Atualmente, para realizar qualquer tarefa que seja, estamos sempre, de modo paralelo, utilizando algum dispositivo conetado à internet. A hiperconexão digital retira de nós a possibilidade de apreciar e compreender o que acontece ao redor ou o que deveríamos estar fazendo verdadeiramente, em vez de sucumbir a essa eterna distração.

Nunca foi fácil captar a atenção das pessoas. Muita gente sempre reclama que não consegue concentração na tarefa que está fazendo. Falta foco. Prender a atenção no que é importante (no que precisa ser compreendido, mentalizado, memorizado e aprendido) sempre foi um desafio para o homo sapiens (desde a Revolução Cognitiva, há 70 mil anos – veja Yuval Noah Harari, Uma breve história da humanidade: 28 e ss.). Para os amantes (ou ultramantes) da era digital o problema está se agravando brutalmente em razão da hiperconexão, sobretudo móvel (que constitui um grande malefício para quem não é capaz de ter foco). Nada tenho contra a tecnologia digital. O problema está no seu uso. Saiba como e use bem.

Pesquisa recentíssima divulgada pela Microsoft (feita no Canadá, com mais de 2 mil pessoas – veja O Globo 15/5/15: 24) revela que o tempo médio de  atenção das pessoas caiu de 12 segundos (no ano 2000) para oito em 2013. Já não digerimos as informações. Passamos por elas como se corre descalço sobre brasas. Elas entram e saem da nossa cabeça com a mesma velocidade com que são lidas e produzidas. Conhecimento é a informação organizada (Edgar Morin). Mas, como organizar a enxurrada de informações vomitadas a cada segundo, se nosso foco está num nível abaixo até mesmo de um peixinho dourado, que é capaz de se manter atento por até nove segundos?

A revolução tecnológica, implacavelmente, invadiu nossa vida de forma avassaladora. Isso tem seu lado bom, e também aspectos muito ruins. O mais preocupante é que ficamos conectados o tempo todo (em qualquer lugar que estejamos) a coisas que nem sempre são as mais importantes. Quando nada nos prende a atenção, já corremos para o celular, tablets etc. Nosso cérebro está se tornando multitarefa, é verdade. Estamos fazendo mais de uma coisa em cada momento. Mas isso decorre da pouca atenção (do baixo foco) que damos para cada coisa que fazemos. Quem faz tudo pela metade consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Mas nada fica bem feito. Muitos esquecem que quem não foca se sufoca.

A distração sempre foi inimiga da atenção. Os hiperconectados ficam dispersos a maior parte do tempo (ou o tempo todo) e dessa forma vão treinando o cérebro a não compreender, nem mentalizar, nem memorizar as coisas. Estamos esquecendo que a atenção é como um músculo: se não a utilizamos, ela se atrofia; se a exercemos, ela se desenvolve e se fortalece (veja Daniel Goleman, Foco). Àqueles que fazem opção por buscar o sucesso, sobretudo nesse mundo complexo em que vivemos, não resta outro caminho senão aprimorar a atenção (o foco).

O rendimento máximo em tudo que fazemos (estudos, trabalhos, negócios, esportes, artes) depende muito da atenção que dispensamos para as coisas mais importantes. O que diferencia o especialista do amador ou o profissional de sucesso do mediano é o foco.

Saiba mais

Do livro de Daniel Goleman (Foco), que é o renomado autor do "best seller" Inteligência emocional, ainda podemos extrair o seguinte:

(1) Na era da hiperconexão digital, o sucesso depende de uma proeza de concentração em meio a um mar de distração;

(2) A ciência da atenção diz que nossa capacidade de concentração determina o nível de competência com que realizamos uma tarefa. Se ela é ruim, nós nos saímos mal; se é poderosa, podemos nos sobressair;

(3) A atenção, em todas as suas variantes, representa um recurso mental subestimado e pouco percebido;

(4) A tríade do sucesso é o foco interno (em nós mesmos), o foco externo (no ambiente em que estamos) e o foco no outro (nas demais pessoas). A vida bem vivida exige que dominemos os três;

(5) O modo como aplicamos nossa atenção determina o que vemos (Treisman). O foco de cada um é a realidade de cada um (Yoda);

(6) A hiperconexão com as máquinas nos retira a capacidade de entender as pessoas (de ler os sinais emitidos por elas);

(7) Já não estamos conseguindo manter uma conversa sem o uso das máquinas (estamos deixando de promover discussões mais aprofundadas sobre o que realmente importa);

(8) Muitas pessoas não estão conseguindo ler sequer duas páginas de um livro sem se dobrar à necessidade incontrolável de ver as últimas mensagens ou notícias que chegaram em suas máquinas;

(9) Nossa atenção parcial está se tornando “contínua”; as mensagens não custam nada; o preço que pagamos por isso é nossa atenção; “a riqueza da informação e das mensagens está gerando a pobreza da atenção”;

(10) Quando percebemos que nossas mentes não estão presentes no que estamos fazendo cabe sempre perguntar quais oportunidades de evolução nós perdemos.


Autor

  • Luiz Flávio Gomes

    Doutor em Direito Penal pela Universidade Complutense de Madri – UCM e Mestre em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Jurista e Professor de Direito Penal e de Processo Penal em vários cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior. Autor de vários livros jurídicos e de artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Estou no www.luizflaviogomes.com

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

GOMES, Luiz Flávio. Elimine seu concorrente: a hiperconexão digital. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4343, 23 maio 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/39358>. Acesso em: 19 out. 2018.

Comentários

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    silvia cardoso

    As tecnologias, ou o chamado mundo virtual são para o Bem e para o Mal. Quando me concentro em algo, faço bem feito, observo detalhes e também o todo em volta. Mas essa é uma característica pessoal. Quando percebo que estou escrava das telas, me desconecto total. Absorvo outras percepções. A conexão em muito auxilia, mas nos priva do real, que são os afetos (e porque não dizer também desafetos?), ao invés de estender nossos horizontes nos limita. Inibe nossa capacidade de ver o outro, de reconhecer qualidades e defeitos. O mundo virtual nos desapaixona.

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    Adriano Araújo Pimenta

    Artigo perfeito do Professor Luiz Flávio. Sou estudante universitário e percebo tudo isso no meu dia-a-dia como estudante, raramente as pessoas largam seu meio virtual para prestar atenção nas aulas. Estamos nos tornando escravos da tecnologia, ingerindo informações inúteis e superficiais a cada dia, o que nos torna cada vez menos seres pensantes.

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