa. Os governantes dos EUA aderiram de maneira consciente à corrida armamentística. A este fenômeno foi dado o nome de Guerra Fria.

Durante a Guerra Fria o unilateralismo norte-americano se manifestaria várias vezes. Quando a Coréia do Norte invadiu a Coréia do Sul em 1950, o governo dos EUA exigiu que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse uma resolução permitindo a interferência militar norte-americana no conflito. Após alguma resistência internacional, a resolução foi aprovada. A Guerra da Coréia havia começado e só terminaria em 1953. Pouco depois do Conselho de Segurança da ONU permitir aos EUA enviar tropas para a Coréia, o ministro das relações exteriores dos EUA escreveu a Truman dizendo que "...teríamos que ter entrado na Coréia sozinhos." (Yalu, Jörg Friedrich, Record, 2011, p. 207).

Quando os exércitos de Mao Zedong começaram a derrotar as tropas norte-americanas na Coréia do Norte com a mesma eficácia que os norte-americanos haviam derrotado as tropas invasoras de Kim Il-sung na Coréia do Sul, o governo dos EUA consultou seus aliados descobrindo que ninguém apoiaria um ataque ao território da China. Irritados os norte-americanos começaram a considerar que havia chegado "...a hora de uma ação unilateral dos Estados Unidos." (Yalu, Jörg Friedrich, Record, 2011, p. 321). Um ataque nuclear em território chinês foi seriamente cogitado na oportunidade.

O unilateralismo dos EUA não é um fenômeno novo, nem deve ser creditado a Bush Jr. O moderno unilateralismo dos norte-americanos começou com os ataques nucleares ao Japão dando início à Guerra Fria, manifestou-se durante e depois deste conflito e certamente continuará a existir. Em algum momento ele causará a III Guerra Mundial.



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