A descrença absoluta nos leva a fugir do normal e da moral.

~~O Estado de Exceção no Brasil tem particularidades que o tornam ainda mais perverso e bizarro. Pois, além de ser teúdo e manteúdo do fascismo, provoca-nos o sentimento de fuga em massa da realidade. Fugimos da realidade imediata, pondo a culpa nos outros (vocês são petralhas e eu sou honesto; mas voto no político que “rouba e deixa roubar”); fugimos para outros países, especialmente para dentro das lojas de sonho de consumo. Somos o único país do mundo em que se compra uma caneta Mont Blanc parcelada em dez vezes, sem juros. Apreciamos e idolatramos vinhos franceses, mas nunca lemos Victor Hugo, Balzac (se é que ouvimos seus nomes). Ainda não fomos informados de que houve a Tomada da Bastilha (o quê?). Revolução Francesa? Sei... Entre nós, o Estado de Exceção provoca não só um sentimento de adesão política, mas, acima de tudo, de aderência cultural.
No Brasil, 81% acreditam ser fácil "descumprir a lei". E não pensam, evidentemente, que estão aplicando a Desobediência Civil de Thoreau, Tolstoi, Gandhi, Martin Luther King e outros. Também por isso apenas 32% acreditam no Judiciário, contra 33% que crêem na polícia. Acredita-se menos no Judiciário do que na polícia; por isso, a descrença absoluta nos leva a fugir do normal, a aderir às formas excepcionais de poder, manipulação, segregação e repressão da verdade dos fatos. Como não acreditamos na lei, na formalidade do Estado de Direito, na própria vigência da Constituição e muito menos nas instituições da República, adornamos para a desconfiança generalizada.
A polícia, se não for aquela que obriga o jovem a filmar a própria morte, é de carne e osso. O povo vê o policial, mas não enxerga as hostes do poder. Ninguém vê o HSBC suíço, mas todos sentem a conta bancária vazia. Ninguém se preocupa com a venda casada ou extorsiva do plano de saúde, só sentem a morte por falta de atendimento no serviço de saúde pública. Na República Velha, éramos chamados de “Bestializados” porque desdenhávamos da hipocrisia oficial: o povo sempre detestou as vestes do poder e seus salamaleques. Com o tempo, as elites aprenderam a diversificar a política de pão e circo.
A culpa pela descrença na seriedade do Poder Público, evidentemente, não é do povo. Mas, a responsabilidade em buscar uma saída para a gravíssima crise ética, política e institucional, com certeza, é sua. Das elites não virá nada. Como não há almoço grátis, temos de construir o que queremos como país, por nós mesmos. Enquanto isso, na base do cada um por si e as elites contra todos, continuamos a represar o desejo de mudança real. No Brasil, há um medo atroz de mudanças sociais, como ensinava o sociólogo Florestan Fernandes. Esse sentimento é tão grave e tão profundamente arraigado que não se muda, não por medo de perder os anéis do poder, mas porque não se admite perder espaços elitizados: arte, cultura, educação, consumo.
Mudar significaria conviver com outros que não da mesma espécie; parte da elite quando se refere às raças brasileiras, mesmo sob a miscigenação, no fundo quer dizer espécies. Talvez Gilberto Freyre não fale em espécies, tão declaradamente, mas a lógica da Casa Grande $ Senzala e dos Sobrados e Mocambos é de segregação, evitando-se a contaminação étnica. Por isso, não se vê na origem da miscigenação os estupros das negras e mulatas: “somos de espécies diferentes”. A violência contra a mulher negra era a da mulher traída e não pelo senhor de escravos. O que nos ajuda a pensar o racismo, o preconceito e o machismo especialmente contra as mulheres negras (e mais ainda quando vem de mulheres brancas). Essa é a origem do que somos e do Gilberto Freyre decantou como “democracia racial”.
Vinício Carrilho Martinez
Professor da Universidade Federal de São Carlos
Marcos Del Roio
Professor Titular de Ciências Políticas da UNESP/Marília
 


Autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria