Tal como vem sendo praticado o jornalismo está destruindo a cultura jurídica brasileira.

Nos últimos meses a imprensa transformou Nestor C. Cerveró  no novo inimigo público nº 01. O enquadramento jornalístico empregado para a divulgação das denuncias que pesam contra ele faz com que Cerveró esteja para escândalo do Petrolão como José Dirceu esteve para o Mensalão petista. Durante a modesta divulgação do Mensalão tucano nenhum tucano foi tratado da mesma maneira que Cerveró e José Dirceu. Aquele caso que se encaminha para a prescrição com a aprovação silenciosa dos jornalistas?

Como o Chefe da Casa Civil de Lula, o economista que exerceu cargos de direção na Petrobrás está sendo preventivamente crucificado. O respeito ao devido Processo legal não interessa àqueles que o acusam e o julgam em público, pois eles não são obrigados a respeitar o rigor da CF/88 e do Código de Processo Penal como os membros do judiciário.

Os jornalistas exigem que Cerveró prove sua inocência, presumindo-o culpado.  Sem crime não há escândalo. E sem escândalo as empresas de comunicação não conseguem valorizar seus espaços destinados à propaganda. Além disto, se o caso for desescandalizado tudo o que os jornalistas estão fazendo poderia se voltar contra seus empregadores. Como Tribunal de exceção lucrativo, a imprensa condena e segue em frente limitando as opções judiciárias. Quem ousar absolver Cerveró, mesmo que profira uma decisão juridicamente correta, terá que arcar com a ira popular.

A imagem pública de José Dirceu foi sistematicamente destruída pela imprensa. Mesmo assim ele segue sendo um homem capaz de projetar seu charme e de despertar alguma empatia privada. Cerveró não era uma personalidade pública até ser colhido pelo tsunami de denuncias e de imagens que vem invadindo sua vida privada. Ao contrário de José Dirceu, ele não tem um passado de lutas contra a ditadura. E para piorar sua situação o rosto dele, deformado por razões que ignoro, não desperta qualquer empatia privada.

Nos portais de internet, a beleza física dos jovens atores sem camisa e das musas carnavalescas quase despidas é celebrada de forma orgiástica. Ao lado da beleza inocente deles, a foto do réu sistematicamente condenado pelos jornalistas. Quando associada ao crime e comparada à beleza inocente, a feiúra pode produzir injustiças colossais.

Sem entrar no mérito da culpa ou inocência deste cidadão, a triste figura de Cerveró me faz lembrar um clássico da literatura. Refiro-me ao livro Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo.

Escondido entre os sinos da Catedral parisiense, Quasímodo é a antítese perfeita de Phebo. Baixo, corcunda, olhos escuros e injetados, cabelo ralo, coxo de uma perna, surdo e desdentado o sineiro é animalesco. Alto, forte, face angelical em que os olhos claros e os lábios delicados se destacam, o Capitão de sua majestade é um homem extremamente belo.  Quem visse Quasímodo, sempre  maltrapilho, andando desajeitado, as mãos quase tocando o solo, a calosidade lombar corcoveando de um lado para outro, diria que se tratava de um orangotango ou de um demônio expulso do inferno. Impecavelmente vestido em seu uniforme de gala, elegantemente cavalgando seu cavalo bem escovado, Phebo lembrava um príncipe ou um serafim recém enviado a terra por Deus.

Tão diferentes na aparência, estes dois personagens do livro Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, também não se parecem quanto ao resto. Curvando espontaneamente diante do protetor, o sineiro demonstra verdadeira gratidão; saldando os superiores mecanicamente, o Capitão revelava ser apenas uma vitima do condicionamento imposto na caserna. Desprovido de vaidade, o sineiro é educado, solícito e prestativo, enquanto o vaidoso Phebo não hesita em satisfazer a qualquer custo sua lascívia. Corajoso, Quasímodo defende com a própria vida a  amada que sabe nunca tocará em virtude de sua triste figura; covarde, Phebo esconde-se  após ser esfaqueado pelo religioso ciumento que também disputa  o amor da cigana, deixando que todos pensem que foi ela que o matou. Assim são Phebo e Quasímodo, dois personagens antitéticos tanto fisicamente quanto moralmente.

Victor Hugo deliberadamente zombou das convenções sociais que existiam no seu país durante o século XIX. Sua obra sugere que a feiúra pode conter virtudes e que a beleza pode esconder defeitos morais terríveis. Cerveró, deformado e feio num país em que os jornalistas estão presos a convenções estéticas repugnantes e que provavelmente ignoram literatura francesa do século XIX, não pode ter qualquer virtude. Não pode nem mesmo ter o direito de ser considerado inocente até ser condenado definitivamente pelo Poder Judiciário. Com a proliferação deste escandalismo midiático definha a cultura jurídica brasileira e a nossa literatura certamente não produzirá algo digno de louvor.



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